{"id":231806,"date":"2020-05-22T07:48:22","date_gmt":"2020-05-22T10:48:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=231806"},"modified":"2020-05-22T09:58:01","modified_gmt":"2020-05-22T12:58:01","slug":"favela-ja-vive-isolada-precisa-e-de-uma-saida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/favela-ja-vive-isolada-precisa-e-de-uma-saida\/","title":{"rendered":"Favela j\u00e1 vive isolada; precisa \u00e9 de uma sa\u00edda"},"content":{"rendered":"<p>Uma das marcas mais negativas do Brasil s\u00e3o as desigualdades, e diante da pandemia da covid-19 novas faces dessas desigualdades se manifestam. A doen\u00e7a entra no pa\u00eds pelas classes m\u00e9dia e alta, mas \u00e9 na periferia que morrem mais pessoas. N\u00e3o obstante, a vida na favela definha diante do isolamento social que \u00e9 necess\u00e1rio para frear o cont\u00e1gio. Sem nenhum apoio, o morador dessas zonas, que j\u00e1 vive com t\u00e3o pouco, est\u00e1 entre os riscos da contamina\u00e7\u00e3o e a emerg\u00eancia de trazer comida para a mesa.<\/p>\n<p>\u201cEstamos num mesmo mar, numa mesma tempestade, mas nem todo mundo est\u00e1 no mesmo barco. Alguns est\u00e3o de jet ski, outros de lancha e muitos sequer com uma boia\u201d, observa Preto Zez\u00e9, um dos articuladores da Central \u00danica das Favelas, a Cufa. O grupo, que j\u00e1 vinha atuando nas periferias brasileiras, diante desse cen\u00e1rio de desespero teve de mudar o foco. \u201cS\u00e3o situa\u00e7\u00f5es emergenciais, \u00e9 um naufr\u00e1gio e n\u00f3s estamos levando boias para que as pessoas n\u00e3o morram afogadas\u201d, completa.<\/p>\n<p>O IHU buscou esse contato com Preto Zez\u00e9 via WhatsApp para tentar compreender como a Cufa tem se articulado. Bem ou mal, enquanto a comida demora a chegar via a\u00e7\u00f5es estatais e a\u00e7\u00f5es do governo geram filas e mais desespero na porta de bancos, a ONG de Preto Zez\u00e9 consegue recolher, separar e distribuir alimentos, al\u00e9m de apoio psicol\u00f3gico e financeiro.<\/p>\n<p>\u201cO que n\u00f3s estamos fazendo \u00e9 tomar consci\u00eancia de que estamos agora construindo o futuro. Ningu\u00e9m sabe o que ser\u00e1 da favela no p\u00f3s-covid. O que n\u00f3s sabemos agora \u00e9 que j\u00e1 come\u00e7amos a ter problemas ser\u00edssimos\u201d, destaca. Por isso, a Cufa quer ser r\u00e1pida nas a\u00e7\u00f5es, ligando quem precisa com quem quer ajudar. \u201cA sociedade civil e empresas t\u00eam constru\u00eddo uma coisa in\u00e9dita no Brasil nesse momento de polariza\u00e7\u00e3o e de divis\u00e3o do pa\u00eds: \u00e9 uma agenda em torno do combate \u00e0 desigualdade e de ajuda emergencial\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao longo de toda a entrevista, Preto Zez\u00e9 detalha como est\u00e1 sendo o trabalho, os desafios, mas principalmente relata como \u00e9 viver em tempos de pandemia na favela. \u201cA pessoa n\u00e3o tem como ficar em casa. Na busca pelas necessidades b\u00e1sicas, sai para a rua, correndo o risco de pegar o v\u00edrus, pois a outra op\u00e7\u00e3o \u00e9 ficar em casa com fome e sem dinheiro\u201d, relata. Ali\u00e1s, essa experi\u00eancia de atua\u00e7\u00e3o desde dentro da favela \u00e9 que traz um diferencial para a Cufa, que v\u00ea na hora o que \u00e9 de fato mais emergente na comunidade.<\/p>\n<p>\u201cPor isso, defendo que se deveria apostar em frentes de emerg\u00eancia nas favelas. A Cufa montou uma log\u00edstica em mais de cinco mil favelas, com mais de 100 mil volunt\u00e1rios. O Estado deveria botar grana nisso, fortalecer isso, linkar isso a pol\u00edticas de sa\u00fade, de preven\u00e7\u00e3o e de monitoramento e tudo isso l\u00e1 na ponta\u201d, sugere.