{"id":237921,"date":"2020-08-06T13:37:53","date_gmt":"2020-08-06T16:37:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=237921"},"modified":"2020-08-06T13:42:22","modified_gmt":"2020-08-06T16:42:22","slug":"velha-maloca-do-genio-adoniram-saudoso-dia-feliz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/velha-maloca-do-genio-adoniram-saudoso-dia-feliz\/","title":{"rendered":"Velha maloca do g\u00eanio Adoniram, saudoso dia feliz"},"content":{"rendered":"<p>Como n\u00e3o ter uma baita de uma reiva de ir em um samba quando n\u00e3o encontremo ningu\u00e9m? Ainda mais se esperava tomar uma frechada do olhar da pessoa amada. Um cora\u00e7\u00e3o que vira uma taubua de tiro ao \u00e1lvaro, que n\u00e3o tem mais onde frechar. N\u00e3o adianta. Tem que ir embora, o \u00faltimo trem \u00e9 agora \u00e0s 11 horas. Em ritmo de divers\u00e3o e nostalgia, os versos e os batuques ternos de Adoniran Barbosa (nome art\u00edstico de Jo\u00e3o Rubinato), que nasceu em 6 de agosto de 1910 (h\u00e1 110 anos, em Valinhos-SP), ousavam.<\/p>\n<p>Ele criou um tipo de samba paulistano que enaltecia a mem\u00f3ria e o cotidiano de imigrantes pobres e seus descendentes. Gente de sotaque misturado e italianado, com as dificuldades dos oper\u00e1rios que ajudavam a construir a maior cidade do Brasil. Can\u00e7\u00f5es que traziam tem\u00e1tica social, como a falta de habita\u00e7\u00e3o, a saudade e as dores da maloca. A m\u00fasica que fez o pa\u00eds identificar bairros como Br\u00e1s, Mooca, Bixiga, Ja\u00e7an\u00e3 e Casa Verde, por exemplo, \u00e9 reconhecida como marco na hist\u00f3ria do samba, legado de um artista que brincava com os plurais e se consagrou como singular. Para quem estudou o sambista, tem outras coisa, vortemo ao acervo e ao tempo. \u00d3i nois aqui traveiz, como cantava. Adoniran morreu em 1982.<\/p>\n<p>Para o cineasta Pedro Serrano, que dirigiu o filme Adoniran \u2013 Meu nome \u00e9 Jo\u00e3o Rubinato, ainda hoje visitar e ouvir a obra do m\u00fasico \u00e9 reconhecer uma identidade nacional. &#8220;\u00c9 muito importante que pessoas que n\u00e3o tiveram contato (como os mais jovens) possam saber mais sobre quem foi o artista&#8221;, disse em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil. Serrano afirma que se aproximou da hist\u00f3ria de Adoniran ainda na inf\u00e2ncia. Inicialmente, realizou o curta metragem de fic\u00e7\u00e3o D\u00e1 licen\u00e7a de contar, baseado em personagens da m\u00fasica Saudosa Maloca.<\/p>\n<p>O documentarista, de 33 anos, revela que tem um projeto no forno para transformar esse curta em um longa, para explorar mais personagens e a riqueza da obra do sambista. &#8220;Tem que saber falar errado&#8221;. \u201cEu sempre gostei de samba. Ningu\u00e9m queria nada com as minhas letras. Tem que saber falar errado\u201d, dizia o artista. O sucesso na m\u00fasica veio na d\u00e9cada de 1950 quando o grupo Dem\u00f4nios da Garoa cantou Saudosa Maloca. Em 1964, Trem das Onze levou o grupo ao auge. Em 1980, a consagrada cantora Elis Regina emprestou nova interpreta\u00e7\u00e3o para Tiro ao \u00e1lvaro.