{"id":223566,"date":"2020-01-17T19:29:57","date_gmt":"2020-01-17T22:29:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=223566"},"modified":"2020-01-17T19:31:26","modified_gmt":"2020-01-17T22:31:26","slug":"imortal-pobreza-cresce-junto-com-capitalismo-frio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/imortal-pobreza-cresce-junto-com-capitalismo-frio\/","title":{"rendered":"Imortal, pobreza cresce junto com capitalismo frio"},"content":{"rendered":"<p>O crescimento das desigualdades no mundo, o agravamento da crise clim\u00e1tica, o caos pol\u00edtico generalizado e a proje\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2013 ONU de que em a popula\u00e7\u00e3o mundial chegar\u00e1 a 9,7 bilh\u00f5es de pessoas exigem uma reorienta\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico-econ\u00f4mico global. Na pr\u00e1tica, isso significa, entre outras coisas, que \u00e9 preciso \u201corientar a economia para o bem-estar das fam\u00edlias, n\u00e3o para o bem-estar dos mercados que geram mais Wall Street, mais para\u00edsos fiscais e coisas do g\u00eanero\u201d, diz o economista Ladislau Dowbor.<\/p>\n<p>Ao propor uma mudan\u00e7a na governan\u00e7a global, ele acentua que um dos principais desafios da economia neste s\u00e9culo \u00e9 resolver o problema das desigualdades. Somente no Brasil, informa, 206 bilion\u00e1rios \u201caumentaram as suas fortunas em 230 bilh\u00f5es de reais\u201d no \u00faltimo ano, em que a economia esteve praticamente estagnada. Enquanto isso, lamenta,programas sociais como o \u201cBolsa Fam\u00edlia consomem 30 bilh\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>No atual est\u00e1gio do capitalismo, assegura, \u201cn\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o para haver mis\u00e9ria no planeta. Se dividirmos os 85 trilh\u00f5es de d\u00f3lares que temos de PIB mundial pela popula\u00e7\u00e3o, isso equivale a 11 mil reais por m\u00eas, por fam\u00edlia de quatro pessoas. Isso \u00e9 amplamente suficiente para todos viverem de maneira digna e confort\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp, o economista tamb\u00e9m comenta a proposta do papa Francisco de que jovens economistas reflitam sobre as possibilidades de desenvolver uma \u201ceconomia diferente\u201d, que \u201cinclui\u201d, \u201chumaniza\u201d e \u201ccuida da cria\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cN\u00f3s temos que ampliar o debate e essa \u00e9 a motiva\u00e7\u00e3o central do Papa nesse processo, porque estamos enfrentando um caos pol\u00edtico generalizado, e a desigualdade, em particular, gerou uma imensa inseguran\u00e7a nas popula\u00e7\u00f5es\u201d, pontua.<\/p>\n<p>Veja trechos:<\/p>\n<p><strong>Como o senhor interpreta a convoca\u00e7\u00e3o do Papa para que jovens economistas reflitam sobre as possibilidades de uma nova economia?<\/strong><\/p>\n<p>O fato de chamar jovens ajuda muito, pois temos que investir na generaliza\u00e7\u00e3o de novas vis\u00f5es. Est\u00e3o tamb\u00e9m convidando diversos pa\u00edses, o que \u00e9 muito bom, pois tem pa\u00eds rico, pobre, e pessoas de diversas \u00e1reas que, evidentemente, n\u00e3o s\u00e3o apenas economistas, mas pessoas das ci\u00eancias sociais, engenheiros, empres\u00e1rios. Ou seja, \u00e9 um ambiente que permite construir novas vis\u00f5es. N\u00f3s temos que ampliar o debate e essa \u00e9 a motiva\u00e7\u00e3o central do Papa nesse processo, porque estamos enfrentando um caos pol\u00edtico generalizado, a desigualdade, em particular, gerou uma imensa inseguran\u00e7a nas popula\u00e7\u00f5es e essa inseguran\u00e7a est\u00e1 sendo aproveitada por demagogos do tipo [Donald] Trump, [Jair] Bolsonaro, [Recep Tayyip] Erdo\u011fan, na Turquia, e [Rodrigo] Duterte, nas Filipinas; o caos est\u00e1 se generalizando. N\u00f3s precisamos \u2014 no sentido mais forte \u2014 construir novos caminhos, porque esse sistema n\u00e3o est\u00e1 funcionando.<\/p>\n<p><strong>Em que contexto surge a proposta do Papa e quais s\u00e3o as raz\u00f5es que o motivam a discutir uma nova economia no atual momento hist\u00f3rico?<\/strong><\/p>\n<p>Na realidade, n\u00e3o h\u00e1 muitas diverg\u00eancias quanto ao desastre que se criou. N\u00f3s somos 7,7 bilh\u00f5es de habitantes. Todo mundo est\u00e1 querendo consumir mais e isso n\u00e3o est\u00e1 funcionando. Os efeitos disso s\u00e3o o aquecimento global, a liquida\u00e7\u00e3o da cobertura florestal do planeta, da vida nos mares e dos insetos, enfim, \u00e9 s\u00f3 ver o muro das lamenta\u00e7\u00f5es que os diversos cientistas de diversas \u00e1reas est\u00e3o criando. Em termos ambientais, o fato \u00e9 que estamos destruindo o planeta.