<\/p>\n<p>No entanto, numa leitura mais apressada, pode-se concluir que pelas vias do chamado terceiro setor, de ONGs, volunt\u00e1rios e empresas privadas, Preto Zez\u00e9 defende uma redu\u00e7\u00e3o do Estado. Afinal, esse terceiro setor se mostra mais conectado com a realidade e com maior capacidade de resposta r\u00e1pida. Mas n\u00e3o \u00e9 isso que defende. Para ele, a experi\u00eancia da pandemia tem de servir para que pensemos numa outra agenda pol\u00edtica. \u201c\u00c9 necess\u00e1rio agora, com essa crise, ver que temos a possibilidade de reconstruir a luta social que, ao inv\u00e9s de ser pautada pela pol\u00edtica, pode ser pautada por esses grupos que est\u00e3o inseridos nesses ambientes de periferia\u201d, aponta. E enfatiza, indicando que o momento \u201c\u00e9 prop\u00edcio para fazer essa virada de p\u00e1gina, a retomada dessa agenda\u201d.<\/p>\n<p>Para a Cufa, h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o com apoio n\u00e3o s\u00f3 de parceiros, mas do pr\u00f3prio Estado. \u00c9 por isso que defendem tamb\u00e9m a ideia de renda b\u00e1sica universal, por exemplo. \u201cDefendemos que a renda b\u00e1sica emergencial que est\u00e1 a\u00ed agora seja permanente, porque ela come\u00e7a a apontar perspectiva de organiza\u00e7\u00e3o na cabe\u00e7a das pessoas. Se a gente tira a perspectiva delas, se a gente n\u00e3o atender e n\u00e3o abrir possibilidade, n\u00e3o acredito que pais e m\u00e3es v\u00e3o ficar olhando seus filhos chorarem de fome, morrerem de fome, enquanto olham para prateleiras lotadas de comida em outros lugares. A\u00ed \u00e9 o caos e o colapso, \u00e9 anomalia, n\u00e3o gosto nem de pensar nisso\u201d, reflete.<\/p>\n<p>Preto Zez\u00e9 \u00e9 presidente global da Central \u00danica das Favelas &#8211; Cufa. A Cufa \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o brasileira reconhecida nacional e internacionalmente nos \u00e2mbitos pol\u00edtico, social, esportivo e cultural. Foi criada h\u00e1 20 anos, a partir da uni\u00e3o entre jovens de v\u00e1rias favelas, principalmente negros, que buscavam espa\u00e7os para se expressarem ao seu modo.<\/p>\n<p>Tem o rapper MV Bill como um de seus fundadores, al\u00e9m de Nega Gizza, uma forte refer\u00eancia feminina no mundo do rap, e o produtor Celso Athayde, hoje coordenador geral. Durante a pandemia da covid-19, a Cufa tem se destacado em a\u00e7\u00f5es de apoio que levam alimentos, materiais de higiene e orienta\u00e7\u00f5es sobre preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a para cinco mil favelas nas 26 capitais dos estados, al\u00e9m do Distrito Federal e outras cerca de 440 cidades do interior do Brasil. Tamb\u00e9m tem se mobilizado em frentes para gera\u00e7\u00e3o de renda para pessoas que ficam sem trabalho durante esse per\u00edodo de isolamento social.<\/p>\n<p>Confira a entrevista:<\/p>\n<p><strong>Quais os maiores desafios que a pandemia causada pela covid-19 tem gerado para os moradores das favelas?<\/strong><br \/>\nA covid-19, antes de um problema de sa\u00fade, chegou como um problema econ\u00f4mico, porque 50% das pessoas, diante do quadro atual do n\u00famero de desemprego, trabalham como aut\u00f4nomas. E tudo isso foi dizimado, desde o camarada que vendia churrasco at\u00e9 o da lojinha de roupa, todo esse tipo de trabalho foi prejudicado. Isso foi um impacto muito violento nas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Uma outra quest\u00e3o \u00e9 que, pela pr\u00f3pria infraestrutura das favelas, uma parte delas tem que segurar a quarentena de outros, assegurar o isolamento social de outros. Isso porque vivem nas favelas muitas pessoas que est\u00e3o em fun\u00e7\u00f5es essenciais, pessoas que s\u00e3o a massa hospitalar, os trabalhadores de postos de gasolina, de supermercado. Essas pessoas que est\u00e3o na linha de frente e que, comparando com aqueles trabalhadores que moram em bairros de classes ricas, t\u00eam uma cota de sacrif\u00edcios muito maior. Ou seja, estamos num mesmo mar, numa mesma tempestade, mas nem todo mundo est\u00e1 no mesmo barco. Alguns est\u00e3o de jet ski, outros de lancha e muitos sequer com uma boia.