{"id":243844,"date":"2020-10-28T14:32:53","date_gmt":"2020-10-28T17:32:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=243844"},"modified":"2020-10-28T14:32:53","modified_gmt":"2020-10-28T17:32:53","slug":"brasil-tem-licoes-a-aprender-com-segunda-onda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-tem-licoes-a-aprender-com-segunda-onda\/","title":{"rendered":"Brasil tem li\u00e7\u00f5es a aprender com segunda onda"},"content":{"rendered":"<p>A primeira onda de covid-19 na Europa come\u00e7ou a tomar forma a partir do in\u00edcio de mar\u00e7o de 2020 e atingiu seu pico durante o m\u00eas de abril. Em maio, a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 parecia estar mais estabilizada, com uma queda importante no n\u00famero de casos e mortes pela infec\u00e7\u00e3o provocada pelo Sars-CoV-2, o coronav\u00edrus respons\u00e1vel pela pandemia atual.<\/p>\n<p>Mais recentemente, por\u00e9m, a situa\u00e7\u00e3o fugiu novamente do controle e o continente acumula n\u00fameros cada vez mais alarmantes: nos \u00faltimos 14 dias, a Fran\u00e7a, por exemplo, confirmou 421.799 novos casos e 2.193 mortes pela enfermidade. Os dados s\u00e3o do Centro Europeu de Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, a taxa de acometidos e de \u00f3bitos por 100 mil habitantes no per\u00edodo de duas semanas chega a ser pior que das na\u00e7\u00f5es que lideram o ranking geral da pandemia, como Estados Unidos, \u00cdndia e Brasil.<\/p>\n<p>O panorama da covid-19 tamb\u00e9m est\u00e1 preocupante em outros pa\u00edses da regi\u00e3o, como Reino Unido, R\u00fassia, Holanda, Espanha, B\u00e9lgica, It\u00e1lia e Rep\u00fablica Tcheca.<\/p>\n<p>Os \u00fanicos locais em que os n\u00fameros permanecem relativamente controlados at\u00e9 o momento s\u00e3o Alemanha, Gr\u00e9cia, Noruega e Finl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>O crescimento gerou uma s\u00e9rie de rea\u00e7\u00f5es de governos e autoridades p\u00fablicas: para conter a transmiss\u00e3o do v\u00edrus, medidas como toques de recolher, volta das aulas \u00e0 dist\u00e2ncia e fechamento de bares, restaurantes e lojas foram anunciadas por governos nos \u00faltimos dias.<\/p>\n<p>Os especialistas divergem se o que a Europa est\u00e1 vivendo \u00e9 mesmo uma segunda onda ou apenas uma continua\u00e7\u00e3o da primeira, uma vez que os casos e mortes diminu\u00edram, mas nunca cessaram.<\/p>\n<p>Defini\u00e7\u00f5es \u00e0 parte, quais foram os motivos por tr\u00e1s dessa guinada?<\/p>\n<p><strong>Retorno ao (novo) normal<\/strong><br \/>\n&#8220;Com a chegada do ver\u00e3o, os abalos econ\u00f4micos e a queda na transmiss\u00e3o do v\u00edrus entre a comunidade, houve uma enorme press\u00e3o para que as coisas voltassem a funcionar como antes por l\u00e1&#8221;, analisa o m\u00e9dico Airton Stein, professor titular de sa\u00fade coletiva da Universidade Federal de Ci\u00eancias da Sa\u00fade de Porto Alegre.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rios pa\u00edses, as aulas presenciais em escolas e universidades foram retomadas. Restaurantes e bares passaram a funcionar regularmente. Com o clima ameno, muitos europeus decidiram sair de casa e viajar.<\/p>\n<p>O fato de esta segunda onda atingir principalmente os mais jovens \u00e9, inclusive, um indicativo de que a reabertura das atividades teve um papel decisivo neste processo \u2014 afinal, trata-se da faixa et\u00e1ria que predomina nas escolas e costuma estar em viagens ou eventos sociais com mais frequ\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Evento programado?