{"id":238685,"date":"2020-08-17T18:26:37","date_gmt":"2020-08-17T21:26:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=238685"},"modified":"2020-08-17T18:26:37","modified_gmt":"2020-08-17T21:26:37","slug":"quarentena-impulsiona-casos-extraconjugais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quarentena-impulsiona-casos-extraconjugais\/","title":{"rendered":"Quarentena impulsiona casos extraconjugais"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Ele estava dormindo e eu levei o celular para o banheiro. N\u00e3o precisa de um grande esquema secreto para a troca de mensagens, dos nudes&#8230;. Todo mundo carrega o telefone pra todo canto, pro banheiro, pra cozinha, n\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o calculista como pode parecer&#8221;, conta a arquiteta Bianca*, 36, que est\u00e1 em isolamento social com o namorado Gabriel, no Rio de Janeiro (RJ) desde mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Os dois est\u00e3o juntos h\u00e1 cinco meses, mas Bianca conta que as consequ\u00eancias da pandemia do novo coronav\u00edrus foram decisivas para a maneira como o relacionamento foi constru\u00eddo. &#8220;Antes da quarentena, n\u00e3o tinha um status de namoro. Gosto do Gabriel e de estar com ele, mas n\u00e3o queria que nosso relacionamento tivesse se aprofundado tanto como aconteceu por causa da pandemia&#8221;, confessa ela, que se sente &#8220;traindo&#8221; o parceiro.<\/p>\n<p>&#8220;Continuo em contato com outros homens e uma mulher, trocando mensagens, nudes e praticando sexo virtual, mas me sinto um pouco culpada. N\u00e3o sofro por isso, mas n\u00e3o acho que seja justo com ele. S\u00f3 que tamb\u00e9m n\u00e3o consigo abrir m\u00e3o do conforto emocional que o namoro me traz e nem da vida sexual que eu gostaria de estar levando e estaria, sem culpa e sem amarras, se n\u00e3o fosse pela pandemia&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no Rio, a publicit\u00e1ria Luciana*, 35, divide o apartamento com o marido &#8211; como o reconhece e chama &#8211; h\u00e1 cinco anos. Como Bianca, ela sentiu os efeitos do isolamento social sobre seu relacionamento, que j\u00e1 estava, como conta, em crise.<\/p>\n<p>&#8220;Antes de a pandemia &#8216;estourar&#8217; eu j\u00e1 estava cogitando a possibilidade de me separar. Sentia que a gente estava se afastando afetivamente, sexualmente e emocionalmente. Da\u00ed veio a quarentena e a crise ficou meio &#8216;em stand by&#8217;. N\u00e3o ouso &#8216;mexer neste vespeiro&#8217; porque n\u00e3o tem como resolver. N\u00e3o tem como a gente se separar em meio a este caos, n\u00e3o tem como dar um tempo, ent\u00e3o prefiro manter uma conviv\u00eancia minimamente harm\u00f4nica enquanto isso durar&#8221;, explica ela.<\/p>\n<p>Apesar de destacar um conv\u00edvio agrad\u00e1vel com o marido &#8211; &#8220;gosto da companhia dele&#8221;, ela diz -, Luciana conta que se aproximou, durante a pandemia, de um outro homem, um conhecido de faculdade. Os dois se reencontraram em uma festa de amigos em comum no in\u00edcio do ano e passaram a trocar mensagens.<\/p>\n<p>&#8220;Come\u00e7ou como uma amizade e de uns meses para c\u00e1, falarmos abertamente sobre o interesse que temos um no outro. S\u00f3 n\u00e3o tem nada em tom explicitamente sexual: troca de nude, sexo virtual, nada disso. Mas falamos sobre nosso dia, conto meus planos para o futuro, ele fala dos dele, mandamos fotos do cotidiano. De certa forma, me sinto como se f\u00f4ssemos um casal, tirando as rela\u00e7\u00f5es sexuais\/er\u00f3ticas, at\u00e9 porque pela pandemia, n\u00e3o tem a press\u00e3o da possibilidade de um encontro f\u00edsico. Mas me sinto envolvida afetivamente, conectada sentimentalmente, com uma rotina a dois de certa forma com ele, de um jeito que eu n\u00e3o me sinto mais em rela\u00e7\u00e3o ao meu marido&#8221;, confessa.<\/p>\n<p><strong>Desejo de &#8216;estar fora&#8217;<\/strong><br \/>\nSegundo Cl\u00e1udio Paix\u00e3o, doutor em psicologia social e professor da Escola de Ci\u00eancia da Informa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o isolamento social necess\u00e1rio como medida de preven\u00e7\u00e3o contra a covid-19 causa uma redu\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o f\u00edsico vivenciado pelas pessoas, o que n\u00e3o acontece com os espa\u00e7os ps\u00edquicos, impactando a maneira como vivenciam seus desejos.