{"id":245879,"date":"2020-11-26T01:00:41","date_gmt":"2020-11-26T04:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=245879"},"modified":"2020-11-25T21:06:26","modified_gmt":"2020-11-26T00:06:26","slug":"espera-e-descaso-do-atendimento-medico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/espera-e-descaso-do-atendimento-medico\/","title":{"rendered":"Espera e descaso do atendimento m\u00e9dico"},"content":{"rendered":"<p>Em uma fria manh\u00e3 de outono fui ao alergologista, uma especialidade m\u00e9dica com um nome dif\u00edcil que tenta esclarecer e tratar a doen\u00e7a mais irritante que existe: a alergia. T\u00e3o irritante e eg\u00f3ica que muitos estudiosos entendem que ela n\u00e3o existe, \u00e9 apenas um sintoma resultante de fatores psicossom\u00e1ticos n\u00e3o resolvidos. Entendeu? Um n\u00e3o sei qu\u00ea resultado de alguma coisa que n\u00e3o se sabe bem, que poderia ser, mas n\u00e3o \u00e9, que n\u00e3o tem cura, mas se prescreve rem\u00e9dios, pomadas e vacinas pra justificar sua exist\u00eancia; enfim uma aberra\u00e7\u00e3o da medicina, n\u00e3o tem outra explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Brincadeiras \u00e0 parte, a minha visita ao m\u00e9dico me fez refletir sobre o que tem acontecido nos consult\u00f3rios m\u00e9dicos nos dias atuais, e, aqui estou falando destes, situados em bairros de classe m\u00e9dia da cidade, sustentados 80% por consultas de pacientes de conv\u00eanio, n\u00e3o me atrevo a falar do servi\u00e7o p\u00fablico, pois n\u00e3o sou capacitada para tanto .<\/p>\n<p>Sou do tempo em que ir ao m\u00e9dico era quase ter uma entrevista com Deus: coloc\u00e1vamos a nossa roupa nova, troc\u00e1vamos o t\u00eanis ou o sapato da escola por um sapato bom, e l\u00e1 \u00edamos n\u00f3s, com a postura e a certeza de que sair\u00edamos daqueles &#8220;quase templos sagrados&#8221; com nosso diagn\u00f3stico e a certeza da cura. Esper\u00e1vamos em salas tranquilas e quietas \u00e0 frente de uma enfermeira (n\u00e3o pens\u00e1vamos que uma simples atendente pudesse trabalhar com um m\u00e9dico, n\u00e3o! Tinha que ser enfermeira diplomada!). A espera somente seria longa se n\u00e3o tivesse hora marcada, caso contr\u00e1rio, na hora certa, pimba! L\u00e1 surgia aquela figura de branco que esper\u00e1vamos com respeito e admira\u00e7\u00e3o. Transpassar aquela porta era quase chegar ao c\u00e9u, pois faltava pouco para darmos um ponto final no nosso sofrimento.<\/p>\n<p>Muito diferente desta manh\u00e3, onde atendentes atarantadas fazem mais uma ficha, atendem mais um telefonema, copiam mais um n\u00famero de carteira de infind\u00e1veis conv\u00eanios; onde crian\u00e7as s\u00e3o seres barulhentos e resmung\u00f5es com m\u00e3es aflitas e de semblantes cansados. \u00c0s vezes, vem tamb\u00e9m a av\u00f3 ou uma tia, com mais um filho no colo e, todas, absolutamente todas, tentam consolar seus meninos com um pacotinho de algum salgadinho gorduroso; afinal todos choram porque querem ir embora daquele lugar.<\/p>\n<p>Queridos meninos, eu tamb\u00e9m quero chorar, fugir daqui o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, mas, aprendi que esta espera \u00e9 apenas o come\u00e7o de uma peregrina\u00e7\u00e3o. O encontro com aquele que deveria dar-nos alento e solu\u00e7\u00e3o para os nossos males te atende cada vez mais superficialmente.<\/p>\n<p>Sai o &#8220;olho no olho&#8221; e entra o formul\u00e1rio impresso. Sai o &#8220;como voc\u00ea est\u00e1 se sentindo&#8221; e entra o &#8221; volte aqui com estes exames&#8221;. S\u00e3o dias e horas trocados por cinco minutos muito mal digeridos e atendimento que beira a displic\u00eancia.<\/p>\n<p>Sinto no ar uma comercializa\u00e7\u00e3o onde deveria haver dedica\u00e7\u00e3o e carinho, sinto que tem algo errado. Estas crian\u00e7as com os narizes escorrendo e as peles vermelhas s\u00e3o muito espertas: elas sofrem porque j\u00e1 perceberam que vivem em um mundo doente, talvez por isso chorem tanto.<\/p>\n<p>Sinto que o atendimento m\u00e9dico neste Pa\u00eds precisa ser repensado, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no p\u00fablico, que sabemos que \u00e9 um horror, mas em todas as classes e tipos de bolsos. H\u00e1 uma banaliza\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e um desmerecimento ao doente que beira o esc\u00e2ndalo e me deixa perplexa cada vez que preciso esperar horas em um consult\u00f3rio!<\/p>\n<p>Enquanto levanto este questionamento, caro leitor, continuo aqui, no meu canto, neste lugar de horrores, at\u00e9 a porta do m\u00e9dico se abrir e provocar em mim novas esperan\u00e7as. Afinal, quero pensar que todo o meu esfor\u00e7o n\u00e3o foi em v\u00e3o. Vou entrar l\u00e1 naquela sala pequena e abafada e acreditar, uma vez mais, que aquela pessoa \u00e0 minha frente ainda \u00e9 capaz de entender um pouco da natureza humana e de suas alergias. Boa sorte para n\u00f3s!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma fria manh\u00e3 de outono fui ao alergologista, uma especialidade m\u00e9dica com um nome dif\u00edcil que tenta esclarecer e tratar a doen\u00e7a mais irritante que existe: a alergia. 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