{"id":250113,"date":"2021-01-27T11:37:19","date_gmt":"2021-01-27T14:37:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=250113"},"modified":"2021-01-27T17:36:33","modified_gmt":"2021-01-27T20:36:33","slug":"kit-contra-covid-de-bolsonaro-e-ilusao-que-mata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/kit-contra-covid-de-bolsonaro-e-ilusao-que-mata\/","title":{"rendered":"Kit contra Covid de Bolsonaro \u00e9 uma ilus\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Durante a Peste Negra que assolou a Europa no s\u00e9culo 14, os m\u00e9dicos recorreram aos mais diversos &#8220;tratamentos&#8221; para lidar com as doen\u00e7as. Alguns apostaram numa t\u00e9cnica de esfregar cebolas ou carne de cobra nos fur\u00fanculos que apareciam na pele. Outros sugeriam que os pacientes sentassem perto de fogueiras ou de fezes para expulsar a doen\u00e7a do corpo.<\/p>\n<p>Mais recentemente, quando a gripe espanhola de 1918 se espalhou pelos continentes, tamb\u00e9m n\u00e3o faltaram terapias milagrosas para lidar com a crise sanit\u00e1ria. Alguns especialistas lan\u00e7aram f\u00f3rmulas \u00e0 base de formol, canela e at\u00e9 flores de jasmim amarelo para &#8220;curar&#8221; a doen\u00e7a que matou milh\u00f5es de pessoas no mundo todo.<\/p>\n<p>O mesmo cen\u00e1rio volta a se repetir agora, durante a pandemia de covid-19. Em meio a um n\u00famero crescente de casos e mortes, parte dos m\u00e9dicos, parte da popula\u00e7\u00e3o e at\u00e9 o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade defenderam um suposto tratamento precoce contra o coronav\u00edrus cuja efic\u00e1cia n\u00e3o foi comprovada at\u00e9 o momento.<\/p>\n<p>Segundo diversos estudos rigorosos realizados ao redor do mundo, medicamentos que integram esse &#8220;kit covid&#8221; ofertado nas fases iniciais da doen\u00e7a no Brasil j\u00e1 se mostraram inclusive ineficazes ou at\u00e9 mais prejudiciais do que ben\u00e9ficos quando administrados nos quadros leves, moderados e graves de covid-19.<\/p>\n<p>Ao longo dos \u00faltimos meses, diversas entidades nacionais e internacionais se posicionaram contra o coquetel de medicamentos promovido pelo governo Bolsonaro, que inclui a hidroxicloroquina, a azitromicina, a ivermectina e a nitazoxanida, al\u00e9m dos suplementos de zinco e das vitaminas C e D.<\/p>\n<p>Atualmente, esse mix farmacol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 reconhecido ou chega a ser contra-indicado por entidades como a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), o Centro de Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as dos Estados Unidos e da Europa, a Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).<\/p>\n<p>Mas antes de entrar nos detalhes sobre como tantas institui\u00e7\u00f5es chegaram a essa conclus\u00e3o de que esses rem\u00e9dios n\u00e3o s\u00e3o eficazes e de que n\u00e3o existe tratamento precoce que funcione contra a covid-19, \u00e9 importante explicar como surge um novo rem\u00e9dio contra determinada doen\u00e7a e como esse processo pode ser acelerado durante uma pandemia.<\/p>\n<p><strong>Do laborat\u00f3rio \u00e0 farm\u00e1cia<\/strong><br \/>\nGeralmente, a descoberta de um novo tratamento se inicia com a pesquisa b\u00e1sica. Um grupo de cientistas come\u00e7a a estudar uma mol\u00e9cula para entender suas caracter\u00edsticas e seus potenciais de uso.<\/p>\n<p>Essa subst\u00e2ncia, ent\u00e3o, \u00e9 testada num pequeno conjunto de c\u00e9lulas na bancada do laborat\u00f3rio. O objetivo aqui \u00e9 entender se as coisas funcionam como o esperado e se aquele composto tem alguma a\u00e7\u00e3o interessante dentro de um sistema biol\u00f3gico simples.<\/p>\n<p>Se tudo der certo, a pr\u00f3xima etapa inclui testes com cobaias. A nova mol\u00e9cula \u00e9 administrada em camundongos, macacos e outros animais que apresentam algumas caracter\u00edsticas semelhantes ao que ocorre no corpo humano.<\/p>\n<p>Caso a candidata apresente bons resultados, ela passa para a nova etapa: os testes cl\u00ednicos. Esses estudos s\u00e3o divididos em tr\u00eas fases, envolvem centenas ou at\u00e9 milhares de seres humanos e t\u00eam como objetivo final garantir a seguran\u00e7a e a efic\u00e1cia daquela nova formula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O teste cl\u00ednico de fase 3 costuma ser o mais r\u00edgido e amplo de todos. Para comprovar que aquele novo medicamento \u00e9 realmente bom, os cientistas dividem os volunt\u00e1rios em pelo menos dois grupos.