{"id":222652,"date":"2019-12-31T03:00:43","date_gmt":"2019-12-31T06:00:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=222652"},"modified":"2019-12-31T02:59:54","modified_gmt":"2019-12-31T05:59:54","slug":"juarez-negro-mestre-reporter-vitima-de-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/juarez-negro-mestre-reporter-vitima-de-racismo\/","title":{"rendered":"Juarez, negro, mestre, rep\u00f3rter, v\u00edtima de racismo"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEu poderia ter morrido\u201d. Juarez Xavier, 60 anos, \u00e9 professor, jornalista, militante do movimento negro, candomblecista, marido e pai. H\u00e1 pouco mais de um m\u00eas, ele foi v\u00edtima de um ataque ap\u00f3s reagir a ofensas racistas em Bauru, cidade onde mora. \u201cUma jornalista alem\u00e3 me perguntou: \u2018e se voc\u00ea n\u00e3o reagisse?\u2019, n\u00e3o teria sido eu. O problema n\u00e3o foi a minha rea\u00e7\u00e3o, e sim a provoca\u00e7\u00e3o do cara\u201d, respondeu de forma enf\u00e1tica enquanto pontuava os acontecimentos que o constru\u00edram como indiv\u00edduo. \u201cUm ato banal me deu a consci\u00eancia de que eu sou mortal, de que eu com certeza j\u00e1 vivi grande parte da minha vida\u201d.<\/p>\n<p>A les\u00e3o corporal \u2013 como foi registrado o caso pela Pol\u00edcia Civil \u2013 ocorreu dia 20 de novembro, Dia da Consci\u00eancia Negra, que simboliza a luta contra o racismo no pa\u00eds. Xavier voltava para a casa a p\u00e9, em uma das principais avenidas da cidade. Do outro lado da cal\u00e7ada, um homem fazia gestos em sua dire\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que, ao se aproximar dele, Juarez escutou os xingamentos: \u2018Macaco! Macaco!\u2019. Ele reagiu e levou duas facadas \u2013 uma no bra\u00e7o esquerdo, a segunda nas costas.<\/p>\n<p>Um ano antes, no dia 7 de outubro, outro ataque com facas marcou o movimento negro brasileiro. Era um domingo e o pa\u00eds tinha acabado de passar pelo primeiro turno de uma das elei\u00e7\u00f5es mais tensas da hist\u00f3ria republicana. Uma diverg\u00eancia pol\u00edtica em Salvador terminou com 12 facadas em Romualdo Ros\u00e1rio da Costa, o Mestre Moa do Katend\u00ea. Moa morreu na madrugada do dia 8. Com 63 anos, mestre de capoeira e refer\u00eancia na luta pol\u00edtica antirracista da Bahia, Moa virou o s\u00edmbolo de um processo eleitoral destacado pelo crescimento da extrema direita no cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional e por discursos de intoler\u00e2ncia \u00e0 diversidade.<\/p>\n<p>Essas duas hist\u00f3rias se cruzam na pr\u00f3pria experi\u00eancia do professor: \u201cEu tive uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima, [Moa do Katende] foi um amigo do universo da capoeira e ele morreu de forma brutal no processo eleitoral mais b\u00e1rbaro da hist\u00f3ria do Brasil\u201d, relembra. Ao refletir sobre seu caso, Xavier considera ter sido marcante por ter ocorrido no Dia Nacional da Consci\u00eancia Negra, data que, \u201cdo ponto de vista simb\u00f3lico, talvez tenha sido uma das marcas mais significativas do movimento negro: pautar um debate sobre a quest\u00e3o racial a partir da perspectiva do negro, e n\u00e3o da perspectiva oficial como \u00e9 o 13 de maio\u201d.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia sistem\u00e1tica contra os negros \u00e9 di\u00e1ria nas periferias. Dados do Atlas da Viol\u00eancia deste ano revelam que, em 2017, 75,5% das mortes por homic\u00eddio no Brasil foram de pessoas pretas ou pardas. Foram 48.229 negros mortos naquele ano, quase 132 por dia.