<\/p>\n<p><strong>Como as comunidades t\u00eam lidado com o isolamento social?<\/strong><br \/>\nAntes de falar em isolamento social na favela, \u00e9 preciso entender que socialmente as favelas j\u00e1 s\u00e3o isoladas de v\u00e1rios direitos. Al\u00e9m disso, como j\u00e1 falei, parte da favela \u00e9 que est\u00e1 mantendo a possibilidade de o isolamento funcionar atrav\u00e9s dos servi\u00e7os essenciais. A outra parte \u00e9 uma parcela que tem muitas dificuldades para se manter, dificuldades objetivas mesmo, devido \u00e0 desigualdade que se vive no pa\u00eds. S\u00f3 para se ter ideia, estou aqui em Fortaleza e um dos bairros ricos daqui da cidade tem um n\u00famero de casos de covid-19 muito grande. No entanto, mesmo esses bairros mais nobres tendo o maior n\u00famero de casos, o maior n\u00famero de \u00f3bitos \u00e9 nas favelas. Ent\u00e3o, essa forma de se defender e enfrentar a doen\u00e7a \u00e9 desigual em todos os aspectos poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, temos a dificuldade com rela\u00e7\u00e3o a \u2018comunica\u00e7\u00e3o trocada\u2019. Prefeitos e governadores v\u00e3o para um lado, o governo federal vai para outro e isso gera uma confus\u00e3o enorme. A comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 muito ruim, falta clareza sobre o que se entende por como \u00e9 fazer um isolamento social, al\u00e9m dos cuidados na ponta, da preven\u00e7\u00e3o do sistema de sa\u00fade.<\/p>\n<p>E, claro, toda estrutura de sa\u00fade est\u00e1 muito voltada e focada s\u00f3 em UTI, e essa sa\u00fade mais b\u00e1sica, da ponta, de programas de estrat\u00e9gia como de sa\u00fade de fam\u00edlia, \u00e9 deixada de lado. Poderiam montar postos avan\u00e7ados nos bairros para medir press\u00e3o, medir temperatura, distribuir gratuitamente ox\u00edmetros para uso; s\u00e3o cuidados que poderiam ser feitos na ponta e que n\u00e3o est\u00e3o sendo feitos.<\/p>\n<p>Por fim, h\u00e1 ainda a pr\u00f3pria estrutura de renda e alimenta\u00e7\u00e3o, pois sem isso a pessoa n\u00e3o tem como ficar em casa. Na busca pelas necessidades b\u00e1sicas, sai para a rua, correndo o risco de pegar o v\u00edrus, pois a outra op\u00e7\u00e3o \u00e9 ficar em casa com fome e sem dinheiro.<\/p>\n<p><strong>Como avalia as a\u00e7\u00f5es do Estado em termos de assist\u00eancia a pessoas que vivem nas favelas?<\/strong><br \/>\nO Estado, pelo menos o que est\u00e1 se vendo, age somente pela responsabilidade de governadores e prefeitos. A estrutura estatal \u00e9 muito burocr\u00e1tica e muito lenta, pesada. O Governo do Estado est\u00e1 fazendo o que pode. Aqui no Cear\u00e1, por exemplo, o governador liberou g\u00e1s, isentou contas de luz, est\u00e1 reduzindo custos e carga tribut\u00e1ria, a\u00e7\u00e3o de transfer\u00eancia de renda antecipada, prefeitura e governo est\u00e3o montando hospitais de campanha. Mas, nessa hora, os governos, em todas as esferas, deveriam ter uma a\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que \u00e9 um desespero e uma disputa desigual, pois tem que comprar respirador no mercado mundial, a estrutura que j\u00e1 est\u00e1 dif\u00edcil no sistema de sa\u00fade, etc.<\/p>\n<p>Por isso, defendo que se deveria apostar em frentes de emerg\u00eancia nas favelas. A Cufa montou uma log\u00edstica em mais de cinco mil favelas, com mais de 100 mil volunt\u00e1rios. O Estado deveria botar grana nisso, fortalecer isso, linkar isso a pol\u00edticas de sa\u00fade, de preven\u00e7\u00e3o e de monitoramento e tudo isso l\u00e1 na ponta. Poderia haver uma frente de classifica\u00e7\u00e3o e outra de monitoramento dos doentes, ampliar esses servi\u00e7os que est\u00e3o dando trabalho l\u00e1 na ponta, nas favelas, e fortalecer essa comunica\u00e7\u00e3o que esses grupos que atuam nas periferias criam. O Estado est\u00e1 deixando esse v\u00e1cuo muito grande para instalar desencontros. E isso tem sido prejudicial, inclusive, para as coisas importantes, boas e estrat\u00e9gicas que munic\u00edpios e estados t\u00eam feito.