{"id":243759,"date":"2020-10-27T09:22:39","date_gmt":"2020-10-27T12:22:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=243759"},"modified":"2020-10-27T13:24:38","modified_gmt":"2020-10-27T16:24:38","slug":"oi-mamae-aprenda-a-lidar-com-brigas-dos-filhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/oi-mamae-aprenda-a-lidar-com-brigas-dos-filhos\/","title":{"rendered":"Oi, mam\u00e3e, aprenda a lidar com brigas dos filhos"},"content":{"rendered":"<p>Os irm\u00e3os Grimm, por ironia do destino ou n\u00e3o, escreveram seis contos sobre o relacionamento entre filhos: alguns abordam o tema da irmandade, outros sobre ado\u00e7\u00e3o, a chegada de um bebezinho na fam\u00edlia e tantos outros. Nesta reportagem, vamos contar apenas a hist\u00f3ria real de Roberta Carvalho, hoje com 35 anos de idade, mas que teve uma inf\u00e2ncia de brincadeiras e brigas com os irm\u00e3os &#8211; e atire a primeira pedra quem nunca discutiu com um.<\/p>\n<p>Recentemente, um meme de anivers\u00e1rio de uma menina de tr\u00eas anos gerou pol\u00eamica. Isso porque, na hora do parab\u00e9ns, a irm\u00e3 mais velha se apressou e apagou as velas no lugar da aniversariante, que n\u00e3o p\u00f4de conter a raiva e partiu para a agress\u00e3o. Nas redes sociais, muita gente fez piada e at\u00e9 colocou em cheque a sa\u00fade mental da garotas. Afinal, esse tipo de comportamento \u00e9 considerado \u2018saud\u00e1vel\u2019, \u2018normal\u2019 e deve ser problematizado? A reportagem do Estad\u00e3o optou por n\u00e3o publicar o meme para preservar a identidade das crian\u00e7as e viu uma oportunidade de esclarecer alguns pontos importantes quando o assunto \u00e9 emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes dessa reflex\u00e3o sobre o que \u00e9 \u2018normal\u2019, vamos \u00e0 hist\u00f3ria de Roberta. Nos idos dos anos 1990, ela e os tr\u00eas irm\u00e3os viviam juntos em Campinas, interior paulista. Por\u00e9m, ela convivia mais com um deles: o Roberto. Por causa da idade, brincavam, faziam as refei\u00e7\u00f5es juntos, frequentavam a mesma escola, dividiam as festas de anivers\u00e1rio. Roberta conta que eram \u2018c\u00famplices\u2019 um do outro e, ao mesmo tempo, existia uma rivalidade: \u201cMais da parte dele porque, na minha vis\u00e3o, os adultos nos compar\u00e1vamos muito e constantemente. Acredito que meu irm\u00e3o, por ser mais novo, sofreu mais com isso do que eu. Eu por ser um pouco mais velha tinha mais compreens\u00e3o e tamb\u00e9m, talvez por ser mulher e as constru\u00e7\u00f5es sociais que v\u00eam disso, tinha um sentimento mais materno em rela\u00e7\u00e3o a ele\u201d.<\/p>\n<p>Sobre essa necessidade de cuidar do irm\u00e3o, Roberta lembra de um epis\u00f3dio curioso: \u201cEu me metia nas brigas do meu irm\u00e3o na rua e tentava n\u00e3o deixar ningu\u00e9m bater nele. Mas teve umas duas vezes que o tirei de brigas, n\u00e3o deixei baterem nele e depois dei uns tapas e uns socos no meu irm\u00e3o. Na minha cabe\u00e7a, estava tentando ensinar a n\u00e3o se meter em brigas porque temia pela seguran\u00e7a dele. Eu argumentava que se algu\u00e9m tivesse que bater nele seria eu, porque ia &#8216;bater com cuidado&#8217;. N\u00e3o me orgulho dessas atitudes e racioc\u00ednios, mas \u00e9 a realidade\u201d.