<\/p>\n<p>O primeiro deles toma doses do rem\u00e9dio de verdade. J\u00e1 o segundo vai receber uma subst\u00e2ncia placebo (sem nenhum efeito no organismo) ou o melhor tratamento existente at\u00e9 aquele momento contra a doen\u00e7a que o novo candidato a farm\u00e1co promete combater.<\/p>\n<p>O ideal \u00e9 que nem os cientistas, muito menos os participantes do estudo, saibam quem integra qual grupo. Isso evita vieses ou o chamado efeito placebo, quando a pessoa se sente melhor por acreditar que foi tratada, mesmo quando recebeu um comprimido de farinha.<\/p>\n<p>O que acabamos de descrever aqui \u00e9 um estudo randomizado (os volunt\u00e1rios s\u00e3o sorteados para entrar em um esquema terap\u00eautico ou no outro), duplo cego (os participantes e os cientistas n\u00e3o fazem ideia de quem recebeu o qu\u00ea) e controlado (uma parte do grupo tomou placebo ou a melhor terapia dispon\u00edvel at\u00e9 ent\u00e3o). \u00c9 considerado o padr\u00e3o-ouro das pesquisas.<\/p>\n<p>Depois de todo esse rito, os resultados dos dois grupos s\u00e3o comparados. O esperado \u00e9 que a turma sorteada para tomar o candidato \u00e0 medicamento esteja melhor em rela\u00e7\u00e3o a quem fez parte do grupo placebo. Tamb\u00e9m \u00e9 essencial que a nova mol\u00e9cula n\u00e3o provoque efeitos colaterais graves demais.<\/p>\n<p>Os relatos de todo esse esfor\u00e7o s\u00e3o ent\u00e3o publicados num jornal cient\u00edfico, onde eles passam por uma revis\u00e3o de especialistas independentes e, caso sejam aprovados, poder\u00e3o ser lidos, contestados e repetidos por outros grupos de pesquisa em qualquer lugar do mundo.<\/p>\n<p>Se os resultados forem bons, os donos daquele novo produto entram com um pedido de aprova\u00e7\u00e3o nas ag\u00eancias regulat\u00f3rias, como a Anvisa no Brasil e o FDA nos Estados Unidos. Se essas entidades estiverem de acordo com o que foi apresentado, elas liberam o uso do novo medicamento no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para voc\u00ea ter ideia como esse processo \u00e9 complicado e criterioso, de cada 5.000 mol\u00e9culas testadas em c\u00e9lulas e cobaias, apenas uma consegue passar por todas as etapas e chegar \u00e0s farm\u00e1cias e aos hospitais. Esse processo dura, em geral, 12 anos e exige um investimento de US$ 2,6 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>D\u00e1 pra acelerar esse processo?<\/strong><br \/>\n\u00c9 claro que, durante uma pandemia que ceifa milhares de vidas todos os dias, torna-se impratic\u00e1vel esperar mais de uma d\u00e9cada para encontrar uma solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma estrat\u00e9gia que permite agilizar as coisas \u00e9 o chamado reposicionamento de f\u00e1rmacos. Em resumo, os cientistas come\u00e7am a avaliar um monte de rem\u00e9dios j\u00e1 dispon\u00edveis para tratar outras doen\u00e7as. Quem sabe eles tamb\u00e9m n\u00e3o podem ajudar num contexto diferente?<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 poss\u00edvel pegar v\u00e1rios medicamentos aprovados e utilizar uma plataforma automatizada para fazer testes com culturas de c\u00e9lulas. Assim j\u00e1 se descartam aquelas que n\u00e3o mostraram efeito algum e se delimita um grupo de mol\u00e9culas que apresentam algum potencial&#8221;, explica o microbiologista Luiz Almeida, coordenador de projetos educacionais do Instituto Quest\u00e3o de Ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Esse processo funciona como uma peneira: o objetivo \u00e9 descartar o material que n\u00e3o tem serventia e selecionar, mesmo que grosseiramente, aqueles que podem ajudar de alguma maneira.<\/p>\n<p>O reposicionamento traz algumas vantagens. O principal deles \u00e9 o fato de trabalhar com produtos que j\u00e1 est\u00e3o aprovados pelas ag\u00eancias regulat\u00f3rias e, portanto, j\u00e1 se mostraram relativamente seguros \u00e0 sa\u00fade humana.<\/p>\n<p>Importante mencionar que, para comprovar o seu valor diante de qualquer enfermidade, os rem\u00e9dios (mesmo os reposicionados) precisam passar por aqueles estudos randomizados, duplo cegos e controlados que explicamos um pouco acima.