{"id":219222,"date":"2019-11-01T10:21:12","date_gmt":"2019-11-01T12:21:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=219222"},"modified":"2019-11-01T11:22:35","modified_gmt":"2019-11-01T13:22:35","slug":"pico-da-neblina-reabre-ao-turismo-apos-17-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pico-da-neblina-reabre-ao-turismo-apos-17-anos\/","title":{"rendered":"Pico da Neblina reabre ao turismo ap\u00f3s 17 anos"},"content":{"rendered":"<p>A reabertura de visitas ao Parque Nacional do Pico da Neblina, no munic\u00edpio de Santa Isabel do Rio Negro (AM), deve ocorrer em breve. Para o dia 15 de novembro, est\u00e1 prevista uma reuni\u00e3o entre representantes das comunidades ind\u00edgenas que vivem na regi\u00e3o e de \u00f3rg\u00e3os governamentais e n\u00e3o governamentais, para discutir a data de reabertura.<\/p>\n<p>No fim de setembro, o presidente da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), Marcelo Xavier, assinou a carta que aprova o Plano de Visita\u00e7\u00e3o Yaripo, como \u00e9 chamado pelos ind\u00edgenas o ponto mais elevado do Brasil, com 2.995 metros. As visita\u00e7\u00f5es foram proibidas em 2003, ap\u00f3s recomenda\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) e determina\u00e7\u00e3o do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama), e foram cogitadas novamente h\u00e1 cinco anos.<\/p>\n<p>Paras o MPF, as atividades na \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o ambiental provocavam impactos ambientais e violavam os direitos dos ind\u00edgenas. Ag\u00eancias de turismo que atuavam na regi\u00e3o foram criticadas por n\u00e3o instruir os turistas sobre os valores espirituais, culturais e ambientais associados ao local. Desta vez, os pr\u00f3prios yanomamis dever\u00e3o conduzir os grupos de turistas.<\/p>\n<p>De acordo com o documento que detalha o plano de visita\u00e7\u00e3o, para dar continuidade agora \u00e0 recep\u00e7\u00e3o de turistas foram consultados 55 representantes de seis comunidades da regi\u00e3o de Maturac\u00e1 (AM), sendo a maioria deles jovens interessados em desenvolver atividades de ecoturismo. Um dos \u00f3rg\u00e3os governamentais envolvidos no processo, o Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), ressalta que a reabertura representa uma alternativa ao garimpo de ouro, j\u00e1 que muitos ind\u00edgenas passaram a trabalhar na \u00e1rea de minera\u00e7\u00e3o para garantir o sustento.<\/p>\n<p>A presidente da Associa\u00e7\u00e3o Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (Ayrca), Floriza da Cruz Pinto, diz que conhece esses jovens ligados \u00e0 extra\u00e7\u00e3o mineral e que eles, de fato, manifestam vontade de deixar a fun\u00e7\u00e3o, por saber que geram impactos negativos em suas comunidades e \u00e0 pr\u00f3pria sa\u00fade. &#8220;Eles est\u00e3o querendo trabalhar no projeto, fizeram uma escolha. Hoje em dia, entendem que o garimpo degrada a natureza, os igarap\u00e9s que, na tradi\u00e7\u00e3o, s\u00e3o tamb\u00e9m sagrados. Tudo tem dom. A mata tem dom, os bichos t\u00eam dom. Ent\u00e3o, \u00e9 uma escolha. Durante quatro anos, eles participaram [do processo de decis\u00e3o] e acho que agora, com a abertura do turismo do parque, \u00e9 uma escolha que fizemos para parar com o garimpo, porque a gente entende que garimpo e natureza n\u00e3o se unem&#8221;.