<\/p>\n<p>O segundo ponto \u00e9 que estamos destruindo o planeta para uma minoria e a desigualdade est\u00e1 atingindo n\u00edveis absolutamente insustent\u00e1veis. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para haver tanta mis\u00e9ria, para haver, por exemplo, 850 milh\u00f5es de pessoas passando fome, porque s\u00f3 de cereais produzimos mais de um quilo por dia por habitante. Ent\u00e3o, o nosso problema \u00e9 de organiza\u00e7\u00e3o social, de governan\u00e7a. Veja bem: n\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o para haver mis\u00e9ria no planeta. Se dividirmos os 85 trilh\u00f5es de d\u00f3lares que temos de PIB mundial pela popula\u00e7\u00e3o, isso equivale a 11 mil reais por m\u00eas, por fam\u00edlia de quatro pessoas. Isso \u00e9 amplamente suficiente para todos viverem de maneira digna e confort\u00e1vel, mesmo sem precisar de uma igualdade opressiva. Basta reduzir um pouco essa desigualdade obscena que existe.<\/p>\n<p>O terceiro elemento dessa situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica \u00e9 que n\u00e3o existe falta de recursos, pois o planeta tem, em para\u00edsos fiscais, cerca de 20 trilh\u00f5es de d\u00f3lares. Isso \u00e9 200 vezes aqueles 100 bilh\u00f5es que a Confer\u00eancia de Paris decidiu alocar para salvar o planeta do desastre ambiental. O problema \u00e9 de organiza\u00e7\u00e3o social; n\u00e3o \u00e9 econ\u00f4mico.<\/p>\n<p><strong>O Papa prop\u00f5e uma economia \u201cque faz viver e n\u00e3o mata, inclui e n\u00e3o exclui, humaniza e n\u00e3o desumaniza, cuida da cria\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a depreda\u201d e afirma que \u00e9 preciso \u201cre-almar a economia\u201d. Ele prop\u00f5e tamb\u00e9m a necessidade de \u201ccorrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito ao meio ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado da fam\u00edlia, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores e os direitos das futuras gera\u00e7\u00f5es\u201d. Em termos econ\u00f4micos, o que essa iniciativa implica? Que altera\u00e7\u00f5es precisam ser feitas nos modelos econ\u00f4micos para seguir a proposta do Papa?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso uma altera\u00e7\u00e3o sist\u00eamica, porque estamos organizando as corpora\u00e7\u00f5es, os governos e todas as atividades em fun\u00e7\u00e3o do enriquecimento de grupos financeiros, os chamados mercados, que geram fortunas, mas n\u00e3o resolvem os problemas. Ent\u00e3o, o eixo de orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 relativamente simples: temos que usar os imensos recursos financeiros que s\u00e3o essencialmente improdutivos e est\u00e3o nas m\u00e3os dos grandes grupos financeiros, como bancos e investidores institucionais, para financiar a mudan\u00e7a da pol\u00edtica ambiental. Isso significa mudar a matriz energ\u00e9tica, a matriz de transporte, criar uma agricultura menos destrutiva e tamb\u00e9m reduzir e enfrentar de maneira direta a desigualdade, o que implica, essencialmente, organizar a inclus\u00e3o produtiva das pessoas. N\u00f3s temos os recursos financeiros, temos as tecnologias, sabemos onde est\u00e3o os problemas; \u00e9 uma quest\u00e3o de reorienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para mim, as a\u00e7\u00f5es priorit\u00e1rias s\u00e3o, primeiro, gerar a transpar\u00eancia dos fluxos financeiros, dos estoques em para\u00edsos fiscais e coisas do g\u00eanero. Isto \u00e9, saber onde est\u00e3o os recursos e como est\u00e3o sendo utilizados. Segundo, temos que gerar impostos sobre o capital improdutivo, impostos sobre os capitais parados, sobre os imensos patrim\u00f4nios acumulados. Por meio de Thomas Piketty e um conjunto de economistas, sabemos precisamente o que deve ser feito.<\/p>\n<p>Quando olhamos os estudos sobre as grandes fortunas no Brasil \u2014 206 bilion\u00e1rios \u2014, vemos algo simplesmente rid\u00edculo, pois um homem como Joseph Safra tem, por exemplo, 95 bilh\u00f5es de reais que poderiam ser investidos em uma coisa \u00fatil e servem apenas para especula\u00e7\u00e3o financeira. S\u00f3 nos \u00faltimos 10, 12 meses, ele aumentou sua fortuna em 19 bilh\u00f5es. A fam\u00edlia Marinho atrasa seus impostos e tem uma fortuna acumulada de 33 bilh\u00f5es de reais \u2014 isso \u00e9 mais que a totalidade do Bolsa Fam\u00edlia para 45 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, gerar essa transpar\u00eancia, gerar um imposto sobre o capital improdutivo e descentralizar o financiamento de maneira que em cada cidade, em cada comunidade haja uma reapropria\u00e7\u00e3o do controle sobre o uso dos recursos financeiros e tecnol\u00f3gicos, \u00e9 fundamental. Isso funciona na Alemanha, na China, no Canad\u00e1 e na Su\u00e9cia. N\u00e3o \u00e9 preciso inventar grandes coisas e nem grandes \u201cismos ideol\u00f3gicos\u201d; basta simplesmente tornar os recursos \u00fateis.