{"id":244883,"date":"2020-11-11T06:34:16","date_gmt":"2020-11-11T09:34:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=244883"},"modified":"2020-11-11T06:33:35","modified_gmt":"2020-11-11T09:33:35","slug":"raissa-abre-o-jogo-para-um-problema-serio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/raissa-abre-o-jogo-para-um-problema-serio\/","title":{"rendered":"Raissa abre o jogo para um problema s\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p>Um epis\u00f3dio no reality show A Fazenda, da Record, trouxe \u00e0 tona um assunto que merece a aten\u00e7\u00e3o de todos. Trata-se do Transtorno Borderline. A repercuss\u00e3o veio a partir das declara\u00e7\u00f5es de Raissa Barbosa, que j\u00e1 falou abertamente sobre o problema de sa\u00fade. A doen\u00e7a, assim como seu diagn\u00f3stico, sintomas e tratamento, s\u00e3o pouco conhecidos pelo p\u00fablico.<\/p>\n<p>Raissa revelou que foi diagnosticada com o Transtorno de Personalidade Borderline em abril de 2020, ap\u00f3s procurar ajuda m\u00e9dica em outubro de 2019: \u201cEu s\u00f3 conheci [o transtorno] porque eu descobri que eu tinha\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNo come\u00e7o eu n\u00e3o acreditei que tivesse isso porque eu nunca tinha ouvido falar, e achei que era algo grave\u201d, comentou a influenciadora em alguns stories publicados no Instagram. Ela destacou que \u00e9 comum que as pessoas n\u00e3o saibam que possuem a doen\u00e7a porque n\u00e3o buscam ajuda m\u00e9dica. \u201cN\u00e3o tenham preconceito\u201d, ressaltou, \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico tardio de Raissa, apenas na fase adulta, n\u00e3o \u00e9 incomum. O mesmo aconteceu com a estudante Mirian Reis, de 23 anos, que descobriu que possui o Transtorno Borderline no come\u00e7o de 2020, em meio \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o foi uma surpresa porque eu j\u00e1 sabia que tinha alguma coisa, mas n\u00e3o sabia o que era. Desde a adolesc\u00eancia, inf\u00e2ncia tive traumas que podem parecer bobos, mas foram bem importantes\u201d, lembra ela.<\/p>\n<p>Mirian relata que chegou a ter atitudes autodestrutivas na adolesc\u00eancia, com problemas para lidar com a rejei\u00e7\u00e3o em relacionamentos, e destaca que isso lhe causava \u201cmuito sofrimento\u201d, mesmo que algumas pessoas considerassem suas rea\u00e7\u00f5es como \u201cdrama\u201d ou \u201calgo bobo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA percep\u00e7\u00e3o do mundo \u00e9 muito mais suave pra quem n\u00e3o tem [o transtorno], para quem tem \u00e9 mais barulhento, intenso, dram\u00e1tico, vivemos a vida intensamente\u201d, explica ela. A jovem chegou a buscar ajuda psiqui\u00e1trica diversas vezes, mas n\u00e3o conseguia um diagn\u00f3stico preciso com os profissionais, que falavam de \u201ctraumas, agressividade, depress\u00e3o e ansiedade\u201d.<\/p>\n<p>Foi ap\u00f3s um surto que ela decidiu buscar ajuda especializada, encontrando um psiquiatra que deu o diagn\u00f3stico. \u201cDepois que recebi o diagn\u00f3stico correto, percebi que encaixava, tudo fazia mais sentido: o que eu fiz, passei&#8230;\u201d, conta.<\/p>\n<p>Atualmente iniciando o tratamento da doen\u00e7a, Mirian relata que decidiu acompanhar o programa A Fazenda depois de saber que uma das participantes tinha o Transtorno Borderline, mas ela considera que esse acompanhamento tem sido \u201cmuito dif\u00edcil\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEu vi alguns surtos dela e eles come\u00e7aram a repercutir nas redes sociais. As pessoas chamando ela de &#8216;louca&#8217;, &#8216;surtada&#8217;, &#8216;desequilibrada&#8217;, palavras muito ruins. Aquilo come\u00e7ou a me dar gatilho, porque se est\u00e3o xingando ela daquele jeito, est\u00e3o xingando a mim tamb\u00e9m\u201d, afirma a estudante, se referindo a coment\u00e1rios feitos ap\u00f3s brigas e desentendimentos em que Raissa se envolveu no programa.<\/p>\n<p>Ela destaca que quem possui o transtorno n\u00e3o \u00e9 \u201clouco\u201d e pode \u201cconviver em sociedade\u201d, al\u00e9m de lembrar que os \u201csurtos\u201d de Raissa n\u00e3o s\u00e3o um &#8220;show&#8221; ou &#8220;inven\u00e7\u00e3o&#8221;. A jovem considera que muitos coment\u00e1rios envolvem uma \u201cpsicofobia\u201d, ou seja, um medo ou preconceito devido a uma doen\u00e7a mental.