<\/p>\n<p>A expectativa \u00e9 de que mais de 2,9 mil ind\u00edgenas de seis comunidades da regi\u00e3o sejam beneficiados, conforme c\u00e1lculos da Ayrca. A entidade foi quem apresentou a proposta do projeto ao governo federal, juntamente com a Associa\u00e7\u00e3o de Mulheres Ind\u00edgenas Kumirayoma (Amyk). \u00c9 tamb\u00e9m a Ayrca que ir\u00e1 definir a destina\u00e7\u00e3o dos recursos obtidos com as visita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sobre os passeios<br \/>\nOs passeios de ecoturismo yanomami ter\u00e3o como p\u00fablico turistas de aventura, sobretudo os aficionados por montanhismo. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 aliar essa modalidade de turismo ao etnoturismo, com o prop\u00f3sito de valorizar tamb\u00e9m a cultura ind\u00edgena local.<\/p>\n<p>A partir dos termos do plano de visita\u00e7\u00e3o, fica estabelecido que as expedi\u00e7\u00f5es dever\u00e3o ter, no m\u00e1ximo, dez visitantes, um guia e uma equipe de carregadores, cuja quantidade de membros depender\u00e1 do total de visitantes. Os carregadores ficar\u00e3o respons\u00e1veis por transportar itens de alimenta\u00e7\u00e3o e acampamento dos excursionistas.<\/p>\n<p>At\u00e9 atingir o topo da montanha, \u00e9 percorrido um trajeto de oito dias, que exige bom preparo f\u00edsico dos caminhantes. Al\u00e9m do trecho trilhado a p\u00e9, os expedicion\u00e1rios devem atravessar outra parte a bordo de um barco, por dois dias.<\/p>\n<p>Segundo o coordenador-geral de Promo\u00e7\u00e3o ao Etnodesenvolvimento, Juan Felipe Negret Scalia, a regulamenta\u00e7\u00e3o do turismo em terras ind\u00edgenas foi feita em 2015. Ele explica que o plano de visita\u00e7\u00e3o \u00e9 um instrumento que prepara os povos origin\u00e1rios para &#8220;receber um estranho na pr\u00f3pria casa&#8221;. &#8220;A maneira de regulamentar, por meio de uma instru\u00e7\u00e3o normativa, foi criando instrumentos de planejamento dessas atividades tur\u00edsticas, no qual os ind\u00edgenas nada mais fazem do que sentar e discutir uma s\u00e9rie de salvaguardas que dizem respeito ao papel dos homens, das mulheres, das \u00e1reas que est\u00e3o abertas \u00e0 visita\u00e7\u00e3o e as que n\u00e3o est\u00e3o. Muitas vezes, os ind\u00edgenas podem ter \u00e1reas sagradas que podem ser visitadas e outras que n\u00e3o&#8221;, acrescenta..<\/p>\n<p>Scalia afirma ainda que o governo somente elaborou uma normativa interna quando os ind\u00edgenas sinalizaram o desejo de oferecer servi\u00e7os de turismo. &#8220;A visita\u00e7\u00e3o parte somente das terras onde aqueles ind\u00edgenas queiram fazer turismo. Ou seja, o Estado brasileiro e a Funai [Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio], em momento nenhum, v\u00e3o incentivar ou impor turismo onde ind\u00edgenas n\u00e3o queiram&#8221;, lembra.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da Funai e do ICMBio, tamb\u00e9m foram consultados para o plano de visita\u00e7\u00e3o a Secretaria de Turismo do munic\u00edpio de S\u00e3o Gabriel da Cachoeira (AM) e o Instituto Socioambiental (ISA). No documento, o Ex\u00e9rcito Brasileiro \u00e9 mencionado como parceiro, ficando incumbido de oferecer forma\u00e7\u00e3o em primeiros socorros para guias e carregadores e forma\u00e7\u00e3o em manuten\u00e7\u00e3o de motores de popa para pilotos e proeiros, al\u00e9m de auxiliar na fiscaliza\u00e7\u00e3o do per\u00edmetro.