{"id":251930,"date":"2021-02-22T13:44:50","date_gmt":"2021-02-22T16:44:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=251930"},"modified":"2021-02-22T23:13:25","modified_gmt":"2021-02-23T02:13:25","slug":"bolsonaro-manda-o-brasil-rapidinho-para-a-buraqueira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bolsonaro-manda-o-brasil-rapidinho-para-a-buraqueira\/","title":{"rendered":"Bolsonaro manda Brasil rapidinho pra buraqueira"},"content":{"rendered":"<p>Desde crian\u00e7a, uma roupa, um par de sapatos ou brinquedos sa\u00eddos das lojas eram sin\u00f4nimos de alegria e de festas intermin\u00e1veis. Foi assim em todas as minhas primeiras vezes: a fatia de bolo, o refrigerante, o sorvete, as pretendentes, debutar no Maracan\u00e3 com mais de 180 mil pagantes. Enfim, inesquec\u00edveis primeiras vezes. Daquela? N\u00e3o tenho lembran\u00e7a. Estou certo de que eu e o mundo sempre agimos assim quando somos apresentados \u00e0quilo que \u00e9 novidade, ao que ainda tem lacre, n\u00e3o tem v\u00edcios. Minha primeira desilus\u00e3o com o novo ocorreu em 1989, quando Fernando Collor de Mello foi eleito presidente em uma disputa contra Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, cujo resultado ainda \u00e9 contestado &#8211; e com raz\u00e3o &#8211; pela turma do Partido dos Trabalhadores.<\/p>\n<p>O pessoal daquela emissora de televis\u00e3o sabe do que estou falando. A manipula\u00e7\u00e3o foi demasiadamente grosseira e at\u00e9 hoje n\u00e3o houve explica\u00e7\u00f5es plaus\u00edveis para a edi\u00e7\u00e3o que definiu o pleito. O retorno financeiro deve ter sido vantajoso. Entretanto, os dividendos continuam sendo cobrados pela turma da esquerda. Curioso \u00e9 que, n\u00e3o se sabe ao certo porque, os esquerdopatas conquistaram apoio dos direitopatas quando querem crucificar e jogar a TV (n\u00e3o o aparelho) no lixo. Como n\u00e3o tenho nada com isso, defendo sua proposta de isen\u00e7\u00e3o, assisto e indico seus telejornais e, de vez em quando, ainda dou uma passada d&#8217;olhos em suas telenovelas. Quer queiram ou n\u00e3o, \u00e9 disparadamente a melhor.<\/p>\n<p>Admitamos que o efeito Collor tenha sido apenas um lapso. Fernando eleito, decidi fazer o caminho inverso bem antes da forma\u00e7\u00e3o do minist\u00e9rio, do confisco do nosso rico dinheirinho e do besteirol que se seguiu. Comprei um apartamento de dois dormit\u00f3rios pr\u00f3ximo da praia de Cruz das Almas, onde pensei passar os quatro anos de governo. Perdi o pouquinho que sobrou para Z\u00e9lia Cardoso de Mello, mas felizmente acabei fazendo um bom neg\u00f3cio. Como os quatro anos viraram dois, consegui vender o im\u00f3vel com a mesma rapidez que comprei. A raz\u00e3o? Simples. Logo ap\u00f3s receber o AP, descobri que seria vizinho da mans\u00e3o de Paulo C\u00e9sar Faria, bra\u00e7o esquerdo e direito e ainda captador de grana il\u00edcita de Collor. Vendi um sonho, mas livrei-me de um pesadelo e de um p\u00e9ssimo adjacente.<\/p>\n<p>A lembran\u00e7a de Fernando Collor tem motivos \u00f3bvios. Esta semana recebi a informa\u00e7\u00e3o de que o \u00fanico presidente alagoano que os conterr\u00e2neos de bem abominam virou conselheiro formal de Jair Bolsonaro. Minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi de torpor. A segunda? Me desloquei \u00e0 ag\u00eancia banc\u00e1ria onde mantenho conta e, sem ouvir as pondera\u00e7\u00f5es do gerente, saquei os R$ 120 de que dispunha. Enfim, \u00e9 o que temos: o defenestrado tentando mostrar ao desgovernado o melhor caminho para o pa\u00eds, segundo no ranking de infectados e de mortos pela pandemia, nossa novidade mais nova e com a qual, muito a contragosto, tivemos de nos acostumar. Em outras palavras, o que era um governo novo, de novidades, virou velho, enferrujado em menos de dois anos. O roto tenta mostrar ao esfarrapado o caminho que n\u00e3o soube trilhar.<\/p>\n<p>Como nunca sonhamos com isso, \u00e9 claro que n\u00e3o cobramos governos acima das expectativas. J\u00e1 tivemos um que ajeitou a economia, mas, no melhor estilo Rubens Ricupero, costumava varrer para baixo do tapete o que era ruim. Mesmo assim, torcemos por aquele que, na pior das hip\u00f3teses, defenda a democracia como um bife acebolado, acompanhado de dois ovos e batatas fritas. Simples assim. Ou seja, n\u00e3o queremos muita coisa. Al\u00e9m da democracia, hoje nos faria muito bem mais empregos, menos divis\u00e3o, mais di\u00e1logo, menos grosseria, mais vacinas, menos politiza\u00e7\u00e3o da Covid-19 e mais decis\u00e3o no trato da coisa p\u00fablica. Em outras palavras, torcemos por um presidente e ganhamos um capit\u00e3o que passa horas, dias, semanas do governo modelando um golpe.