{"id":223454,"date":"2020-01-16T02:00:26","date_gmt":"2020-01-16T05:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=223454"},"modified":"2020-01-16T02:21:05","modified_gmt":"2020-01-16T05:21:05","slug":"maggi-pai-de-blairo-gostava-de-ter-seus-escravos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/maggi-pai-de-blairo-gostava-de-ter-seus-escravos\/","title":{"rendered":"Maggi, pai de Blairo, gostava de ter seus escravos"},"content":{"rendered":"<p>Andr\u00e9 Ant\u00f4nio Maggi, pai do ex-ministro Blairo Maggi (PP), sempre foi visto como um benfeitor, um l\u00edder no campo, um verdadeiro her\u00f3i mato-grossense. Seu nome est\u00e1 registrado em avenidas, ruas, terminais rodovi\u00e1rios e outras instala\u00e7\u00f5es p\u00fablicas em Mato Grosso. Para exaltar sua figura, em abril de 2019 foi lan\u00e7ada a primeira biografia sobre sua hist\u00f3ria, durante um evento de gala em um shopping de Cuiab\u00e1.<\/p>\n<p>O livro, financiado pela Amaggi, multinacional liderada pelo filho do pioneiro, n\u00e3o registra um epis\u00f3dio da vida do \u201cSeo Andr\u00e9\u201d que, at\u00e9 aqui, havia passado batido. No in\u00edcio de maio de 1988, exatamente cem anos ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, Andr\u00e9 Ant\u00f4nio Maggi esteve \u00e0 frente de um epis\u00f3dio de escravid\u00e3o moderna no munic\u00edpio de Aripuan\u00e3, no noroeste de Mato Grosso, a 949 quil\u00f4metros da capital.<\/p>\n<p>Um documento obtido pela reportagem do De Olho Nos Ruralistas mostra que, naquele ano, t\u00e9cnicos do Instituto Brasileiro de Defesa Florestal (IBDF), \u00f3rg\u00e3o mais tarde substitu\u00eddo pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama), encontraram trabalhadores doentes, trabalhando contra a pr\u00f3pria vontade e sofrendo \u201cmaus tratos\u201d.<\/p>\n<p>O documento, classificado na \u00e9poca como \u201cconfidencial\u201d, \u00e9 um relat\u00f3rio do Departamento da Pol\u00edcia Federal (DPF) em Mato Grosso, que acompanhou o IBDF em uma fiscaliza\u00e7\u00e3o sobre desmatamento ilegal na propriedade. Registrado em junho de 1988, o relat\u00f3rio mostra que um destes trabalhadores escravizados, chamado Jos\u00e9 Laerton da Rocha, foi chicoteado por um empreiteiro de Andr\u00e9 Maggi.<\/p>\n<p>O caso ocorreu nas terras da Agropecu\u00e1ria Maggi, na chamada Gleba Jarin\u00e3. Com sede no munic\u00edpio de Rondon\u00f3polis, a empresa foi a antecessora da Amaggi, herdada anos depois por Blairo. Na \u00e9poca, Andr\u00e9 era s\u00f3cio majorit\u00e1rio da empresa e um dos respons\u00e1veis por abrir fazendas nos rinc\u00f5es de Mato Grosso.<\/p>\n<p>\u201cUm dos trabalhadores, Jos\u00e9 Laerton da Rocha, fora a\u00e7oitado com um chicote de couro, por um dos s\u00f3cios de NILCEU na empreitada, conhecido apenas por \u201cS\u00c9RGIO\u201d, fato este comprovado quando os policiais apreenderam o chicote descrito por Jos\u00e9 Laerton na pr\u00f3pria \u00e1rea do desmate\u201d, diz trecho do relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Segundo o documento, Nilceu Reis da Silveira era empreiteiro de Andr\u00e9 Maggi. Ele foi preso em Sinop, a 647 quil\u00f4metros de Aripuan\u00e3, onde ocorreu o registro de escravid\u00e3o, logo depois da fiscaliza\u00e7\u00e3o do IDBF e da Pol\u00edcia Federal. Os agentes apreenderam com ele quatro rev\u00f3lveres, tr\u00eas rifles e nove espingardas, entre outras armas, al\u00e9m de uma s\u00e9rie de muni\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Testemunha viva<\/strong><br \/>\nNa biografia de Andr\u00e9 Maggi, o empres\u00e1rio pioneiro \u00e9 lembrado como um sujeito humilde, que tamb\u00e9m pegou no cabo da enxada antes de enriquecer, que saiu do nada e alcan\u00e7ou tudo. S\u00e3o v\u00e1rios os relatos da \u201csimplicidade\u201d do Seo Andr\u00e9, que enriqueceu com a soja produzida no Cerrado mato-grossense e deixou ao filho um patrim\u00f4nio enorme, mais tarde multiplicado.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00e3o todos que viam o fazendeiro desta forma. Para alguns, que se tornaram inimigos, Andr\u00e9 era o vil\u00e3o da hist\u00f3ria. Pelo menos \u00e9 o que contam familiares do fazendeiro Jos\u00e9 Leonel Franco, homem que denunciou o caso de escravid\u00e3o na Gleba Jarin\u00e3. Franco, que disputava a \u00e1rea com Maggi, fez a den\u00fancia ao IDBF de Sinop.