{"id":223441,"date":"2020-01-15T17:15:41","date_gmt":"2020-01-15T20:15:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=223441"},"modified":"2020-01-15T17:15:41","modified_gmt":"2020-01-15T20:15:41","slug":"maconha-nao-age-como-remedio-contra-cocaina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/maconha-nao-age-como-remedio-contra-cocaina\/","title":{"rendered":"Maconha n\u00e3o age como rem\u00e9dio contra coca\u00edna"},"content":{"rendered":"<p>O uso recreativo de maconha como estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de danos para dependentes de crack e coca\u00edna em reabilita\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o ser eficaz, \u00e9 o que mostra uma pesquisa brasileira publicada na revista Drug and Alcohol Dependence. Dados do artigo indicam que o consumo da erva piorou o quadro cl\u00ednico dos pacientes, em vez de amenizar, como esperado, a ansiedade e a fissura pela droga aspirada ou fumada em pedra (crack).<\/p>\n<p>O estudo acompanhou um grupo de dependentes por seis meses ap\u00f3s a alta da interna\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria de um m\u00eas no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl\u00ednicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (HC-USP). Os pesquisadores do Grupo Interdisciplinar de Estudos de \u00c1lcool e Drogas (GREA) e do Laborat\u00f3rio de Neuroimagem dos Transtornos Neuropsiqui\u00e1tricos (LIM-21) da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) constataram que a maconha prejudica as chamadas fun\u00e7\u00f5es executivas do sistema nervoso central, relacionadas, entre outras atividades, com a capacidade de controlar impulsos.<\/p>\n<p>\u201cNosso objetivo \u00e9 garantir que pol\u00edticas p\u00fablicas para usu\u00e1rios de drogas sejam baseadas em evid\u00eancias cient\u00edficas. Quando as pol\u00edticas de redu\u00e7\u00e3o de danos foram implementadas no Brasil, para usu\u00e1rios de coca\u00edna e crack, n\u00e3o havia comprova\u00e7\u00e3o de que seriam ben\u00e9ficas. Os resultados deste estudo descartam completamente essa estrat\u00e9gia para dependentes de coca\u00edna\u201d, disse um dos autores do artigo, Paulo Jannuzzi Cunha, professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador do LIM-21.<\/p>\n<p>Foram inclu\u00eddos na pesquisa 123 volunt\u00e1rios divididos em tr\u00eas grupos: dependentes de coca\u00edna que fizeram uso recreativo da maconha (63 pessoas), dependentes de coca\u00edna que n\u00e3o consumiram a erva (24) e grupo controle (36), composto por volunt\u00e1rios saud\u00e1veis e sem hist\u00f3rico de uso de drogas.<\/p>\n<p>Os primeiros resultados mostraram que um m\u00eas ap\u00f3s receberem alta, 77% dos dependentes de coca\u00edna que fumaram maconha mantiveram a abstin\u00eancia. J\u00e1 entre aqueles que n\u00e3o fizeram uso de maconha, 70% n\u00e3o tiveram reca\u00eddas.<\/p>\n<p>Mas tr\u00eas meses ap\u00f3s a interna\u00e7\u00e3o a situa\u00e7\u00e3o se inverteu e a estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de danos mostrou-se pouco efetiva. Entre os que n\u00e3o fumaram maconha, 44% permaneceram sem reca\u00eddas, enquanto s\u00f3 35% dos que fizeram uso recreativo da maconha mantiveram-se abstinentes. Ao fim dos seis meses de acompanhamento, permaneceram sem reca\u00eddas 24% e 19% dos volunt\u00e1rios, respectivamente, mostrando que os pacientes que usavam maconha acabaram recaindo mais no longo prazo.