{"id":222377,"date":"2019-12-25T21:00:08","date_gmt":"2019-12-25T23:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=222377"},"modified":"2019-12-25T22:07:15","modified_gmt":"2019-12-26T00:07:15","slug":"indios-temem-o-mesmo-destino-do-povo-palestino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/indios-temem-o-mesmo-destino-do-povo-palestino\/","title":{"rendered":"\u00cdndios temem o mesmo destino do povo palestino"},"content":{"rendered":"<p>Edward Said escreveu sobre o destino dos palestinos como, de algum modo, o de n\u00e3o terminar onde come\u00e7aram, mas em algum lugar inesperado e remoto. Se o Oriente M\u00e9dio parece uma fronteira distante, a realidade a aproxima das terras tradicionais no Brasil em busca de infligir ao destino dos povos ind\u00edgenas a mesma sina dos palestinos. N\u00e3o terminar onde come\u00e7aram, mas em algum lugar inesperado e remoto.<\/p>\n<p>Como em um pesadelo sa\u00eddo de um conto de Julio Cort\u00e1zar, onde a casa vai sendo invadida c\u00f4modo a c\u00f4modo, confinando seus moradores ao diminuto espa\u00e7o da despensa escura e apagada, os palestinos veem o governo de Israel se apossando de seus territ\u00f3rios, descumprindo acordos internacionais. Os Guajajara, autodenominados Tenetehar, ano ap\u00f3s ano, veem os inc\u00eandios de origem criminosa, os madeireiros e os grileiros ocupando as terras demarcadas com o incentivo e a autoriza\u00e7\u00e3o do presidente da Rep\u00fablica, aliado do governo de Israel.<\/p>\n<p>Se dezenas de palestinos entregam as vidas em defesa de seu ch\u00e3o, os Guajajara seguem tamb\u00e9m marcados por tal sina. O Relat\u00f3rio Viol\u00eancia Contra os Povos Ind\u00edgenas no Brasil, do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi), registrou, nos anos 2000, pelo menos 48 casos de assassinatos de ind\u00edgenas do povo Guajajara \u2013 47 deles no Maranh\u00e3o e um no Par\u00e1. O ano de 2019 j\u00e1 \u00e9 o quarto a registrar mais assassinatos de Guajajara no per\u00edodo, com seis casos identificados at\u00e9 o dia 19 de dezembro, entre eles o de Erisvan Guajajara, de 15 anos, morto na cidade de Amarante. Nos \u00faltimos vinte anos, os maiores n\u00fameros de assassinatos Guajajara foram registrados nos anos de 2007 e 2016, com dez casos cada, e de 2012, com sete casos.<\/p>\n<p>Segundo os dados, o territ\u00f3rio mais afetado pela viol\u00eancia contra os ind\u00edgenas \u00e9 a Terra Ind\u00edgena (TI) Arariboia, que registrou 18 assassinatos de ind\u00edgenas do povo Guajajara \u2013 mais de um ter\u00e7o do total. A terra \u00e9 compartilhada pelos Guajajara com os Aw\u00e1-Guaj\u00e1 livres, em situa\u00e7\u00e3o de isolamento volunt\u00e1rio. Al\u00e9m destes casos, foram tamb\u00e9m registrados outros seis homic\u00eddios ocorridos nos munic\u00edpios de Graja\u00fa e Arame, aos quais esta terra ind\u00edgena se sobrep\u00f5e \u2013 o que significa que o n\u00famero de casos na TI Arariboia e seu entorno chega a 24, ou metade do total.<\/p>\n<p><strong>Guardi\u00f5es e emboscada<\/strong><br \/>\nNos \u00faltimos anos, a TI Arariboia tem sofrido com a forte investida de madeireiros, e tamb\u00e9m de fazendeiros \u2013 no in\u00edcio de 2019, ind\u00edgenas denunciaram a invas\u00e3o e o loteamento de partes da terra ind\u00edgena. Sem a fiscaliza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, dificultada ainda mais pelos cortes or\u00e7ament\u00e1rios da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), os ind\u00edgenas v\u00eam organizando grupos de Guardi\u00f5es da Floresta para fiscalizar o territ\u00f3rio e repelir os invasores. No contexto de prote\u00e7\u00e3o territorial que os guardi\u00f5es Paulino Guajajara e La\u00e9rcio Souza Silva sofreram uma emboscada no in\u00edcio de novembro, quando partiram da aldeia Lagoa Comprida, norte da Terra Ind\u00edgena, a 100 km do munic\u00edpio de Amarante, para ca\u00e7ar. J\u00e1 na mata, foram surpreendidos por cinco madeireiros armados.