{"id":235972,"date":"2020-07-12T06:59:13","date_gmt":"2020-07-12T09:59:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=235972"},"modified":"2020-07-11T21:27:58","modified_gmt":"2020-07-12T00:27:58","slug":"nana-canta-tom-e-vinicius-em-novo-disco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/nana-canta-tom-e-vinicius-em-novo-disco\/","title":{"rendered":"Nana canta Tom e Vinicius em novo disco"},"content":{"rendered":"<p>Tom Jobim morreu h\u00e1 25 anos, mas na mem\u00f3ria de Nana Caymmi, de 79 anos, os papos matinais com o maestro pelas ruas e bares do bairro carioca do Leblon ainda est\u00e3o vivos. P\u00e1ssaros, \u00e1rvores, m\u00e1goas e alegrias da vida e, claro, o compositor preferido deles, o conterr\u00e2neo Heitor Villa-Lobos (1887-1959), eram os assuntos mais recorrentes. Vez ou outra, dividiam uma dose do destilado Steinhaeger. Por isso, o \u00e1lbum Nana Tom Vinicius, que o Selo Sesc acaba de lan\u00e7ar nas plataformas digitais, vem carregado de emo\u00e7\u00e3o e rever\u00eancia ao compositor e a seu parceiro mais constante.<\/p>\n<p>&#8220;O Tom sa\u00eda cedo de casa. Ele me esperava dar a volta na Lagoa (Rodrigo de Freitas) para depois tomar chope e comer bolinho de bacalhau. Ou seja, ferrava a minha dieta. Mas por ele eu fazia qualquer coisa&#8221;, conta Nana, em entrevista por telefone ao Estad\u00e3o, de sua casa em Pequeri, munic\u00edpio da zona da mata mineira, cidade de sua m\u00e3e, Stella, onde est\u00e1 desde o in\u00edcio de mar\u00e7o, logo depois que os primeiros casos de covid-19 foram confirmados no Brasil.<\/p>\n<p>Com dire\u00e7\u00e3o musical e arranjos do irm\u00e3o, Dori, o \u00e1lbum traz 12 composi\u00e7\u00f5es &#8211; algumas assinadas s\u00f3 por Tom, outras s\u00f3 por Vinicius e, tamb\u00e9m, as que t\u00eam a parceria dos dois, como os cl\u00e1ssicos Eu Sei Que Vou Te Amar, lan\u00e7ada como single do projeto, e Se Todos Fossem Iguais a Voc\u00ea. As duas \u00faltimas foram sugest\u00f5es de Dori. &#8220;Fiz quest\u00e3o delas, pois s\u00e3o mais badaladas e muito gravadas. Mas quem poderia faz\u00ea-las como Tom e Vinicius as conceberam era Nana&#8221;, diz o compositor, que tamb\u00e9m tocou viol\u00e3o nas faixas. &#8220;Ele \u00e9 o arranjador, queria fazer o trabalho dele, p\u00f4r o que ele gosta tamb\u00e9m&#8221;, diz Nana, bem-humorada.<\/p>\n<p>Seis faixas est\u00e3o no hist\u00f3rico disco Can\u00e7\u00e3o do Amor Demais, lan\u00e7ado por Elizeth Cardoso em 1958 com can\u00e7\u00f5es da dupla &#8211; Janelas Abertas, As Praias Desertas, Modinha, Luciana, Can\u00e7\u00e3o do Amor Demais e Serenata do Adeus. Estas duas \u00faltimas tamb\u00e9m est\u00e3o no \u00e1lbum Por Toda Minha Vida, gravado pela cantora Lenita Bruno, um ano depois, com arranjos do paulistano Leo Peracchi. Os dois \u00e1lbuns t\u00eam import\u00e2ncia fundamental na gera\u00e7\u00e3o de Nana e Dori. &#8220;O disco da Elizeth, al\u00e9m das can\u00e7\u00f5es de Tom e Vinicius, tem o viol\u00e3o de Jo\u00e3o Gilberto, que influenciou tudo o que veio depois. E Peracchi \u00e9 um grande arranjador, meu Deus&#8221;, exalta Dori, que, nos arranjos, reutilizou frases musicais originais, como forma de enaltecer seus compositores.