<\/p>\n<p><strong>O Papa tamb\u00e9m convida todos n\u00f3s a revermos \u201cnossos esquemas mentais e morais, para que possam estar mais em conformidade com os mandamentos de Deus e com as exig\u00eancias do bem comum\u201d. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia, quais s\u00e3o os esquemas mentais e morais que a fundamentam e precisam ser superados?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um deslocamento \u00e9tico radical que \u00e9 o seguinte: n\u00f3s devemos deslocar o conceito de sucesso de quem \u201carranca mais\u201d e fica demonstrando quantos bilh\u00f5es tem e passar para algo b\u00e1sico. Luiz Pasteur \u00e9 reconhecido mundialmente n\u00e3o porque conseguiu \u201carrancar\u201d mais para si, mas, sim, porque conseguiu contribuir mais para o planeta. Ent\u00e3o, o deslocamento de atitude \u00e9tica fundamental \u00e9 passarmos dessa ideia de sucesso como capacidade de \u201carrancar\u201d, de ser mais esperto, para o sucesso visto como a pessoa que mais contribui para a nossa espa\u00e7onave Terra, para que vivamos melhor.<\/p>\n<p>Um segundo eixo \u00e9 que estamos na era da economia do conhecimento e o conhecimento \u00e9 diferente da m\u00e1quina ou do produto f\u00edsico: se passo o conhecimento para algu\u00e9m, continuo com ele. Por exemplo, toda a pesquisa mundial sobre genoma se faz de maneira colaborativa entre centenas de laborat\u00f3rios, porque na era do conhecimento os sistemas colaborativos s\u00e3o muito mais produtivos do que a competi\u00e7\u00e3o, em que cada um tenta esconder sua produ\u00e7\u00e3o e tenta reinventar a roda; esse deslocamento \u00e9 fundamental para a sociedade.<\/p>\n<p>A atitude \u00e9tica b\u00e1sica de que o merecimento se deve para a pessoa que mais contribui e n\u00e3o para a pessoa que mais \u201carranca\u201d, e que temos que nos deslocar da filosofia da competi\u00e7\u00e3o e da guerra de todos contra todos para a filosofia da colabora\u00e7\u00e3o para o bem-estar das popula\u00e7\u00f5es e do planeta, \u00e9 o deslocamento efetivo que precisamos em termos de vis\u00e3o de mundo.<\/p>\n<p><strong>Que tipos de crit\u00e9rios determinariam, na sua avalia\u00e7\u00e3o, uma sociedade economicamente vi\u00e1vel, socialmente justa e ambientalmente sustent\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p>Os crit\u00e9rios n\u00f3s j\u00e1 sabemos: \u00e9 uma sociedade ambientalmente sustent\u00e1vel, socialmente justa e economicamente vi\u00e1vel. Para isso, n\u00f3s tivemos imensas reuni\u00f5es planet\u00e1rias com cientistas, pol\u00edticos e empresas e se chegou aos Objetivos do Desenvolvimento Sustent\u00e1vel &#8211; ODS, a chamada Agenda 2030. Esses objetivos s\u00e3o perfeitamente ating\u00edveis, mas exigem a reorganiza\u00e7\u00e3o de como se governa. Em termos pr\u00e1ticos, para atingir os Objetivos do Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, temos que orientar a economia para o bem-estar efetivo das fam\u00edlias, e n\u00e3o para o bem-estar dos mercados que geram mais Wall Street, mais para\u00edsos fiscais e coisas do g\u00eanero. E o que \u00e9 o bem-estar das fam\u00edlias? \u00c9, de um lado, ter dinheiro no bolso para conseguir pagar o transporte, o aluguel e comprar a camisa e ter, tamb\u00e9m, acesso aos bens de consumo coletivo: a pessoa n\u00e3o compra seu hospital e sua escola, ela tem que ter acesso a bens p\u00fablicos de acesso gratuito e universal, porque isso simplesmente \u00e9 mais produtivo. Isso n\u00e3o \u00e9 complicado: n\u00f3s podemos aumentar o bem-estar das fam\u00edlias sem gerar desastre ambiental, porque aumentar o bem-estar n\u00e3o significa comprar mais p\u00e1s de pl\u00e1stico e coisas do g\u00eanero, mas, sim, ampliar o acesso \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 cultura, ou seja, todos esses bens que enriquecem as nossas vidas sem destruir o meio ambiente. Isso significa mudar a contabilidade, porque o PIB calcula apenas o ritmo de uso dos recursos no planeta, mas n\u00e3o calcula nem os impactos ambientais nem os impactos em termos de bem-estar das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>O objetivo dessa reorienta\u00e7\u00e3o nos leva a mudar as contas nacionais, e o melhor exemplo \u00e9 justamente o trabalho de Kate Raworth, que est\u00e1 publicado no Brasil sob o t\u00edtulo \u201cEconomia Donut: uma alternativa ao crescimento a qualquer custo\u201d [1\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Zahar, 2019. Tradu\u00e7\u00e3o: George Schlesinger], que \u00e9 uma forma de contabiliza\u00e7\u00e3o