{"id":221688,"date":"2019-12-11T01:10:31","date_gmt":"2019-12-11T03:10:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=221688"},"modified":"2019-12-11T09:13:59","modified_gmt":"2019-12-11T11:13:59","slug":"estao-armando-o-desmonte-mas-amanha-vai-ser-outro-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/estao-armando-o-desmonte-mas-amanha-vai-ser-outro-dia\/","title":{"rendered":"Est\u00e3o armando o desmonte, mas amanh\u00e3 vai ser outro dia"},"content":{"rendered":"<p>Est\u00e1 em fase de conclus\u00e3o a montagem da Secretaria Especial da Cultura que, no governo do capit\u00e3o, passou a ser um ap\u00eandice do Minist\u00e9rio da Cidadania. \u00c9 o que restou do Minist\u00e9rio da Cultura, que em anos passados j\u00e1 teve como titulares Celso Furtado e Ant\u00f4nio Houaiss.<\/p>\n<p>Um an\u00f4nimo, identificado pela imprensa como &#8220;maestro&#8221;, foi nomeado presidente da Funarte, aquele \u00f3rg\u00e3o do governo federal cuja miss\u00e3o &#8220;\u00e9 promover e incentivar a produ\u00e7\u00e3o, a pr\u00e1tica, o desenvolvimento e a difus\u00e3o das artes no pa\u00eds&#8221;. Para o novo burocrata, &#8220;O rock ativa as drogas, que ativam o sexo livre, que ativa a ind\u00fastria do aborto, que ativa o satanismo&#8221;.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e3o n\u00e3o apenas seu conceito de m\u00fasica, mas, igualmente, sua vis\u00e3o de mundo. Segundo esse, digamos, maestro, um antediluviano assustado com os espectros do &#8220;marxismo cultural&#8221; que atanaza a vida do ministro da Educa\u00e7\u00e3o, os Beatles &#8220;teriam vindo ao mundo para implementar o comunismo e acabar com os valores das fam\u00edlias&#8221; (O Estado de SP, 3\/12\/2019). Os rapazes de Liverpool teriam sido na verdade agentes da KGB, e a Scotland Yard n\u00e3o sabia, nem mesmo a CIA, a Ag\u00eancia de Intelig\u00eancia e terrorismo dos EUA, para ele &#8220;infiltrada de sovi\u00e9ticos com a finalidade de destruir a moral burguesa da fam\u00edlia americana&#8221;.<\/p>\n<p>Complementando a equipe do Secret\u00e1rio Especial da Cultura (aquele que ficou conhecido por haver difamado Fernanda Montenegro), o maestro far\u00e1 companhia ao novo presidente da Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional, mais um monarquista inconformado com a Rep\u00fablica. J\u00e1 o presidente da Funda\u00e7\u00e3o Palmares (criada para &#8220;promover a preserva\u00e7\u00e3o dos valores culturais, sociais e econ\u00f4micos decorrentes da influ\u00eancia negra na forma\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira&#8221;) detesta o poeta Martinho da Vila e a ex-vereadora Marielle Franco, e quer acabar com os festejos do dia da consci\u00eancia negra. Para o pat\u00e9tico provocador, &#8220;a negrada aqui reclama (do racismo) porque \u00e9 imbecil e desinformada pela esquerda&#8221;.<\/p>\n<p>Trabalhar\u00e3o esses senhores vindos do baixo medievo ao lado da nova secret\u00e1ria de Audiovisual, que defende o fim da Ancine, principal fonte de investimento de filmes e s\u00e9ries nacionais, e da apresentadora de televis\u00e3o que assumiu a presid\u00eancia da Funda\u00e7\u00e3o Casa de Rui Barbosa, um dos maiores centros de pesquisa social do pa\u00eds, ocupando a cadeira onde j\u00e1 se sentou Wanderley Guilherme dos Santos.<\/p>\n<p>Esta n\u00e3o seria indica\u00e7\u00e3o, como as demais, do astr\u00f3logo de Virg\u00ednia, mas de um pastor-deputado, irm\u00e3o na mesma seita neopentecostal.