{"id":220834,"date":"2019-11-23T16:00:38","date_gmt":"2019-11-23T18:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=220834"},"modified":"2019-11-23T17:16:57","modified_gmt":"2019-11-23T19:16:57","slug":"indio-poe-mao-no-grao-e-faz-melhor-cafe-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/indio-poe-mao-no-grao-e-faz-melhor-cafe-do-brasil\/","title":{"rendered":"\u00cdndio p\u00f5e m\u00e3o no gr\u00e3o e faz melhor caf\u00e9 do Brasil"},"content":{"rendered":"<p>A marca de caf\u00e9 mais comercializada no Brasil prepara-se para lan\u00e7ar um novo produto feito a partir do caf\u00e9 colhido por ind\u00edgenas da etnia Suru\u00ed de Rond\u00f4nia, que vivem na reserva Sete de Setembro, de 248 mil hectares, na fronteira noroeste do Mato Grosso e de Rond\u00f4nia.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o do caf\u00e9 tem diferenciais que tornam a bebida especial. O fruto \u00e9 org\u00e2nico. Os p\u00e9s de caf\u00e9 s\u00e3o cultivados na floresta junto a bananeiras e castanheiras, e n\u00e3o recebem nenhum defensivo agr\u00edcola ou aditivo qu\u00edmico. A colheita \u00e9 feita pelas m\u00e3os dos ind\u00edgenas. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 uso de m\u00e1quinas para a lavagem dos gr\u00e3os, secagem e sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cTem muito preconceito contra os povos ind\u00edgenas nesse mercado, mas n\u00f3s produzimos e tratamos esse caf\u00e9 como se fosse a floresta\u201d, defende Henrique Suru\u00ed, cacique geral do povo da reserva sete de setembro.<\/p>\n<p>O cacique esteve em Belo Horizonte, durante a Semana Internacional do Caf\u00e9, a principal feira do produto na Am\u00e9rica Latina, para acompanhar produtores ind\u00edgenas entre eles, Wilson Nakodah Surui, da aldeia Kabaney, premiado durante o evento.<\/p>\n<p>O modo dos ind\u00edgenas cuidam do caf\u00e9 tem reconhecimento no mercado em honrarias e em dinheiro. Em Cacoal (RO), cidade mais pr\u00f3xima da terra ind\u00edgena, a saca do caf\u00e9 do gr\u00e3o do tipo can\u00e9fora (plantado no estado) foi negociada este ano a R$ 300. As 1.500 sacas dos Suru\u00ed de Rond\u00f4nia foram vendidas por R$ 600, o dobro do pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Em entrevista ao programa Brasil Rural, da R\u00e1dio Nacional, o pesquisador da Embrapa Enrique Alves revelou que, em Rond\u00f4nia, ind\u00edgenas recebem apoio para produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 de alta qualidade. Ou\u00e7a!<\/p>\n<p><strong>Dedica\u00e7\u00e3o e capricho<\/strong><br \/>\nA percep\u00e7\u00e3o de que a produ\u00e7\u00e3o diferenciada com inclus\u00e3o social gera dividendos aos pequenos cafeicultores vai de norte a sul do Brasil. Trinta produtoras no leste de Minas Gerais, regi\u00e3o pr\u00f3xima ao Esp\u00edrito Santo, criaram neste ano a Associa\u00e7\u00e3o das Mulheres do Caf\u00e9 das Matas de Minas para comercializar o seu caf\u00e9.<\/p>\n<p>\u201cA ideia \u00e9 juntar essas mulheres para agora alcan\u00e7ar mercados\u201d, explica a agr\u00f4noma J\u00e9ssica do Carmo, que trabalha para o Servi\u00e7o Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). \u201cA comercializa\u00e7\u00e3o tem que ser conjunta. A produtora tem cinco hectares de terra e produz 200 sacas de caf\u00e9 por ano, 60 sacas ser\u00e3o do tipo especial. Isso \u00e9 muito pouco para um comprador dentro ou fora do Brasil levar\u201d, explica.<\/p>\n<p>Segundo a agr\u00f4noma, as mulheres produtoras s\u00e3o \u201ccaprichosas\u201d, t\u00eam esp\u00edrito empreendedor e levam o neg\u00f3cio para cuidar da fam\u00edlia. \u201cA produtora que faz caf\u00e9 especial \u00e9 extremamente criteriosa em todas as etapas. As mulheres tendem a reinvestir o dinheiro na melhoria da propriedade e da fam\u00edlia, como a escolariza\u00e7\u00e3o dos filhos\u201d.<\/p>\n<p>Para J\u00e9ssica do Carmo, a dedica\u00e7\u00e3o feminina faz um produto melhor e cativa o p\u00fablico: \u201cvoc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 apenas tomando um caf\u00e9. Est\u00e1 ajudando a filha da produtora a fazer um curso de ingl\u00eas e desenvolvendo a regi\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o caf\u00e9. Voc\u00ea est\u00e1 transformando as pessoas\u201d.