<\/p>\n<p>Apesar da quantidade expressiva, o cotidiano perverso e a pol\u00edtica de estado racista afasta o genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra dos notici\u00e1rios. No caso de Juarez, um detalhe foi importante para o caso ganhar repercuss\u00e3o nacional (e internacional) nos jornais. Al\u00e9m da sua trajet\u00f3ria no movimento negro, ele \u00e9 professor em uma universidade p\u00fablica. E o respaldo da institui\u00e7\u00e3o foi fundamental para aprofundar este debate:<\/p>\n<p>\u201cA universidade cria condi\u00e7\u00f5es de voc\u00ea ter interlocu\u00e7\u00f5es com a cidade. Se tivesse acontecido em S\u00e3o Paulo, talvez a repercuss\u00e3o n\u00e3o fosse a mesma, porque isso acontece diariamente em S\u00e3o Paulo. A viol\u00eancia nas periferias \u00e9 cotidiana. Voc\u00ea falar da universidade ent\u00e3o, voc\u00ea acaba falando de um espa\u00e7o e de um local de mais seguran\u00e7a. E as universidades p\u00fablicas t\u00eam um papel importante no interior de S\u00e3o Paulo. Muitas coisas repercutem por conta da presen\u00e7a da universidade\u201d.<\/p>\n<p>Quem chega no oitavo andar da reitoria da Unesp, no centro de S\u00e3o Paulo, encontra uma sala com algumas mesas separadas por vidros, formando pequenas \u00e1reas de trabalho. No fundo do corredor fica a mesa reservada ao professor Juarez Xavier. A caneca do Corinthians ao lado do computador n\u00e3o deixa mentir. Nos \u00faltimos dois anos, esse tem sido o principal ambiente de trabalho do Juarez, escolhido em 2017 como assessor da Pr\u00f3-Reitoria de Extens\u00e3o da Unesp \u2013 \u00e1rea que cuida dos projetos de extens\u00e3o de toda a universidade.<\/p>\n<p>A gest\u00e3o de projetos em unidades de ensino n\u00e3o \u00e9 uma novidade para ele. Nascido em 1959 na Vila Mazzei, Zona Norte de S\u00e3o Paulo, Xavier entrou no curso de jornalismo em 1981. Em pouco tempo o jovem de 22 anos despontava em um movimento pol\u00edtico efervescente e combativo n\u00e3o s\u00f3 nos muros da academia. Na \u00e9poca, ele era lideran\u00e7a no movimento estudantil, e foi eleito presidente do Diret\u00f3rio Central dos Estudantes da PUC (DCE).<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o cada vez mais intensa nos debates e na milit\u00e2ncia foram essenciais para sua forma\u00e7\u00e3o como jornalista. Juarez insiste: \u201cnunca achei que fossem dois caminhos diferentes. A milit\u00e2ncia e o jornalismo fazem parte da mesma coisa\u201d. Para ele, o jornalismo precisa se posicionar e ter um compromisso social. \u201cA minha trajet\u00f3ria foi decisivamente marcada por essa posi\u00e7\u00e3o: de que o jornalismo e a milit\u00e2ncia pol\u00edtica s\u00e3o as mesmas coisas. A\u00e7\u00f5es diferentes, vis\u00f5es diferentes, mas com o mesmo projeto\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Trabalhar em uma reda\u00e7\u00e3o foi outro ponto importante na carreira profissional de Juarez. Ainda rec\u00e9m-formado, ele come\u00e7ou no Not\u00edcias Populares, com a cobertura sindical. Depois passou pela Gazeta Mercantil e Di\u00e1rio Popular at\u00e9 entrar na assessoria de imprensa. Atuou ainda em jornais sindicais, clandestinos, montou os projetos de comunica\u00e7\u00e3o do Sindicato do Securit\u00e1rios, Sindicatos Qu\u00edmicos e da Federa\u00e7\u00e3o Nacional. Foi assessor parlamentar do vereador Eust\u00e1quio Vital Nolasco (PCdoB\/SP), na d\u00e9cada de 1990. Ainda neste per\u00edodo fez da sala de aula seu local de trabalho.<\/p>\n<p>A passagem de Juarez por reda\u00e7\u00f5es nos ajuda a compreender a rela\u00e7\u00e3o do negro com os grandes jornais (ocupados e pautados por pessoas brancas). Muitos companheiros do professor entraram em grandes reda\u00e7\u00f5es, mas poucos conseguiram chegar \u00e0s \u00e1reas nobres dos jornais.<\/p>\n<p>\u201cNa reda\u00e7\u00e3o, o fil\u00e9 mignon \u00e9 a pol\u00edtica e economia. A cultura \u00e9 muito importante, tem outras editorias que se destacam, mas o que \u00e9 mais valorizado dentro dos ve\u00edculos s\u00e3o as \u00e1reas da pol\u00edtica e economia. Quantos jornalistas de ponta negros voc\u00ea tem de fato nessas coberturas?