<\/p>\n<p>Da futura czarina do cinema (do cinema que produz &#8220;Est\u00f4mago&#8221; e &#8220;Bacurau&#8221;), sabe-se que participou da &#8220;C\u00fapula Conservadora das Am\u00e9ricas&#8221;, reunida em dezembro do ano passado em Foz do Igua\u00e7u, sob a lideran\u00e7a do deputado Eduardo Bolsonaro, defensor, como o vereador seu irm\u00e3o e o ministro da economia, da aplica\u00e7\u00e3o do AI-5 se ocorrerem entre n\u00f3s movimenta\u00e7\u00f5es de rua. A &#8220;C\u00fapula&#8221; produziu uma carta, apresentada pelo deputado (autoproclamado &#8220;pr\u00edncipe&#8221;) Luiz Philippe de Orleans e Bragan\u00e7a, que, para a \u00e1rea da cultura prop\u00f5e por ide\u00e1rio: &#8220;Deus, p\u00e1tria, fam\u00edlia, propriedade, liberdade individual e direito \u00e0 leg\u00edtima defesa como princ\u00edpios; como valores, fomentar o ensino e a arte cl\u00e1ssica liberal; combater a cultura da ditadura verde; estimular a cultura do empreendedorismo e do desenvolvimento pessoal sem a participa\u00e7\u00e3o do Estado; combater a cultura do banditismo e do vitimismo; resgatar a cultura da verdadeira democracia, desconcentrando o poder de Bras\u00edlia para estados e munic\u00edpios e promover a cultura do direito \u00e0 leg\u00edtima defesa&#8221;.<\/p>\n<p>O que \u00e9 &#8220;verdadeira democracia&#8221; n\u00e3o foi explicitado, mas, pelo andar da carruagem, sup\u00f5e-se seja, para esse bolsonarismo, aquele regime no qual reina a paz dos cemit\u00e9rios e os pobres &#8220;conhecem o seu lugar&#8221;. Por &#8220;leg\u00edtima defesa&#8221; sabe-se que \u00e9 o &#8220;excludente de ilicitude&#8221; que permite \u00e0 autoridade policial matar sem correr o risco de pena e ao latifundi\u00e1rio armar-se e armar at\u00e9 os dentes seus capangas e mand\u00e1-los atirar em quem lhes possa sugerir uma lembran\u00e7a de amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Eis o catecismo pelo qual reza o bolsonarismo. Dir-se-\u00e1, pelo que se l\u00ea e v\u00ea, que n\u00e3o temos pol\u00edtica cultural, sen\u00e3o sua contrafa\u00e7\u00e3o, mas contrapor-se \u00e0 cultura, coarct\u00e1-la, \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de fazer pol\u00edtica, a pol\u00edtica da anticultura, essa que est\u00e1 em vigor entre n\u00f3s h\u00e1 quase 12 meses!<\/p>\n<p>As palavras mudam de sentido, a realidade vira uma fantasia, um del\u00edrio, uma coisa qualquer; o que n\u00e3o \u00e9 explica o que \u00e9. Os sinais s\u00e3o trocados.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o se cinge aos tristes personagens trazidos \u00e0 cena, nem mesmo ao obscurantismo de suas cren\u00e7as e crendices: a quest\u00e3o grave \u00e9 a exist\u00eancia de m\u00e9todo e l\u00f3gica atr\u00e1s da aparente desfuncionalidade ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O bolsonarismo luta contra o tempo, contra o progresso; n\u00e3o apenas quer impedir a constru\u00e7\u00e3o livre do futuro, como pretende resgatar o passado. Em pleno s\u00e9culo XXI \u00e9 um projeto anti-iluminista. E viceja.<\/p>\n<p>O \u00f3dio \u00e0s artes e \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es culturais de um modo geral faz parte do desapre\u00e7o \u00e0 vida \u2013 da\u00ed a fixa\u00e7\u00e3o em armas e na viol\u00eancia \u2013 e quaisquer formas de liberdade, de sonho e de criatividade (para o seu partido, em cria\u00e7\u00e3o, Bolsonaro reivindica como s\u00edmbolo um rev\u00f3lver 38). Dessa l\u00f3gica ruminante derivam os outros e incont\u00e1veis \u00f3dios, como a homofobia, a xenofobia, a demofobia e o racismo, a rejei\u00e7\u00e3o do outro, do diverso, do discrepante. O totalitarismo, que busca a homogeneiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 incompat\u00edvel com a pluralidade de sexos, ra\u00e7as, classes, valores, pensares e fazeres. \u00c9 antidemocr\u00e1tico por ess\u00eancia e necessidade, pois n\u00e3o resiste ao debate.