{"id":248944,"date":"2021-01-09T13:15:33","date_gmt":"2021-01-09T16:15:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=248944"},"modified":"2021-01-09T22:17:58","modified_gmt":"2021-01-10T01:17:58","slug":"pandemia-muda-a-psicologia-de-encontro-amoroso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pandemia-muda-a-psicologia-de-encontro-amoroso\/","title":{"rendered":"Pandemia muda a psicologia de encontro amoroso"},"content":{"rendered":"<p>Emily, de 29 anos, moradora de Londres, diz que sempre foi um pouco introvertida. Ela costumava namorar, mas quando as restri\u00e7\u00f5es do primeiro lockdown no Reino Unido terminaram em julho, ela ficou relutante em come\u00e7ar a sair com algu\u00e9m novamente.<\/p>\n<p>&#8220;Eu conversei com algumas pessoas em aplicativos de relacionamento, mas n\u00e3o estava com pressa de me encontrar com ningu\u00e9m&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>&#8220;Tudo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia me deixou bastante ansiosa.&#8221;<\/p>\n<p>No in\u00edcio de agosto, ela aceitou sair com uma pessoa que havia conhecido por aplicativo para tomar uma cerveja, seu primeiro encontro desde mar\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1vamos trocando mensagens h\u00e1 alguns meses, e ele foi muito legal&#8221;, conta Emily, que n\u00e3o quis ter seu nome completo publicado. &#8220;Me senti extremamente hesitante.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;No meu subconsciente, eu ainda n\u00e3o tinha certeza se estava pronta para namorar novamente. Mais tarde naquele dia, enviei uma mensagem de texto para ele explicando como me sentia, e ele respondeu dizendo que havia percebido isso pela minha linguagem corporal&#8221;, relembra.<\/p>\n<p>Emily n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica que considera tenso sair com algu\u00e9m em meio \u00e0 pandemia de covid-19. Na verdade, seu comportamento est\u00e1 de acordo com um estudo de 2017, no qual um grupo de psic\u00f3logos da Universidade McGill de Montreal, no Canad\u00e1, analisou se o comportamento das pessoas no que se refere a relacionamentos amorosos mudaria se elas estivessem preocupadas com o risco de doen\u00e7as infecciosas.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que evitariam buscar um relacionamento se estivessem inconscientemente cientes do potencial risco \u00e0 sa\u00fade, ou o desejo humano natural de encontrar um parceiro prevaleceria?<\/p>\n<p>Os pesquisadores n\u00e3o faziam ideia de que a covid-19 estava prestes a chegar. Agora, o trabalho deles, combinado com outros estudos psicol\u00f3gicos conduzidos durante a pandemia, oferece uma vis\u00e3o fascinante e altamente relevante de como a crise de sa\u00fade parece estar afetando nosso comportamento no campo dos relacionamentos amorosos.<\/p>\n<p>E indica maneiras pelas quais podemos ter encontros mais eficientes no futuro, assim como criar la\u00e7os de relacionamento mais profundos e fortes.<\/p>\n<p>O experimento da McGill indica que a hesita\u00e7\u00e3o de Emily pode ser atribu\u00edda a um elemento de nossa psique conhecido como &#8220;sistema imunol\u00f3gico comportamental&#8221;.<\/p>\n<p>Os pat\u00f3genos sempre representaram uma amea\u00e7a \u00e0 nossa sobreviv\u00eancia ao longo da hist\u00f3ria humana. Assim, os psic\u00f3logos evolucionistas acreditam que os seres humanos desenvolveram um conjunto de respostas subconscientes que se manifestam quando estamos particularmente preocupados com a presen\u00e7a de uma doen\u00e7a infecciosa.