dos resultados e n\u00e3o apenas do ritmo de atividade econ\u00f4mica. No conjunto, saber os ODS, nos orientarmos para o bem-estar das fam\u00edlias, tanto no que diz respeito \u00e0 renda como no acesso a bens de consumo coletivo, e adequar o sistema de contabilidade correspondente \u00e9 o que tra\u00e7a um norte perfeitamente compreens\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Os economistas favor\u00e1veis ao capitalismo alegam que ele foi o sistema que mais possibilitou a cria\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o de riquezas. Os cr\u00edticos, por sua vez, argumentam que esse sistema n\u00e3o consegue distribuir as riquezas e gera in\u00fameras desigualdades sociais. Como avalia o processo de desenvolvimento da economia capitalista? Quais s\u00e3o seus pontos positivos, limites e desafios?<\/strong><\/p>\n<p>O capitalismo se tornou global, enquanto os governos s\u00e3o nacionais: se um governo decide fazer uma mudan\u00e7a de impostos ou de taxas de juros, os capitais fogem, se movimentam internacionalmente e v\u00e3o para para\u00edsos fiscais, os governos se desarticulam e essa impot\u00eancia gera tamb\u00e9m o caos pol\u00edtico. O que temos de compreender \u00e9 que o capitalismo mudou, porque ainda temos na cabe\u00e7a a ideia de um investidor de verdade \u2014 n\u00e3o o que faz aplica\u00e7\u00f5es financeiras, mas o que investe em produtos \u2014, que compra m\u00e1quinas para produzir sapatos, por exemplo, pega cr\u00e9dito para financiar a produ\u00e7\u00e3o, contrata m\u00e3o de obra, portanto est\u00e1 gerando empregos, est\u00e1 produzindo sapatos que poder\u00e3o ser usados e est\u00e1 pagando impostos com os quais o governo vai poder financiar as infraestruturas e o acesso \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 escola e aos bens p\u00fablicos de acesso universal \u2014 isso \u00e9 o que as pessoas pensam quando falam em capitalismo. O que elas n\u00e3o veem \u00e9 que o sistema mudou: n\u00e3o \u00e9 mais o lucro sobre a produ\u00e7\u00e3o; \u00e9 o rentismo sobre a especula\u00e7\u00e3o. Os imensos capitais que est\u00e3o nas m\u00e3os de Wall Street, nos grandes para\u00edsos fiscais, como Su\u00ed\u00e7a, Holanda, Ilhas Cayman, no Panam\u00e1, rendem para os especuladores.<\/p>\n<p>Tem uma coisa b\u00e1sica que Piketty ajudou a entender claramente: produzir exige esfor\u00e7o, ent\u00e3o, o crescimento no mundo de bens e servi\u00e7os \u00e9 na ordem de 2%, 2,5% ao ano. Agora, quem aplica seu dinheiro em t\u00edtulos de d\u00edvidas de diversos pap\u00e9is financeiros, em commodities e coisas do g\u00eanero, tem tido um rendimento de 7% a 9% nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O que faz o capitalista que enriqueceu? Todos aqueles que t\u00eam reservas financeiras hoje em dia, em vez de investir, que \u00e9 arriscado, trabalhoso, tem que produzir, simplesmente compram pap\u00e9is. In\u00fameras institui\u00e7\u00f5es, bancos, holdings, financeiras e todo o sistema Shadow banking ajudam as pessoas a investir, mas isso n\u00e3o \u00e9 investimento; \u00e9 aplica\u00e7\u00e3o financeira. Na realidade, se desviam os recursos para sistemas especulativos. Esta \u00e9 uma mudan\u00e7a radical: onde se tinha produ\u00e7\u00e3o material de bens e servi\u00e7os e lucro, hoje se tem, essencialmente, especula\u00e7\u00e3o e rentismo; isso desfigurou o capitalismo. Ele foi produtivo, sim, mas n\u00e3o est\u00e1 mais sendo produtivo. Hoje temos enriquecimento improdutivo, um crescimento p\u00edfio, desigualdade e destrui\u00e7\u00e3o ambiental, portanto esse sistema n\u00e3o est\u00e1 funcionando.<\/p>\n<p><strong>Que desafios as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas imp\u00f5em ao atual modelo econ\u00f4mico-pol\u00edtico-social?<\/strong><\/p>\n<p>A mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 t\u00edpica dos novos desafios, porque nossos problemas eram locais, regionais ou nacionais, as economias eram nacionais ou locais e t\u00ednhamos o com\u00e9rcio exterior para as trocas. Agora n\u00e3o; n\u00f3s temos um sistema global e as emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono ou g\u00e1s de efeito estufa dos Estados Unidos ou da China v\u00e3o impactar o planeta todo. A destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, a liquida\u00e7\u00e3o da vida nos mares e a acidifica\u00e7\u00e3o dos oceanos impacta todo o planeta. N\u00f3s estamos, de certa maneira, desafiados a enfrentar problemas que s\u00e3o globais, enquanto estamos divididos em 193 na\u00e7\u00f5es, cada uma tentando puxar para o seu lado. Isso, obviamente, \u00e9 um disfuncionamento sist\u00eamico. O que precisamos introduzir e o que temos dificuldade