<\/p>\n<p>A rivalidade entre irm\u00e3os n\u00e3o apenas pode ser considerada normal como tamb\u00e9m um fen\u00f4meno universal, na an\u00e1lise do psiquiatra Rodrigo de Almeida Ramos: \u201cVale lembrar o sentido simb\u00f3lico da hist\u00f3ria de Caim e Abel. Dos 2 aos 6 anos, em geral, os irm\u00e3os s\u00e3o os principais componentes das rela\u00e7\u00f5es sociais da crian\u00e7a e dessa conviv\u00eancia surge uma rela\u00e7\u00e3o de ambival\u00eancia. Por um lado, uma viv\u00eancia de solidariedade com brincadeiras em conjunto e apoio emocional. Por outro, rivalidade com disputa, compara\u00e7\u00e3o e briga por espa\u00e7o. O pano de fundo de toda essa rivalidade \u00e9 a disputa pelo amor ou aten\u00e7\u00e3o dos pais\u201d.<\/p>\n<p>Elisama Santos \u00e9 psicanalista e escreveu dois livros sobre essas rela\u00e7\u00f5es familiares: Educa\u00e7\u00e3o N\u00e3o Violenta e Por que Gritamos. Para ela, os adultos tentam neutralizar sentimentos de raiva e frustra\u00e7\u00e3o dos filhos, o que s\u00f3 gera ainda mais disputa: \u201cA gente tem que parar de achar que a rela\u00e7\u00e3o entre irm\u00e3os s\u00f3 tem amor, onde s\u00f3 cabe carinho, respeito, porque isso \u00e9 ilus\u00e3o. Eles s\u00e3o humanos e, como toda rela\u00e7\u00e3o humana, cabe uma gama muito maior de sentimentos. A crian\u00e7a sente raiva, tristeza, \u00f3dio, muitas coisas. E \u00e9 importante a gente lembrar que, quando chega um irm\u00e3o, a crian\u00e7a mais velha est\u00e1 perdendo muito da rela\u00e7\u00e3o que tinha com os pais, ent\u00e3o, ela vai ter que redescobrir um novo papel na vida que \u00e9 o de n\u00e3o estar s\u00f3\u201d.<\/p>\n<p>A educadora parental explica que \u00e9 preciso deixar que esses sentimentos ruins existam e, ao mesmo tempo, redirecionar os comportamentos agressivos. \u201cTem aquele comportamento inadequado, ent\u00e3o, vamos falar sobre ele, dizer que a crian\u00e7a pode sentir raiva, tristeza. Algo como: \u2018Estou vendo que hoje voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 querendo conversar com seu irm\u00e3o, est\u00e1 com ci\u00fames, voc\u00ea queria que hoje fosse o seu anivers\u00e1rio\u2019. Eu vou conversar e acolher esse sentimento, mas isso n\u00e3o quer dizer que esse sentimento vai deixar de existir\u201d.<\/p>\n<p>Roberta se recorda das constantes brigas com o irm\u00e3o: \u201cPartiam para agress\u00e3o f\u00edsica. Pela minha mem\u00f3ria, sempre por parte dele: eram tapas, socos e objetos arremessados. Lembro que uma vez ele correu atr\u00e1s de mim tentando me bater com um cabo de vassoura. De mim, o que me lembro de mais grave foi uma vez que estava bebendo \u00e1gua, ele se aproximou, disse alguma coisa que me irritou, e eu &#8216;de brincadeira&#8217; fingi jogar a \u00e1gua, que j\u00e1 tinha acabado, do copo nele. Mas eu calculei mal a dist\u00e2ncia e o copo acertou na cabe\u00e7a dele. N\u00e3o machucou, nem teve consequ\u00eancia f\u00edsica, como fazer galo ou ficar roxo. Eu fiquei assustada com o que poderia ter acontecido, mas n\u00e3o me arrependi por completo\u201d.<\/p>\n<p>Bom, j\u00e1 sabemos que a rivalidade entre irm\u00e3os \u00e9 normal, mas ser\u00e1 que \u00e9 &#8216;saud\u00e1vel&#8217;? Em que momento os pais precisam ficar atentos aos comportamentos, por vezes, agressivos?<\/p>\n<p>\u201cConflitos entre irm\u00e3os sempre existir\u00e3o, mas quando a rivalidade se sobrep\u00f5e sobre a solidariedade \u00e9 aceso o sinal de alerta. Isso se mostra quando a crian\u00e7a aparenta estar irritada com os irm\u00e3os e os pais, sobretudo a m\u00e3e. Al\u00e9m disso, a crian\u00e7a fica pouco participativa nas atividades da casa, usa frase de menos valia como \u201cningu\u00e9m gosta de mim nessa casa\u201d ou ainda come\u00e7a a deliberadamente quebrar objetos do universo do outro irm\u00e3o. Pode haver ainda comportamentos regressivos como falar de forma mais infantilizada, roer unhas ou urinar na cama\u201d, afirma o psiquiatra Rodrigo de Almeida Ramos.