<\/p>\n<p>A esposa de Jos\u00e9 Leonel Franco, Mercedes Abeg\u00e3o, que ainda est\u00e1 viva, relata que epis\u00f3dios como esse fizeram a fam\u00edlia viver acuada. Mercedes falou com a reportagem por meio do filho, Mois\u00e9s Leonel Franco, que tinha 4 anos na \u00e9poca da den\u00fancia.<\/p>\n<p>\u201cMinha m\u00e3e me contou que meu pai fez den\u00fancias a respeito de v\u00e1rias pessoas na \u00e9poca, inclusive eles tiveram que se esconder para n\u00e3o serem mortos\u201d, explicou Mois\u00e9s. \u201cNaquele per\u00edodo todo mundo matava todo mundo\u201d<\/p>\n<p>Mercedes Abeg\u00e3o, talvez a \u00fanica testemunha viva do epis\u00f3dio, mora atualmente em um abrigo no munic\u00edpio de Presidente Venceslau, em S\u00e3o Paulo. Mercedes tem 83 anos, sofre de Alzheimer e est\u00e1 debilitada.<\/p>\n<p>A AMaggi Commodities ficou no nono lugar em lista da Exame, publicada em abril de 2019, sobre as 400 maiores empresas do agroneg\u00f3cio no Brasil. Entre as empresas brasileiras, a quinta, com US$ 4 bilh\u00f5es em vendas l\u00edquidas em 2018. O lucro naquele ano foi de US$ 89 milh\u00f5es. N\u00famero de trabalhadores, 7.838.<\/p>\n<p><strong>Explora\u00e7\u00e3o \u00e9 antiga<\/strong><br \/>\nProfessor-doutor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Vitale Janoni Neto explica que este fen\u00f4meno \u00e9 provocado pela desigualdade. Trata-se, segundo ele, de uma quest\u00e3o econ\u00f4mica e n\u00e3o cultural. Especialista em hist\u00f3ria de Mato Grosso e no tema da escravid\u00e3o contempor\u00e2nea, cita uma s\u00e9rie de registros ao longo do s\u00e9culo 20 que, em s\u00edntese, demonstram que pessoas paup\u00e9rrimas s\u00e3o exploradas porque j\u00e1 n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de vida antes de serem escravizadas.<\/p>\n<p>\u201cPor mais que este trabalho seja absurdamente cruel, o trabalhador escravizado j\u00e1 n\u00e3o tinha nenhum direito antes\u201d, diz. \u201cAntes dele come\u00e7ar a fazer isso, ele j\u00e1 era um sub-cidad\u00e3o, ele j\u00e1 n\u00e3o tinha nenhum direito\u201d.<\/p>\n<p>Esse modelo de explora\u00e7\u00e3o, conforme argumenta o pesquisador, vem do per\u00edodo colonial, quando poucas pessoas tinham enorme quantidade de terras, poder sobre as comunidades locais e sobre o aparato de pol\u00edcia. O fen\u00f4meno se repetiu durante a ditadura de 1964, quando a explora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia era provocada e incentivada pelo governo:<\/p>\n<p>\u2014 Quando estas pessoas [pioneiros] vieram para c\u00e1, precisavam de m\u00e3o de obra. Essa m\u00e3o de obra veio do Nordeste, estes trabalhadores foram usados nas frentes de trabalho, no desmatamento, na forma\u00e7\u00e3o de pasto e em outras atividades. O local onde h\u00e1 mais registros de escravid\u00e3o \u00e9 no Araguaia, mas voc\u00ea encontra casos do tipo em toda faixa de Amaz\u00f4nia do estado, de S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia, que est\u00e1 no leste, at\u00e9 Rondol\u00e2ndia, no oeste.<\/p>\n<p><strong>Resposta da Amaggi<\/strong><br \/>\n\u201cO teor do relato contido no documento anexo nunca ensejou instaura\u00e7\u00e3o de inqu\u00e9rito ou mesmo medida judicial contra a companhia, que desconhece a ocorr\u00eancia de abusos ou de situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 de trabalho escravo em qualquer uma de suas unidades. A companhia se posiciona veementemente contra tais pr\u00e1ticas e desde 2004 \u00e9 signat\u00e1ria do Pacto Nacional pela Erradica\u00e7\u00e3o do Trabalho Escravo, iniciativa da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil.<\/p>\n<p>J\u00e1 o mencionado auto de infra\u00e7\u00e3o por irregularidade no desmate foi invalidado mediante comprova\u00e7\u00e3o de que, \u00e0 \u00e9poca, a companhia (Agropecu\u00e1ria Maggi) detinha a devida autoriza\u00e7\u00e3o. Tanto que a \u00e1rea foi desembargada para a retomada da atividade produtiva em 31 de maio de 1988, pelo ent\u00e3o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) de Mato Grosso. A fazenda em quest\u00e3o, entretanto, h\u00e1 mais de 20 anos n\u00e3o pertence mais \u00e0 AMAGGI\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andr\u00e9 Ant\u00f4nio Maggi, pai do ex-ministro Blairo Maggi (PP), sempre foi visto como um benfeitor, um l\u00edder no campo, um verdadeiro her\u00f3i mato-grossense. Seu nome est\u00e1 registrado em avenidas, ruas, terminais rodovi\u00e1rios e outras instala\u00e7\u00f5es p\u00fablicas em Mato Grosso. 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