como seres humanos, porque temos a tend\u00eancia de pensar no curto prazo e num problema de cada vez, de forma fracionada, \u00e9 pensar de maneira sist\u00eamica e no longo prazo. Para n\u00f3s, 2050 \u00e9 l\u00e1 longe; n\u00e3o \u00e9. Ou seja, os dados do desastre que ser\u00e1 2050 j\u00e1 est\u00e3o na rua, j\u00e1 est\u00e3o irrecuper\u00e1veis e, em grande parte, 2050 j\u00e1 est\u00e1 determinado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, essa mudan\u00e7a \u00e9 absolutamente essencial: \u00e9 preciso uma vis\u00e3o de longo prazo, que pense de maneira sist\u00eamica e conjuntamente os sistemas e os impactos n\u00e3o s\u00f3 econ\u00f4micos, mas sociais e culturais. Uma segunda dimens\u00e3o desse processo \u00e9 o resgate da governan\u00e7a correspondente para enfrentarmos isso, o que implica, em primeiro lugar, democratizar o processo decis\u00f3rio. Como \u00e9 que n\u00f3s, no planeta, decidimos nosso futuro? Por enquanto, s\u00e3o as grandes corpora\u00e7\u00f5es que fazem o que querem atrav\u00e9s de movimenta\u00e7\u00f5es financeiras, mas n\u00f3s temos que democratizar as decis\u00f5es, temos que assegurar transpar\u00eancia dos fluxos para que a popula\u00e7\u00e3o possa estar informada e temos que gerar sistemas de comunica\u00e7\u00e3o que permitam que se criem processos de produ\u00e7\u00e3o de consensos democr\u00e1ticos; \u00e9 o caminho que se tem pela frente, o resto leva ao desastre.<\/p>\n<p><strong>Ao refletir sobre a proposta do Papa, o senhor disse recentemente que \u201co grande desafio \u00e9 o da governan\u00e7a do sistema, desafio sem d\u00favida t\u00e9cnico, mas sobretudo \u00e9tico e pol\u00edtico\u201d. Pode explicar essa ideia? Por que a governan\u00e7a do sistema \u00e9 o ponto central a ser enfrentado, na sua avalia\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>O ponto central \u00e9 que temos uma economia mundializada e os governos s\u00e3o nacionais, logo, h\u00e1 um desajuste entre os meios e os fins. N\u00f3s n\u00e3o temos um governo planet\u00e1rio, apesar de termos problemas planet\u00e1rios. Um segundo eixo \u00e9 que o poder dominante, hoje, \u00e9 corporativo. Quando vemos um desastre em Mariana com a Samarco, se pensa: \u201cComo isso \u00e9 poss\u00edvel?\u201d. A Samarco \u00e9 riqu\u00edssima, transfere milh\u00f5es para as empresas controladoras, para os grandes grupos financeiros, seja da BHP Billiton, do Bradesco e da Vale. O Brasil construiu Itaipu, n\u00f3s temos engenheiros e pessoas que entendem desse processo, mas quem manda n\u00e3o s\u00e3o os engenheiros, s\u00e3o os grupos financeiros que controlam as empresas, e os conselhos de administra\u00e7\u00e3o das empresas recebem seu b\u00f4nus em fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o de quanto investem no futuro da empresa, mas baseado no quanto conseguem extrair para os acionistas, e em fun\u00e7\u00e3o de quanto os acionistas ganham \u00e9 que ser\u00e1 calculado o b\u00f4nus.<\/p>\n<p>Esse sistema \u00e9 disfuncional porque essas grandes corpora\u00e7\u00f5es, hoje, s\u00e3o dominantes no planeta e s\u00e3o dominadas, essencialmente, por um grupo de 28 bancos, que chamamos internacionalmente de Systemically Important Financial Institution &#8211; SIFIs, que t\u00eam ativos que se aproximam do PIB mundial, ou seja, quem manda realmente n\u00e3o \u00e9 o governo, quem manda no governo s\u00e3o os lucros financeiros. Os americanos t\u00eam uma excelente express\u00e3o para isso: \u201choje \u00e9 o rabo que abana o cachorro\u201d. Antes, as finan\u00e7as eram um complemento que ajudava a dinamizar e financiar a produ\u00e7\u00e3o; hoje, tornou-se um sistema extrativo, capitalismo extrativo. O que n\u00f3s temos \u2014 isso \u00e9 estudado por [Joseph] Stiglitz e v\u00e1rios outros cientistas \u2014 n\u00e3o \u00e9 um embate entre o Estado e as empresas, mas sim uma apropria\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico pelas pr\u00f3prias empresas, pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es financeiras. A partir de certo grau de poder financeiro, o poder pol\u00edtico tem que se submeter, o que naturalmente est\u00e1 liquidando o pouco que nos resta de democracia.<\/p>\n<p><strong>Do ponto de vista das faculdades de economia, que programas podem ser adotados para repensar a economia nos moldes que o Papa prop\u00f5e?