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas est\u00e3o o tempo todo em di\u00e1logo com o mundo, em seu trabalho, sua vida social, outros lugares que n\u00e3o a casa e o pr\u00f3prio relacionamento. Com o isolamento, h\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o deste espa\u00e7o f\u00edsico de interatividade, mas o campo psicol\u00f3gico n\u00e3o passa por isso de pronto. Ent\u00e3o as pessoas n\u00e3o entendem ou aceitam imediatamente que sua rede de relacionamentos tamb\u00e9m est\u00e1 limitada. Isso faz com que se olhe para fora: de casa, do relacionamento. \u00c9 um desejo de &#8216;estar fora&#8217;. Isso aparece nos memes de saudades do bar, da vontade de &#8216;se aglomerar&#8217;, de praticar atividades f\u00edsicas, os mais diversos desejos de troca, inclusive a sexual e afetiva. E o que se tem feito como alternativa \u00e9 uma virtualiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es para suprir estes desejos&#8221;, aponta o especialista, citando exemplos como troca de nudes e a pr\u00e1tica de &#8216;sexting&#8217;, sexo virtual por mensagens.<\/p>\n<p>Sem sair desde mar\u00e7o da casa em que vive com o namorado em Belo Horizonte (MG), o pesquisador Caio, de 28 anos, passou a utilizar o que ele chama de &#8220;aplicativos de pega\u00e7\u00e3o&#8221; e tem participado de chats em busca de parceiros sexuais.<\/p>\n<p>&#8220;Acho que sempre tivemos um relacionamento aberto velado. J\u00e1 fiquei com outros caras e sei que ele tamb\u00e9m. Mas era algo espor\u00e1dico, quando rolava um clima numa festa, coisa de momento. N\u00e3o falamos sobre isso, e nunca busquei esses encontros ativamente, acredito que nem ele. Agora na pandemia, me vi mais impelido a fazer isso, tenho usado aplicativos de &#8216;pega\u00e7\u00e3o&#8217;, inclusive trocando nudes neles e em chats como do Facebook, coisa que nunca tinha feito. N\u00e3o sei se ele tamb\u00e9m faz, mas n\u00e3o me incomodaria&#8221;.<\/p>\n<p>Caio diz que isso n\u00e3o afetou sua rela\u00e7\u00e3o com Igor, com quem mora h\u00e1 8 anos. &#8220;Apesar de estarmos na mesma casa, que \u00e9 antiga e enorme, n\u00e3o ficamos o dia todo no mesmo ambiente. Al\u00e9m disso, eu trabalho muito tempo diante do computador, ent\u00e3o temos uma certa privacidade. N\u00e3o frequento esses aplicativos e chats descaradamente, na frente dele. Nossa vida sexual continua bastante ativa e nosso envolvimento afetivo e emocional continua o mesmo de antes, mais intenso at\u00e9, eu diria. Sinto que nosso relacionamento \u00e9 muito est\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Tinderiza\u00e7\u00e3o&#8217; das rela\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nPara o psic\u00f3logo Cl\u00e1udio Paix\u00e3o, outro fator que impacta a busca por rela\u00e7\u00f5es extraconjugais \u00e9 um padr\u00e3o de se relacionar que ele chama de &#8216;tinderiza\u00e7\u00e3o&#8217; (refer\u00eancia ao aplicativo Tinder, que permite intera\u00e7\u00e3o entre as pessoas a partir de um &#8220;match&#8221;, fun\u00e7\u00e3o que aponta interesse m\u00fatuo entre dois usu\u00e1rios).<\/p>\n<p>&#8220;Com o advento das redes sociais, criou-se a possibilidade de se navegar e ver outras pessoas, possibilidades de relacionamento diferentes das que se tem. Surge um card\u00e1pio maior de possibilidades, o que sugere, ati\u00e7a uma s\u00e9rie de outros desejos, ainda que baseados em fantasias, porque na internet as pessoas se mostram como querem ser vistas.&#8221;<\/p>\n<p>Cl\u00e1udio sugere, ainda, que essa &#8216;tinderiza\u00e7\u00e3o&#8217;, trazendo a grande possibilidade de outras escolhas sexuais e afetivas, tamb\u00e9m tende a tornar as gera\u00e7\u00f5es atuais menos tolerantes aos aspectos que as desagradam em seus parceiros.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 a tend\u00eancia de redu\u00e7\u00e3o de toler\u00e2ncia ao erro do outro. Antes voc\u00ea acabava convivendo por um tempo, ia estreitando la\u00e7os com algu\u00e9m para aprender sobre a pessoa em diversos n\u00edveis. Neste momento de tinderiza\u00e7\u00e3o, as pessoas t\u00eam muitas escolhas e um baixo limiar de resist\u00eancia \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o de expectativas. Voc\u00ea v\u00ea o outro, se interessa e come\u00e7a a conversar. Se surge algo que desagrada, \u00e9 s\u00f3 &#8216;jogar pro lado&#8217; e interromper o contato&#8221;, aponta o especialista, destacando como o isolamento social impacta este efeito.<\/p>\n<p>&#8220;Neste momento, o que h\u00e1 de bom e ruim nas rela\u00e7\u00f5es se sobressai ao mesmo tempo em que h\u00e1 essa diminui\u00e7\u00e3o da toler\u00e2ncia. Somando a isso fatores como o cuidado com filhos e com pessoas idosas, o teletrabalho e o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia, cria-se um desgaste da rela\u00e7\u00e3o a dois. Isso pode fazer com que o interesse da pessoa se volte &#8216;para fora&#8217; da rela\u00e7\u00e3o confinada naquele espa\u00e7o de tens\u00e3o. Por isso \u00e9 sempre importante dialogar.