{"id":222589,"date":"2019-12-30T07:00:07","date_gmt":"2019-12-30T10:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=222589"},"modified":"2019-12-30T07:26:08","modified_gmt":"2019-12-30T10:26:08","slug":"charlie-brown-faz-70-anos-com-cara-de-menino-tragico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/charlie-brown-faz-70-anos-com-cara-de-menino-tragico\/","title":{"rendered":"Charlie Brown faz 70 anos com cara de menino tr\u00e1gico"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o me lembro de jamais ter achado que eles eram engra\u00e7ados&#8221;, escreve Ira Glass em uma nova antologia sobre a hist\u00f3ria em quadrinhos americana por excel\u00eancia. &#8220;Quem alguma vez riu de Peanuts?&#8221; Mas Glass escreve isso no contexto de seu profundo amor por Charlie Brown e companhia. \u00c9 que, em vez de encontrar muito humor em suas hist\u00f3rias, ele desfrutou do conforto que eles proporcionavam a um &#8220;garotinho rabugento&#8221; que se considerava &#8220;um perdedor e um solit\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>Para marcar os 70 anos de Charlie Brown, a antologia The Peanuts Papers faz um grande esfor\u00e7o para que se perceba que apreciar o talento do colosso Charles M. Schulz (1922-2000), que foi publicado nos jornais de 1950 a 2000, exige um olhar obl\u00edquo para seu g\u00eanero. \u00c9, como John Updike descreveu uma vez: &#8220;\u00c9 uma &#8220;hist\u00f3ria em quadrinhos tr\u00e1gica no fundo&#8221;. Essa cole\u00e7\u00e3o de ensaios profundamente pessoais o ajudar\u00e1 a ver claramente, se ainda n\u00e3o o fez, como um \u00e9pico psicologicamente complexo sobre estoicismo, f\u00e9 e outras abordagens das dificuldades existenciais.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de surpreender que algumas das ideias mais profundas venham de Chris Ware, outro cronista da melancolia em desenhos animados, que treina seu olhar experiente na arte de Schulz, nas decis\u00f5es espaciais e r\u00edtmicas que criam seus efeitos. Ware tamb\u00e9m cita Art Spiegelman, que certa vez descreveu Peanuts para ele como &#8220;Schulz se partindo em peda\u00e7os do tamanho de crian\u00e7as e deixando todos se encontrarem pelo pr\u00f3ximo meio s\u00e9culo&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 esse drama emocional fragmentado que chama a aten\u00e7\u00e3o de muitos outros, incluindo George Saunders, que v\u00ea os diferentes segmentos do eu em Peanuts. &#8220;Charlie Brown como a parte sens\u00edvel e temerosa de mim, Linus como a parte que tentou abordar a parte que teme a perda atrav\u00e9s do intelecto, religi\u00e3o ou intelig\u00eancia, Lucy como a que aborda a parte que teme a perda por meio da agress\u00e3o; Snoopy, por meio da alegre e absurda sabedoria.&#8221;<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o mais inspirada de escritor e o tema do livro \u00e9 a entrada de Peter D. Kramer no trabalho de Lucy como psicanalista, o que, a meu ver, \u00e9 como ter Clayton Kershaw escrevendo sobre a carreira de arremessador de Charlie Brown.<\/p>\n<p>Kramer leva a pr\u00e1tica de Lucy (e sua insist\u00eancia em sua taxa de 5 centavos) com seriedade o suficiente, tra\u00e7ando de maneira divertida, mas profunda, uma linha entre seus m\u00e9todos e os de terapeutas americanos influentes do s\u00e9culo 20, como Harry Stack Sullivan. Ele at\u00e9 encontra valor em seus conselhos: &#8220;Sai dessa! Somos livres para imaginar que Charlie Brown ganha algo com a resposta brusca de Lucy&#8221;, escreve Kramer.