<\/p>\n<p>Nana Tom Vinicius teve suas bases gravadas no Rio de Janeiro no primeiro semestre do ano passado. Al\u00e9m de Dori, Itamar Assiere (piano), Jorge Helder (baixo), Jurim Moreira (bateria) e Bre Ros\u00e1rio (percuss\u00e3o). Depois, m\u00fasicos de S\u00e3o Paulo, entre eles Teco Cardoso e Nahor Gomes, gravaram instrumentos de sopros. Por fim, de sua casa em Petr\u00f3polis, onde mora desde que deixou Los Angeles, depois de 27 anos, Dori escreveu \u00e0 m\u00e3o &#8211; ele se recusa a usar computadores &#8211; os arranjos de cordas que foram gravados pela Orquestra de S\u00e3o Petersburgo, na R\u00fassia.<\/p>\n<p>Por causa de todo esse processo, Nana conta que fez algo pouco habitual em seus trabalhos: fez quest\u00e3o de regravar as vozes depois que a base foi coberta pela orquestra &#8211; sob protestos de todos os envolvidos na produ\u00e7\u00e3o -, que j\u00e1 davam o trabalho da cantora como perfeito. &#8220;H\u00e1 muitos anos eu n\u00e3o canto com orquestra. \u00c9 um custo grande que as gravadoras n\u00e3o querem pagar. Ent\u00e3o, fiz quest\u00e3o de gravar a voz pela segunda vez. Para segurar a emo\u00e7\u00e3o de cantar tudo novamente, colocava um pouco de u\u00edsque no caf\u00e9. Fazia um irish coffee logo cedo&#8221;, conta Nana, que afirma gostar de trabalhar pela manh\u00e3. &#8220;&#8216;Boemia, aqui me tens de regresso&#8217; no est\u00fadio, n\u00e3o \u00e9 comigo. Acordo cedo e vou gravar.&#8221;<\/p>\n<p>Essa emo\u00e7\u00e3o de Nana tamb\u00e9m est\u00e1 intimamente ligada a uma hist\u00f3ria de fam\u00edlia. Tom e Dorival Caymmi, pai dela e de Dori, eram amigos pr\u00f3ximos e confidentes. Em 1964, eles juntaram a fam\u00edlia no disco Caymmi Visita Tom. Nele, Nana, aos 23 anos, cantou acompanhada por Tom ao piano. Tempos que, inevitavelmente, voltaram \u00e0 lembran\u00e7a durante as grava\u00e7\u00f5es. &#8220;Eu passo por cada barra, que eu mesmo invento. Se n\u00e3o for assim, eu n\u00e3o seria Nana e voc\u00ea n\u00e3o estaria me ligando para me entrevistar&#8221;, diz a cantora, aos risos.<\/p>\n<p>Para refor\u00e7ar o elo entre Caymmis e Tons, a capa do \u00e1lbum foi confiada a Elaine Jobim, mulher do m\u00fasico Paulo Jobim, filho mais velho de Tom. Ela, que j\u00e1 havia assinado o projeto gr\u00e1fico dos livros Cancioneiro Tom Jobim e Cancioneiro Vinicius de Moraes. A imagem traz manuscritos de anota\u00e7\u00f5es musicais de Tom e das letras de Vinicius que est\u00e3o no repert\u00f3rio. &#8220;O Dori n\u00e3o queria ilustra\u00e7\u00e3o ou desenhos abstratos. Queria a obra deles. Tom escrevia notas de uma maneira bonita. A letra do Vinicius \u00e9 marcante&#8221;, lembra Elaine. Ela conta que finaliza o encarte do \u00e1lbum f\u00edsico, com 32 p\u00e1ginas, ainda sem data para ser lan\u00e7ado.