<\/p>\n<p>\u201cAgora eu me agarrei \u00e0 causa dela, de ela estar l\u00e1, sofrendo uma press\u00e3o. Eu sei que \u00e9 um jogo, mas as pessoas n\u00e3o entendem que perseguir ela e atacar pelo transtorno \u00e9 algo muito mais grave. N\u00e3o deve ter um tratamento diferente, mas o m\u00ednimo \u00e9 ter respeito\u201d, defende Mirian.<\/p>\n<p>Apesar dos coment\u00e1rios negativos, a jovem considera que a presen\u00e7a de Raissa tamb\u00e9m pode ser positiva. \u201cMuita gente n\u00e3o conhece [o transtorno], e agora as pessoas podem ver como \u00e9, que isso existe. Est\u00e1 sendo positivo porque todos est\u00e3o tendo esse contato, para estar entendendo, mas muita gente n\u00e3o est\u00e1 entendendo e ataca mesmo sim\u201d, explica.<\/p>\n<p>\u201cFalam que ela [Raissa] n\u00e3o poderia participar por ter Borderline, mas eu bato na tecla de que temos que ser inclu\u00eddos, n\u00e3o \u00e9 porque tem isso que n\u00e3o podemos participar das coisas. N\u00e3o podemos ser exclu\u00eddos da sociedade. Podemos nos controlar, tendo uma vida como a dos outros, com acompanhamento, excluir as pessoas \u00e9 fazer um retrocesso\u201d, defende a jovem.<\/p>\n<p>Leila Salom\u00e3o Tardivo, professora de psicologia cl\u00ednica do Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (IP-USP), explica que Transtorno Borderline \u00e9 um tipo de transtorno de personalidade. Portanto, n\u00e3o pode ser chamado de &#8220;s\u00edndrome de Borderline&#8221;, uma classifica\u00e7\u00e3o incorreta.<\/p>\n<p>Ela explica que o transtorno se refere aos chamados \u201ccasos limites\u201d, por isso o nome. Borderline, em ingl\u00eas, pode significar tanto &#8220;fronteira&#8221; quanto &#8220;incerteza&#8221;. \u201cN\u00e3o \u00e9 um tipo \u00fanico, s\u00e3o pessoas com muita instabilidade emocional. \u00c9 dif\u00edcil diagnosticar porque pode parecer uma depress\u00e3o, mas tem outros componentes\u201d, destaca a professora.<\/p>\n<p>\u201cBorderline \u00e9 um problema nas rela\u00e7\u00f5es, se a pessoa fica perto [de algu\u00e9m] fica mal, e se fica longe n\u00e3o suporta. Tem um problema no v\u00ednculo, \u00e9 o mal do v\u00ednculo, h\u00e1 uma ang\u00fastia de abandono, perda, e perto [quem tem o transtorno] fica muito destrutivo\u201d, comenta ela.<\/p>\n<p>A professora comenta que o transtorno \u00e9 classificado como uma \u201cneurose polissintom\u00e1tica\u201d, o que significa que a doen\u00e7a se manifesta diversos sintomas diferentes, o que ela chama de \u201cgrande extens\u00e3o\u201d, e nem todos estar\u00e3o presentes em todas as pessoas diagnosticadas.<\/p>\n<p>Alguns sintomas do Transtorno Borderline podem at\u00e9 levar a diagn\u00f3sticos errados, baseados apenas em um sintoma e n\u00e3o no quadro geral do paciente. \u00c9 comum que ele seja diagnosticado com depress\u00e3o, ansiedade ou bipolaridade, quando na verdade os elementos que geraram essa conclus\u00e3o s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es do transtorno.<\/p>\n<p>Uma confus\u00e3o comum \u00e9 associar o Transtorno Borderline ao Transtorno Bipolar. A diferen\u00e7a entre os dois \u00e9 explicada pela professora: \u201cA bipolaridade alterna momentos de depress\u00e3o e de mania, ou agita\u00e7\u00e3o. Isso pode ocorrer com quem tem Borderline, mas n\u00e3o \u00e9 o que o caracteriza\u201d.<\/p>\n<p>O principal sinal de que uma pessoa pode ter o transtorno \u00e9 a dificuldade em estabelecer rela\u00e7\u00f5es com o entorno e de formar uma identidade e personalidade pr\u00f3prias. Essas quest\u00f5es geram efeitos psicol\u00f3gicos, que por sua vez se manifestam em sintomas semelhantes ao de ansiedade, depress\u00e3o e agressividade, al\u00e9m de fobias, obsess\u00f5es e altern\u00e2ncias r\u00e1pidas de humor.<\/p>\n<p>Em geral, os tipos de Borderline s\u00e3o divididos em graus. Quanto mais leve, mais f\u00e1cil \u00e9 o controle dos sintomas, mas quanto mais elevado, mais intensos os sintomas s\u00e3o. Nesses casos, o paciente pode ter comportamentos muito agressivos, autodestrutivos e at\u00e9 desenvolver v\u00edcios, como em subst\u00e2ncias qu\u00edmicas.<\/p>\n<p>Como \u00e9 o caso de outros transtornos de personalidade e doen\u00e7as mentais, o diagn\u00f3stico deve ser feito sempre por um profissional, geralmente um psiquiatra. Havendo a suspeita do transtorno, o profissional dever\u00e1 analisar os sintomas e as experi\u00eancias do paciente.