<\/p>\n<p>E isso tudo aconteceu com intensidade a partir de fevereiro e mar\u00e7o de 2020: quando diversos especialistas notaram a gravidade da covid-19, houve uma verdadeira corrida para conferir se algum produto farmac\u00eautico j\u00e1 aprovado poderia servir como solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi assim que hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e tantas outras candidatas entraram na hist\u00f3ria da pandemia de covid-19.<\/p>\n<p><strong>Hidroxicloroquina, uma droga<\/strong><br \/>\nO potencial da hidroxicloroquina contra a covid-19 come\u00e7ou a ser explorado a partir de um pequeno trabalho publicado na China. Mas ela s\u00f3 ganhou as manchetes com a publica\u00e7\u00e3o de um estudo feito pelo m\u00e9dico franc\u00eas Didier Raoult e por sua equipe.<\/p>\n<p>Divulgada em mar\u00e7o de 2020, a pesquisa envolvia 36 pacientes e afirmava que o rem\u00e9dio, usado no tratamento de doen\u00e7as como mal\u00e1ria, l\u00fapus e artrite reumatoide, era capaz de diminuir a carga de coronav\u00edrus no organismo.<\/p>\n<p>E mais: de acordo com as conclus\u00f5es do experimento, esses benef\u00edcios eram ainda maiores se a azitromicina (um antibi\u00f3tico) fosse administrada em conjunto.<\/p>\n<p>Apesar da esperan\u00e7a inicial, os cientistas rapidamente come\u00e7aram a notar que havia algo muito estranho nessa hist\u00f3ria. &#8220;A publica\u00e7\u00e3o do artigo foi muito criticada, pois estava cheia de erros metodol\u00f3gicos e coisas sem explica\u00e7\u00e3o&#8221;, relembra o m\u00e9dico Jose Gallucci-Neto, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl\u00ednicas de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Em setembro, Raoult foi denunciado pela Sociedade de Patologia Infecciosa de L\u00edngua Francesa (SPILF) por &#8220;promo\u00e7\u00e3o indevida de medicamento&#8221;. Agora em janeiro, o m\u00e9dico admitiu numa carta ter exclu\u00eddo alguns volunt\u00e1rios do resultado da pesquisa.<\/p>\n<p>&#8220;Ao avaliar esses dados completos, com esses participantes que ficaram de fora do artigo original, o resultado da hidroxicloroquina \u00e9 negativo e n\u00e3o houve redu\u00e7\u00e3o de mortalidade, necessidade de UTI ou oxigena\u00e7\u00e3o&#8221;, completa Gallucci-Neto.<\/p>\n<p>Mesmo com essas suspeitas iniciais e as corre\u00e7\u00f5es posteriores, o estrago j\u00e1 estava feito. Ainda no primeiro semestre de 2020, o ent\u00e3o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, bancou a ideia de Raoult. O ent\u00e3o presidente escreveu que a hidroxicloroquina &#8220;deveria ser colocada em uso imediatamente, pois pessoas est\u00e3o morrendo&#8221;.<\/p>\n<p>As convic\u00e7\u00f5es de Trump encontraram resson\u00e2ncia em outro ponto do continente americano, mais especificamente no Brasil. O presidente Jair Bolsonaro tamb\u00e9m fez ampla defesa do uso da hidroxicloroquina contra a covid-19.<\/p>\n<p>No dia 21 de mar\u00e7o, ele publicou um v\u00eddeo no Twitter intitulado &#8220;Hospital Albert Einstein e a poss\u00edvel cura dos pacientes com o covid-19&#8221;, em que anuncia que o laborat\u00f3rio qu\u00edmico e farmac\u00eautico do Ex\u00e9rcito Brasileiro iria ampliar a fabrica\u00e7\u00e3o desse medicamento.<\/p>\n<p>Ao longo dos meses, n\u00e3o faltaram demonstra\u00e7\u00f5es de apoio \u00e0 hidroxicloroquina. Bolsonaro levou o f\u00e1rmaco a tiracolo em diversos v\u00eddeos e transmiss\u00f5es ao vivo.<\/p>\n<p>A hidroxicloroquina tamb\u00e9m foi um dos motivos centrais da queda de dois ministros da Sa\u00fade. Os m\u00e9dicos Luiz Henrique Mandetta (que dirigiu o minist\u00e9rio entre 1\u00ba de janeiro de 2019 a 16 de abril de 2020) e Nelson Teich (que liderou a pasta de 17 de abril a 15 de maio de 2020) sa\u00edram ap\u00f3s press\u00f5es e discord\u00e2ncias sobre o uso amplo desse medicamento para combater a pandemia no pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Mas o que diz a ci\u00eancia?<\/strong><br \/>\nEspecialistas ouvidos pela BBC News Brasil entendem que era at\u00e9 compreens\u00edvel usar a hidroxicloroquina nos momentos iniciais da pandemia, em meados de mar\u00e7o, abril e maio de 2020 \u2014 afinal, os m\u00e9dicos estavam tateando no escuro e lidavam com uma doen\u00e7a sobre a qual n\u00e3o havia experi\u00eancia nenhuma.