<\/p>\n<p>E quando a gente fala dessa raiva, esse \u00f3dio entre irm\u00e3os, n\u00e3o paramos para pensar sobre o que est\u00e1 por tr\u00e1s das emo\u00e7\u00f5es. Elisama Santos, no racioc\u00ednio a seguir, levanta algumas verdades que podem ser inc\u00f4modas para muitos pais: \u201cN\u00e3o existe amar igual. Isso \u00e9 uma ilus\u00e3o que pai e m\u00e3e falam pra mentir pra si mesmo. A gente ama os filhos de formas diferentes e n\u00e3o existe um \u2018amorz\u00f4metro\u2019 pra afirmar que esse amor \u00e9 maior que o outro. E vale para os pais entenderem que cada filho se sente amado de uma forma e observar: \u2018Ser\u00e1 que estou demonstrando amor para meu filho? De que forma fa\u00e7o isso?\u2019. Porque tem alguns filhos que gostam de ser beijados e abra\u00e7ados e outros preferem as palavras\u201d.<\/p>\n<p><strong>Como lidar com a rivalidade<\/strong><br \/>\nNa inf\u00e2ncia de Roberta, os pais sempre tentavam separar as brigas entre os filhos: \u201cNos davam broncas e colocavam de castigo. Mas, como meu irm\u00e3o era menino, a agressividade dele era mais &#8216;naturalizada&#8217;. Ele era um &#8216;menino muito arteiro, cheio de energia&#8217;. Algumas vezes, quando ocorriam brigas verbais mais leves, meu pai brincava dizendo que, se a gente brigasse, iria obrigar a gente beijar o rosto um do outro\u201d.<\/p>\n<p>De fato, n\u00e3o conseguimos mensurar a quantidade de amor ou \u00f3dio que sentimos nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais e a disputa para saber quem recebe mais amor parece irracional. Por\u00e9m, fazer o manejo das emo\u00e7\u00f5es, sem ignor\u00e1-las, parece ser um bom caminho para os pais.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso observar quando os filhos n\u00e3o se falam, n\u00e3o se relacionam mais. N\u00e3o quer dizer que se brigou tem algo de errado. Irm\u00e3os v\u00e3o brigar, trocar tapas mas, normalmente, depois j\u00e1 est\u00e3o juntos, est\u00e3o se abra\u00e7ando e se amando. Como foi com as meninas (mencionadas no in\u00edcio da reportagem). Agora, quando as agress\u00f5es s\u00e3o constantes, \u00e9 hora de observar o que essa agressividade ou esquiva do meu filho significa. O que estou deixando passar nessa rela\u00e7\u00e3o\u201d, ressalta Elisama Santos.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de Rodrigo de Almeida Santos, para os casais que ainda t\u00eam um filho e est\u00e3o planejando mais um, o ideal seria fazer um intervalo de tr\u00eas a quatro anos entre uma gesta\u00e7\u00e3o e outra, porque, no nascimento do irm\u00e3o mais novo, o mais velho teria mais maturidade afetiva. \u201cN\u00e3o sendo poss\u00edvel, os pais t\u00eam que entender que a rivalidade vai acontecer e o tema deve ser tratado com naturalidade, com os pais muitas vezes entrando na cena de disputa promovendo uma harmoniza\u00e7\u00e3o afetiva. \u00c9 importante que se entenda que, como s\u00e3o dois seres humanos diferentes, deve-se evitar comportamentos de compara\u00e7\u00f5es ou de usar um como exemplo de conduta em contraste com o outro. A solu\u00e7\u00e3o afetiva \u00e9 uma escolha pelo estabelecimento do v\u00ednculo amoroso entre irm\u00e3os\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p>E, vamos admitir, ningu\u00e9m gosta de ser comparado \u00e0 outra pessoa. No entanto, isso pode ocorrer na rela\u00e7\u00e3o entre pais e filhos, o que s\u00f3 alimenta a rivalidade e pode gerar consequ\u00eancias emocionais na vida adulta.