<\/strong><br \/>\nUm novo aumento do n\u00famero de casos e mortes por covid-19 era algo que os cientistas j\u00e1 esperavam \u2014 e que pode acontecer em boa parte do mundo se algumas medidas n\u00e3o forem tomadas.<\/p>\n<p>O primeiro motivo para isso \u00e9 o fato de que uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o parece ainda n\u00e3o ter tido contato com o v\u00edrus. Em alguns pa\u00edses europeus, estima-se que a soropreval\u00eancia (a porcentagem de pessoas que apresentam anticorpos contra o Sars-CoV-2) esteja abaixo dos 15%. Na pr\u00e1tica, isso significaria que os 85% restantes ainda est\u00e3o vulner\u00e1veis \u00e0 covid-19.<\/p>\n<p>Vale ponderar que essa soropreval\u00eancia e o papel dela na pandemia ainda \u00e9 muito incerta. N\u00e3o se sabe, por exemplo, quanto tempo dura uma eventual imunidade contra a covid-19 ou se todos os acometidos geram uma resposta parecida do sistema de defesa.<\/p>\n<p>Um segundo aspecto que influencia nessa quest\u00e3o \u00e9 a sazonalidade do v\u00edrus. Ao que parece, ele sobrevive mais tempo no inverno e se aproveita do fato de as pessoas ficarem aglomeradas em locais fechados quando a temperatura despenca, o que facilita a transmiss\u00e3o do pat\u00f3geno. O continente europeu est\u00e1 agora no outono e a temperatura vai cair ainda mais a partir de dezembro, com a chegada do inverno.<\/p>\n<p>Outro fator que contribui bastante para a segunda onda \u00e9 a maior disponibilidade de m\u00e9todos de diagn\u00f3stico. &#8220;Quando a pandemia come\u00e7ou, os pa\u00edses estavam despreparados. Muitos casos estavam ocorrendo, mas eles n\u00e3o foram registrados por falta de estrutura. Sete meses depois e com mais testes em m\u00e3os, \u00e9 poss\u00edvel detectar um n\u00famero maior de pacientes&#8221;, explica o virologista Anderson Brito, pesquisador na Escola de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade Yale, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Um dos indicadores de que a situa\u00e7\u00e3o estava piorando na Europa foi justamente a quantidade de testes com resultados positivos: atualmente, entre 4 e 9% dos exames feitos para a covid-19 por l\u00e1 confirmam o diagn\u00f3stico (antes, esse \u00edndice ficava pr\u00f3ximo de 1%). O n\u00famero crescente ligou o sinal de alerta das autoridades sanit\u00e1rias locais.<\/p>\n<p><strong>Uma boa not\u00edcia?<\/strong><br \/>\nSe h\u00e1 algo de positivo a ser destacado da atual experi\u00eancia europeia at\u00e9 o momento \u00e9 o fato de a taxa de mortalidade estar mais baixa durante essa segunda onda.<\/p>\n<p>Dados do Centro de Pesquisa e Auditoria em Cuidados Intensivos do Reino Unido revelam que a taxa de pacientes com covid-19 que morreram em at\u00e9 28 dias ap\u00f3s a interna\u00e7\u00e3o caiu de 39% do in\u00edcio da pandemia a agosto para 27% a partir de setembro.<\/p>\n<p>Mas esses achados iniciais precisam ser olhados com muita precau\u00e7\u00e3o. &#8220;A literatura nos mostra que o tempo entre a pessoa se infectar pelo coronav\u00edrus e precisar de interna\u00e7\u00e3o \u00e9 de uma semana. Da hospitaliza\u00e7\u00e3o at\u00e9 morrer, pode levar mais cinco semanas. E ainda h\u00e1 a demora entre o \u00f3bito e a notifica\u00e7\u00e3o do caso para as autoridades&#8221;, pondera o m\u00e9dico Marcio Sommer Bittencourt, do Centro de Pesquisa Cl\u00ednica e Epidemiologia do Hospital Universit\u00e1rio da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Portanto, se os casos de covid-19 na Europa est\u00e3o come\u00e7ando a subir nas \u00faltimas semanas, \u00e9 poss\u00edvel que o efeito disso sobre a mortalidade s\u00f3 venha a ser conhecido a partir de meados de novembro ou dezembro.