<\/p>\n<p>Os homens, com as armas em punho, exigiram que Paulino e La\u00e9rcio entregassem arcos e flechas, instrumentos tradicionais usados para ca\u00e7ar. Como Guardi\u00f5es da Floresta, portanto conhecidos destes habituais invasores da TI Arariboia, os Guajajara n\u00e3o tiveram muita chance de defesa. Sem esperar qualquer rea\u00e7\u00e3o, os madeireiros, em maior n\u00famero, come\u00e7aram a atirar contra os ind\u00edgenas. Um dos disparos fatais atingiu Paulino no rosto. La\u00e9rcio foi alvejado no bra\u00e7o e nas costas, conseguindo escapar pela mata para pedir socorro.<\/p>\n<p>A prima de Paulino, a lideran\u00e7a ind\u00edgena S\u00f4nia Guajajara, da coordena\u00e7\u00e3o da Articula\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil (Apib), declarou \u00e0 imprensa que \u201co racismo mata, e foi esse racismo que matou meu parente Paulo Paulino Guajajara, no Estado do Maranh\u00e3o (\u2026) Convidamos a todas e todos para lutarmos juntos contra esse genoc\u00eddio programado\u201d. A ind\u00edgena estava percorrendo pa\u00edses europeus no dia do ataque. \u201cNossa agenda \u00e9 de den\u00fancia ao que vem ocorrendo contra os povos ind\u00edgenas no Brasil. Liguei pros meus parentes e confirmei. Foi uma dor, mas aproveitamos para levar a not\u00edcia ao mundo\u201d, disse.<\/p>\n<p>De 2006 para c\u00e1, a TI Arariboia det\u00e9m o segundo maior n\u00famero de registros de invas\u00e3o no estado do Maranh\u00e3o, com 20 casos identificados no banco de viol\u00eancias do Cimi. As terras em que houve registro de assassinato de ind\u00edgenas Guajajara neste per\u00edodo tiveram 44 casos de invas\u00e3o possess\u00f3ria. Quase metade destes casos \u2013 um total de 20 \u2013 ocorreram nos \u00faltimos cinco anos. Foi nesse contexto que, em 2016, ocorreu uma sequ\u00eancia de quatro assassinatos de lideran\u00e7as da TI Arariboia em apenas um m\u00eas.<\/p>\n<p>Dos 130 casos de invas\u00e3o registrados no Maranh\u00e3o entre 2006 e 2019, 44 ocorreram em terras onde foram registrados assassinatos de ind\u00edgenas Guajajara.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da Arariboia, destacam-se nos casos de assassinatos de ind\u00edgenas do povo Guajajara as TIs Caru, com 13 assassinatos, Cana Brava\/Guajajara, que registrou oito homic\u00eddios, e Bacurizinho, que teve sete casos. Homic\u00eddios de ind\u00edgenas do povo Guajajara tamb\u00e9m foram identificadas nas TIs Morro Branco (1) e Rio Pindar\u00e9 (1). O recente assassinato de dois caciques da TI Cana Brava ilustra um modo muito comum de se eliminar lideran\u00e7as Guajajara neste per\u00edodo de levantamento realizado pelo relat\u00f3rio Viol\u00eancia Contra os Povos Ind\u00edgenas no Brasil.<\/p>\n<p>Quando voltavam de uma reuni\u00e3o na aldeia Coquinho, onde se encontraram com diretores da Eletronorte Energia, um grupo de ind\u00edgenas do povo Guajajara foi atacado a tiros num s\u00e1bado, 7 de dezembro, enquanto percorria em motocicletas um trecho da rodovia BR-226 pr\u00f3ximo \u00e0 aldeia El Betel, na TI Cana Brava, munic\u00edpio de Jenipapo dos Vieiras. Firmino Prexede Guajajara, de 45 anos, da aldeia Silvino, TI Cana Brava, e Raimundo Ben\u00edcio Guajajara, de 38 anos, da aldeia Decente, TI Lagoa Comprida, morreram em raz\u00e3o dos disparos. Dois ind\u00edgenas ficaram feridos. Na reuni\u00e3o, participaram 60 caciques e lideran\u00e7as Guajajara.<\/p>\n<p>O coordenador da Funai no Maranh\u00e3o, Guaraci Mendes, declarou \u00e0 Ag\u00eancia Amaz\u00f4nia Real que \u201capenas as principais lideran\u00e7as Guajajara estavam reunidas para tratar dos recursos da compensa\u00e7\u00e3o com a Eletronorte. Era toda a c\u00fapula, caciques e lideran\u00e7as, da Terra Ind\u00edgena Cana Brava. Parece que foi a\u00e7\u00e3o planejada\u201d.