{"id":247160,"date":"2020-12-13T11:01:08","date_gmt":"2020-12-13T14:01:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=247160"},"modified":"2020-12-13T13:04:08","modified_gmt":"2020-12-13T16:04:08","slug":"bumbum-do-frango-revela-misterios-da-imunidade-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bumbum-do-frango-revela-misterios-da-imunidade-humana\/","title":{"rendered":"Bumbum do frango revela mist\u00e9rios da imunidade humana"},"content":{"rendered":"<p>O cientista av\u00edcola Bruce Glick era fascinado por frangos, mais precisamente por um curioso \u00f3rg\u00e3o localizado na cloaca, cavidade que funciona tanto como o fim do aparelho digestivo, quanto como meio de reprodu\u00e7\u00e3o das aves.<\/p>\n<p>Esse interesse come\u00e7ou em uma tarde de outono de 1952, quando ele fazia doutorado na Universidade de Ohio, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Glick tinha procurado seu orientador para perguntar o nome de uma gl\u00e2ndula que ele acabara de remover do traseiro de um ganso.<\/p>\n<p>A resposta: &#8220;bursa de Fabricius&#8221;.<\/p>\n<p>O nome \u00e9 uma homenagem ao italiano Hieronymus Fabricius ab Aquapendente (1533-1616), especialista em anatomia, conhecido como o pai da Embriologia por ter sido o primeiro a escrever sobre o assunto no in\u00edcio do s\u00e9culo 17.<\/p>\n<p>Fabricius presumiu \u2014 erroneamente \u2014 que a bursa era um \u00f3rg\u00e3o feminino no qual o galo liberava seu s\u00eamen.<\/p>\n<p>Mas William Harvey, seu aluno mais famoso, observou que o \u00f3rg\u00e3o estava presente em machos e f\u00eameas e n\u00e3o poderia, portanto, cumprir a fun\u00e7\u00e3o assumida pelo antecessor.<\/p>\n<p><strong>O mist\u00e9rio<\/strong><br \/>\nNaquela tarde de outono em Ohio, cerca de tr\u00eas s\u00e9culos depois, Glick perguntou ao orientador qual era a fun\u00e7\u00e3o da bursa de Fabricius.<\/p>\n<p>A resposta: &#8220;Boa pergunta. Descubra voc\u00ea a resposta&#8221;.<\/p>\n<p>Empolgado com o desafio, Glick come\u00e7ou revisando o que havia sido escrito sobre a enigm\u00e1tica gl\u00e2ndula.<\/p>\n<p>N\u00e3o encontrou muita coisa, mas o suficiente para faz\u00ea-lo suspeitar que ela tinha alguma fun\u00e7\u00e3o no desenvolvimento.<\/p>\n<p>Para comprovar, ele removeu cirurgicamente o \u00f3rg\u00e3o de dezenas de pintinhos, mas n\u00e3o conseguiu identificar nenhuma altera\u00e7\u00e3o \u00e0 medida que cresciam.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o da bursa de Fabricius permaneceu um mist\u00e9rio.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Serendipidade&#8217;<\/strong><br \/>\nDesconcertado, Glick devolveu os frangos sem as bursas de Fabricius para a universidade.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria poderia ter terminado ali, se n\u00e3o fosse por outro estudante chamado Tony Chang, que precisava de alguns frangos para demonstrar como eles produziam prote\u00ednas conhecidas como anticorpos contra a salmonela se fossem vacinados.<\/p>\n<p>A maioria dos frangos escolhidos para esta demonstra\u00e7\u00e3o tinha sido usada por Glick anteriormente e \u2014 para surpresa e insatisfa\u00e7\u00e3o de Chang \u2014 n\u00e3o produziu anticorpos.<\/p>\n<p>Ao revisar o ocorrido, os dois alunos perceberam que s\u00f3 os frangos que tinham bursa de Fabricius haviam produzido.<\/p>\n<p>Claramente, esse \u00f3rg\u00e3o misterioso era crucial para a produ\u00e7\u00e3o de anticorpos.<\/p>\n<p>Eles escreveram um artigo para divulgar a descoberta e enviaram para a revista cient\u00edfica Science, mas infelizmente o texto foi rejeitado pela conceituada publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Glick n\u00e3o se deu por vencido. Ele revisou o trabalho e submeteu \u00e0 Poultry Science, revista de ci\u00eancia av\u00edcola, que o publicou em 1955.<\/p>\n<p>O texto ficou ali por v\u00e1rios anos at\u00e9 se tornar um dos artigos mais citados da hist\u00f3ria sobre imunologia.