\u201d, observa. \u201cIsso frustrou um pouco a minha gera\u00e7\u00e3o porque a gente tinha um grupo grande de pessoas que discutiam essas coisas e o jornalismo de forma s\u00e9ria. T\u00ednhamos pessoas muito boas, boas pra caramba e que n\u00e3o tiveram destaques nessas editorias da forma que os brancos tiveram\u201d, relembra Juarez.<\/p>\n<p>Um exemplo citado pelo professor \u00e9 o Projeto Folha de S\u00e3o Paulo em 1984. Com o objetivo de trazer pessoas jovens para o n\u00facleo da reda\u00e7\u00e3o, Ot\u00e1vio Frias Filho, diretor do jornal, come\u00e7a a recrutar jornalistas em universidades para tornar a reda\u00e7\u00e3o \u201cmais cr\u00edtica e plural\u201d. Para Juarez, o que o grupo Folha fazia, na verdade, era contratar jovens brancos de classe m\u00e9dia com a mesma perspectiva, alinhados politicamente ao movimento de derrubada da ditadura militar.<\/p>\n<p>\u201cA reda\u00e7\u00e3o passa a ser uma coisa mais homog\u00eanea do ponto de vista pol\u00edtico, social, cultural e intelectual. E passa a fazer uma cobertura espelhada a essa perspectiva. Pessoas que leem as mesmas coisas, viajam com as mesmas condi\u00e7\u00f5es, t\u00eam os mesmos valores. Isso intensificou uma cultura de favorecer o elemento branco que chegava nas reda\u00e7\u00f5es. Pode parecer bobagem, mas isso afastou muitos negros do jornalismo cotidiano di\u00e1rio. Os que ficaram, acabaram fazendo coberturas importantes de cidades, viol\u00eancia, pol\u00edcia, mas n\u00e3o estavam, via de regra, nas editorias consideradas \u2018nobres\u2019 do jornalismo: pol\u00edtica e economia\u201d.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias dessas decis\u00f5es foram determinantes para o cen\u00e1rio do jornalismo nos dias de hoje. De acordo com Juarez, o jornalismo vive uma crise cognitiva por conta das escolhas da grande imprensa. \u201cO que a gente encontra hoje, na minha vis\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma crise do modelo de neg\u00f3cio, mas principalmente uma crise cognitiva. O jornalismo deixou de ter uma prerrogativa de construir relatos que as pessoas consideram v\u00e1lidas para sua vida cotidiana. Deixou de fazer cobertura importantes e fundamentais, como por exemplo a periferia\u201d, enfatiza o professor. \u201cVoc\u00ea tem uma vida social na periferia que as pessoas n\u00e3o entendem porque n\u00e3o cobrem isso. Come\u00e7a a estigmatizar. Voc\u00ea faz uma cobertura pequena de um universo que \u00e9 o universo da classe m\u00e9dia. Com o passar do tempo voc\u00ea constr\u00f3i uma realidade paralela, que n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade\u201d.<\/p>\n<p>Juarez entrou pela primeira vez em uma sala de aula como professor em 1989, em um col\u00e9gio no distrito de Ermelino Matarazzo, extremo leste de S\u00e3o Paulo. A experi\u00eancia foi bem sucedida e direcionou a carreira como professor universit\u00e1rio. Xavier deu aulas em faculdades da capital e do interior, trocando experi\u00eancias com alunos. Tornou-se diretor da Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul) logo em sua entrada na faculdade, sendo o seu primeiro cargo de gest\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2011, ele ingressou como docente na Unesp de Bauru e se mudou da capital para o interior. Ainda que o cen\u00e1rio da universidade p\u00fablica n\u00e3o fosse novo, ele se surpreendeu com o contexto em que o curso de jornalismo estava inserido. Contratado para dar aulas de Jornalismo Especializado, Juarez encontrou um cen\u00e1rio de esvaziamento do debate. De forma at\u00e9 paradoxal, a primeira faculdade p\u00fablica que ele come\u00e7ou trabalhar tinha um grau de envolvimento pol\u00edtico menor no curso de jornalismo do que os outros espa\u00e7os de universidades particulares.