<\/p>\n<p>A partir de junho e julho, por\u00e9m, come\u00e7aram a ser publicados estudos mais robustos a respeito do tema. Eles mostravam que esse rem\u00e9dio realmente n\u00e3o funcionava em qualquer est\u00e1gio da doen\u00e7a, seja antes do in\u00edcio dos sintomas, seja no leito de uma UTI.<\/p>\n<p>&#8220;Atualmente, temos uma enorme quantidade de evid\u00eancias mostrando que a hidroxicloroquina n\u00e3o \u00e9 efetiva como tratamento da doen\u00e7a nos quadros graves, nos leves ou como profilaxia, para impedir que o v\u00edrus invada nossas c\u00e9lulas&#8221;, afirma a pneumologista brasileira Let\u00edcia Kawano-Dourado, que faz parte do painel da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) que desenvolve diretrizes de tratamento contra a covid-19.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, v\u00e1rios estudos foram publicados a respeito do tema. Um dos mais importante deles foi feito no Reino Unido e \u00e9 conhecido como Recovery Trial. Numa an\u00e1lise de mais de 4.500 pacientes hospitalizados, o uso de hidroxicloroquina e azitromicina n\u00e3o trouxe benef\u00edcio algum.<\/p>\n<p>O mesmo resultado foi observado na pesquisa da Coaliz\u00e3o Covid-19 Brasil, com cerca de 500 volunt\u00e1rios brasileiros com a infec\u00e7\u00e3o pelo coronav\u00edrus em est\u00e1gios leves ou moderados. Mais uma vez, a dupla de f\u00e1rmacos n\u00e3o mostrou o efeito desejado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os tratamentos testados foram associados a efeitos adversos mais frequentes, principalmente aumento do chamado intervalo QT, um sinal de maior risco para arritmia detectado por eletrocardiograma; e aumento de enzimas TGO\/TGP no sangue, altera\u00e7\u00e3o que pode indicar les\u00e3o no f\u00edgado.<\/p>\n<p>Segundo documento da Sociedade Brasileira de Infectologia, outros efeitos adversos s\u00e3o retinopatias, hipoglicemia grave e toxidade card\u00edaca. Por isso, \u00e9 &#8220;exigido cont\u00ednuo monitoramento m\u00e9dico dos indiv\u00edduos em uso da cloroquina ou hidroxicloroquina&#8221;. E outros efeitos colaterais poss\u00edveis s\u00e3o diarreia, n\u00e1usea, mudan\u00e7as de humor e feridas na pele.<\/p>\n<p>Numa nota informativa publicada em seu site, a Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana de Sa\u00fade (Opas) tamb\u00e9m orienta sobre inefic\u00e1cia do uso desse esquema terap\u00eautico:<\/p>\n<p>&#8220;As evid\u00eancias dispon\u00edveis sobre benef\u00edcios do uso de cloroquina ou hidroxicloroquina s\u00e3o insuficientes, a maioria das pesquisas at\u00e9 agora sugere que n\u00e3o h\u00e1 benef\u00edcio e j\u00e1 foram emitidos alertas sobre efeitos colaterais do medicamento. Por isso, enquanto n\u00e3o haja evid\u00eancias cient\u00edficas de melhor qualidade sobre a efic\u00e1cia e seguran\u00e7a desses medicamentos, a Opas recomenda que eles sejam usados apenas no contexto de estudos devidamente registrados, aprovados e eticamente aceit\u00e1veis.&#8221;<\/p>\n<p>Kawano-Dourado conta que o uso do f\u00e1rmaco contra o coronav\u00edrus \u00e9 um assunto superado na maioria dos lugares. &#8220;A hidroxicloroquina e outras representantes do tratamento precoce seguem em pauta apenas em alguns pa\u00edses subdesenvolvidos, como Brasil, \u00cdndia, Costa do Marfim e Filipinas.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Ivermectina, a bola da vez<\/strong><br \/>\nA partir do segundo semestre, a ivermectina passou a disputar espa\u00e7o como outra promessa contra a covid-19. Tudo come\u00e7ou a partir de um estudo experimental com c\u00e9lulas, em que esse rem\u00e9dio usado contra infesta\u00e7\u00f5es de vermes, parasitas e \u00e1caros mostrou ter poder de fogo contra o coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>O problema, mais uma vez, estava em sua origem. A dose utilizada neste trabalho inicial era absolutamente irreal. Alguns c\u00e1lculos posteriores mostraram que, para obter o mesmo efeito visto na bancada do laborat\u00f3rio, seria necess\u00e1rio dar a seres humanos dosagens de ivermectina dez vezes superiores ao limite considerado seguro.<\/p>\n<p>Em outras palavras, tudo indica que a quantidade necess\u00e1ria de ivermectina para &#8220;matar&#8221; o coronav\u00edrus num cen\u00e1rio real de infec\u00e7\u00e3o representaria um risco de efeitos colaterais grav\u00edssimos e overdose nas pessoas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, ao contr\u00e1rio da hidroxicloroquina, cuja inefic\u00e1cia contra a covid-19 est\u00e1 bem demonstrada pelos estudos publicados at\u00e9 o momento, a situa\u00e7\u00e3o da ivermectina \u00e9 de incerteza.