<\/p>\n<p>Protagonismo de mulheres<br \/>\nFloriza da Cruz Pinto foi uma das primeiras mulheres a encarar o itiner\u00e1rio do Pico da Neblina, espa\u00e7o negado a elas at\u00e9 2016. Ela, por\u00e9m, n\u00e3o p\u00f4de completar a rota, pois estaria menstruada e, segundo a cren\u00e7a de seu povo, ficava, por isso, impedida de seguir. &#8220;Era um sonho que eu tinha. Depois de tanto trabalho, ser uma das duas primeiras mulheres, mas, infelizmente, chegando ao topo, naquele lugar sagrado, uma noite antes, nossa senhora, que tristeza. Vou contar a verdade: eu chorei, porque n\u00e3o pude ir l\u00e1&#8221;, relata, emocionada.<\/p>\n<p>A l\u00edder yanomami explica que, para seu povo, o monte \u00e9 considerado sagrado e poderoso e abrigadouro de esp\u00edritos sublimes e que eles poderiam se zangar com ela, infligindo severos castigos, que poderiam implicar sua morte ou a de pessoas que a acompanhavam na subida. Desse modo, quem representou as mulheres da Amyk foi sua companheira de luta, Maria. &#8220;\u00c9 a casa dos esp\u00edritos. Depois da morte dos paj\u00e9s, os esp\u00edritos deles voltam para l\u00e1. \u00c9 por isso que \u00e9 muito sagrado e muito perigoso, n\u00e3o s\u00f3 pra n\u00f3s, yanomami, como para os brancos, que chamamos de nap\u00ebp\u00eb [n\u00e3o \u00edndios]. Ent\u00e3o, isso \u00e9 respeitado por todos, n\u00e3o s\u00f3 pelos rapazes, pelos homens, pelos mais velhos, mas pelas mulheres tamb\u00e9m, principalmente&#8221;, conta, em rela\u00e7\u00e3o ao Yaripo.<\/p>\n<p>Como forma de reverenciar a montanha, os yanomami se submetem, antes da ida, a rituais com os l\u00edderes religiosos de sua comunidade. &#8220;Antes de a gente ir para l\u00e1, tem, com os paj\u00e9s, cura, porque a gente tem a obriga\u00e7\u00e3o de se dirigir a eles para que possam nos benzer, fechar os olhos dos esp\u00edritos que v\u00e3o ficar na mata, principalmente no pico. Benzem a gente e, ao mesmo tempo, com os esp\u00edritos deles, os bons esp\u00edritos, ficam olhando a nossa caminhada. Espiritualmente, eles acompanham a todos. para n\u00e3o acontecer nada, nenhum bicho, como cobra, picar a gente&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>Para Floriza, a possibilidade de integrar o processo de excurs\u00f5es ao Pico da Neblina foi &#8220;praticamente uma luta&#8221; de resist\u00eancia contra a posi\u00e7\u00e3o dos homens. &#8220;Os rapazes achavam que a gente n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00e3o de passar, que a gente tinha defici\u00eancias. Mas, para mostrar isso [que as mulheres t\u00eam capacidade], participamos desde o plano de visita\u00e7\u00e3o. Eram poucas mulheres, mas, aos poucos, outras foram se interessando e entramos no projeto. Isso \u00e9 importante, a participa\u00e7\u00e3o das mulheres, porque elas podem mostrar ao turista a culin\u00e1ria, a floresta e as hist\u00f3rias e cuidar delas, as turistas mulheres, porque, \u00e0s vezes, elas se sentem muito inseguras s\u00f3 com homens.&#8221;<\/p>\n<p>Ao ser perguntada se gostaria de enviar aos visitantes alguma mensagem, a fim de manter a sacraliza\u00e7\u00e3o da montanha e da floresta que a rodeia, Floriza diz, sucintamente, que apenas pede respeito. &#8220;Gostaria de que, quando entrassem em nosso territ\u00f3rio, principalmente no do Pico da Neblina, respeitassem tudo que a gente fosse falando para eles. Gostaria que entrassem com a gente com respeito, com carinho&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A reabertura de visitas ao Parque Nacional do Pico da Neblina, no munic\u00edpio de Santa Isabel do Rio Negro (AM), deve ocorrer em breve. 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