<\/p>\n<p><strong>De que forma o poder p\u00fablico e o Estado t\u00eam entrado na favela nesse per\u00edodo de pandemia?<\/strong><br \/>\nO Estado deveria fazer isso que destaquei, montar postos avan\u00e7ados. As escolas est\u00e3o todas vazias, ent\u00e3o deveriam estruturar esses espa\u00e7os com equipamentos para medir o oxig\u00eanio das pessoas, para medir a temperatura, proteger idosos, ampliar e preparar os grupos de sa\u00fade da fam\u00edlia para cuidar mais dos idosos, preparar cuidadores, ver como \u00e9 que se pode cuidar daquelas pessoas de grupos de risco, dos que precisam ficar s\u00f3 em casa. Tudo isso porque, hoje em dia, as estruturas de sa\u00fade est\u00e3o com um risco enorme e muitas pessoas est\u00e3o com medo de ir [a postos ou unidades b\u00e1sicas de sa\u00fade] e est\u00e3o ficando em casa doentes, com outros problemas de sa\u00fade. Outra parte, inclusive, est\u00e1 com medo de falar que est\u00e1 com Covid-19 e ser discriminado em seguida.<\/p>\n<p>E tem uma galera que realmente est\u00e1 negligenciando as informa\u00e7\u00f5es dos riscos e isso tem a ver com a estrutura de Estado, porque falta informa\u00e7\u00e3o. O Estado deveria dar aten\u00e7\u00e3o a qualquer iniciativa que esteja preocupada em levar informa\u00e7\u00f5es para diminuir a curva de cont\u00e1gios, a demanda e o impacto no sistema de sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>De que forma a Cufa vem atuando junto das periferias brasileiras?<\/strong><br \/>\nA Cufa j\u00e1 havia montado uma rede, conectando cinco mil favelas, contando com apoio de mais de 100 mil volunt\u00e1rios. N\u00f3s suspendemos as a\u00e7\u00f5es de imediato, quando chegaram as informa\u00e7\u00f5es sobre a doen\u00e7a, e mudamos o foco. Num primeiro momento lan\u00e7amos um documento com 14 propostas para engajamento empresarial e do poder p\u00fablico e da sociedade civil para reduzir os danos, os impactos da Covid-19 nas favelas, que seriam as mais afetadas. E, dentro dessas favelas, uma aten\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres. Por isso lan\u00e7amos uma campanha de divulga\u00e7\u00e3o e arrecada\u00e7\u00e3o de alimentos e tamb\u00e9m lan\u00e7amos um programa chamado M\u00e3es da Favela, que \u00e9 um programa de transfer\u00eancia de renda.<\/p>\n<p>Basicamente, as a\u00e7\u00f5es da Cufa t\u00eam sido em tr\u00eas eixos, fora as a\u00e7\u00f5es particulares que temos feito em cada lugar. H\u00e1 centrais de log\u00edsticas que arrecadam, distribuem e fazem uma entrega localizada em escala para quem mais precisa, numa interface com grandes empresas que querem doar. Organizamos um sistema e asseguramos para que as doa\u00e7\u00f5es cheguem realmente na ponta a pessoas que precisam urgentemente e n\u00e3o sabem a quem procurar. Temos atuado tamb\u00e9m no sentido de arrecadar recursos financeiros, porque n\u00e3o adianta chegarem toneladas de alimentos e n\u00e3o ter como levar, n\u00e3o ter como entregar, n\u00e3o ter como botar para funcionar essa estrutura. E nessas centrais de distribui\u00e7\u00e3o funciona essa parte de log\u00edstica que aciona redes de atua\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, uma central de comunica\u00e7\u00e3o para divulgar informa\u00e7\u00f5es, fazer campanha e combater fake news. \u00c9 tamb\u00e9m uma central de estrat\u00e9gia e rela\u00e7\u00e3o institucional, fechando assim esses tr\u00eas eixos. Estamos no Brasil inteiro, nas 26 capitais e no Distrito Federal e em cerca de 440 cidades.