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s temos uma forma de ensino da economia que \u00e9 pr\u00e9-hist\u00f3rica, corresponde a outro tipo de capitalismo, a outro sistema e a outro tempo. Precisamos trabalhar menos por disciplinas e mais de maneira integrada e por problemas. Na Finl\u00e2ndia, na escola secund\u00e1ria, j\u00e1 n\u00e3o se trabalha por disciplina, mas sim por problemas-chave. A resolu\u00e7\u00e3o de um problema demogr\u00e1fico, cultural ou ambiental tem dimens\u00f5es pol\u00edticas, financeiras, jur\u00eddicas e sociais. Portanto, aprender a cruzar essas diversas \u00e1reas \u00e9 fundamental. Por exemplo, o direito n\u00e3o estuda a economia e a economia n\u00e3o estuda o direito? O que \u00e9 o direito? S\u00e3o as regras do jogo e a economia funciona de acordo com as regras do jogo. Ent\u00e3o, n\u00e3o faz nenhum sentido separarmos de forma que uns estudem os mecanismos na economia e outros estudem as regras no direito e um n\u00e3o saiba qual se aplica a qual. N\u00f3s temos que, inclusive, juntar \u00e1reas cient\u00edficas, como medicina e estudos clim\u00e1ticos, para que a economia passe a ser um instrumento muito mais rico, porque a economia n\u00e3o \u00e9 uma \u00e1rea em si, n\u00e3o \u00e9 ind\u00fastria nem com\u00e9rcio, \u00e9 uma dimens\u00e3o de cada \u00e1rea. A seguran\u00e7a tem uma dimens\u00e3o econ\u00f4mica, assim como construir casas e as transforma\u00e7\u00f5es do uso do solo t\u00eam uma dimens\u00e3o econ\u00f4mica. De certa forma, temos que reaproximar a economia dos problemas aos quais ela precisa ajudar a responder.<\/p>\n<p>Eu trabalharia, portanto, por problemas, de forma interdisciplinar e interinstitucional. Hoje estamos todos conectados no mundo e podemos perfeitamente organizar cada faculdade, universidade, institui\u00e7\u00e3o ou grupo de trabalho sob um problema-chave e ver como esse problema-chave est\u00e1 sendo trabalhado em T\u00f3quio, em Frankfurt ou em qualquer parte do mundo. Inclusive, os tradutores online est\u00e3o se tornando perfeitamente aceit\u00e1veis, ou seja, \u00e9 uma outra dimens\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que temos pela frente.<\/p>\n<p><strong>Entre os pesquisadores das \u00e1reas econ\u00f4mica e ambiental que participar\u00e3o do evento \u201cEconomia de Francisco\u201d, destacam-se nomes como Jeffrey Sachs, Joseph Stiglitz, Amartya Sen, Vandana Shiva, Muhammad Yunus e Kate Raworth. O que esses te\u00f3ricos t\u00eam em comum e que contribui\u00e7\u00f5es podem oferecer \u00e0 proposta do Papa?<\/strong><\/p>\n<p>O que eles t\u00eam em comum \u2014 n\u00e3o s\u00e3o pessoas de esquerda ou com afinidade ideol\u00f3gica \u2014 \u00e9 que s\u00e3o pessoas de bom senso. Joseph Stiglitz foi economista-chefe do Banco Mundial e do governo [Bill] Clinton e se deu conta de que esse sistema n\u00e3o funciona. Hoje ele tem um Nobel de Economia, mas o essencial \u00e9 que ele tem uma vis\u00e3o de conjunto. O livro dele chamado \u201cPeople, Power, and Profits: Progressive Capitalism for an Age of Discontent\u201d redimensiona a articula\u00e7\u00e3o das transforma\u00e7\u00f5es da sociedade.<\/p>\n<p>Jeffrey Sachs trabalha mais os problemas da desigualdade. No in\u00edcio de sua produ\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o era muito recomend\u00e1vel e hoje se tornou um batalhador extremamente confi\u00e1vel por uma economia que funcione.<\/p>\n<p>Amartya Sen nos trouxe a imensa transforma\u00e7\u00e3o da compreens\u00e3o de que n\u00e3o se trata apenas de pobreza e, portanto, de dar um dinheirinho para os pobres, mas de assegurar a cada pessoa a oportunidade para construir a vida que ela deseja. \u00c9 uma vis\u00e3o muito mais complexa da exclus\u00e3o que a pobreza est\u00e1 criando; trata-se de gerar essa dimens\u00e3o humana de direito de constru\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Vandana Shiva trabalha de maneira extremamente forte o problema do conflito entre as necessidades humanas e o desajuste profundo que as corpora\u00e7\u00f5es est\u00e3o criando, que simplesmente querem arrancar o que podem e est\u00e3o apenas recentemente come\u00e7ando a fazer proclama\u00e7\u00f5es de que devem se preocupar com os impactos ambientais, sociais e econ\u00f4micos do que fazem.<\/p>\n<p>Muhammad Yunus descobriu que um pouco de cr\u00e9dito muito barato \u2014 n\u00e3o com juros extorsivos \u2014 na base da sociedade dinamiza a economia de maneira radical, inclusive, em particular, ao dinamizar as capacidades econ\u00f4micas das mulheres. O Grameen Bank \u00e9 um exemplo mundial. Yunus tamb\u00e9m recebeu um Pr\u00eamio Nobel. Ali\u00e1s, \u00e9 caracter\u00edstico que deram um Nobel da Paz para ele e n\u00e3o um de Economia, porque nunca os economistas dariam um Pr\u00eamio Nobel para algu\u00e9m que est\u00e1 dizendo que o dinheiro na base da sociedade \u00e9 mais produtivo do que o dinheiro nos cofres dos banqueiros.