<\/p>\n<p>&#8220;Ele est\u00e1 sendo jogado de volta em seus pr\u00f3prios recursos, com a mensagem de que eles podem ser mais substanciais do que ele acredita. Sugiro que Lucy, como terapeuta, n\u00e3o est\u00e1 totalmente em conflito com suas ideias ou princ\u00edpios.&#8221; (Uma linha oposta e igualmente convincente vem de Adam Gopnik: &#8220;Lucy \u00e9 a pessoa menos adequada para oferecer conselhos psiqui\u00e1tricos na hist\u00f3ria da fic\u00e7\u00e3o&#8221;.)<\/p>\n<p>Muitos dos admiradores reunidos aqui eram crian\u00e7as americanas criativas e provavelmente melanc\u00f3licas na veia Schulz: os Jonathans Franzen e Lethem, Chuck Klosterman, Rick Moody. Pode-se ficar um pouco &#8211; ou muito &#8211; mais surpreso ao encontrar Umberto Eco no sum\u00e1rio. (Ele escreve sobre as tentativas de Charlie Brown chutar a bola: &#8220;Que armas podem deter a impec\u00e1vel m\u00e1-f\u00e9 quando algu\u00e9m tem o infort\u00fanio de ser puro de cora\u00e7\u00e3o?&#8221;.)<\/p>\n<p>A maioria das pe\u00e7as desse livro \u00e9 original, apesar de Eco ter aparecido em The New York Review of Books, em 1985. Duck Boy, de Maxine Hong Kingston, um breve ensaio que apareceu pela primeira vez no The New York Times em 1977, \u00e9 sobre sua experi\u00eancia em lecionar para uma adolescente problem\u00e1tica. \u00c9 um trabalho um tanto quanto centralizado, mas n\u00e3o muito Peanuts, conflitando entre os outros.<\/p>\n<p>Alguns escritores destacam um personagem em particular: Ann Patchett em Snoopy; Mona Simpson em Schroeder; Elissa Schappell na irm\u00e3 de Charlie Brown, Sally. In\u00fameros colaboradores mencionam o retrato psicol\u00f3gico recorrente da paix\u00e3o n\u00e3o correspondida de Charlie Brown pela menininha ruiva &#8211; que, como a esposa de Norm, Vera, em Cheers, nunca aparece.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o de escritores inclina-se bastante para o lado mais antigo e mais branco, e o livro n\u00e3o reproduz nenhuma das tiras de Schulz, mas h\u00e1 ilustra\u00e7\u00f5es originais (embora n\u00e3o sejam das crian\u00e7as amadas, mas protegidas por direitos autorais de Schulz) por alguns dos cartunistas colaboradores.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o cheia de adoradores de Peanuts, e \u00e9 assim que deveria ser, mas poderia ter sido divertido ver alguma diverg\u00eancia. Eu n\u00e3o tinha percebido, mas deveria ter adivinhado, que houve guerras no Snoopy. Sarah Boxer, uma defensora do beagle, resume a oposi\u00e7\u00e3o, que acredita que as palha\u00e7adas cada vez mais barrocas de Snoopy sequestraram a franquia no meio da sua exist\u00eancia. Ela cita uma pe\u00e7a de Christopher Caldwell, na qual ele julgou que a centraliza\u00e7\u00e3o de Snoopy foi um &#8220;calamitoso equ\u00edvoco art\u00edstico&#8221; que &#8220;passou de ser a fraqueza art\u00edstica da tira, a arruin\u00e1-la por completo&#8221;.<\/p>\n<p>O &#8220;significado da vida&#8221; faz parte do subt\u00edtulo desse livro, e projetos de leitura atenta como esse costumam ter \u00e2ngulos prescritivos. (&#8220;Como Proust pode mudar sua vida&#8221;, etc.) Mas, felizmente, se houver uma li\u00e7\u00e3o em Peanuts e nessa antologia, \u00e9, como Nicole Rudick escreve, que &#8220;n\u00e3o h\u00e1 respostas para as grandes perguntas&#8221;.