<\/p>\n<p>Por aqui, ainda inexistem aqueles estudos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo sobre os quais falamos mais acima.<\/p>\n<p>Os resultados das pesquisas feitas at\u00e9 agora ficam, ent\u00e3o, contradit\u00f3rios. Uma delas, do Centro Internacional de Doen\u00e7as Diarreicas de Bangladesh, por exemplo, at\u00e9 revela uma diminui\u00e7\u00e3o da carga viral dos pacientes com covid-19, sem que isso resulte numa melhora significativa dos sintomas.<\/p>\n<p>Um trabalho do Instituto de Sa\u00fade Global de Barcelona, na Espanha indica que o uso da ivermectina aliviou um pouco os inc\u00f4modos da infec\u00e7\u00e3o num grupo de volunt\u00e1rios tratados. Mas os pr\u00f3prios autores admitem a necessidade de testes cl\u00ednicos maiores para confirmar as observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como pode ser visto, essas investiga\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito pequenas, com poucos participantes, e n\u00e3o t\u00eam significado pr\u00e1tico. Tanto que as principais entidades de sa\u00fade do mundo, como os Institutos Nacionais de Sa\u00fade dos EUA, n\u00e3o indicam o uso dessa droga como tratamento da covid-19.<\/p>\n<p>Isso porque os estudos sobre o papel do antiparasit\u00e1rio s\u00e3o inconclusivos e os cientistas est\u00e3o conduzindo investiga\u00e7\u00f5es maiores para descartar ou recomendar seu uso durante a pandemia.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o se recomenda que esse medicamento deva ser usado no atual est\u00e1gio.<\/p>\n<p><strong>Azitromicina, sem efeitos<\/strong><br \/>\nEm setembro de 2020, um estudo de pesquisadores brasileiros publicado na Lancet, a segunda revista m\u00e9dica mais influente do mundo, afirmou que a azitromicina n\u00e3o leva a melhoras em pacientes hospitalizados e, portanto, n\u00e3o tem indica\u00e7\u00e3o de uso para casos graves.<\/p>\n<p>Os pacientes foram divididos aleatoriamente em dois grupos \u2014 214 deles receberam azitromicina mais o tratamento padr\u00e3o, e outros 183 receberam apenas o tratamento padr\u00e3o, sem azitromicina. O tratamento padr\u00e3o, feito em ambos os casos, inclu\u00eda a hidroxicloroquina, pois naquela \u00e9poca \u2014 entre mar\u00e7o e maio \u2014 seu uso estava sendo bastante frequente.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve diferen\u00e7a entre os dois grupos em rela\u00e7\u00e3o a n\u00famero de \u00f3bitos nem ao tempo de interna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Gostar\u00edamos muito que tivesse funcionado, porque \u00e9 um medicamento barato, conhecido e normalmente bem tolerado na quest\u00e3o dos efeitos colaterais&#8221;, disse Luciano Cesar Pontes de Azevedo, m\u00e9dico do Hospital S\u00edrio-Liban\u00eas e parte da equipe que assina o artigo no Lancet, em entrevista \u00e0 BBC News Brasil na \u00e9poca da publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele esperava que, com os resultados, pelo menos a azitromicina deixasse de ser receitado indiscriminadamente no tratamento para covid-19, o que poderia levar a falta do medicamento para quem precisa e tamb\u00e9m aumento da resist\u00eancia de bact\u00e9rias. Isto porque a fun\u00e7\u00e3o original da azitromicina \u00e9 de antibi\u00f3tico, muito usado em infec\u00e7\u00f5es bacterianas nas chamadas vias a\u00e9reas superiores, como no nariz e garganta.<\/p>\n<p>De um dia para o outro, o verm\u00edfugo nitazoxanida ganhou os holofotes no Brasil como uma poss\u00edvel solu\u00e7\u00e3o contra a covid-19.<\/p>\n<p>No dia 19 de outubro de 2020, Bolsonaro e o ministro de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00f5es, Marcos Pontes, anunciaram um estudo que mostrava que essa droga poderia ser \u00fatil como tratamento precoce.<\/p>\n<p>Alguns dias depois, os resultados dessa pesquisa foram publicados no peri\u00f3dico cient\u00edfico European Respiratory Journal. De acordo com os especialistas ouvidos pela reportagem, as conclus\u00f5es do teste foram consideradas muito fracas e sem nenhuma aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Prova disso \u00e9 que, hoje em dia, a nitazoxanida nem faz parte do protocolo do j\u00e1 question\u00e1vel tratamento precoce que foi encampado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade brasileiro.