<\/p>\n<p>Essas respostas nos levam a adotar padr\u00f5es de comportamento que reduzem a probabilidade de infec\u00e7\u00e3o, como ser menos abertos e reduzir o contato visual em situa\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>A equipe da Universidade McGill analisou como isso funcionava no contexto dos encontros amorosos. Eles pegaram centenas de homens e mulheres heterossexuais solteiros, com idades entre 18 e 35 anos, e pediram que completassem um teste psicom\u00e9trico conhecido como Vulnerabilidade Percebida \u00e0 Doen\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Sensa\u00e7\u00e3o de vulnerabiliade<\/strong><br \/>\nO teste consiste em um question\u00e1rio de 15 itens, em que os participantes devem classificar com n\u00fameros de 1 (discordo totalmente) a 7 (concordo totalmente) seus sentimentos em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es como: &#8216;Fico muito incomodado quando as pessoas espirram sem cobrir a boca&#8217; ou &#8216;Meu sistema imunol\u00f3gico me protege da maioria das doen\u00e7as que outras pessoas pegam&#8217;.<\/p>\n<p>Cada um dos participantes assistiu em seguida a um v\u00eddeo sobre higiene e abund\u00e2ncia de bact\u00e9rias no mundo cotidiano. O objetivo era preparar seu sistema imunol\u00f3gico comportamental antes de sa\u00edrem para um encontro \u00e0 noite com um representante do sexo oposto.<\/p>\n<p>Curiosamente, os pesquisadores descobriram que aqueles que indicaram que se sentiam mais vulner\u00e1veis a doen\u00e7as apresentaram n\u00edveis muito mais baixos de interesse em seus pretendentes \u2014 mesmo quando eram altamente atraentes. O medo da doen\u00e7a os deixava menos interessados \u200b\u200bem namorar.<\/p>\n<p>Como no caso de Emily, seus pretendentes perceberam o comportamento contido deles no estudo, uma descoberta que impressionou John Lydon, um dos autores do estudo, como &#8220;especialmente not\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Em apenas alguns minutos, as pessoas notaram que seu par tinha uma alta vulnerabilidade percebida \u00e0 doen\u00e7a, embora evidentemente n\u00e3o soubessem disso, eram mais retra\u00eddos e menos amig\u00e1veis&#8221;, diz ele.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, mesmo que voc\u00ea fosse capaz de ignorar as mensagens de sobreviv\u00eancia do seu subconsciente, o simples ato de encontrar um parceiro em potencial n\u00e3o tem sido f\u00e1cil na pandemia. Os lockdowns nacionais acabaram restringindo as liberdades individuais de maneira sem precedentes por meses a fio, tornando quase imposs\u00edvel sair e namorar.<\/p>\n<p>Mas, \u00e0 medida que o trabalho migrou para o ambiente digital, os romances tamb\u00e9m. Ben, um atu\u00e1rio de 27 anos que mora em Bristol, no Reino Unido, era inicialmente c\u00e9tico \u00e0 ideia de encontros virtuais por v\u00eddeo. Mas com poucas alternativas no in\u00edcio de abril, ele logo come\u00e7ou a abra\u00e7ar essa nova tend\u00eancia \u2014 e n\u00e3o demorou muito at\u00e9 mesmo para ver algumas vantagens nela.<\/p>\n<p>&#8220;Um dos principais problemas com aplicativos de relacionamento \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o tem ideia de como a outra pessoa realmente \u00e9 antes de conhec\u00ea-la&#8221;, diz Ben, que pediu para n\u00e3o revelar seu nome completo, caso futuras pretendentes encontrem esta reportagem.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 nada mais estranho do que encontrar algu\u00e9m em um bar e descobrir nos primeiros cinco minutos que voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam qu\u00edmica. Nos encontros por v\u00eddeo, \u00e9 um pouco mais relax. Voc\u00ea pode bater um papo e beber em sua pr\u00f3pria casa, e se voc\u00ea n\u00e3o estiver a fim, n\u00e3o sente que perdeu a noite. &#8221;<\/p>\n<p>A cientista comportamental Logan Ury, que atualmente trabalha como diretora de ci\u00eancia do relacionamento no aplicativo de encontros Hinge, tamb\u00e9m percebeu uma mudan\u00e7a na forma como as pessoas est\u00e3o abordando os relacionamentos online. Antes da pandemia, era comum usarem o aplicativo para pular continuamente de pessoa para pessoa.<\/p>\n<p>Mas, \u00e0 medida que as restri\u00e7\u00f5es sociais surgiram, as pessoas come\u00e7aram a passar mais tempo se conhecendo no mundo virtual antes de se encontrarem. Isso significa que, quando finalmente conseguem se conhecer pessoalmente, o encontro passa a ter mais import\u00e2ncia na cabe\u00e7a deles.