{"id":221843,"date":"2019-12-15T06:00:34","date_gmt":"2019-12-15T08:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=221843"},"modified":"2019-12-15T07:09:32","modified_gmt":"2019-12-15T09:09:32","slug":"negligencia-e-ganancia-viram-vidas-barradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/negligencia-e-ganancia-viram-vidas-barradas\/","title":{"rendered":"Neglig\u00eancia e gan\u00e2ncia viram Vidas Barradas"},"content":{"rendered":"<p>A popula\u00e7\u00e3o de Brumadinho, em Minas Gerais, verteu l\u00e1grimas. N\u00e3o de choro pela trag\u00e9dia que caiu sobre a cidade, mas de emo\u00e7\u00e3o. Foi quando assistiu em primeira m\u00e3o o document\u00e1rio Vidas Barradas \u2500 com a participa\u00e7\u00e3o de muitos moradores da cidade \u2500 que d\u00e1 voz aos familiares das v\u00edtimas do rompimento da barragem de Brumadinho, em 25 de janeiro deste ano, tido como o maior acidente de trabalho da hist\u00f3ria do Brasil,<\/p>\n<p>Produzido pela Clara Digital e pela Comiss\u00e3o Internacional de Juristas Independentes, e sem fins lucrativos, o document\u00e1rio, de 80 minutos, \u00e9 o mais completo registro do que aconteceu naquele dia e do que acontece quase um ano depois na vida de familiares, moradores e dos poucos que sobreviveram ao desastre com a barragem da Vale.<\/p>\n<p>A data est\u00e1 marcada na mem\u00f3ria e na alma dos moradores da cidade mineira, onde direta ou indiretamente dependiam financeiramente da Vale. A multinacional brasileira \u00e9 uma das maiores empresas de minera\u00e7\u00e3o do mundo e a maior produtora de min\u00e9rio de ferro. Apesar de todo o investimento tecnol\u00f3gico e dos milh\u00f5es ou bilh\u00f5es de reais de faturamento, um instrumento simples de seguran\u00e7a n\u00e3o funcionou &#8211; a sirene de alarme. O alerta, que poderia ter salvado vidas, ficou calado naquele dia. E exatamente \u00e0s 12h28 a barragem na Mina do C\u00f3rrego do Feij\u00e3o ruiu.<\/p>\n<p>No momento, os funcion\u00e1rios da mineradora almo\u00e7avam no refeit\u00f3rio, que foi o primeiro a ser atingido. Com a viol\u00eancia de um tsunami, a onda de barro engoliu pr\u00e9dios, vag\u00f5es de trem, ve\u00edculos e vidas. Em minutos, arrasou comunidades rurais inteiras. Vidas Barradas apresenta relatos desesperados de pais, filhos, irm\u00e3os, familiares e amigos das v\u00edtimas da Vale. Um document\u00e1rio que exige f\u00f4lego para se assistir diante de tantos depoimentos emocionantes e dolorosos, como o da dona Maria Regina, m\u00e3e da Priscila, funcion\u00e1ria h\u00e1 dez anos da Vale.<\/p>\n<p>Aos prantos, ela relata que acorda todas as noites sufocada pela lama que sai de seu nariz e boca. Ela sabe que \u00e9 um pesadelo, mas acredita que esteja passando pela mesma sensa\u00e7\u00e3o que a filha passou antes de morrer. Inconsol\u00e1vel tamb\u00e9m continua o senhor Geraldo Resende. Ele quer saber onde est\u00e1 o corpo da filha Juliana. A jovem e o marido Denis morreram juntos no desastre. Geraldo agora cuida dos dois netos, \u00f3rf\u00e3os de pai e m\u00e3e. Juliana \u00e9 uma das 14 v\u00edtimas que ainda n\u00e3o foram encontradas, ao menos at\u00e9 esta data. Sua esperan\u00e7a \u00e9 enterrar a filha.<\/p>\n<p>O barulho dos helic\u00f3pteros e o pouso em frente \u00e0 igreja da Matriz da cidade chegando com sacos de corpos pendurados poderia fazer parte de um filme de guerra, de um filme apocal\u00edptico. Onze meses ap\u00f3s o rompimento da represa de rejeitos de min\u00e9rio, a sa\u00fade mental dos moradores vive trauma equivalente ao de quem passa ou passou por uma guerra, com o aumento de suic\u00eddios e o consumo de rem\u00e9dios controlados, como antidepressivos e ansiol\u00edticos. Vidas Barradas traz o depoimento de especialistas em sa\u00fade mental que relatam as consequ\u00eancias de um trauma, tanto para os parentes das v\u00edtimas como para aqueles que sobreviveram ao mar de lama.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio mostra ainda o relato de um grupo de v\u00edtimas quase esquecido pela m\u00eddia, mas que sofre com a trag\u00e9dia de Brumadinho. S\u00e3o os \u00edndios Patax\u00f3s da Aldeia Na\u00f4 X\u00f4h\u00e3. O v\u00eddeo d\u00e1 voz ao povo que viu a lama destruir o seu \u201cdeus rio\u201d, a entidade da natureza que d\u00e1 vida e alimento para a aldeia. Hoje, o grupo depende de caminh\u00f5es pipa para beber, cozinhar e lavar tigelas. O ritual da Festa da \u00c1gua, cultura ancestral dos Patax\u00f3s, corre o risco de se perder com o tempo, porque eles n\u00e3o podem mais chegar perto do rio contaminado e morto.<\/p>\n<p>Vidas Barradas tamb\u00e9m apresenta o testemunho de quem trabalhou dia e noite em buscas de sobreviventes, os bombeiros. Her\u00f3is que choraram juntos com a cidade, que mergulharam na lama contaminada em busca de sobreviventes e corpos. Relatos de religiosos e fi\u00e9is, que independentemente da religi\u00e3o, deram-se as m\u00e3os em busca de ora\u00e7\u00e3o e conforto espiritual.<\/p>\n<p>Os depoimentos mostram que a Comiss\u00e3o Internacional de Juristas Independentes ficou estarrecida com o que viu em Brumadinho. Na mesma dire\u00e7\u00e3o est\u00e1 o depoimento do promotor Andr\u00e9 Sperling, do Minist\u00e9rio P\u00fablico de Minas Gerais, bem como as declara\u00e7\u00f5es dos deputados Andr\u00e9 Quint\u00e3o e Rog\u00e9rio Correia, relatores das Comiss\u00f5es Parlamentares de Inqu\u00e9ritos (CPIs) de Brumadinho, da Assembleia Legislativa do estado de Minas e da C\u00e2mara dos Deputados, respectivamente.<\/p>\n<p>Recuperar a alegria, voltar ao cotidiano, realizar pequenas a\u00e7\u00f5es, como uma comemora\u00e7\u00e3o em uma escola, s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es em que a popula\u00e7\u00e3o de Brumadinho ainda vai levar muito tempo para realizar. Vidas Barradas mostra que a lama da mineradora ainda corre pelas ruas, casas, estradas e almas dos moradores da cidade que ruiu por conta da neglig\u00eancia e da gan\u00e2ncia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A popula\u00e7\u00e3o de Brumadinho, em Minas Gerais, verteu l\u00e1grimas. 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