<\/p>\n<p>Kate Raworth nos traz com o livro \u201cA Economia Donut\u201d, que j\u00e1 existe em portugu\u00eas, uma excelente vis\u00e3o de como fazer contas nacionais que fa\u00e7am sentido. Em vez de fazer do PIB uma arma essencialmente ideol\u00f3gica, ela sugere pegar o que s\u00e3o os excessos que precisamos reduzir, por exemplo, emiss\u00f5es de gases de efeito estufa e destrui\u00e7\u00e3o florestal e, por outro lado, as coisas que s\u00e3o insuficientes, como pessoas subnutridas \u2014 temos 850 milh\u00f5es de pessoas que passam fome \u2014, e reduzir os excessos e compensar as insufici\u00eancias. Isso nos permite ter, no conjunto, 23 elementos de contas que p\u00f5em a contabilidade nacional de p\u00e9, porque hoje essencialmente ela est\u00e1 de ponta-cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos que criar economistas que entendam n\u00e3o de modelos econ\u00f4micos, mas da din\u00e2mica complexa que gera os desafios para poder propor solu\u00e7\u00f5es e n\u00e3o apenas para explicar, depois do desastre, por que determinado modelo n\u00e3o funcionou.<\/p>\n<p><strong>Como o evento proposto pelo Papa tem repercutido entre os economistas que o senhor conhece? O senhor tem visto rea\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis e contr\u00e1rias \u00e0 proposta?<\/strong><\/p>\n<p>No conjunto, pessoas que estudaram de forma muito cl\u00e1ssica ou s\u00e3o muito ligadas aos mercados ou aos interesses do sistema financeiro reagem de maneira ideol\u00f3gica, porque est\u00e3o muito centradas na ideologia do enriquecimento das grandes fortunas. Agora, no geral, e sobretudo na nova gera\u00e7\u00e3o, tenho encontrado muita receptividade. Ou seja, h\u00e1 uma redescoberta entre os economistas de que cada problema econ\u00f4mico tem dimens\u00f5es pol\u00edticas, sociais, ambientais e \u00e9ticas. O conceito de fun\u00e7\u00e3o de economia est\u00e1 penetrando e, para muitos na \u00e1rea dos economistas que pensam de maneira tradicional, \u00e9 um desafio ver personagens como Stiglitz, Jeffrey Sachs e Kate Raworth mudando radicalmente os rumos. Isso porque se sentem, de repente, sem base naqueles modelinhos que estavam baseados, essencialmente, numa simplifica\u00e7\u00e3o do ser humano, de que o ser humano \u00e9 um maximizador racional de vantagens individuais e que o enriquecimento significava apenas um objetivo individual. Isto \u00e9, esse deslocamento de que os indiv\u00edduos s\u00e3o complexos t\u00eam dimens\u00f5es de generosidade, de competi\u00e7\u00e3o e de colabora\u00e7\u00e3o, e temos que trabalhar com as pessoas realmente existentes e com o conjunto de enriquecimento social, porque na realidade hoje ningu\u00e9m mais vai viver feliz sozinho.<\/p>\n<p><strong>Como podemos repensar a economia brasileira \u00e0 luz da proposta do papa Francisco?<\/strong><\/p>\n<p>Eu trabalharia justamente elencando os problemas-chave. Quais s\u00e3o os desafios-chave da nossa economia? No Brasil \u00e9 evidente: a desigualdade. N\u00f3s temos 206 bilion\u00e1rios que, nos \u00faltimos 12 meses, segundo a revista americana Forbes, aumentaram as suas fortunas em 230 bilh\u00f5es de reais \u2014 isso com a economia parada. S\u00f3 lembrando: o Bolsa Fam\u00edlia consome 30 bilh\u00f5es de reais. Logo, n\u00e3o \u00e9 o Bolsa Fam\u00edlia e a aposentadoria dos velhinhos que est\u00e3o prejudicando a economia, e sim a enorme extra\u00e7\u00e3o de recursos por parte desses grandes grupos financeiros que n\u00e3o produzem, mas s\u00e3o, essencialmente, aplicadores financeiros.<\/p>\n<p>Em 2012, quando come\u00e7ou o embate contra a Dilma [Rousseff], n\u00f3s t\u00ednhamos 74 bilion\u00e1rios; hoje, s\u00e3o 206. Esse sistema n\u00e3o est\u00e1 funcionando para a economia e para a popula\u00e7\u00e3o, mas para algu\u00e9m est\u00e1 funcionando. Essas fam\u00edlias \u2014 n\u00e3o estamos falando do valor das empresas, mas dos grupos pessoais, que, ali\u00e1s, n\u00e3o pagam impostos no Brasil porque lucros e dividendos distribu\u00eddos s\u00e3o isentos \u2014 tinham uma fortuna, em 2012, de 346 bilh\u00f5es de reais e, em 2019, passaram a ter uma fortuna de 1 trilh\u00e3o e 206 bilh\u00f5es de reais. Isso \u00e9 um problema \u00e9tico, porque n\u00e3o foram os pobres que criaram a forma de funcionamento desse sistema. O problema \u00e9tico est\u00e1 do lado dos ricos, porque os ricos est\u00e3o enriquecendo sem produzir e sem merecimento. Ent\u00e3o, o eixo central \u00e9 uma reorganiza\u00e7\u00e3o de como usamos os recursos e de como usamos a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O enriquecimento improdutivo \u00e9 a nossa principal deforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica. Por que tiraram a CPMF? N\u00e3o \u00e9 pelo rid\u00edculo 0,38% sobre as transa\u00e7\u00f5es financeiras, \u00e9 porque gerava