<\/p>\n<p><strong>Dexametasona, um dos poucos que vingaram<\/strong><br \/>\nNem s\u00f3 de fracassos vive a estrat\u00e9gia de reposicionamento de f\u00e1rmacos contra a covid-19. H\u00e1 pelo menos um medicamento j\u00e1 conhecido que mostrou seu valor nos quadros graves da infec\u00e7\u00e3o pelo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Falamos aqui da dexametasona, representante da classe dos corticoides, muito usada contra doen\u00e7as de pele, enfermidades reumatol\u00f3gicas, asma e alergias.<\/p>\n<p>Um estudo capitaneado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, revelou que esse medicamento \u00e9 um aliado valioso para os quadros que necessitam de interna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Em alguns pacientes, a infec\u00e7\u00e3o pelo coronav\u00edrus desencadeia uma forte rea\u00e7\u00e3o inflamat\u00f3ria do organismo. Isso, por sua vez, passa a afetar diferentes \u00f3rg\u00e3os e pode at\u00e9 causar a morte&#8221;, contextualiza o m\u00e9dico Momtchilo Russo, professor s\u00eanior do Departamento de Imunologia do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>A dexametasona entra justamente nessa situa\u00e7\u00e3o. Ela ameniza a pane inflamat\u00f3ria que se instala em parte dos quadros agravados de covid-19.<\/p>\n<p>Que fique claro: esse corticoide n\u00e3o \u00e9 um tratamento precoce e nem deve ser usado por todo mundo que se contamina. Os m\u00e9dicos avaliam caso a caso e prescrevem esse f\u00e1rmaco de acordo com crit\u00e9rios muito bem estabelecidos.<\/p>\n<p><strong>Um grupo anti-&#8216;kit covid&#8217; que s\u00f3 cresce<\/strong><br \/>\nO avan\u00e7o da ci\u00eancia ao longo dos \u00faltimos meses permitiu que muitas entidades adotassem posturas contundentes contra a ado\u00e7\u00e3o do tratamento precoce ou do &#8220;kit covid&#8221;.<\/p>\n<p>No Brasil, um dos primeiros \u00f3rg\u00e3os a se posicionar foi a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). Em junho de 2020, a entidade produziu o primeiro documento analisando a pouca evid\u00eancia cient\u00edfica dispon\u00edvel de alguns rem\u00e9dios, como a hidroxicloroquina.<\/p>\n<p>Ao longo dos meses, a SBI atualizou esses pareceres e adotou uma posi\u00e7\u00e3o muito firme contra o tratamento precoce. Em seu \u00faltimo informe, publicado no dia 19 de janeiro, a sociedade reafirma:<\/p>\n<p>&#8220;As melhores evid\u00eancias cient\u00edficas demonstram que nenhuma medica\u00e7\u00e3o tem efic\u00e1cia na preven\u00e7\u00e3o ou no &#8216;tratamento precoce&#8217; para a covid-19 at\u00e9 o presente momento. Pesquisas cl\u00ednicas com medica\u00e7\u00f5es antigas indicadas para outras doen\u00e7as e novos medicamentos est\u00e3o em pesquisa. Atualmente, as principais sociedades m\u00e9dicas e organismos internacionais de sa\u00fade p\u00fablica n\u00e3o recomendam o tratamento preventivo ou precoce com medicamentos, incluindo a Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa), entidade reguladora vinculada ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade do Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico Cl\u00f3vis Arns da Cunha, presidente da SBI, relata que a repercuss\u00e3o dos posicionamentos fez com que ele pr\u00f3prio e v\u00e1rios membros da entidade fossem atacados pelas redes sociais e chegassem a receber at\u00e9 amea\u00e7as de morte. &#8220;Isso exigiu muita resili\u00eancia de nossa parte e fez com que nos un\u00edssemos e nos apoi\u00e1ssemos ainda mais&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Cunha tamb\u00e9m se incomoda com a falta de respaldo de outras entidades ao longo de 2020. A Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) n\u00e3o chancelaram os posicionamentos da Sociedade Brasileira de Infectologia e n\u00e3o se manifestaram contra o tratamento precoce e o &#8220;kit covid&#8221;.<\/p>\n<p>O Conselho Federal de Medicina chegou a dizer que caberia a cada m\u00e9dico decidir individualmente se prescreveria ou n\u00e3o hidroxicloroquina, ivermectina e afins.