<\/p>\n<p>\u201cEu fa\u00e7o samba dos meus bairros\u201d. O programa Na trilha da hist\u00f3ria, da R\u00e1dio Nacional, da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o, traz trechos do acervo que destacam a irrever\u00eancia e o pensamento do artista. No mesmo programa, veiculado em fevereiro deste ano, o cineasta Pedro Serrano, diretor do document\u00e1rio sobre Adoniran, explica as inven\u00e7\u00f5es como em Samba do Arnesto (1953). \u201cErnesto existiu mesmo, mas a hist\u00f3ria n\u00e3o foi como est\u00e1 na m\u00fasica\u201d. Ernesto jura que nunca falhou com o compromisso com Adoniran. A hist\u00f3ria foi criada pelo sambista.<\/p>\n<p>Serrano conta que Adoniran foi rejeitado inicialmente como cantor. \u201cEle entra na r\u00e1dio como locutor de carnaval. Fazia de uma forma bem humorada e assim se destaca, se torna depois uma grande estrela como radioator c\u00f4mico\u201d. O cineasta detalhou tamb\u00e9m a import\u00e2ncia da parceria com o grupo Dem\u00f4nios da Garoa, que ecoou as can\u00e7\u00f5es. \u201cEles fizeram com que Saudosa Maloca (m\u00fasica de 1951) ficasse conhecida. Inicialmente, a m\u00fasica n\u00e3o fez sucesso algum. A interpreta\u00e7\u00e3o diferente, que era gaiata, se tornou um sucesso\u201d. A m\u00fasica, que conta a hist\u00f3ria de um despejo, ganhou novo tom. O diretor reconhece que Elis Regina (que morreu tamb\u00e9m em 1982) trouxe um olhar sens\u00edvel e at\u00e9 melanc\u00f3lico para a m\u00fasica de Adoniran.<\/p>\n<p>A TV Brasil tamb\u00e9m destacou que Adoniran cantou a cidade de S\u00e3o Paulo como ningu\u00e9m. \u201cPrefiro falar peguemo do que pegamos. Prefiro falar fumo do que fomos\u201d, apontou o sambista. A reportagem mostra as homenagens que o artista recebeu no bairro do Bixiga, onde h\u00e1, inclusive, um busto de Adoniran. Confira abaixo a reportagem<\/p>\n<p>Por falar em hist\u00f3ria e nostalgia, outra reportagem da TV Brasil destacou o que seria o \u201ctrem das 11\u201d, imortalizado na can\u00e7\u00e3o de Adoniran. A estrada de ferro, que passa pelo bairro da Ja\u00e7an\u00e3, tinha um percurso do centro de S\u00e3o Paulo at\u00e9 Guarulhos, na regi\u00e3o metropolitana. O trajeto funcionou por mais de 50 anos. \u201cMas o trem das 11 n\u00e3o existia. O acerto que Adoniran fez foi para a m\u00fasica\u201d, diz Sylvio Bittencourt, que mantinha um museu no Ja\u00e7an\u00e3 com a hist\u00f3ria do lugar.<\/p>\n<p>Em 2018, Adoniran recebeu homenagem p\u00f3stuma como Cidad\u00e3o Paulistano. O compositor, que homenageou a cidade com letras trocadas e batuques em ritmo irreverente, inventava hist\u00f3rias e palavras. A fic\u00e7\u00e3o era a constru\u00e7\u00e3o art\u00edstica para falar \u201cerrado\u201d e do que passava \u00e0 sua volta. Manuel Bandeira, na d\u00e9cada de 20, tamb\u00e9m enalteceu a linguagem das ruas: &#8220;A vida n\u00e3o me chegava pelos jornais nem pelos livros vinha da boca do povo, na l\u00edngua errada do povo. L\u00edngua certa do povo&#8221;. Confira mais no acervo da EBC, a melancolia e a gra\u00e7a din-din donde n\u00f3is passemo dias feliz de nossa vida, como \u00e9 a arte imortal de Adoniran.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como n\u00e3o ter uma baita de uma reiva de ir em um samba quando n\u00e3o encontremo ningu\u00e9m? Ainda mais se esperava tomar uma frechada do olhar da pessoa amada. Um cora\u00e7\u00e3o que vira uma taubua de tiro ao \u00e1lvaro, que n\u00e3o tem mais onde frechar. N\u00e3o adianta. 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