<\/p>\n<p>Por isso o totalitarismo \u00e9, sempre, a ideologia do atraso, desafeita ao ensaio, \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e, portanto, ao novo.<\/p>\n<p>A ideologia que se abate sobre a cultura brasileira, pretendendo sufoc\u00e1-la, \u00e9 fruto da mesma l\u00f3gica que procura desmoralizar o ensino p\u00fablico, a universidade gratuita, e, em termos gerais, o magist\u00e9rio. A mesma l\u00f3gica que indicou o corte de verbas de pesquisa e ensino de nossas universidades, a desmontagem das ag\u00eancias de desenvolvimento tecnol\u00f3gico e inova\u00e7\u00e3o quando o mundo caminha para a quarta revolu\u00e7\u00e3o industrial. A mesma l\u00f3gica que nega o aquecimento global, incentiva o desmatamento da Amaz\u00f4nia e desaparelha as ag\u00eancia de defesa ambiental. Num quadro com tais contornos o criacionismo, irm\u00e3o g\u00eameo do terraplanismo, adquire o status de proposi\u00e7\u00e3o l\u00f3gica e passa a ser &#8220;natural&#8221; a vis\u00e3o de Cristo pendurado em um galho de goiabeira.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, por\u00e9m, \u00e9, por natureza, subversiva, domina como ningu\u00e9m a guerra de posi\u00e7\u00f5es, infiltra-se em todos os escaninhos da sociedade, manifesta-se e vem \u00e0 tona onde haja gente, sobrevivendo tanto \u00e0 censura pol\u00edtica quanto \u00e0 censura econ\u00f4mica (sempre aliadas), numa metamorfose que lhe d\u00e1 sobrevida sempre maior que as ditaduras.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria n\u00e3o guardou os nomes dos burocratas da cultura da Alemanha nazista ou da R\u00fassia estalinista, ou do Brasil do DIP ou da ditadura militar. Ficaram Brecht e Maiakovski, Dias Gomes e Pl\u00ednio Marcos, Antunes Filho e Z\u00e9 Celso. O teatro Opini\u00e3o sobreviveu, o Oficina sobreviveu, Roda Viva sobreviveu, o cinema sobreviveu e hoje est\u00e1 mais vivo do que nunca. Porque todos aprenderam, com suas artes, a arte seminal da resist\u00eancia, a arte do bom combate de quem n\u00e3o menospreza o advers\u00e1rio mas n\u00e3o treme diante dele.<\/p>\n<p>O outro lado da barb\u00e1rie n\u00e3o \u00e9 o sil\u00eancio, mas a retomada da vida. Dias melhores vir\u00e3o \u2013 pela nossa m\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais um massacre &#8211; Antes que a licen\u00e7a para matar pedida pelo capit\u00e3o (a tal da &#8220;excludente de ilicitude&#8221;) se fa\u00e7a lei, prosseguem os massacres levados a cabo por v\u00e2ndalos das Pol\u00edcias Militares. O ultimo foi em Parais\u00f3polis e teve como agente a PM do governador D\u00f3ria. \u00c9 uma guerra de Canudos que n\u00e3o termina nunca, com o Estado brasileiro mostrando ao pobre, majoritariamente preto ou pardo, os seus lugares, o eito, o gueto e a cova. No meio de tanta viol\u00eancia oficial o sil\u00eancio solid\u00e1rio do ministro da Justi\u00e7a, o &#8216;justiceiro implac\u00e1vel&#8217; de antes reduzido a coiteiro de milicianos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e1 em fase de conclus\u00e3o a montagem da Secretaria Especial da Cultura que, no governo do capit\u00e3o, passou a ser um ap\u00eandice do Minist\u00e9rio da Cidadania. \u00c9 o que restou do Minist\u00e9rio da Cultura, que em anos passados j\u00e1 teve como titulares Celso Furtado e Ant\u00f4nio Houaiss. 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