<\/p>\n<p>Desde outubro de 2018, ap\u00f3s o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais, as organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e indigenistas denunciam o aumento da viol\u00eancia, invas\u00f5es, emboscadas, atentados e amea\u00e7as. \u201cParece que se sentem autorizados, \u00e9 como se dissessem: agora podemos barbarizar com os ind\u00edgenas, chegamos ao poder\u201d, declarou Dinam\u00e3 Tux\u00e1, da coordena\u00e7\u00e3o da Apib, durante o Acampamento Terra Livre (ATL) 2019.<\/p>\n<p>Em 19 de dezembro, o governo federal havia liquidado apenas 59,7% dos 37 milh\u00f5es de reais destinados neste ano \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas.<\/p>\n<p><strong>Pouca demarca\u00e7\u00e3o, muita viol\u00eancia<\/strong><br \/>\nDe 2006 para c\u00e1, incluindo dados preliminares de 2019, as terras ind\u00edgenas localizadas no Maranh\u00e3o registraram 130 casos de invas\u00f5es possess\u00f3rias, explora\u00e7\u00e3o ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrim\u00f4nio. Mais da metade destes casos \u2013 72, no total \u2013 foram registrados nos \u00faltimos cinco anos. Embora a diferen\u00e7a possa assinalar uma poss\u00edvel subnotifica\u00e7\u00e3o de casos no per\u00edodo, \u00e9 mais um indicativo do avan\u00e7o das press\u00f5es sobre os territ\u00f3rios ind\u00edgenas no estado.<\/p>\n<p>Mais de um ter\u00e7o destes casos \u2013 44, no total \u2013 ocorreram em terras nas quais foram registrados assassinatos de ind\u00edgenas do povo Guajajara. A TI Arariboia \u00e9 a segunda com o maior n\u00famero de registros de invas\u00e3o no Maranh\u00e3o de 2006 para c\u00e1, com 20 casos identificados no banco de viol\u00eancias do Cimi. A intensifica\u00e7\u00e3o dos ataques e invas\u00f5es, denunciada por diversos povos ao longo do primeiro ano do governo Bolsonaro, \u00e9 agravada pela baixa execu\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento destinado \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas no Brasil.<\/p>\n<p>Segundo dados do Siop, em 19 de dezembro o governo Bolsonaro havia liquidado apenas 59,7% dos 37 milh\u00f5es de reais destinados neste ano \u00e0 regulariza\u00e7\u00e3o, demarca\u00e7\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas e prote\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas isolados. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais grave se levarmos em conta que, nos \u00faltimos cinco anos, o mesmo per\u00edodo que concentra a maior parte dos casos de invas\u00e3o e viol\u00eancia, o or\u00e7amento destinado a esse conjunto de a\u00e7\u00f5es caiu quase pela metade.<\/p>\n<p>\u201cEstamos diante de um ataque programado, organizado, com a inten\u00e7\u00e3o de expulsar os povos ind\u00edgenas de seus territ\u00f3rios. O aval tem sido periodicamente dado pelo presidente da Rep\u00fablica. O exterm\u00ednio dos povos ind\u00edgenas se tornou uma pol\u00edtica de governo\u201d, aponta Gilderlan Rodrigues, coordenador do Cimi Regional Maranh\u00e3o. \u201cN\u00e3o \u00e9 apenas um cen\u00e1rio de guerra, estamos num campo de batalha onde o \u00f3dio disseminado pelas for\u00e7as pol\u00edticas conservadoras, autorit\u00e1rias, racistas s\u00e3o estimuladas pelo fascismo que j\u00e1 extrapolou todos os seus limites\u201d, completa S\u00f4nia Guajajara.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edward Said escreveu sobre o destino dos palestinos como, de algum modo, o de n\u00e3o terminar onde come\u00e7aram, mas em algum lugar inesperado e remoto. 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