<\/p>\n<p>A maior disponibilidade de testes tamb\u00e9m t\u00eam influ\u00eancia sobre a taxa de \u00f3bitos. Um exemplo pr\u00e1tico: no in\u00edcio da pandemia, havia um n\u00famero muito limitado de kits para realizar a detec\u00e7\u00e3o da covid-19. Eles eram, portanto, destinados aos casos mais graves, com sintomas preocupantes.<\/p>\n<p>Se determinada cidade l\u00e1 no in\u00edcio da pandemia tinha 100 indiv\u00edduos infectados, os hospitais e postos de sa\u00fade s\u00f3 tinham capacidade para testar dez deles. Vamos supor que, desses que foram diagnosticados, dois morriam. A taxa de mortalidade ficava, ent\u00e3o, em 20%.<\/p>\n<p>Imagine que esse mesmo local agora consegue fazer um n\u00famero bem maior de testes e \u00e9 capaz de detectar 100 pessoas com coronav\u00edrus. Se, neste grupo, duas delas morrem, a taxa de mortalidade despenca para 2%.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas quest\u00f5es, vale citar ainda que a experi\u00eancia acumulada dos \u00faltimos meses serviu de aprendizado para os profissionais de sa\u00fade. &#8220;Hoje sabemos melhor como manejar os casos graves e isso permite um progn\u00f3stico mais favor\u00e1vel&#8221;, concorda Stein, que tamb\u00e9m atua como m\u00e9dico de fam\u00edlia e comunidade do Grupo Hospitalar Concei\u00e7\u00e3o, na capital ga\u00facha.<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m um tempo para que os hospitais se organizassem, constru\u00edssem novas estruturas e treinassem profissionais de sa\u00fade para trabalhar na terapia intensiva. Isso evita filas de espera e garante um melhor tratamento aos pacientes que precisam dos cuidados.<\/p>\n<p><strong>D\u00e1 para se preparar?<\/strong><br \/>\nSe compararmos as curvas da covid-19 na Europa e no Brasil, \u00e9 poss\u00edvel reparar que estamos alguns meses atrasados nos eventos: nosso pa\u00eds chegou a um pico a partir de maio ou junho de 2020, quando a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ava a ser controlada do outro lado do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, por\u00e9m, fazer compara\u00e7\u00f5es precisas entre lugares t\u00e3o distintos. Cada peda\u00e7o do Brasil teve comportamentos epid\u00eamicos pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>&#8220;As curvas que aconteceram em cidades como Manaus, Bel\u00e9m e S\u00e3o Lu\u00eds lembram muito o que ocorreu na Europa, enquanto outros lugares do pa\u00eds tiveram curvas longas e achatadas ao longo de um per\u00edodo de tempo&#8221;, analisa Bittencourt.<\/p>\n<p>Mas, guardadas as devidas particularidades, ser\u00e1 que o Brasil tem algo a aprender com essa segunda onda na Europa para evitar ou minimizar os danos?<\/p>\n<p>&#8220;O v\u00edrus depende da proximidade entre duas pessoas para continuar circulando. Portanto, as medidas de distanciamento f\u00edsico, o uso de m\u00e1scaras e a lavagem de m\u00e3os continuam important\u00edssimas&#8221;, destaca Brito.