<\/p>\n<p>\u201cOs resultados desbancam a hip\u00f3tese de que o uso recreativo de maconha evitaria reca\u00eddas e ajudaria na recupera\u00e7\u00e3o de dependentes de coca\u00edna. Um quarto daqueles que n\u00e3o fumaram maconha conseguiu controlar o impulso de usar coca\u00edna, enquanto s\u00f3 um quinto n\u00e3o teve reca\u00edda entre os que supostamente se beneficiariam da estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de danos. O uso pregresso de maconha n\u00e3o traz melhoras de progn\u00f3stico no longo prazo, o estudo at\u00e9 sugere o contr\u00e1rio\u201d, disse o psiquiatra Herc\u00edlio Pereira de Oliveira J\u00fanior, primeiro autor do artigo.<\/p>\n<p><strong>Preju\u00edzo cognitivo<\/strong><br \/>\nDe acordo com os resultados, os dois grupos de dependentes de coca\u00edna em reabilita\u00e7\u00e3o apresentaram d\u00e9ficits neurocognitivos importantes em tarefas que inclu\u00edam mem\u00f3ria operacional, velocidade de processamento, controle inibit\u00f3rio, flexibilidade mental e tomada de decis\u00e3o, quando comparados ao grupo controle.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, aqueles que fizeram uso recreativo de maconha apresentaram resultados ainda piores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s chamadas fun\u00e7\u00f5es executivas \u2013 relacionadas \u00e0 capacidade de sustentar a aten\u00e7\u00e3o em determinados contextos, memorizar informa\u00e7\u00f5es e elaborar ou planejar comportamentos mais complexos. Tamb\u00e9m apresentaram lentid\u00e3o no processamento mental e maior dificuldade para frear impulsos. Durante todo o projeto foram realizados testes cognitivos e exames de neuroimagem. Os volunt\u00e1rios tamb\u00e9m fizeram exames de urina para verificar o eventual uso de drogas.<\/p>\n<p>\u201cUm dos limitadores do nosso estudo foi a impossibilidade de analisar o tipo de maconha usada pelos volunt\u00e1rios. Era a droga que eles consumiam em casa ou no seu contexto social\u201d, disse Cunha.<\/p>\n<p>Um preparado de maconha \u00e9 composto por pelo menos 80 tipos diferentes de canabin\u00f3ides. Dois deles t\u00eam maior relev\u00e2ncia: o THC, associado aos efeitos de relaxamento da droga, \u00e0 depend\u00eancia e a danos neurol\u00f3gicos; e o canabidiol, que poderia modular os efeitos do THC. \u201cNosso trabalho n\u00e3o envolveu uma avalia\u00e7\u00e3o espec\u00edfica dos poss\u00edveis efeitos do canabidiol, que pode at\u00e9 ter potencial terap\u00eautico, mas se apresenta em propor\u00e7\u00e3o muito menor na maconha fumada e \u00e9 muito dif\u00edcil de ser extra\u00eddo puro da Cannabis\u201d, disse.<\/p>\n<p>Segundo o professor Cunha, isolar o canabidiol \u00e9 uma das linhas de pesquisa para entender melhor se um comprimido contendo canabidiol pode ter resultados em dependentes de coca\u00edna. \u201cO problema \u00e9 que, primeiro, \u00e9 muito dif\u00edcil isolar o canabidiol para realmente fazer uma medica\u00e7\u00e3o efetiva, porque geralmente os rem\u00e9dios vem com o THC, ent\u00e3o mesmo rem\u00e9dios com canabidiol vendidos, por exemplo, nos EUA e na Europa, t\u00eam tamb\u00e9m um teor de THC alto, e o THC piora o quadro do paciente\u201d, refor\u00e7ou.<\/p>\n<p>Dados do artigo tamb\u00e9m indicam que, quanto mais precoce foi o uso de maconha e coca\u00edna na vida dos dependentes, maiores as chances de reca\u00edda durante a reabilita\u00e7\u00e3o por coca\u00edna. \u201cTrabalhos anteriores demonstraram que a precocidade prejudica o neurodesenvolvimento e a organiza\u00e7\u00e3o de importantes redes neurais no c\u00e9rebro. Portanto, a exposi\u00e7\u00e3o precoce \u00e0 maconha teria um progn\u00f3stico pior n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria maconha, como tamb\u00e9m a outras subst\u00e2ncias\u201d, disse Oliveira J\u00fanior.