<\/p>\n<p>\u00c9 importante outros tipos de assist\u00eancia porque s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es emergenciais, \u00e9 um naufr\u00e1gio e n\u00f3s estamos levando boias para que as pessoas n\u00e3o morram afogadas. Mas \u00e9 necess\u00e1rio que o Estado entre com outras a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Estamos vendo o setor empresarial num engajamento tremendo, estamos at\u00e9 defendendo que setores empresariais que est\u00e3o participando com doa\u00e7\u00f5es tenham isen\u00e7\u00e3o de algumas quest\u00f5es tribut\u00e1rias, para incentivar ainda mais a participa\u00e7\u00e3o de empresas em campanhas de doa\u00e7\u00e3o. E a ideia \u00e9 que possamos, agora, apresentar ao Estado essa tecnologia social para que possamos ampliar e incluir outras pol\u00edticas p\u00fablicas nesse sistema de a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>A Cufa tem apostado, tamb\u00e9m, na centralidade das \u2018m\u00e3es da favela\u2019. Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nSe a favela \u00e9 a mais atingida, mulheres da favela s\u00e3o as mais atingidas dentro desse contexto e as m\u00e3es solteiras s\u00e3o as que mais sofrer\u00e3o. Hoje, por exemplo, 85% das m\u00e3es que t\u00eam o filho em casa n\u00e3o conseguem sair na rua para batalhar renda, para trazer comida para dentro de casa; 87% j\u00e1 n\u00e3o v\u00e3o ter como honrar as contas fixas no fim do m\u00eas. Ao mesmo tempo, reside nelas a capacidade de rea\u00e7\u00e3o, porque quando chega essa transfer\u00eancia de renda, \u00e9 ela que \u00e9 capaz de fazer a melhor gest\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos visto isso no projeto M\u00e3es da Favela, que \u00e9 um projeto nosso e do PicPay, que entra com acesso digital e faz o monitoramento da transfer\u00eancia de renda digital sem fila e sem aglomera\u00e7\u00e3o. A resposta dessas mulheres tem sido bem importante porque, al\u00e9m de serem capazes de fazer uma gest\u00e3o melhor da economia, tamb\u00e9m se preocupam em fortalecer o com\u00e9rcio local, de cuidar de quem precisa. Na m\u00e3o dessas mulheres, est\u00e1 tamb\u00e9m o poder de rea\u00e7\u00e3o capaz de virar esse jogo, por isso o foco \u00e9 nelas.<\/p>\n<p><strong>Como funciona a organiza\u00e7\u00e3o de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nParais\u00f3polis \u00e9 o reflexo do que est\u00e1 acontecendo em outras favelas do Brasil. L\u00e1, montamos uma central de log\u00edstica porque a Cufa, na verdade, est\u00e1 nesses lugares. J\u00e1 est\u00e1vamos nessas favelas, j\u00e1 v\u00ednhamos atuando h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas. Temos as centrais de log\u00edsticas, as redes de volunt\u00e1rios, iniciativas fazendo a interface entre as empresas e pol\u00edticas p\u00fablicas para esse territ\u00f3rio, desenvolvendo essas a\u00e7\u00f5es emergenciais, com foco na seguran\u00e7a alimentar, na prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e na transfer\u00eancia de renda.<\/p>\n<p>As pesquisas s\u00e3o realizadas pelo Instituto Data Favela, que \u00e9 uma empresa que faz parte da Favela Holding [primeira holding que re\u00fane empresas que atuam, ou planejam atuar, nas comunidades. Ao total s\u00e3o 10 empreendimentos feitos entre o holding e as empresas], criada pelo Celso Athayde em parceria com o Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva. A Cufa usa essas pesquisas desses territ\u00f3rios para monitorar m\u00eas a m\u00eas como est\u00e1 sendo o impacto dentro das favelas brasileiras. As pesquisas s\u00e3o realizadas pelo nosso pessoal, via digital, com trabalhos em campo e atrav\u00e9s dessa rede que est\u00e1 presente no Brasil todo. Isso facilita que se tenha uma vis\u00e3o e acesso a territ\u00f3rios onde muitas vezes os institutos tradicionais de pesquisa n\u00e3o chegam.<\/p>\n<p><strong>De que forma a Cufa tem se articulado com os l\u00edderes das comunidades e qual a import\u00e2ncia dessas figuras?