{"id":246917,"date":"2020-12-10T09:11:48","date_gmt":"2020-12-10T12:11:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=246917"},"modified":"2020-12-10T12:14:44","modified_gmt":"2020-12-10T15:14:44","slug":"alem-de-tudo-clarice-nos-ensinou-a-refletir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/alem-de-tudo-clarice-nos-ensinou-a-refletir\/","title":{"rendered":"Al\u00e9m de tudo, Clarice nos ensinou a refletir"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Eu tinha medo de falar. Eu n\u00e3o me enxergava&#8221;. N\u00e3o saber ler ou escrever fez com que Eudenice Moura Augusto buscasse o sil\u00eancio. Tinha vergonha de n\u00e3o conhecer as palavras, de pedir ajuda, de &#8220;ser livre&#8221;. Tudo aconteceu muito r\u00e1pido. Quando crian\u00e7a, trabalhava na ro\u00e7a com os pais. Aos 12, ajudava a fam\u00edlia a plantar e a colher arroz, feij\u00e3o e milho. Eudenice nasceu em Corrente, cidade sertaneja do sul do Piau\u00ed. Mudou com a fam\u00edlia para Tocantins e depois para o Distrito Federal. Aos 18, foi trabalhar como dom\u00e9stica. Hoje, mesmo aposentada, sustenta a casa com di\u00e1rias para lavar, passar e cozinhar. Ela lembra que, aos 20, estava casada. Depois, vieram os tr\u00eas filhos. E estudar n\u00e3o era prioridade.<\/p>\n<p>&#8220;Queria conversar com as pessoas, mas n\u00e3o sabia. Nem decifrar o letreiro do \u00f4nibus, entender os avisos no mercado ou ler um livro&#8221;. Eudenice \u00e9 de verdade, de nosso tempo, mas poderia ser hist\u00f3ria de Clarice Lispector, uma das principais escritoras do s\u00e9culo 20, nascida h\u00e1 exatos 100 anos. Tal qual Macab\u00e9a, personagem imortal de A hora da estrela (1977), obra consagrada da autora, ela se sentia presa e abandonada. &#8220;A hist\u00f3ria de Macab\u00e9a se resume \u00e0 sobreviv\u00eancia quase inumana, pois, para tudo o que se sente e deseja, n\u00e3o disp\u00f5e de palavras para expressar&#8221;, descreveu a professora Clarisse Fukelman, na apresenta\u00e7\u00e3o da 23\u00aa edi\u00e7\u00e3o do livro.<\/p>\n<p>Mas na hist\u00f3ria de Eudenice, o destino \u00e9 diferente da fic\u00e7\u00e3o de Macab\u00e9a. A liberdade da empregada dom\u00e9stica surgiu ao conhecer, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o, em Bras\u00edlia, um projeto social de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Os cadernos passaram a ser grandes amigos. Mora no que chama de um &#8220;barraco&#8221; na periferia e trabalha em uma &#8220;casa grande&#8221; no Lago Sul (zona nobre de Bras\u00edlia). Mesmo assim, o mundo mudou para ela. &#8220;Gostei muito de aprender as palavras. Consigo agora falar com os meus patr\u00f5es. Nunca achei que saberia falar ou escrever samb\u00f3dromo ou tamarindo ou vassoura&#8221;. Ela terminou o ensino m\u00e9dio e agora sonha fazer faculdade.<\/p>\n<p>A simetria das emo\u00e7\u00f5es que permeiam a hist\u00f3ria real de Eudenice com a hist\u00f3ria inventada de Macab\u00e9a refor\u00e7a a capacidade da escritora, que nasceu na Ucr\u00e2nia e mudou-se para o Brasil com 12 anos, fugida da guerra naquele pa\u00eds, de colocar no papel sentimentos universais. Clarice, segundo os estudiosos e cr\u00edticos, descortinou, ao assumir a imprecis\u00e3o das palavras, temas ligados ao feminino e tantas quest\u00f5es existenciais que nem sempre d\u00e1 para expressar.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Diz e n\u00e3o diz&#8221;<\/strong><br \/>\n&#8220;Algo marcante na obra da autora \u00e9 como a linguagem que ela emprega diz e n\u00e3o diz. Como a linguagem falta e falha. Isso aparece em toda obra de Clarice Lispector. O grande tema dela \u00e9 a palavra&#8221;, afirmou em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil, a professora de literatura Regina Pontieri, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Ela se dedica a pesquisar a autora h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas. &#8220;A gente pode dizer que as grandes obras da literatura t\u00eam em comum a densidade. S\u00e3o obras com m\u00faltiplas camadas de sentido. Cada leitor v\u00ea de um jeito. Cada \u00e9poca revisita o autor e adequa \u00e0s suas necessidades e \u00e0 leitura de mundo feita naquele momento. A partir das expectativas dos leitores, \u00e9 poss\u00edvel encontrar outras resson\u00e2ncias&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Regina Pontieri destaca que, ap\u00f3s Clarice Lispector publicar Perto do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem (1943), primeiro trabalho dela, cr\u00edticos ficaram surpresos com a escrita daquela autora at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida. Em janeiro de 1944, S\u00e9rgio Milliet escreveu que a obra era surpreendente, s\u00f3bria e penetrante. &#8220;Raramente tem o cr\u00edtico a alegria da descoberta. Por desta feita fiz uma que me enche de satisfa\u00e7\u00e3o&#8221;, escreveu o cr\u00edtico \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>\u00c1lvaro Lins estranhou a linguagem e a organiza\u00e7\u00e3o, mas ressaltou qualidades no trabalho. &#8220;N\u00e3o tenho receio de afirmar, todavia que o livro da Sra. Clarice Lispector \u00e9 a primeira experi\u00eancia definida que se faz no Brasil do moderno romance l\u00edrico, do romance que se acha dentro da tradi\u00e7\u00e3o de um Joyce ou de uma Virg\u00ednia Woolf&#8221;.