{"id":22816,"date":"2014-09-21T22:08:12","date_gmt":"2014-09-22T01:08:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=22816"},"modified":"2014-09-21T22:08:12","modified_gmt":"2014-09-22T01:08:12","slug":"policia-militar-incorporou-repressao-e-violencia-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/policia-militar-incorporou-repressao-e-violencia-da-ditadura\/","title":{"rendered":"&#8216;Pol\u00edcia Militar incorporou repress\u00e3o e viol\u00eancia da ditadura&#8217;"},"content":{"rendered":"<div class=\"content\">\n<p>A ditadura j\u00e1 acabou, mas a repress\u00e3o continua sendo praticada por militares \u2013 no caso, pela Pol\u00edcia Militar \u2013 e atinge as camadas mais pobres da sociedade. De forma quase consensual, esta \u00e9 a opini\u00e3o dos profissionais do Servi\u00e7o Social que participaram, em Bras\u00edlia, do 43\u00ba encontro nacional da categoria.<\/p>\n<p>\u201cNossa profiss\u00e3o sempre nos colocou na linha de frente das conquistas sociais. Por esse motivo, conhecemos de perto as v\u00e1rias agress\u00f5es cometidas no passado, durante o per\u00edodo da ditadura, e no presente, principalmente nas periferias\u201d, diz o presidente do Conselho Federal de Servi\u00e7o Social, Maur\u00edlio Matos.<\/p>\n<p>Com o encontro deste ano, o conselho resgatar as experi\u00eancias de confronto com \u00f3rg\u00e3os repressores enfrentadas pelos assistentes sociais e, ao mesmo tempo, trazer para a atualidade a luta contra a repress\u00e3o, que ainda hoje alcan\u00e7a os jovens, principalmente negros e pobres no Brasil. \u201cEstamos recuperando a mem\u00f3ria de luta dos assistentes sociais contra os repressores e buscamos dar visibilidade aos que lutam pela liberdade e pela democracia\u201d, resume Matos.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO Brasil \u00e9 dividido em classes. H\u00e1 um verdadeiro <em>apartheid <\/em>[segrega\u00e7\u00e3o] em nosso pa\u00eds, com cidades constru\u00eddas para separar classes. Essa divis\u00e3o \u00e9 a origem de diversos problemas abordados apenas superficialmente pelos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o. Nossa m\u00eddia informa o ato, mas deforma a origem dele. Fala dos problemas no tr\u00e2nsito e da m\u00e1 situa\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, mas n\u00e3o aponta a verdadeira origem desses problemas, que \u00e9 a desigualdade social\u201d, argumenta o presidente do conselho.<\/p><\/blockquote>\n<p>Diminuir tais desigualdades foi um dos est\u00edmulos para Joaquina Barata, atualmente com 78 anos, enfrentar a ditadura militar na juventude. \u201cO problema \u00e9 que a luta de classes continua. E alcan\u00e7ou inclusive f\u00f3rmulas que enganam at\u00e9 segmentos da ci\u00eancia social contempor\u00e2neas&#8221;, ressalta a assistente social. Joaquina lembra que, na \u00e9poca em que era estudante, \u201censinavam-se teorias conservadoras que expressavam, sem a menor d\u00favida, o pensamento das classes dominantes: pobres e desvalidos eram tidos como &#8216;desajustados&#8217;\u201d.<\/p>\n<p>Ao falar sobre a ditadura militar, ela avalia que os grupos de esquerda \u201csubestimaram o poder e a crueldade da direita\u201d. \u201cA ditadura tornou-se cada vez mais assassina, violenta e destrutiva. Durou 20 anos, criando a cultura do sil\u00eancio e do medo, e estragando carreiras, vidas e a evolu\u00e7\u00e3o do pa\u00eds\u201d, resume Joaquina.<\/p>\n<p>Entre os resultados desse embate, ela destaca a transforma\u00e7\u00e3o ocorrida na Amaz\u00f4nia, que, na \u00e9poca, era \u201cespa\u00e7o de abund\u00e2ncia\u201d, e que, a partir de ent\u00e3o, se tornou \u201cterrit\u00f3rio de escassez, com latif\u00fandios e um mar de miser\u00e1veis\u201d. De acordo com a assistente social, outros resultados, &#8220;bem vis\u00edveis&#8221;, s\u00e3o a viol\u00eancia na periferia das cidades, a dissemina\u00e7\u00e3o das drogas, o trabalho escravo e a dissolu\u00e7\u00e3o de valores.<\/p>\n<blockquote><p>Lutar pelos sonhos que tinha para o Brasil custou um pre\u00e7o alto para Joaquina e o filho, que foi preso no final da d\u00e9cada de 70 quando, a pedido de um amigo, distribuia panfletos em frente a uma escola cuja diretora pertencia a um grupo pol\u00edtico ligado \u00e0 ditadura. \u201cN\u00e3o sei at\u00e9 que ponto h\u00e1 liga\u00e7\u00e3o, mas meu filho, que terminou o curso de engenharia, tornou-se, mais tarde, um paciente psiqui\u00e1trico em cujos del\u00edrios as lembran\u00e7as da ditadura sempre aparecem.