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, as autoridades de sa\u00fade p\u00fablica precisam refor\u00e7ar as medidas preconizadas pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) para conter a pandemia. Uma dessas pol\u00edticas est\u00e1 na cria\u00e7\u00e3o de um amplo programa de testagem. &#8220;S\u00f3 assim conseguimos detectar os casos, especialmente os assintom\u00e1ticos, e isol\u00e1-los pelos pr\u00f3ximos 14 dias&#8221;, diz Stein.<\/p>\n<p>Nessa mesma linha, outra a\u00e7\u00e3o que faz a diferen\u00e7a \u00e9 o rastreamento de contatos. Na pr\u00e1tica, isso significa ir atr\u00e1s e informar rapidamente os indiv\u00edduos que estiveram pr\u00f3ximos a algu\u00e9m infectado pelo coronav\u00edrus de que eles tamb\u00e9m precisam fazer o teste e, se for o caso, obedecer uma quarentena.<\/p>\n<p><strong>Dificuldades pelo caminho<\/strong><br \/>\nDe acordo com os especialistas ouvidos para essa reportagem, o Brasil apresenta falhas nesse momento de prepara\u00e7\u00e3o para conter uma eventual segunda onda da covid-19.<\/p>\n<p>&#8220;Um aspecto preocupante \u00e9 uma diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de testes distribu\u00eddos pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade durante o m\u00eas de setembro&#8221;, aponta Stein.<\/p>\n<p>Com a atual tend\u00eancia de queda nos n\u00fameros de casos e mortes, esse \u00e9 justamente o momento de ampliar o diagn\u00f3stico, pois fica mais f\u00e1cil acompanhar o avan\u00e7o do coronav\u00edrus pelo pa\u00eds e tomar as medidas necess\u00e1rias citadas acima: isolar e rastrear poss\u00edveis contatos.<\/p>\n<p>De acordo com os dados disponibilizados no site do pr\u00f3prio Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, at\u00e9 o momento, o Brasil realizou 15,5 milh\u00f5es testes para detectar a covid-19. Desses, apenas 7,5 milh\u00f5es eram exames de PCR, que detectam o v\u00edrus ativo, com capacidade de ser transmitido para outros indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>Os 8 milh\u00f5es restantes, que representam mais da metade do total informado pela pasta, s\u00e3o os testes r\u00e1pidos. Eles apenas constatam se a pessoa j\u00e1 teve contato com o Sars-CoV-2 no passado, mas n\u00e3o t\u00eam o poder de avaliar se o coronav\u00edrus est\u00e1 circulando naquele momento pelo organismo.<\/p>\n<p>Com apenas a informa\u00e7\u00e3o do teste r\u00e1pido, de nada adianta fazer o isolamento ou o rastreamento de contatos: como a doen\u00e7a possivelmente j\u00e1 passou (muitas vezes sem dar sinal algum), o paciente pode ter transmitido o v\u00edrus para muitas pessoas com quem interagiu.<\/p>\n<p>O Brasil ainda tem um tempo para fazer a li\u00e7\u00e3o de casa e estar mais preparado para uma eventual segunda onda. Se esse fen\u00f4meno vai se concretizar, isso se relaciona a uma s\u00e9rie de vari\u00e1veis.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter certeza, pois isso depende de coisas que a gente n\u00e3o sabe e tamb\u00e9m de interven\u00e7\u00f5es que podemos colocar em pr\u00e1tica. A gente vai se preparar? Ou vai deixar rolar? Qual vai ser o status de desenvolvimento de rem\u00e9dios ou vacinas daqui a alguns meses? N\u00e3o sabemos tudo o que vai acontecer, mas podemos tomar as decis\u00f5es adequadas para este momento&#8221;, analisa Bittencourt.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira onda de covid-19 na Europa come\u00e7ou a tomar forma a partir do in\u00edcio de mar\u00e7o de 2020 e atingiu seu pico durante o m\u00eas de abril. 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