<\/p>\n<p>Bruce Handy escreve, em uma an\u00e1lise que poderia ser aplicada a Sartre ou Beckett: &#8220;O que tirei de Schulz \u00e9 que a vida \u00e9 dif\u00edcil, as pessoas s\u00e3o dif\u00edceis na melhor das hip\u00f3teses, insond\u00e1veis na pior das hip\u00f3teses, a justi\u00e7a \u00e9 uma l\u00edngua estrangeira, a felicidade pode se vaporizar na brecha fina entre um terceiro e um quarto painel, e a melhor resposta para tudo \u00e9 rir e seguir em frente, sempre pronto para se esquivar&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada a se pensar demais sobre essas pe\u00e7as, mesmo quando elas alcan\u00e7am o que Joe Queenan chama de tend\u00eancia de &#8220;encontrar mais em Peanuts do que realmente havia&#8221;. &#8220;O calor profundo percorre at\u00e9 a avalia\u00e7\u00e3o mais abrangente. E o ego\u00edsmo presente sempre se sente totalmente respaldado pelo material original, como quando Gopnik descreve Linus como um &#8220;intelectual \u00e0 Pascal &#8211; algu\u00e9m cujo aprendizado apenas aumentou seu p\u00e2nico e o tornou mais pronto a n\u00e3o entrar no jogo da f\u00e9 irracional, ou em um cobertor ou em um \u00eddolo de ab\u00f3boras&#8221;.<\/p>\n<p>Falando dessa f\u00e9, The Peanuts Papers \u00e9 um dos livros mais espirituais que li em anos. Schulz era um crist\u00e3o devotado (eventualmente chamando a si mesmo de um &#8220;humanista secular&#8221;), e Peanuts, escreve Gopnik, como a obra de Updike, contempor\u00e2neo de Schulz, iluminou &#8220;o mesmo impulso e for\u00e7a da f\u00e9 e da d\u00favida, cren\u00e7a e zombaria para os devotos&#8221;.<\/p>\n<p>Talvez a pe\u00e7a mais comovente de Rich Cohen delineie a f\u00e9 de Linus, como \u00e9 retratada em Charlie Brown e a Grande Ab\u00f3bora (It&#8217;s the Great Pumpkin, Charlie Brown), o cl\u00e1ssico especial da televis\u00e3o de 1966 (exibido no Brasil) no qual Linus \u00e9 deixado &#8220;conversando no frio, esperando por algo que jamais chegar\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p>V\u00e1rios colaboradores se esfor\u00e7am para estabelecer sua pr\u00f3pria descren\u00e7a de boa-f\u00e9, talvez como um modo de legitimar suas rea\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas \u00e0 tira. (&#8220;Eu nasci ateu&#8221;, escreve Ware; Handy era uma crian\u00e7a &#8220;congenitamente imperme\u00e1vel \u00e0 religi\u00e3o&#8221;.) Da mesma forma, devo observar neste momento tardio que n\u00e3o sou um entusiasta de Peanuts. Tenho um profundo carinho por isso, especialmente os programas de TV que cintilaram contra a minha juventude, mas certamente nunca me considerei um fan\u00e1tico. Mas esse livro encantador e pesquisado me fez pensar se eu estou certo sobre isso, no final das contas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o me lembro de jamais ter achado que eles eram engra\u00e7ados&#8221;, escreve Ira Glass em uma nova antologia sobre a hist\u00f3ria em quadrinhos americana por excel\u00eancia. &#8220;Quem alguma vez riu de Peanuts?&#8221; Mas Glass escreve isso no contexto de seu profundo amor por Charlie Brown e companhia. \u00c9 que, em vez de encontrar muito humor [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":222590,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[70],"tags":[95],"class_list":["post-222589","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/222589","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=222589"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/222589\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":222592,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/222589\/revisions\/222592"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/222590"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=222589"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=222589"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=222589"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}