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Os participantes do encontro de assistentes sociais afirmam que n\u00e3o s\u00e3o poucos os casos de filhos de militantes pol\u00edticos traumatizados pela viol\u00eancia praticada contra os pa\u00eds na \u00e9poca da ditadura. Inspirada em situa\u00e7\u00f5es como a vivida pela fam\u00edlia de Joaquina, Rosalina Santa Cruz escreveu um livro \u2013 ainda n\u00e3o publicado e previamente intitulado <em>Inf\u00e2ncia Roubada <\/em>\u2013 que falar\u00e1 sobre tais hist\u00f3rias. Rosalina diz que s\u00e3o muito comuns os casos de crian\u00e7as que apresentaram sequelas ap\u00f3s testemunharem os absurdos praticados por militares.<\/p>\n<p>\u201cMeu filho mesmo \u00e9 um exemplo. Quando era rec\u00e9m-nascido, foi usado pelos militares para me amea\u00e7ar. Eles invadiram minha casa e, al\u00e9m de n\u00e3o me deixarem amament\u00e1-lo, ficaram dizendo que iam jog\u00e1-lo do quinto andar do pr\u00e9dio. Na adolesc\u00eancia, ele teve s\u00e9rios problemas de depend\u00eancia qu\u00edmica e se tornou um rapaz extremamente t\u00edmido. Acho que tem a ver com o trauma passado na inf\u00e2ncia, principalmente por ter sido afastado da gente\u201d, conta Rosalina.<\/p>\n<p>Ela ficou afastada do filho no per\u00edodo que passou na pris\u00e3o, onde foi torturada. \u201cPassei por todos os tipos de tortura pelos quais passavam os presos pol\u00edticos. Cheguei a perder 36 quilos em 50 dias. Lembro de torturas psicol\u00f3gicas, que eram piores do que o pau de arara. Eu pedia que me matassem, mas eles negavam, dizendo que, antes, iriam me cortar [viva] em pedacinhos. Era colocada nua em uma geladeira com tudo escuro. Ouvia ru\u00eddos assustadores. Era uma sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia; de solid\u00e3o.\u201d<\/p>\n<blockquote><p>Ap\u00f3s dez meses de pris\u00e3o, Rosalina conta que foi depor em uma auditoria. Antes do depoimeto, um dos torturadores retirou seu capuz e, deixando claro que se tratava de uma amea\u00e7a, disse a ela que iria aguard\u00e1-la ap\u00f3s a audi\u00eancia. \u201cQuando o juiz me perguntou se eu tinha algo a declarar, disse que tinha levado choque na vagina, que tinha abortado ap\u00f3s ser espancada, que tinha sido colocada no pau de arara. Quando ele encerrou a sess\u00e3o e todos sa\u00edram, continuei no local, dizendo que n\u00e3o podia voltar e que estava com medo\u201d. N\u00e3o adiantou e ela foi colocada em um cambur\u00e3o, \u201cque corria que nem louco\u201d, at\u00e9 chegar ao Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es &#8211; Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (DOI-Codi). Ao descer, a primeira voz que ouviu disse: \u201cRosinha voc\u00ea voltou&#8230;\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Depois de solta, j\u00e1 na fase final da ditadura, Rosalina soube do desaparecimento de um irm\u00e3o. Ao tentar localiz\u00e1-lo, as autoridades militares sugeriam que ela perguntasse aos\u00a0 companheiros que, segundo eles, tinham por h\u00e1bito &#8220;matar os frouxos\u201d. Suspeita-se que o irm\u00e3o dela tenha sido uma das 14 pessoas incineradas em uma usina. \u201cMeu irm\u00e3o foi levado para um dos centros de exterm\u00ednio que existiam no pa\u00eds, similares aos da Alemanha nazista. Cheguei a ouvir deles [dos militares] que, desses incinerados, nem cinza h\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>Para Rosalina, o mais lament\u00e1vel \u00e9 que \u201cesse tipo de tortura aconte\u00e7a at\u00e9 hoje\u201d. No encontro, os assistentes sociais pediram o fim da Pol\u00edcia Militar.<\/p>\n<p>A assistente social cearense C\u00e2ndida Moreira Magalh\u00e3es conta que decidiu se tornar militante politica porque se incomodava com situa\u00e7\u00f5es como a invas\u00e3o de favelas, sob o pretexto de se fazer uma \u201chigieniza\u00e7\u00e3o\u201d na cidade. \u201cNaquela \u00e9poca, viv\u00edamos um momento de discuss\u00e3o e debate dentro da universidade e acredit\u00e1vamos que pod\u00edamos mudar a sociedade.\u201d Presa duas vezes por suspeita de envolvimento com organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, C\u00e2ndida diz que chegou a ser sequestrada pela Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito. \u201cForam 90 dias sem qualquer tipo de comunica\u00e7\u00e3o [externa]. Fui torturada todos os dias, com choques el\u00e9tricos, afogamentos, pau de arara&#8230; Sa\u00eda todos os dias inconsciente e toda urinada\u201d, lembra C\u00e2ndida.<\/p>\n<header>\n<div class=\"node-info\"><strong>Pedro Peduzzi, ABr<\/strong><strong><br \/>\n<\/strong><\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ditadura j\u00e1 acabou, mas a repress\u00e3o continua sendo praticada por militares \u2013 no caso, pela Pol\u00edcia Militar \u2013 e atinge as camadas mais pobres da sociedade. 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