<\/p>\n<p>Nesses casos, o grande perigo \u00e9 que o paciente seja diagnosticado com uma das manifesta\u00e7\u00f5es da doen\u00e7a, e n\u00e3o com o transtorno, que \u00e9 a verdadeira causa. Entretanto, o transtorno j\u00e1 \u00e9 conhecido pela ci\u00eancia desde os anos 1940, o que diminui as chances de erro de diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>Leila Salom\u00e3o destaca que quanto mais cedo o transtorno \u00e9 identificado, melhor. \u201cPensando at\u00e9 em adolesc\u00eancia, reconhecendo mais jovem fica mais f\u00e1cil lidar\u201d, explica ela. Os servi\u00e7os de atendimento psicol\u00f3gico est\u00e3o dispon\u00edveis no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), nos chamados Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (CAPS). Em S\u00e3o Paulo, o Hospital das Cl\u00ednicas possui um ambulat\u00f3rio espec\u00edfico para diagn\u00f3stico do transtorno.<\/p>\n<p>Como outros transtornos mentais, existem diversos fatores que podem levar ao desenvolvimento do Transtorno Borderline. A professora observa, por\u00e9m, que nos \u00faltimos anos tem ocorrido um aumento do n\u00famero de diagn\u00f3sticos da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Segundo ela, o aumento dos diagn\u00f3sticos est\u00e1 ligado n\u00e3o apenas \u00e0 busca maior de pessoas por aten\u00e7\u00e3o profissional, mas tamb\u00e9m a alguns fatores sociais: \u201cAumento do estresse, competi\u00e7\u00e3o intensa entre as pessoas, mais viol\u00eancia e uma falta de valores, base\u201d.<\/p>\n<p>A professora explica que n\u00e3o h\u00e1 cura para o transtorno, mas que \u00e9 poss\u00edvel control\u00e1-lo. Esse controle envolve tanto a participa\u00e7\u00e3o de um psiquiatra quanto de um psic\u00f3logo. Segundo ela, o psiquiatra receita medicamentos que controlam os sintomas exibidos pelo paciente, como ansiedade, enquanto o psic\u00f3logo realiza sess\u00f5es de terapia para trabalhar com as causas do transtorno.<\/p>\n<p>\u201cO controle \u00e9 mais f\u00e1cil para quadros mais brandos, diagnosticadas mais precocemente. Falta uma coes\u00e3o na identidade, a chamada identidade difusa, isso tem como controlar com um psic\u00f3logo\u201d, explica.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m destaca que \u00e9 necess\u00e1rio, durante o tratamento, haver um apoio das pessoas do em torno do paciente: \u201cO tratamento envolve integrar a personalidade, ajudar a pessoa a ser ela mesma, separada dos outros, e n\u00e3o se desesperar. Tamb\u00e9m envolve terapia familiar, ter um apoio\u201d.<\/p>\n<p>As chamadas \u201ccrises\u201d de quem possui o transtorno podem se manifestar de diversos jeitos, mas em geral envolve varia\u00e7\u00f5es r\u00e1pidos de humor, e tamb\u00e9m epis\u00f3dios violentos, com intensidade variante.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga observa que ambientes estressantes podem \u201cfacilitar as crises\u201d, inclusive em cen\u00e1rios de \u201ccompeti\u00e7\u00e3o exacerbada\u201d e conviv\u00eancia com outras pessoas agressivas. Em caso de crise, ela acha importante que os outros \u201cn\u00e3o se desesperem\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTem que procurar acalmar, mostrar presen\u00e7a, n\u00e3o julgar, criticar, e procurar ajudar. O ideal \u00e9 dar presen\u00e7a, dar afeto, seguran\u00e7a\u201d, comenta. Para isso, Leila considera ser importante que as pessoas do c\u00edrculo social do paciente n\u00e3o tenham preconceitos.<\/p>\n<p>\u201cExistem preconceitos, estigmas, a pr\u00f3pria pessoa se estigmatiza. N\u00e3o se pode validar a viol\u00eancia, se a manifesta\u00e7\u00e3o for essa, mas qualquer transtorno de personalidade tem que ser reconhecido pela pessoa e quem est\u00e1 ao redor, e ela n\u00e3o pode ser julgada pelo entorno\u201d, observa a professora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um epis\u00f3dio no reality show A Fazenda, da Record, trouxe \u00e0 tona um assunto que merece a aten\u00e7\u00e3o de todos. Trata-se do Transtorno Borderline. A repercuss\u00e3o veio a partir das declara\u00e7\u00f5es de Raissa Barbosa, que j\u00e1 falou abertamente sobre o problema de sa\u00fade. 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