<\/p>\n<p><strong>Volta aos palcos<\/strong> &#8211; Os \u00faltimos shows de Nana foram apresentados em 2015, no palco do Sesc S\u00e3o Paulo, entidade que normalmente a trazia para temporadas anuais. Com o projeto do disco, uma encomenda do diretor regional do Sesc Danilo Miranda, a ideia era a de que, ap\u00f3s o lan\u00e7amento, Nana voltasse aos palcos &#8211; provavelmente acompanhada por orquestra, segundo o desejo de Dori. Seria o momento exato, por causa dos 25 anos de morte de Tom e os 40 de Vinicius neste 2020. Mas, com a pandemia, tudo foi adiado.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, Nana confessa que esse hiato dos palcos tem uma raz\u00e3o muito mais forte do que as \u00faltimas declara\u00e7\u00f5es que ela mesma deu de que queria diminuir o ritmo de shows: h\u00e1 quatro anos, ela, depois de uma anemia e cansa\u00e7os persistentes, descobriu que estava com c\u00e2ncer no est\u00f4mago. Duas tromboses &#8211; uma na perna e outra perto do pulm\u00e3o &#8211; indicaram a necessidade de uma cirurgia urgente. &#8220;Foi uma porrada violenta, mas estou recuperada. Agora, estou fazendo s\u00f3 o que quero. Assumi a m\u00fasica Casa no Campo, sabe? Estou aqui (em Pequeri) com meus discos, livros e nada mais. Vamos ver, depois da epidemia, como as coisas se encaminham. H\u00e1 um sentimento de luto no Brasil. N\u00e3o vejo por que sair cantando como uma louca por a\u00ed&#8221;, diz Nana que, no ano passado, lan\u00e7ou um tributo ao cantor Tito Madi, que, at\u00e9 o momento, tamb\u00e9m n\u00e3o foi apresentado nos palcos.<\/p>\n<p>Em seu ref\u00fagio, Nana passa os dias lendo sobre a hist\u00f3ria do Brasil, bordando, tricotando e cuidando das plantas. Para ouvir, ela escolhe os chorinhos de Villa-Lobos, can\u00e7\u00f5es do maestro e poeta franc\u00eas L\u00e9o Ferr\u00e9, \u00f3peras na voz da soprano italiana Renata Tebaldi e o disco que fez com as can\u00e7\u00f5es de Tito Madi. De s\u00e9ries, prefere as tramas policiais. &#8220;Adoro hist\u00f3ria com justi\u00e7a, investiga\u00e7\u00e3o. Assisto a tudo e descubro antes de todo mundo quem matou, quem n\u00e3o matou.&#8221;<\/p>\n<p>Enquanto espera o mundo voltar ao normal, Nana anota em seu caderno &#8211; ela se diz avessa \u00e0 tecnologia &#8211; os desejos de outros \u00e1lbuns dedicados a compositores brasileiros: Ary Barroso (m\u00fasicas como Por Causa Desta Cabocla e Risque, ela diz), Caetano Veloso, Gonzaguinha, Dori e Edu Lobo s\u00e3o alguns da lista. &#8220;Se eu pudesse, passava a vida gravando tudo o que tenho vontade.&#8221; Por enquanto, ela segue isolada. &#8220;Temos de cortar as ambi\u00e7\u00f5es. O mundo est\u00e1 correndo muito, n\u00e3o sei para onde. Mas a Terra \u00e9 redonda, voc\u00ea sempre volta ao ponto de in\u00edcio&#8221;, acrescenta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tom Jobim morreu h\u00e1 25 anos, mas na mem\u00f3ria de Nana Caymmi, de 79 anos, os papos matinais com o maestro pelas ruas e bares do bairro carioca do Leblon ainda est\u00e3o vivos. 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