<\/strong><br \/>\nEssas lideran\u00e7as j\u00e1 existem e a import\u00e2ncia \u00e9 que est\u00e3o nos territ\u00f3rios, compreendem a din\u00e2mica do lugar. Al\u00e9m disso, t\u00eam uma capacidade enorme e uma din\u00e2mica para poder enfrentar e desenrolar como articuladores dessas a\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m sabem como trabalhar nesses territ\u00f3rios, como se constroem e ampliam parcerias, como se enfrenta a dificuldade transformando em oportunidade, como se constr\u00f3i agenda positiva nesses lugares. Assim, quando atuamos em rede, criamos um grande ecossistema de v\u00e1rias iniciativas e de trocas de experi\u00eancias nesses tantos lugares.<\/p>\n<p>A Cufa atua em favelas, indiferente de fac\u00e7\u00f5es, de mil\u00edcias, atende a todos os territ\u00f3rios que t\u00eam todo o tipo de forma\u00e7\u00e3o. As a\u00e7\u00f5es da Cufa t\u00eam sido no sentido de pautar uma agenda nesses territ\u00f3rios. Atualmente, consiste numa agenda de inclus\u00e3o, de sa\u00fade. E essa agenda emergencial \u00e9 uma agenda que, hoje, n\u00e3o tem oposi\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m. Mas n\u00f3s j\u00e1 v\u00ednhamos atuando nesses territ\u00f3rios antes e n\u00e3o t\u00ednhamos nenhum problema.<\/p>\n<p><strong>Como avalia a participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil e de empresas nas doa\u00e7\u00f5es e apoio neste momento de dificuldades decorrentes da pandemia?<\/strong><br \/>\nA sociedade civil e empresas t\u00eam constru\u00eddo uma coisa in\u00e9dita no Brasil nesse momento de polariza\u00e7\u00e3o e de divis\u00e3o do pa\u00eds: \u00e9 uma agenda em torno do combate \u00e0 desigualdade e de ajuda emergencial, \u00e9 um comprometimento que revela que ao mesmo tempo em que h\u00e1 grupos empresariais que desempregam e pensam em grandes lucros, h\u00e1 outros, como P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, JBS, Magazine Luiza, que est\u00e3o indo no caminho contr\u00e1rio. Eles est\u00e3o sendo parceir\u00edssimos de v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es que estamos fazendo.<\/p>\n<p>Com tudo isso, acho que a gente vai ter, como futuro no Brasil, o desafio de construir uma agenda p\u00fablica que n\u00e3o seja pautada pelo mundo pol\u00edtico aparelhado por partidos. \u00c9 essa parceria que tem de continuar. Isso porque, diante das desigualdades que se revelaram agora, \u00e9 necess\u00e1rio que se continue esse movimento c\u00edvico organizado para pautar essa agenda de combate \u00e0 desigualdade.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, j\u00e1 estamos vendo que tivemos grandes vit\u00f3rias porque j\u00e1 temos a renda b\u00e1sica emergencial, que foi um movimento de fora para dentro, inclusive com a amplia\u00e7\u00e3o desses recursos, porque o governo federal queria conceder s\u00f3 200 reais e o parlamento aumentou para 600 reais. Temos tamb\u00e9m um debate no Senado sobre a perman\u00eancia dessa renda b\u00e1sica, que \u00e9 uma reivindica\u00e7\u00e3o nossa tamb\u00e9m. J\u00e1 no Supremo Tribunal Federal &#8211; STF, vemos que tem regulamentado os trabalhos essenciais de diaristas e empregadas dom\u00e9sticas, colocando a Covid-19 como uma doen\u00e7a de trabalho tamb\u00e9m. Ou seja, o patr\u00e3o vai ter que cuidar, vai ter que ter plano de sa\u00fade, vai ter que ter emerg\u00eancia, vai ter que ter prioridade. E isso \u00e9 legal, importante para fomentar essa nova plataforma e uma agenda de pol\u00edtica em comum para o combate \u00e0 desigualdade. Acho que isso \u00e9 o mais positivo desse momento.<\/p>\n<p><strong>Pela sua experi\u00eancia, como os moradores da favela t\u00eam visto e avaliado o governo de Jair Bolsonaro?