<\/p>\n<p><strong>Redu\u00e7\u00e3o de danos<\/strong><br \/>\nO uso de subst\u00e2ncias como a metadona (narc\u00f3tico do grupo dos opioides) tem sido considerado uma estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de danos eficaz na reabilita\u00e7\u00e3o de dependentes de hero\u00edna e outras drogas injet\u00e1veis, atingindo, desde os anos 1990, determinado sucesso em diferentes pa\u00edses.<\/p>\n<p>Com base nos resultados com dependentes de hero\u00edna, trabalhos anteriores n\u00e3o controlados vinham sustentando a hip\u00f3tese de que o uso recreativo da maconha poderia ser tamb\u00e9m uma estrat\u00e9gia eficaz na redu\u00e7\u00e3o da fissura em dependentes de coca\u00edna e crack. \u201cIsso resultou, inclusive, na implementa\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es na \u00e1rea de redu\u00e7\u00e3o de danos e pol\u00edticas p\u00fablicas que indicavam o uso da maconha fumada como estrat\u00e9gia para redu\u00e7\u00e3o da ansiedade e fissura pelo uso de coca\u00edna. Nosso estudo contradiz esse tipo de estrat\u00e9gia\u201d, disse Oliveira J\u00fanior.<\/p>\n<p>Cunha explica que a diferen\u00e7a de resultados na pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o de danos entre usu\u00e1rios de hero\u00edna e coca\u00edna ou crack se d\u00e1 pelas peculiaridades de cada droga. \u201cA abstin\u00eancia por hero\u00edna traz sintomas corporais, fisiol\u00f3gicos e biol\u00f3gicos muito rapidamente. Se o usu\u00e1rio fica sem um opioide, come\u00e7a a suar frio, passar mal, pode ter convuls\u00f5es e problemas f\u00edsicos graves\u201d, disse.<\/p>\n<p>O pesquisador afirma que uma estrat\u00e9gia farmacol\u00f3gica de redu\u00e7\u00e3o de danos que ajude na remiss\u00e3o dos sintomas e que seja um passo intermedi\u00e1rio at\u00e9 que o paciente consiga se manter abstinente \u00e9 completamente apropriada.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 o usu\u00e1rio de coca\u00edna em abstin\u00eancia vai ter mais sintomas de humor, como irritabilidade e depress\u00e3o. Pode ter uma depress\u00e3o logo ap\u00f3s cessar o uso, mas nada equipar\u00e1vel aos efeitos f\u00edsicos observados em usu\u00e1rios de drogas injet\u00e1veis. Por isso, nesse caso, s\u00e3o importantes as estrat\u00e9gias comportamentais que ensinam o paciente a lidar melhor com as emo\u00e7\u00f5es e o ajudam a se manter sem uso de drogas, sendo bem mais eficientes em longo prazo\u201d, disse.<\/p>\n<p>De acordo com os pesquisadores, as abordagens mais indicadas s\u00e3o terapia cognitivo-comportamental, manejo de conting\u00eancias (refor\u00e7o de comportamentos desej\u00e1veis) e o tratamento m\u00e9dico-psiqui\u00e1trico de eventuais doen\u00e7as associadas, como depress\u00e3o, transtornos de ansiedade e transtorno de d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o\/hiperatividade (TDAH).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O uso recreativo de maconha como estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de danos para dependentes de crack e coca\u00edna em reabilita\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o ser eficaz, \u00e9 o que mostra uma pesquisa brasileira publicada na revista Drug and Alcohol Dependence. 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