transpar\u00eancia, mostrava quem transferia para quem, como eram os fluxos de capitais. N\u00f3s temos que resgatar o controle dos fluxos, fazer uma reforma tribut\u00e1ria porque, por exemplo, eu como professor pago 27,5% sobre o meu sal\u00e1rio, j\u00e1 o Joseph Safra, sem produzir nada, ganhou nos \u00faltimos 12 meses 19 bilh\u00f5es de reais e n\u00e3o paga imposto; esse sistema \u00e9 simplesmente uma aberra\u00e7\u00e3o. Precisamos taxar as grandes fortunas, tornar real o Imposto Territorial Rural &#8211; ITR, que \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o, e taxar, em particular, o capital improdutivo, coisa que est\u00e1 sendo amplamente discutida hoje no mundo, porque \u00e9 uma das medidas centrais. N\u00f3s temos que passar a taxar quem acumula um monte de dinheiro sem produzir nada, porque se tem um imposto que come\u00e7a a reduzir o capital do indiv\u00edduo, talvez ele pense em fazer algo \u00fatil com o dinheiro porque o capital est\u00e1 sendo reduzido. Essa \u00e9 a vis\u00e3o para tornar a sociedade produtiva. Com as tecnologias e a riqueza financeira que temos, ter as economias paradas \u00e9 rid\u00edculo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, temos, evidentemente, uma dimens\u00e3o \u00e9tica. Lembro de um cartaz que vi na Av. Paulista: um senhor curiosamente com uma bandeira do Brasil e com um cartaz dizendo \u201cevas\u00e3o fiscal n\u00e3o \u00e9 roubo\u201d. Ele diz que n\u00e3o \u00e9 roubo, n\u00e3o paga impostos, mas gosta de ter o filho estudando numa federal ou na USP, estudando com o dinheiro dos outros, gosta de ter a rua asfaltada com o dinheiro dos outros. Do que se trata? Isso n\u00e3o s\u00e3o ideologias, \u00e9 realmente pensar a economia que funcione e a pr\u00f3pria economia tem que mudar o rumo da forma como \u00e9 ensinada e aplicada.<\/p>\n<p><strong>Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acrescentaria algo b\u00e1sico que ajuda as pessoas a entender os processos. Trata-se de algo que sabemos que funciona: funcionou no Brasil de 2003 a 2013, funcionou nos Estados Unidos de Roosevelt com o New Deal, funcionou na Europa com o que se chamou de Estado de bem-estar social (Welfare State), funciona at\u00e9 hoje na China, na Coreia do Sul, no Canad\u00e1, na Su\u00e9cia e na Alemanha. O que t\u00eam essas refer\u00eancias em comum? Elas controlam o sistema financeiro, orientam os recursos para o bem-estar das fam\u00edlias, de um lado, assegurando um bom sal\u00e1rio m\u00ednimo e a renda no bolso das fam\u00edlias e, por outro lado, assegurando sistemas p\u00fablicos, universais e gratuitos de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e cultura, porque isso \u00e9 investimento nas pessoas, n\u00e3o \u00e9 gasto. Quando um pa\u00eds usa seus recursos para o bem-estar das pessoas, isso gera mais capacidade de compra das fam\u00edlias, o que gera mais demanda frente \u00e0s empresas. Isso gera infla\u00e7\u00e3o? N\u00e3o, porque no Brasil, por exemplo, as empresas est\u00e3o trabalhando com menos de 70% da sua capacidade.<\/p>\n<p>Um empres\u00e1rio estava dizendo que est\u00e1 mais barato e mais f\u00e1cil contratar hoje, mas que n\u00e3o tem por que contratar se n\u00e3o tem para quem vender. Como a empresa funciona? Para funcionar, a empresa tem que ter mercado para quem vender e tem que ter juro barato para poder investir; no Brasil n\u00f3s n\u00e3o temos nenhuma coisa nem outra. Agora, como se viu no Brasil entre 2003 e 2013, se investe com aumento de sal\u00e1rio, Bolsa Fam\u00edlia, Luz para Todos. Foram criados 149 programas sociais. Por que a economia cresceu e n\u00e3o gerou d\u00e9ficit? Porque dinamizou as empresas e o consumo. Para ver o resultado, basta olhar no Banco Central e verificar que nos anos dos governos Lula e Dilma n\u00e3o houve d\u00e9ficit. O d\u00e9ficit \u00e9 gerado na fase [Michel] Temer e Bolsonaro, quando h\u00e1 a paralisia da economia. O atual governo diz que est\u00e1 consertando a economia, mas quem destruiu o sistema \u00e9 quem est\u00e1 hoje no poder e isso explica a nossa paralisia. Temos que voltar ao bom senso de orientar a economia para as fam\u00edlias, para as empresas, e para o Estado poder investir nas infraestruturas e nas pol\u00edticas sociais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O crescimento das desigualdades no mundo, o agravamento da crise clim\u00e1tica, o caos pol\u00edtico generalizado e a proje\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2013 ONU de que em a popula\u00e7\u00e3o mundial chegar\u00e1 a 9,7 bilh\u00f5es de pessoas exigem uma reorienta\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico-econ\u00f4mico global. 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