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 uma rejei\u00e7\u00e3o, \u00f3bvio, e isso varia de lugar para lugar, e tamb\u00e9m a forma como \u00e9 dirigida essa rejei\u00e7\u00e3o. Mas tem um v\u00e1cuo a\u00ed, que acho que \u00e9 onde se instala a rejei\u00e7\u00e3o. \u00c9 essa quest\u00e3o da economia, de desemprego, esperan\u00e7a por dinheiro, a demora na ajuda emergencial &#8211; s\u00e3o 13,6 milh\u00f5es que n\u00e3o receberam o benef\u00edcio de aux\u00edlio emergencial -, al\u00e9m da quest\u00e3o do pr\u00f3prio caos na sa\u00fade, o sistema de sa\u00fade que j\u00e1 est\u00e1 estrangulado, junta tudo isso e se cria um caldeir\u00e3o. H\u00e1 ainda os discursos somente da economia, se tem um apego forte de que as pessoas querem trabalhar, querem dinheiro, querem pagar suas contas, comprar comida, comprar rem\u00e9dio. Mas ao mesmo tempo h\u00e1 um desgaste muito grande porque os governadores e prefeituras v\u00e3o num sentido e o governo federal, noutro. Isso tudo gera ainda uma divis\u00e3o muito grande entre as pessoas.<\/p>\n<p><strong>Como projeta a vida na favela nos pr\u00f3ximos meses?<\/strong><br \/>\nAcho que seria irrespons\u00e1vel pensar os pr\u00f3ximos meses j\u00e1 que ningu\u00e9m est\u00e1 conseguindo pensar nada. Acho que vivemos um elemento novo e n\u00e3o temos nem retrovisor para analisar o passado como foi e nem se tem como pensar para a frente. O que n\u00f3s estamos fazendo \u00e9 tomar consci\u00eancia de que estamos agora construindo o futuro. Ningu\u00e9m sabe o que ser\u00e1 da favela no p\u00f3s-covid. O que n\u00f3s sabemos agora \u00e9 que j\u00e1 come\u00e7amos a ter problemas ser\u00edssimos, vamos ter que recuperar economia dos pequenos empreendedores locais, vamos ter que investir na educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as que agora est\u00e3o em casa, vamos ter que cuidar da quest\u00e3o psicol\u00f3gica especialmente de m\u00e3es que est\u00e3o com os filhos em casa. Tem ainda a quest\u00e3o da viol\u00eancia dom\u00e9stica, tendo essa mulher que se virar e ainda segurar uma onda. Nas favelas, 47% dessas m\u00e3es s\u00e3o chefes de fam\u00edlia. Ou seja, j\u00e1 temos agora uma demanda enorme para atendermos.<\/p>\n<p>Por isso defendemos que a renda b\u00e1sica emergencial que est\u00e1 a\u00ed agora seja permanente, porque ela come\u00e7a a apontar perspectiva de organiza\u00e7\u00e3o na cabe\u00e7a das pessoas. Se a gente tira a perspectiva delas, se a gente n\u00e3o atender e n\u00e3o abrir possibilidade, n\u00e3o acredito que pais e m\u00e3es v\u00e3o ficar olhando seus filhos chorarem de fome, morrerem de fome, enquanto olham para prateleiras lotadas de comida em outros lugares. A\u00ed \u00e9 o caos e o colapso, \u00e9 anomalia, n\u00e3o gosto nem de pensar nisso.<\/p>\n<p>Apesar de toda a dificuldade e sofrimento, acredita que as lutas dos moradores das favelas saem fortalecidas ou ainda mais fragilizadas por essa pandemia?<br \/>\nH\u00e1 uma quest\u00e3o a ser discutida, n\u00e3o somente do ponto de vista do movimento de moradores de favela, mas para os movimentos sociais como um todo. Durante os governos progressistas n\u00f3s tivemos v\u00e1rios avan\u00e7os na \u00e1rea econ\u00f4mica e na \u00e1rea social, mas tivemos um preju\u00edzo enorme do ponto de vista do engajamento e da mobiliza\u00e7\u00e3o, porque todos os movimentos, na sua grande maioria, ficaram vinculados a grupos partid\u00e1rios e pol\u00edticos que compuseram o poder na estrutura de Estado. Esses movimentos n\u00e3o conseguiram mais ter interlocu\u00e7\u00e3o com esses setores, com esses territ\u00f3rios das favelas, porque tudo ficou resumido \u00e0 agenda eleitoral, \u00e0 agenda das conviv\u00eancias dos grupos pol\u00edticos, e a gente n\u00e3o conseguiu construir isso.