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Mentes preparadas&#8217;<\/strong><br \/>\nNo in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960, era sabido que certos tipos de gl\u00f3bulos brancos, conhecidos como linf\u00f3citos, produziam c\u00e9lulas plasm\u00e1ticas \u2014 e que estas produziam anticorpos que combatiam v\u00edrus.<\/p>\n<p>Mas ainda n\u00e3o estava claro como o nosso corpo conseguia reconhecer, atacar e lembrar de invasores estranhos.<\/p>\n<p>Por sorte, uma s\u00e9rie de eventos confirmou a frase do cientista Louis Pasteur: &#8220;No campo da observa\u00e7\u00e3o, a sorte s\u00f3 favorece as mentes preparadas.&#8221;<\/p>\n<p>Na Universidade de Wisconsin, tamb\u00e9m nos EUA, uma equipe de pesquisadores estava procurando informa\u00e7\u00f5es sobre horm\u00f4nios quando se deparou com o estudo de Glick sobre a bursa de Fabricius.<\/p>\n<p>Eles repassaram o artigo a um m\u00e9dico que fazia experimentos semelhantes aos de Glick para confirmar uma descoberta feita em 1961: que os linf\u00f3citos eram provenientes do timo.<\/p>\n<p>Este m\u00e9dico se chamava Robert Good e, em 1968, ele lideraria a equipe que realizou o primeiro transplante bem-sucedido de medula \u00f3ssea humana entre pessoas que n\u00e3o eram g\u00eameos id\u00eanticos.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 considerado o fundador da imunologia moderna.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, no entanto, seus experimentos envolvendo a remo\u00e7\u00e3o do timo de coelhos n\u00e3o haviam funcionado. Ele n\u00e3o notou nenhuma mudan\u00e7a significativa ap\u00f3s as cirurgias.<\/p>\n<p>O artigo de Glick fez com que Good e sua equipe vislumbrassem a possibilidade de haver uma dupla resposta para a quest\u00e3o: talvez o sistema imunol\u00f3gico dependesse de dois \u00f3rg\u00e3os, e n\u00e3o apenas de um.<\/p>\n<p><strong>De volta os frangos<\/strong><br \/>\nUm dos colaboradores de Good era o pediatra Max Cooper. Para testar a nova teoria, Cooper removeu o timo de um grupo de pintinhos, e a bursa de Fabricius de outro.<\/p>\n<p>Ele comprovou, como Glick havia descoberto, que aqueles que n\u00e3o tinham a bursa de Fabricius n\u00e3o produziam anticorpos, enquanto aqueles que n\u00e3o tinham timo produziam n\u00edveis reduzidos.<\/p>\n<p>E concluiu que cada \u00f3rg\u00e3o produzia um tipo diferente de gl\u00f3bulo branco, que atuavam juntos para combater a infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que os seres humanos n\u00e3o t\u00eam bursa de Fabricius, mas apresentam dois tipos de linf\u00f3citos que atuam na resposta imune adquirida, como os frangos.<\/p>\n<p>Todos os linf\u00f3citos s\u00e3o produzidos na medula \u00f3ssea \u2014 mas enquanto as c\u00e9lulas T amadurecem e se diferenciam no timo, as c\u00e9lulas B amadurecem e se diferenciam na bursa de Fabricius (no caso das aves) e na pr\u00f3pria medula \u00f3ssea (quando se trata dos homens).<\/p>\n<p>No combate \u00e0s doen\u00e7as, as c\u00e9lulas B produzem os anticorpos que atacam e memorizam os v\u00edrus que invadiram o corpo, dirigidas pelas c\u00e9lulas T, que tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis \u200b\u200bpor matar as c\u00e9lulas j\u00e1 infectadas.<\/p>\n<p>E o resto \u00e9 hist\u00f3ria. A hist\u00f3ria de tudo o que &#8220;mentes preparadas&#8221; desenvolveram e continuar\u00e3o a desenvolver gra\u00e7as ao entendimento dessa simbiose entre as c\u00e9lulas T e B.<\/p>\n<p>Quem diria que essa bolsa que as galinhas carregam no traseiro seria a chave para entender nosso sistema imunol\u00f3gico e salvar vidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cientista av\u00edcola Bruce Glick era fascinado por frangos, mais precisamente por um curioso \u00f3rg\u00e3o localizado na cloaca, cavidade que funciona tanto como o fim do aparelho digestivo, quanto como meio de reprodu\u00e7\u00e3o das aves. 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