<\/p>\n<p>Na \u00faltima semana, o Conselho Federal de Medicina soltou uma nota \u00e0 imprensa afirmando que muitas dessas drogas &#8220;n\u00e3o contam com reconhecimento internacional&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 a Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Brasileira teve uma mudan\u00e7a de diretoria a partir de janeiro de 2021. Os novos gestores da associa\u00e7\u00e3o deram indicativos de que ter\u00e3o uma postura mais ativa a partir de agora \u2014 seu novo presidente, C\u00e9sar Eduardo Fernandes, coassina o informe da Sociedade Brasileira de Infectologia citado acima.<\/p>\n<p>A BBC News Brasil tentou entrar em contato com CFM e AMB, mas nenhuma das entidades respondeu aos pedidos de entrevista.<\/p>\n<p><strong>Posi\u00e7\u00e3o sem respaldo cient\u00edfico<\/strong><br \/>\nA despeito de todas evid\u00eancias cient\u00edficas e do posicionamento de entidades nacionais e internacionais, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e algumas secretarias estaduais e municipais de sa\u00fade insistiram no tratamento precoce \u2014 embora o aplicativo do Minist\u00e9rio que recomendava o tratamento precoce tenha sa\u00eddo do ar recentemente.<\/p>\n<p>No dia 16 de janeiro, o Twitter colocou um alerta de informa\u00e7\u00e3o duvidosa em uma mensagem postada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. O texto dizia: &#8220;Para combater a covid-19, a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o esperar. Quanto mais cedo come\u00e7ar o tratamento, maiores as chances de recupera\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, fique atento! Ao apresentar sintomas da covid-19, #N\u00e3oEspere, procure uma Unidade de Sa\u00fade e solicite o tratamento precoce&#8221;.<\/p>\n<p>Ao ser perguntado sobre o assunto durante uma coletiva de imprensa, o ministro Eduardo Pazuello disse que era preciso diferenciar o tratamento precoce do atendimento precoce.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s defendemos, incentivamos e orientamos que a pessoa doente procure imediatamente o posto de sa\u00fade. Que procure o m\u00e9dico e ele fa\u00e7a o atendimento cl\u00ednico e o diagn\u00f3stico precoce dos pacientes. Tratamento \u00e9 uma coisa, atendimento \u00e9 outra&#8221;, respondeu o general.<\/p>\n<p>No entanto, uma breve an\u00e1lise de outras falas de Pazuello confirma que ele insistiu no tratamento precoce diversas vezes e nos mais variados contextos.<\/p>\n<p>Poucos dias antes de o sistema de sa\u00fade de Manaus entrar em colapso, o ministro esteve na cidade com assessores e um comitiva de m\u00e9dicos justamente para falar com as autoridades locais a respeito do assunto.<\/p>\n<p>Numa an\u00e1lise sobre a crise sanit\u00e1ria na capital amazonense, Pazuello afirmou: &#8220;Manaus n\u00e3o teve a efetiva a\u00e7\u00e3o no tratamento precoce com diagn\u00f3sticos cl\u00ednicos, no tratamento b\u00e1sico. Isso impactou muito a gravidade da doen\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>Cunha, da SBI, rebate: &#8220;Eles levaram o kit ilus\u00e3o, o kit covid, que desde junho todas as sociedades m\u00e9dicas cient\u00edficas e autoridades sanit\u00e1rias do mundo sabem que n\u00e3o funciona. Eles deveriam oferecer oxig\u00eanio, UTI e mais pessoas para tratar o querido povo de Manaus. Isso foi a gota final de qu\u00e3o errado o minist\u00e9rio estava.&#8221;<\/p>\n<p>Na \u00faltima semana, o lan\u00e7amento do aplicativo TrateCov tamb\u00e9m gerou uma s\u00e9rie de pol\u00eamicas. A plataforma do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade serviria para orientar profissionais da sa\u00fade sobre as melhores condutas nos pacientes com sintomas sugestivos de covid-19.<\/p>\n<p>O problema era que o app, que j\u00e1 foi retirado do ar, indicava as drogas do &#8220;kit covid&#8221; at\u00e9 diante dos sintomas mais simples, que na maioria das vezes melhoram com o passar do tempo.<\/p>\n<p>A BBC News Brasil procurou o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para entrevistas, mas at\u00e9 o fechamento da reportagem n\u00e3o recebeu nenhuma resposta.<\/p>\n<p><strong>Efeitos imediatos (e para o futuro)<\/strong><br \/>\nMas qual o problema em usar esses medicamentos todos como preven\u00e7\u00e3o ou tratamento precoce contra a covid-19?