{"id":222301,"date":"2019-12-23T06:05:22","date_gmt":"2019-12-23T08:05:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=222301"},"modified":"2019-12-23T08:38:23","modified_gmt":"2019-12-23T10:38:23","slug":"deserdados-do-capitalismo-sao-base-do-autoritarismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/deserdados-do-capitalismo-sao-base-do-autoritarismo\/","title":{"rendered":"&#8216;Deserdados do capitalismo s\u00e3o base do autoritarismo&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Nos momentos de crise, e na antessala das rupturas hist\u00f3ricas, setores ponder\u00e1veis das grandes massas desorganizadas e da chamada classe m\u00e9dia tendem a procurar porto seguro para sua inseguran\u00e7a. O medo diante das d\u00favidas relativas ao futuro, quando o presente come\u00e7a a ruir sob seus p\u00e9s, estimula o apelo ao conservadorismo que lhes chega pelas mais diversas vias, todas elas conduzindo ao retrocesso pol\u00edtico. N\u00e3o \u00e9 outra a li\u00e7\u00e3o das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado. A viol\u00eancia da sociedade de classes que mais atinge as popula\u00e7\u00f5es das periferias urbanas, ceifando jovens pobres, em sua maioria negros, extrai dessas massas desamparadas o que elas carregam de mais retr\u00f3grado. Os banidos pelo neoliberalismo, arca\u00edsmo que no entanto prevalece entre n\u00f3s, d\u00e3o corpo e alma \u00e0s for\u00e7as do atraso e do autoritarismo, na busca da fantasia da seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Os deserdados do capitalismo s\u00e3o a base social do autoritarismo, e assim se d\u00e3o as m\u00e3os oprimidos e opressores, pois o autoritarismo \u00e9 o instrumento mediante o qual, na crise, a classe dominante conserva o poder.<\/p>\n<p>As circunst\u00e2ncias brasileiras pouco t\u00eam de especificidade, inserindo-se no quadro geral de retrocesso pol\u00edtico que domina as democracias ocidentais, cujos espa\u00e7os institucionais n\u00e3o s\u00e3o mais suficientes para a representa\u00e7\u00e3o dos conflitos, que crescem na medida em que mais se afirmam as pol\u00edticas neoliberais que, celeremente, v\u00e3o derrogando o Estado do bem-estar engendrado pela social-democracia europeia para fazer face aos avan\u00e7os do socialismo no p\u00f3s 2a Guerra Mundial.<\/p>\n<p>O quadro comum da crise democr\u00e1tica \u00e9 marcado pelo esvaziamento da democracia representativa, com o decl\u00ednio dos direitos pol\u00edticos e das liberdades civis e a crise de legitimidade das institui\u00e7\u00f5es republicanas ocidentais. Causa e efeito ao mesmo tempo, destaca-se a fal\u00eancia dos partidos pol\u00edticos, os quais, na sua grande maioria, em quase todo o mundo e entre n\u00f3s, foram reduzidos ao simples papel de siglas sem capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o social significativa.<\/p>\n<p>Os fatos recentes, as verdadeiras irrup\u00e7\u00f5es sociais que unem, na revolta, o velho continente e a Am\u00e9rica do Sul \u2013 Fran\u00e7a, Espanha (e de certa forma o Reino Unido do Brexit) ao lado de Col\u00f4mbia, Equador, Chile e Bol\u00edvia \u2013 desconheceram os partidos pol\u00edticos, \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, e n\u00e3o produziram novas lideran\u00e7as populares, nem mesmo lideran\u00e7as empresariais, pol\u00edticas ou religiosas, pondo em quest\u00e3o a sustentabilidade de suas conquistas.<\/p>\n<p>Boris Johnson, o vitorioso premier brit\u00e2nico, \u00e9 descrito pela The Economist como chefe do &#8220;governo mais impopular j\u00e1 registrado&#8221;, mas seu oponente, o l\u00edder trabalhista Jeremy Corbyn, \u00e9 apontado, na mesma mat\u00e9ria, como o &#8220;l\u00edder mais impopular da oposi\u00e7\u00e3o&#8221;, chefiando um partido trabalhista &#8220;cada vez mais sem identifica\u00e7\u00e3o com os trabalhadores&#8221;.<\/p>\n<p>A quase fal\u00eancia da ordem partid\u00e1ria \u2013 nesse sentido as elei\u00e7\u00f5es brasileiras de 2018 oferecem um bom campo de estudo \u2013 n\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, um fato isolado, pois \u00e9 preciso considerar a retra\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil, o recuo do movimento social e de suas organiza\u00e7\u00f5es, e, certamente o quadro mais preocupante, a crise de representa\u00e7\u00e3o, respons\u00e1vel pela anomia do movimento sindical brasileiro.<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s, e em quase todo o mundo, a crise da representa\u00e7\u00e3o tem funcionado como trampolim para o avan\u00e7o das a\u00e7\u00f5es, das pol\u00edticas e do pensamento de direita e de extrema-direita, galvanizando governos e avan\u00e7ando sobre segmentos populares tradicionais na sustenta\u00e7\u00e3o do discurso trabalhista e de esquerda de um modo geral.