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio agora, com essa crise, ver que temos a possibilidade de reconstruir a luta social que, ao inv\u00e9s de ser pautada pela pol\u00edtica, pode ser pautada por esses grupos que est\u00e3o inseridos nesses ambientes de periferia. \u00c9 essa agenda que est\u00e1 se impondo. Ent\u00e3o, o momento \u00e9 prop\u00edcio para fazer essa virada de p\u00e1gina, a retomada dessa agenda. Porque quem a gente v\u00ea trabalhando nas favelas? Tem os grupos das igrejas e alguns grupos isolados sem o apoio nem do Estado. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso que a gente refa\u00e7a essa organiza\u00e7\u00e3o, aumente a interlocu\u00e7\u00e3o com o setor privado, que consiga parceiros, mas que se tenha claro que o protagonismo dessa agenda, a responsabilidade dela e o engajamento para que ela seja implementada s\u00e3o nossos e a pol\u00edtica tem que servir a essa agenda, aos nossos interesses e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>A favela pode ser considerada uma bela iniciativa de conviv\u00eancia social e de fraternidade?<\/strong><br \/>\nA gente aqui \u00e9 Central \u00danica das Favelas, lutamos para que as favelas acabem, sejam extintas, virem pe\u00e7a de museu. Mas, enquanto as favelas n\u00e3o acabam, n\u00f3s estamos lutando para que elas sejam um lugar melhor para se viver, para que a gente tenha uma agenda positiva nesses territ\u00f3rios, para a gente consiga fortalecer e dar pot\u00eancia a esses lugares, para ir fortalecendo e formando lideran\u00e7as, e levando e pautando nossa agenda de interesses junto ao asfalto, ao poder p\u00fablico. \u00c9 preciso que a agenda da favela n\u00e3o seja somente dela mesma, para que n\u00e3o fique ela mesma somente reclamando e xingando, mas que a gente consiga organizar e conseguir resultados pr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>A favela, nesse sentido da coletividade, tem uma fraternidade muito boa, mas \u00e9 preciso ir al\u00e9m. \u00c9 preciso discutir que a solu\u00e7\u00e3o dos problemas das favelas est\u00e1 no asfalto. As quest\u00f5es que implicam as dificuldades na favela s\u00e3o quest\u00f5es de toda a sociedade, porque se n\u00e3o houver desenvolvimento para a favela n\u00e3o vai haver para ningu\u00e9m. Ao contr\u00e1rio do olhar que sempre se tem quando se fala nela, associado a trag\u00e9dia, problema e dificuldade, podemos observar que as favelas produziram, dentro da pandemia, 117 milh\u00f5es de reais. \u00c9 o PIB do Uruguai, por exemplo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, assim, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 falando somente de um lugar de coisas ruins, de trag\u00e9dias, est\u00e1 falando de algu\u00e9m que produz riqueza, de gente trabalhadora e que gera riqueza no pa\u00eds, tem poder de consumo. Como \u00e9 que se reverte isso para que esse Brasil oficial tamb\u00e9m se encontre nesse Brasil invis\u00edvel? N\u00e3o podemos considerar na\u00e7\u00e3o se a favela n\u00e3o faz parte dessa sociedade. Se construir dois mundos separados, com certeza vai ter a\u00ed um conflito. A oportunidade agora \u00e9 construirmos essa agenda de combate \u00e0 desigualdade e realmente se construir como na\u00e7\u00e3o, porque at\u00e9 agora o que temos visto \u00e9 um amontoado de traumas, de desigualdades e de injusti\u00e7as sociais que precisam ser superadas para a gente se considerar uma na\u00e7\u00e3o realmente evolu\u00edda.<\/p>\n<p><strong>Deseja acrescentar algo?<\/strong><br \/>\nS\u00f3 lembrar que quem quer conhecer mais do trabalho pode acessar o site Cufa; estamos no pa\u00eds inteiro com v\u00e1rias iniciativas. Tem tamb\u00e9m o projeto M\u00e3es da Favela. \u00c9 s\u00f3 acessar o site e l\u00e1 tem todas as informa\u00e7\u00f5es. Estamos aqui, junto, para o que der e vier.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das marcas mais negativas do Brasil s\u00e3o as desigualdades, e diante da pandemia da covid-19 novas faces dessas desigualdades se manifestam. 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