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o uso desse coquetel d\u00e1 uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a. As pessoas podem sentir que est\u00e3o protegidas por conta das medica\u00e7\u00f5es e relaxar nas medidas que realmente funcionam, como uso de m\u00e1scara, distanciamento f\u00edsico e lavagem de m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8220;Al\u00e9m disso, muitos desses comprimidos e c\u00e1psulas podem provocar efeitos colaterais importantes se usados de forma inadequada&#8221;, alerta a m\u00e9dica Irma de Godoy, presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda uma preocupa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica com o uso indiscriminado da azitromicina, um tipo de antibi\u00f3tico usado em infec\u00e7\u00f5es bacterianas como a gonorreia e a pneumonia.<\/p>\n<p>Com tanta gente utilizando esse rem\u00e9dio sem necessidade, isso pode acelerar o processo de resist\u00eancia antimicrobiana \u2014 quando os micro-organismos criam mecanismos para &#8220;driblar&#8221; o tratamento e continuarem vivos.<\/p>\n<p>Tudo indica que, no futuro, a azitromicina e outros antibi\u00f3ticos n\u00e3o ser\u00e3o mais capazes de acabar com essas infec\u00e7\u00f5es e elas voltem a ser mortais.<\/p>\n<p>&#8220;Recentemente, a OMS soltou um alerta de aumento de casos de resist\u00eancia bacteriana pelo uso excessivo de antibi\u00f3ticos como a azitromicina. Isso cria, por exemplo, quadros de &#8216;supergonorreia&#8217; em que n\u00e3o h\u00e1 tratamento&#8221;, adverte a m\u00e9dica Viviane Cordeiro Veiga, coordenadora de UTI da BP-A Benefic\u00eancia Portuguesa de S\u00e3o Paulo e participante da Coaliz\u00e3o Covid-19 Brasil.<\/p>\n<p><strong>Cuidar na medida certa<\/strong><br \/>\nOs especialistas relatam que, ao se posicionarem publicamente contra o tratamento precoce, costumam ouvir sempre o mesmo argumento: &#8220;Mas eu conhe\u00e7o pessoas que tomaram hidroxicloroquina ou ivermectina e melhoraram&#8221;.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico Leonardo Weissmann, do Instituto de Infectologia Em\u00edlio Ribas, em S\u00e3o Paulo, esclarece que cerca de 80% das pessoas que pegam covid-19 t\u00eam formas leves, que regridem em poucos dias independentemente de qualquer tratamento.<\/p>\n<p>H\u00e1 um segundo contraponto comum nas redes sociais. Muitos pacientes que est\u00e3o com sintomas menos graves n\u00e3o se conformam com a orienta\u00e7\u00e3o de &#8220;s\u00f3&#8221; ficar em casa isolados, sem necessidade de nenhum comprimido espec\u00edfico. Eles temem uma piora, como o aparecimento de falta de ar e uma posterior necessidade de intuba\u00e7\u00e3o no hospital.<\/p>\n<p>&#8220;Nos primeiros dias de covid-19, \u00e9 importante medir a oxigena\u00e7\u00e3o por meio do ox\u00edmetro, um aparelhinho facilmente encontrado nas farm\u00e1cias. Se acontecer uma diminui\u00e7\u00e3o do oxig\u00eanio no sangue, busque uma orienta\u00e7\u00e3o m\u00e9dica&#8221;, indica Weissmann.<\/p>\n<p>De resto, quadros leves da infec\u00e7\u00e3o pelo coronav\u00edrus exigem repouso, boa hidrata\u00e7\u00e3o e, se necess\u00e1rio, medica\u00e7\u00e3o para sintomas como febre e dor no corpo. Caso os inc\u00f4modos persistam ou apare\u00e7a a falta de ar, \u00e9 hora de ir at\u00e9 o pronto-socorro.<\/p>\n<p><strong>O que se sabe hoje&#8230;<\/strong><br \/>\nPor fim, vale mencionar que a ci\u00eancia \u00e9 o campo das verdades provis\u00f3rias. Isso significa que amanh\u00e3, ou daqui a um m\u00eas, podem surgir trabalhos que comprovem a efic\u00e1cia e a seguran\u00e7a de alguns medicamentos em determinadas doses para os est\u00e1gios iniciais da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Nenhum m\u00e9dico ou entidade \u00e9 contra o conceito de tratamento precoce, desde que ele realmente funcione&#8221;, esclarece Godoy, que tamb\u00e9m \u00e9 professora da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp).<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o aparecem novidades farmacol\u00f3gicas contra a pandemia (e n\u00e3o h\u00e1 uma boa parcela da popula\u00e7\u00e3o vacinada), nos resta seguir respeitando as medidas de prote\u00e7\u00e3o, como o uso de m\u00e1scaras, o distanciamento f\u00edsico, a limpeza das m\u00e3os e a prefer\u00eancia por ambientes bem arejados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante a Peste Negra que assolou a Europa no s\u00e9culo 14, os m\u00e9dicos recorreram aos mais diversos &#8220;tratamentos&#8221; para lidar com as doen\u00e7as. 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