<\/p>\n<p>Mesmo assim, ele foi coordenador de curso, chefe de departamento e, em 2017, se tornou assessor da Pr\u00f3-Reitoria de Extens\u00e3o. Um universo que foi terreno f\u00e9rtil para a cria\u00e7\u00e3o de um dos projetos mais importantes na carreira acad\u00eamica do professor. Assim que chegou na faculdade, tr\u00eas alunos o procuraram para montar um grupo que pretendia discutir economia. \u201cEconomia Criativa!\u201d, respondeu em seguida. Estava se formando o NeoCriativa \u2013 N\u00facleo de Estudos e Observa\u00e7\u00f5es em Economia Criativa, projeto de extens\u00e3o que tinha como objetivo discutir as cadeias produtivas a partir dos arranjos de m\u00fasica da cidade. Hoje o projeto n\u00e3o atua mais de forma extensionista, mas \u00e9 um grupo de pesquisa que re\u00fane pesquisadores desde a gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 8 anos, Xavier foi conhecendo cada vez mais a cidade e participando de movimentos locais. Mas a experi\u00eancia no jornalismo e o enfrentamento ao racismo n\u00e3o o tornaram imune aos racistas. Juarez \u00e9 um dos expoentes do movimento negro, conhecido por suas pesquisas nas \u00e1reas da comunica\u00e7\u00e3o e economia criativa e, mais recente, por sua atua\u00e7\u00e3o na Unesp como presidente no processo de averigua\u00e7\u00e3o de fraudes no ingresso de estudantes pretos e pardos \u00e0 universidade.<\/p>\n<p>Os golpes de facas sofridos no \u00faltimo 20 de novembro representam um ataque brutal a vida, mas tamb\u00e9m exp\u00f5e um movimento em curso no pa\u00eds. O avan\u00e7o e as conquistas pol\u00edticas da extrema direita intensificam o racismo latente e estrutural no Brasil. A tens\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o pol\u00edcia-periferia se acentua e o genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra ganha contornos cada vez mais institucionais.<\/p>\n<p>Este acontecimento foi pautado em quase todas as grandes m\u00eddias do pa\u00eds; diversos movimentos e agentes pol\u00edticos se solidarizaram com Juarez. Em Bauru n\u00e3o foi diferente. Manifesta\u00e7\u00f5es, notas de rep\u00fadio e cartas em apoio ao professor foram feitas por coletivos e grupos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>\u00c0s pessoas pr\u00f3ximas, o atentado sofrido pelo professor foi entendido como um ataque as pr\u00f3prias expectativas: \u201cuma aluna negra veio falar comigo muito emocionada, me agradecendo. Eu fiquei muito tocado com aquilo. No final de semana seguinte um carro parou do meu lado, um aluno desceu, se apresentou e agradeceu. Isso mexeu muito comigo isso, n\u00e3o s\u00f3 sentido de \u2018ah, agora eu vou fazer\u2019, mas no como eu quero fazer as coisas a partir de agora\u201d destaca Juarez.<\/p>\n<p>Para o professor a reflex\u00e3o que fica vai al\u00e9m do fato em si: \u201cAbre-se diante de mim uma encruzilhada. N\u00e3o tem sentido, depois de eu ter vivido a maior parte da minha vida, eu virar um homem velho amedrontado. Eu vou continuar fazendo o que eu fa\u00e7o. Eu vou continuar mantendo os compromissos que eu tenho. Vou continuar fazendo o enfrentamento racial\u201d, conclui.<\/p>\n<p>Depois do ataque, o agressor foi preso em flagrante, mas pagou fian\u00e7a e est\u00e1 sendo investigado em liberdade. Juarez Xavier aguarda a manifesta\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico para recorrer a tipifica\u00e7\u00e3o do crime \u2013 que foi registrado como les\u00e3o corporal e inj\u00faria racial \u2013 para qualific\u00e1-lo como tentativa de homic\u00eddio e crime de racismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu poderia ter morrido\u201d. Juarez Xavier, 60 anos, \u00e9 professor, jornalista, militante do movimento negro, candomblecista, marido e pai. H\u00e1 pouco mais de um m\u00eas, ele foi v\u00edtima de um ataque ap\u00f3s reagir a ofensas racistas em Bauru, cidade onde mora. \u201cUma jornalista alem\u00e3 me perguntou: \u2018e se voc\u00ea n\u00e3o reagisse?\u2019, n\u00e3o teria sido eu. 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