<\/p>\n<p>Hoje, na Europa, s\u00e3o reconhecidos como de direita ou extrema-direita os governos da Fran\u00e7a, da Inglaterra, da Hungria, da Pol\u00f4nia, da \u00c1ustria e de quase todos os Estados do antigo Leste europeu. O gabinete conservador de Angela Merkel, em final de vig\u00eancia, pode ser substitu\u00eddo por um governo de extrema-direita, e It\u00e1lia e Espanha (esta \u00e0s voltas com os pleitos separatistas) vivem fr\u00e1gil equil\u00edbrio ap\u00f3s a derrota da direita nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es parlamentares. De direita \u00e9 o governo da maior pot\u00eancia do mundo e na direita, qualquer que seja o resultado das elei\u00e7\u00f5es, permanecer\u00e1 o governo de Israel, enclave dos EUA no Oriente.<\/p>\n<p>Dado precioso na recente e acachapante derrota do Partido Trabalhista ingl\u00eas \u2013 o pior desempenho desde 1935! \u2013 \u00e9 o avan\u00e7o dos conservadores sobre a classe oper\u00e1ria e redutos tradicionais da esquerda inglesa, refazendo os passos da vit\u00f3ria de Donald Trump ao garimpar votos em col\u00e9gios democratas. Esse movimento, ali\u00e1s, j\u00e1 havia sido a base das vit\u00f3rias de Ronald Reagan e Margareth Tatcher. A prop\u00f3sito deve-se a Steve Bannon, um dos mentores do bolsonarismo, a afirma\u00e7\u00e3o segundo a qual o trumpismo transformou &#8220;o Partido Republicano num partido da classe trabalhadora&#8221; americana.<\/p>\n<p>Para uma ilustra\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, lembremos a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, para a qual foi decisiva a conquista de setores consider\u00e1veis da classe m\u00e9dia e das grandes massas, setores que, em sua maioria, ainda o acompanham no apoio ao governo.<\/p>\n<p>O desafio com o qual o processo hist\u00f3rico p\u00f5e em xeque os partidos se aplica de forma ainda mais contundente para a ordem sindical. O fim da f\u00e1brica moderna e a introdu\u00e7\u00e3o da rob\u00f3tica e de outras conquistas da tecnologia no processo produtivo, liberando a m\u00e3o de obra (processo crescente e inevit\u00e1vel), reduzem a massa trabalhadora e por consequ\u00eancia a for\u00e7a pol\u00edtica e estrat\u00e9gica dos sindicatos. Este \u00e9 o pre\u00e7o arguido pela modernidade. Mas, de outra parte, agravando a crise sindical, o arca\u00edsmo do neoliberalismo, de par com o desemprego massivo, libera um novo lupemproletariado, ou subproletariado, um precariado formando ex\u00e9rcitos de reserva, trabalhadores &#8220;por conta pr\u00f3pria&#8221; sem v\u00ednculo empregat\u00edcio, sem vida sindical, trabalhadores de aplicativos, uberistas e similares, determinando, de uma forma ou de outra, a expans\u00e3o do n\u00famero de trabalhadores atuando na informalidade, o que significa menos trabalhadores em f\u00e1bricas e empresas e escrit\u00f3rios e mais trabalhadores nas ruas, mais motoristas aut\u00f4nomos, mais ambulantes, mais entregadores em motocicletas, bicicletas e patinetes. Ou seja, um ex\u00e9rcito disperso nas cidades, sem tradi\u00e7\u00e3o de v\u00ednculo sindical ou associativo.<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s a crise do sindicalismo foi agravada, ao lado de outros fatores estruturais e pol\u00edticos adstritos \u00e0 vida sindical, pela reforma trabalhista e pelo fim da contribui\u00e7\u00e3o sindical, e poder\u00e1 ser ainda mais atacada se o governo conseguir, como pretende, p\u00f4r fim \u00e0 unicidade sindical.<\/p>\n<p>O fato objetivo \u00e9 que, apenas a um ano das reformas, nada menos do que 1,552 milh\u00e3o de trabalhadores deixaram de ser sindicalizados, como revela a Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua (PNAD) do IBGE. A taxa de sindicalizados \u00e9 de 12,5% do total de trabalhadores brasileiros (92,333 milh\u00f5es), o menor indicador desde 2012, quando teve in\u00edcio a s\u00e9rie hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia, em curso, na vig\u00eancia da globaliza\u00e7\u00e3o capitalista e do neoliberalismo, \u00e9 a precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, desafiando partidos e sindicatos, o que passa a exigir das lideran\u00e7as pol\u00edticas e sindicais a inven\u00e7\u00e3o de novas formas de organiza\u00e7\u00e3o e de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que requer a participa\u00e7\u00e3o da cidadania nas mais diversas frentes de luta, a come\u00e7ar pela resist\u00eancia ao bolsonarismo em suas diversas express\u00f5es, seja o autoritarismo pol\u00edtico seja o projeto neoliberal de desconstru\u00e7\u00e3o do Estado nacional.<\/p>\n<p>Isso implica compreender que o pa\u00eds mudou \u2013 e mudou a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u2013 e que precisamos mudar para poder acompanhar, na vanguarda, o processo hist\u00f3rico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos momentos de crise, e na antessala das rupturas hist\u00f3ricas, setores ponder\u00e1veis das grandes massas desorganizadas e da chamada classe m\u00e9dia tendem a procurar porto seguro para sua inseguran\u00e7a. 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