<\/p>\n<p>C\u00edntia de Matos, presidente da se\u00e7\u00e3o brasileira da Alian\u00e7a Internacional das Mulheres do Caf\u00e9 (IWCA, sigla em ingl\u00eas) corrobora essa vis\u00e3o e diz que os caf\u00e9s especiais produzidos por mulheres \u201cs\u00e3o produtos delicados, resultado de muito cuidado\u201d.<\/p>\n<p><strong>Local do cultivo<\/strong><br \/>\nFoi tamb\u00e9m a obstina\u00e7\u00e3o feminina que levou Kivian Rodrigues a criar a Associa\u00e7\u00e3o Jovens Baristas, um projeto social em Belo Horizonte para qualificar com excel\u00eancia pessoas pobres e discriminadas para trabalhar em cafeterias e restaurantes.<\/p>\n<p>\u201cLido com as pessoas que n\u00e3o se encaixam no padr\u00e3o da sociedade seja por causa da classe social, da cor ou da identidade de g\u00eanero\u201d, explica \u00e0 reportagem da Ag\u00eancia Brasil. A capacita\u00e7\u00e3o do Jovens Baristas \u00e9 mais extensas que os cursos tradicionais e \u201ccome\u00e7a do come\u00e7o. Se o barista n\u00e3o entender como \u00e9 lavoura como vai entender o resultado na x\u00edcara que ele serve?\u201d, pergunta Kivian.<\/p>\n<p>\u201cTem que entender o terroa [do franc\u00eas terroir, local do cultivo]. Se voc\u00ea n\u00e3o entender a hist\u00f3ria do solo, sua qualidade, o que j\u00e1 foi plantado ali n\u00e3o vai entender o resultado na x\u00edcara. Se o caf\u00e9 vai ter notas de abacaxi, fruto vermelho ou outra coisa, isso depende do solo e da gen\u00e9tica da \u00e1rvore\u201d, detalha.<\/p>\n<p>Ao fornecer m\u00e3o de obra qualificada, treinada gratuitamente, Kivian Rodrigues aguarda dos futuros patr\u00f5es duas contrapartidas: \u201ca n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o e o sal\u00e1rio justo. Vai ter que pagar o justo, vai ser uma via de m\u00e3o dupla. Eu estou te dando uma m\u00e3o de obra qualificada e tem pagar a ela o suficiente\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com Kevian, as indica\u00e7\u00f5es aos empres\u00e1rios s\u00e3o feitas conforme a demanda mas sem preterir qualquer pessoa por sua identidade. \u201cMe ligam e pedem \u2018quero uma pessoa que entende de expresso, sabe de filtrado e manda bem no late arte\u2019 [desenhos com leite na superf\u00edcie do caf\u00e9]. Eu indico, entrego profissionais completos, mas sem considerar se \u00e9 preto branco, homem, mulher ou trans\u201d.<\/p>\n<p><strong>Sacas de caf\u00e9<\/strong><br \/>\nPara a mestre de torras de caf\u00e9 Nathalia Rodrigues, \u00e9 correto oferecer uma boa remunera\u00e7\u00e3o. \u201cSe a cafeteria trabalha com um produto de qualidade, \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o dela, at\u00e9 em respeito \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o de todos que participaram de sua cadeia de produ\u00e7\u00e3o e ao pre\u00e7o que est\u00e1 pagando pela torrefa\u00e7\u00e3o, que contrate uma m\u00e3o de obra bem formada. Essa for\u00e7a de trabalho merece, portanto, receber uma remunera\u00e7\u00e3o justa e o barista possa viver da sua profiss\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Experi\u00eancias dos Jovens Baristas, das produtoras de caf\u00e9 no leste de Minas Gerais ou dos ind\u00edgenas Suru\u00ed de Rond\u00f4nia s\u00e3o comuns no \u201cmundo paralelo\u201d dos caf\u00e9s especiais, defende Mariana Proen\u00e7a, curadora da Semana Internacional do Caf\u00e9. \u201cA pegada social do evento existe porque o caf\u00e9 tem que ter sustentabilidade para sobreviver.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A marca de caf\u00e9 mais comercializada no Brasil prepara-se para lan\u00e7ar um novo produto feito a partir do caf\u00e9 colhido por ind\u00edgenas da etnia Suru\u00ed de Rond\u00f4nia, que vivem na reserva Sete de Setembro, de 248 mil hectares, na fronteira noroeste do Mato Grosso e de Rond\u00f4nia. 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