<\/p>\n<p>&#8220;A pandemia significa que cada encontro se torna mais precioso&#8221;, afirma Ury.<\/p>\n<p>&#8220;Eu vi pessoas come\u00e7arem relacionamentos pela primeira vez em muito tempo, porque tinham menos distra\u00e7\u00f5es, e a pessoa com quem estavam saindo se tornou mais valiosa para elas.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Essas pessoas pararam com o h\u00e1bito de sempre passar para o pr\u00f3ximo, achando que a grama do vizinho \u00e9 sempre mais verde, e essa mudan\u00e7a provavelmente n\u00e3o teria acontecido sem a pandemia.&#8221;<\/p>\n<p>Ela acredita que as pessoas tamb\u00e9m se tornaram mais honestas consigo mesmas e com os outros quanto ao que procuram, devido aos momentos de introspec\u00e7\u00e3o pelos quais muitos passaram durante o lockdown.<\/p>\n<p>&#8220;Como as pessoas passaram muito tempo sozinhas, pensando quando ser\u00e1 o pr\u00f3ximo pico de covid, quando ser\u00e1 o pr\u00f3ximo lockdown, muitas passaram a querer se relacionar de forma mais intencional.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;E essa intencionalidade pode aparecer de v\u00e1rias maneiras. Por exemplo, sendo mais honesto com voc\u00ea e com os outros sobre o que voc\u00ea quer, valorizando cada encontro e se preparando mentalmente de fato para isso, e n\u00e3o praticando ghosting se voc\u00ea n\u00e3o estiver interessado. Em geral, eu acho que essas coisas s\u00e3o muito boas para a comunidade dos aplicativos de relacionamento.&#8221;<\/p>\n<p>Mas as pessoas que j\u00e1 est\u00e3o comprometidas tampouco est\u00e3o imunes ao impacto amoroso da pandemia. Na Universidade Amherst de Massachusetts, nos EUA, a psic\u00f3loga social Paula Pietromonaco tem analisado o que faz alguns casais ficarem ainda mais unidos, apesar do estresse da crise de sa\u00fade, enquanto outros se separam.<\/p>\n<p><strong>Comportamento duradouro<\/strong><br \/>\nEmbora os fatores socioecon\u00f4micos tenham um papel importante \u2014 os casais mais afetados financeiramente pela pandemia s\u00e3o mais propensos a se separar \u2014, Pietromonaco diz que depende muito de como os casais abordam os problemas que surgem em seu caminho.<\/p>\n<p>&#8220;Se eles se veem como um time, responsabilizando a pr\u00f3pria pandemia pelo estresse, em vez de algo no seu parceiro, \u00e9 mais prov\u00e1vel que saiam mais fortes dessa situa\u00e7\u00e3o&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>Como a pandemia mudou tanto a vida de todos, ela prev\u00ea que as perspectivas de longo prazo de muitos casais ser\u00e3o influenciadas pelos padr\u00f5es de comportamento estabelecidos durante esse per\u00edodo.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 prov\u00e1vel que os comportamentos continuem ap\u00f3s a pandemia&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;Os casais podem acabar melhorando a comunica\u00e7\u00e3o, apoiando mais um ao outro depois que isso acabar. Mas se eles entrarem em padr\u00f5es de conflito, isso tamb\u00e9m pode virar uma espiral. Para alguns, pode ser a chacoalhada que faltava para ajud\u00e1-los a mudar seu comportamento para melhor, enquanto para outros pode ser a gota d&#8217;\u00e1gua. &#8221;<\/p>\n<p>Para quem est\u00e1 solteiro, a pandemia pode ter trazido mudan\u00e7as que vieram para ficar, mesmo quando a vida voltar ao normal.<\/p>\n<p>&#8220;Acho que as videochamadas vieram para ficar como um meio de pr\u00e9-selecionar as pessoas que voc\u00ea conhece nos aplicativos&#8221;, diz Ben.<\/p>\n<p>&#8220;Uma vez que o primeiro lockdown terminou, eu continuei preferindo conhecer primeiro as pessoas no mundo virtual antes de sairmos para beber. Acho que \u00e9 definitivamente uma tend\u00eancia positiva. Com isso, tenho sa\u00eddo mesmo, mas quando vou a algum encontro, tende a ser muito mais prov\u00e1vel que transcorra bem.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Emily, de 29 anos, moradora de Londres, diz que sempre foi um pouco introvertida. 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