<\/p>\n<p>A educadora parental Elisama Santos elencou tr\u00eas dicas valiosas.<\/p>\n<p>1 &#8211; O amor nunca ser\u00e1 igual: \u201cEm regra, temos um filho que \u00e9 mais f\u00e1cil de lidar porque n\u00e3o mexe com nosso ego. E temos aquele que solicita um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o, energia, que exige que voc\u00ea \u2018respire fundo\u2019. Se a gente n\u00e3o presta aten\u00e7\u00e3o, fica mais com aquele que \u00e9 mais f\u00e1cil de lidar e deixa o outro de lado. Ent\u00e3o, \u00e9 bom observar sempre: \u2018Estou lidando bem com eles? Estou conseguindo demonstrar amor?\u2019. Vai ter um filho que vai exigir mais esfor\u00e7o pra me relacionar. Observar tamb\u00e9m como estou falando com eles, se estou falando diferente\u201d, diz a psicanalista.<\/p>\n<p>2 &#8211; Nunca atuar como \u2018juiz da briga\u2019 entre irm\u00e3os: \u201cCada vez que digo quem est\u00e1 certo e quem est\u00e1 errado, eu estabele\u00e7o pap\u00e9is muito est\u00e1ticos nessa rela\u00e7\u00e3o. E esta n\u00e3o \u00e9 minha fun\u00e7\u00e3o, mas estar ali respeitando os irm\u00e3os, restabelecer a capacidade de di\u00e1logo de ambos. Dizer coisas como: \u2018Se voc\u00eas est\u00e3o nervosos, tenho certeza de que t\u00eam a capacidade de conversar e resolver isso\u2019. \u00c9 um bom caminho\u201d, avalia.<\/p>\n<p>3 &#8211; Acolha os sentimentos: \u201cDeixar que os sentimentos que a gente acha que s\u00e3o ruins existam. Escute, permita que exista a tristeza, a raiva, o \u2018hoje n\u00e3o queria ter irm\u00e3os\u2019. Escute por mais que doa. Voc\u00ea pode dizer: \u2018Puxa, filho, tamb\u00e9m senti isso com o meu irm\u00e3o\u2019, \u2018\u00c0s vezes, voc\u00ea s\u00f3 queria estar sozinho, n\u00e9\u2019, \u2018Voc\u00ea queria ter o quarto s\u00f3 pra voc\u00ea, n\u00e9\u2019. Gente, isso n\u00e3o \u00e9 concordar! Isso n\u00e3o \u00e9 falar \u2018t\u00e1 bom, vou mandar a sua irm\u00e3 pra casa da sua av\u00f3 porque ela \u00e9 realmente muito chata\u2019. Isso \u00e9 deixar que o sentimento exista, \u00e9 dizer para o filho \u2018eu te vejo\u2019.<\/p>\n<p>4 &#8211; Nunca compare: \u201cIsso porque as compara\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito cru\u00e9is com os filhos. Fale com eles, sem mencionar o nome do outro. Ent\u00e3o, nunca dizer: \u2018Sua irm\u00e3 fez isso, fez aquilo, e voc\u00ea n\u00e3o\u2019, \u2018Est\u00e1 vendo como o quarto da sua irm\u00e3 \u00e9 arrumado?\u2019. N\u00e3o! S\u00f3 diga: \u2018Filho, seu quarto est\u00e1 bagun\u00e7ado e quanto tempo voc\u00ea quer pra arrumar?\u2019. Olha como \u00e9 diferente, n\u00e9? Lidar com aquele filho e com a individualidade dele. A compara\u00e7\u00e3o mina a rela\u00e7\u00e3o e pode culminar em brigas muito dif\u00edceis entre os irm\u00e3os\u201d, conclui Elisama Santos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os irm\u00e3os Grimm, por ironia do destino ou n\u00e3o, escreveram seis contos sobre o relacionamento entre filhos: alguns abordam o tema da irmandade, outros sobre ado\u00e7\u00e3o, a chegada de um bebezinho na fam\u00edlia e tantos outros. 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