<\/p>\n<p>Antonio Candido tamb\u00e9m viu semelhan\u00e7a com os autores estrangeiros e elogiou a novidade. &#8220;Em rela\u00e7\u00e3o a Perto do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem, permanece o fato de que, dentro de nossa literatura, \u00e9 uma performance da melhor qualidade. A autora &#8211; ao que parece uma jovem estreante &#8211; colocou seriamente o problema do estilo e da express\u00e3o&#8221;, publicou Candido em julho de 1944.<\/p>\n<p><strong>Apaixonante e dif\u00edcil<\/strong><br \/>\nOs cr\u00edticos explicavam que a t\u00e9cnica n\u00e3o determina a originalidade de uma obra. &#8220;H\u00e1 alguns pontos de contato com James Joyce (escritor irland\u00eas nascido em 1882 e falecido em 1941) e com Virg\u00ednia Woolf (brit\u00e2nica, que tamb\u00e9m viveu entre 1882 e 1941). Mas bastou a cr\u00edtica ter uma vis\u00e3o maior para perecer que Clarice n\u00e3o era uma vers\u00e3o brasileira desses autores. Inclusive, seria uma rela\u00e7\u00e3o de subalternidade pensar assim&#8221;, argumenta Regina Pontieri. A fama de uma escritora herm\u00e9tica e dif\u00edcil percorreu a carreira de Clarice. E, como toda escritora refer\u00eancia na literatura mundial, suas obras causam inc\u00f4modo.<\/p>\n<p>&#8220;Ela \u00e9 apaixonante e dif\u00edcil. Algumas obras da Clarice s\u00e3o mais lidas. H\u00e1 uma s\u00e9rie de obras que colocam dificuldades para os leitores. Na minha pesquisa, me dediquei a uma das obras mais dif\u00edceis, A cidade sitiada (1949). \u00c9 um tipo de dificuldade extremamente apaixonante. Acho que a Clarice causa realmente isso. \u00c9 o oposto da indiferen\u00e7a&#8221;. O resultado desta pesquisa de Regina \u00e9 o livro Uma Po\u00e9tica do Olhar.<\/p>\n<p>A professora explica que o olhar empregado por Clarice n\u00e3o \u00e9 o de sobrevoo, de um sujeito que v\u00ea o mundo de longe. &#8220;Clarice constr\u00f3i um olhar demorado, agudo, insistente. Olhar t\u00e3o fixo que ela come com os olhos. O que a Clarice faz \u00e9 comer com os olhos. Ela olha com a boca. Assim ela opera a integra\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto, entre corpo e esp\u00edrito&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Estranhamento?<\/strong><br \/>\nUma caracter\u00edstica na narra\u00e7\u00e3o de Clarice \u00e9 o de estranhamento diante de acontecimentos do mundo. &#8220;Os grandes escritores t\u00eam dificuldades de encontrar leitores em sua \u00e9poca. O que faz a originalidade \u00e9 reconstruir de uma forma nova. As pessoas t\u00eam resist\u00eancia com o que \u00e9 novo. O estranhamento \u00e9 o que faz uma obra. Ela est\u00e1 apresentando um novo modo de olhar o mundo. Alguns leitores v\u00e3o ficar instigados. Outros n\u00e3o&#8221;. Isso explicaria, portanto, o fato de que, com o passar do tempo, algumas obras, que eram consideradas muito dif\u00edceis, passam a ter maior inteligibilidade.<\/p>\n<p>Para Regina Pontieri, n\u00e3o existem bandeiras evidentes na obra de Clarice. &#8220;De fato, os temas femininos e as v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es de mulheres, as dificuldades vividas se encontram muito presentes desde o primeiro romance. Ela encena situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o da vida de mulheres, em alguns casos, que experimentam uma vida como cidad\u00e3 de segunda categoria&#8221;. Para al\u00e9m do fato de tratar de temas femininos, a pesquisadora explica que h\u00e1 uma dimens\u00e3o metaf\u00edsica que aborda temas integradamente.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Tempo de morangos&#8221;<\/strong><br \/>\nAs obras da autora despertam paix\u00e3o especial, no entender de Regina Pontieri, porque trata de quest\u00f5es existenciais. &#8220;Ela envolve a escrita com paix\u00e3o. Os leitores quase afundam na cadeira a tal ponto que ela cativa. O leitor se sente Clarice Lispector&#8221;. Para quem quer come\u00e7ar a esmiu\u00e7ar a obra da autora, a sugest\u00e3o \u00e9 come\u00e7ar pelos contos, como em La\u00e7os de Fam\u00edlia. &#8220;Clarice \u00e9 eterna como todos os grandes escritores. Sempre nos desperta. Este \u00e9 um momento que a gente deveria reler. N\u00e3o s\u00f3 ficar na internet. A literatura nos desafia. Quando a gente se pergunta, \u00e9 porque estamos vivos&#8221;. A autora desafia a viver, respirar, pensar, aproveitar cada instante. Ou, em outras palavras poss\u00edveis, o encerramento de A Hora da Estrela \u00e9 um exemplo da lembran\u00e7a para viver o dia, o tempo, a esta\u00e7\u00e3o: &#8220;N\u00e3o esquecer que por enquanto \u00e9 tempo de morangos. Sim&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Eu tinha medo de falar. Eu n\u00e3o me enxergava&#8221;. 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