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Moraliza\u00e7\u00e3o dos relacionamentos<\/strong><br \/>\nApesar dessa tend\u00eancia em se querer experimentar &#8220;o que est\u00e1 fora&#8221; de um relacionamento monog\u00e2mico diante do confinamento, a pandemia do novo coronav\u00edrus pode trazer uma certa moraliza\u00e7\u00e3o dos modelos conjugais. \u00c9 a an\u00e1lise feita pelo antrop\u00f3logo Ant\u00f4nio Pil\u00e3o, doutor em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com p\u00f3s-doutorado em g\u00eanero e sexualidades em andamento no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (PPGCSO- UFJF).<\/p>\n<p>&#8220;Vejo uma rela\u00e7\u00e3o muito estreita com o fen\u00f4meno da aids nos anos 1980 e 1990. O mundo havia sa\u00eddo de um contexto de experimenta\u00e7\u00e3o afetiva e sexual dos anos 1970. Com a aids, houve uma remoraliza\u00e7\u00e3o dos desejos e pr\u00e1ticas, porque entendia-se que a prolifera\u00e7\u00e3o do HIV era proveniente da promiscuidade sexual. Ent\u00e3o a limita\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias afetivas e sexuais e a monogamia como regra foram uma resposta a essa premissa&#8221;, analisa Ant\u00f4nio, um dos pesquisadores pioneiros no estudo de rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o monog\u00e2micas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos diante de um v\u00edrus que se alastra a partir das intera\u00e7\u00f5es sociais, do abra\u00e7o, do beijo. Essas s\u00e3o, na sociedade ocidental, porta de entrada para a sexualidade. Com isso, os relacionamentos tornam-se uma discuss\u00e3o sanit\u00e1ria, o que tamb\u00e9m influencia nossa vis\u00e3o moral. Antes da pandemia est\u00e1vamos em um momento, desde o in\u00edcio dos anos 2000, de maior abertura para o questionamento das limita\u00e7\u00f5es da monogamia. Agora, parece que estamos entrando em uma fase em que ela se apresentaria como a \u00fanica possibilidade conjugal poss\u00edvel, at\u00e9 por quest\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica&#8221;, avalia o antrop\u00f3logo.<\/p>\n<p><strong>&#8220;A infidelidade \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o da monogamia&#8221;<\/strong><br \/>\nAnt\u00f4nio explica tamb\u00e9m a diferen\u00e7a entre estar em uma rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o monog\u00e2mica e ter relacionamentos extraconjugais:<\/p>\n<p>&#8220;A monogamia dificilmente \u00e9 um acordo. Nascemos em uma sociedade em que essa normatividade est\u00e1 posta, limitando a sexualidade, a afetividade e o que chamamos de amor (num relacionamento) exclusivamente a outra pessoa. As rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o monog\u00e2micas questionam esse modelo e n\u00e3o s\u00e3o a aus\u00eancia total de regula\u00e7\u00e3o, mas a proposta de regula\u00e7\u00f5es e contratos que n\u00e3o sejam absolutos como a monogamia. J\u00e1 a infidelidade \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o da monogamia. Driblar os pressupostos e as regras da norma vigente n\u00e3o constr\u00f3i novos acordos, mas representa uma manuten\u00e7\u00e3o dos antigos, ainda que seja no descumprimento deles. Por isso tamb\u00e9m h\u00e1 o sentimento de culpa, arrependimento, vergonha e as pr\u00e1ticas se mant\u00eam clandestinas.&#8221;<\/p>\n<p>Para Ant\u00f4nio, \u00e9 imposs\u00edvel prever como ser\u00e3o constru\u00eddos os modelos de conjugalidade em um poss\u00edvel mundo p\u00f3s-pandemia.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o sabemos se no que ano que vem o cen\u00e1rio atual vai estar superado. Se vamos passar anos, d\u00e9cadas usando m\u00e1scara, e temendo o contato com pessoas estranhas, perdendo h\u00e1bito de &#8216;ficar&#8217;, por exemplo. Nesse sentido, a preocupa\u00e7\u00e3o com a infidelidade n\u00e3o deve vir de suas quest\u00f5es morais, mas do risco iminente de cont\u00e1gio. Principalmente num contexto de poss\u00edveis encontros clandestinos, podendo expor pessoas que nem sabem dos perigos que correm. O ideal seria que os casais pudessem conversar e encontrar alternativas de acordos sanitariamente seguros que funcionassem para eles e para a sociedade, j\u00e1 que se trata de uma quest\u00e3o coletiva.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Ele estava dormindo e eu levei o celular para o banheiro. N\u00e3o precisa de um grande esquema secreto para a troca de mensagens, dos nudes&#8230;. 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