<\/p>\n<p>Eventualmente torcer contra aquele outro candidato tinha conota\u00e7\u00e3o diferente do desejo ideol\u00f3gico. Tenho certeza de que a maioria dos que se bandearam para os lados do capit\u00e3o n\u00e3o se imaginava governada por pensamentos ou ideias. Todos queriam \u2013 e querem \u2013 mudan\u00e7as vi\u00e1veis, propostas palp\u00e1veis, a\u00e7\u00f5es concretas, sem conjecturas intramuros e, principalmente, sem acordos voltados exclusivamente para o prazer pessoal, que hoje responde pelo sin\u00f4nimo de reelei\u00e7\u00e3o a qualquer pre\u00e7o. A Constitui\u00e7\u00e3o ampara todos que legitimamente buscam um novo mandato. O l\u00f3gico \u00e9 que a luta seja igual, que o convencimento do eleitor seja conquistado com as mesmas armas. S\u00f3 assim o vencedor ser\u00e1 respeitado at\u00e9 mesmo por aqueles que o preteriram nas urnas.<\/p>\n<p>Faz tempo essa ladainha de fazer o que jurou rejeitar perdeu a etiqueta de validade. A aproxima\u00e7\u00e3o do presidente da Rep\u00fablica com a escola Collor de Mello e com o que de pior existe na pol\u00edtica brasileira (o Centr\u00e3o) nos deixa mais pr\u00f3ximos do inferno de Dante, a primeira das tr\u00eas partes da &#8220;Divina Com\u00e9dia&#8221;, obra \u00e9pica de Dante Alighieri. As outras duas s\u00e3o o purgat\u00f3rio e o para\u00edso, este \u00faltimo, ao que parece, muito distante de nossa realidade. Tudo bem que n\u00e3o possamos \u2013 pelo menos n\u00e3o devemos \u2013 ter tudo que queremos. Tamb\u00e9m n\u00e3o temos o direito de tentar adivinhar o que as pessoas pensam a nosso respeito.<\/p>\n<p>O que realmente importa \u00e9 que n\u00e3o nos importemos com nossas imperfei\u00e7\u00f5es. Pensemos na coletividade e, se realmente estivermos incomodados, indaguemos a quantos agradamos e a quantos desagradamos. \u00c9 o que sugiro seja pensado em rela\u00e7\u00e3o ao presidente Bolsonaro e seus novos apoiadores. Antecipo as dificuldades que vislumbro em se tratando de um ser humano de dif\u00edcil trato, que gira em torno da fam\u00edlia e que usa o rebanho para amedrontar os que fogem de sua doutrina. Complicado, mas perfeitamente normal para os sensatos, que, como pessoas p\u00fablicas, deveriam ser avisadas diariamente que, volunt\u00e1ria ou involuntariamente, s\u00e3o obrigadas a expor as duas faces para julgamentos.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso dos parlamentares, ministros de Estado, governadores, prefeitos, representantes do Poder Judici\u00e1rio e, sobretudo, do presidente da Rep\u00fablica. Em lugar algum do mundo, essas pessoas s\u00e3o eleitas ou escolhidas por unanimidade. Sendo assim, \u00e9 natural que sofram oposi\u00e7\u00e3o. Normalmente a conviv\u00eancia entre eleitor e eleito \u00e9 longa. Com Jair Bolsonaro l\u00e1 se v\u00e3o 30 anos. Pac\u00edfico ou de lit\u00edgios eventuais, esse conv\u00edvio perde a raz\u00e3o quando deixamos de dosar as emo\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. \u00c9 o que ocorre diariamente com Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>Fa\u00e7amos dos acertos pol\u00edticos um jogo democr\u00e1tico, um jogo da vida. Presidente, a oposi\u00e7\u00e3o e o mercado t\u00eam o direito e o dever de reclamar. Se n\u00e3o o fizerem, passam recibo de que est\u00e1 tudo bem. E sabemos todos, inclusive o senhor, que n\u00e3o est\u00e1. As cacas s\u00e3o di\u00e1rias. Como exigir que tenhamos tranquilidade? Respeite nossa intranquilidade, permita que sigamos seu exemplo e nos d\u00ea a chance de tamb\u00e9m nos irritarmos com seus erros. Talvez Vossa Excel\u00eancia n\u00e3o consiga, pois isso \u00e9 privil\u00e9gio dos corajosos. Portanto, una-se com quem quiser, mas n\u00e3o nos deixe acreditar que essas uni\u00f5es n\u00e3o passam de bacanais pol\u00edticos. Tenha paci\u00eancia com nosso choro. N\u00e3o seja t\u00e3o insens\u00edvel. Collor tirou o rico dinheirinho do povo, levando muitos chefes de fam\u00edlia ao suic\u00eddio. N\u00e3o aja como cruel genocida, pedindo para que esque\u00e7amos nossos mortos. \u00c9 demais. N\u00e3o d\u00e1 para matar o v\u00edrus com tiros. O t\u00edtulo de rei do caix\u00e3o pode lhe tirar numerosos votos. Pense nisso.<\/p>\n<p><strong>*Mathuzal\u00e9m Junior \u00e9 jornalista profissional desde 1978<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde crian\u00e7a, uma roupa, um par de sapatos ou brinquedos sa\u00eddos das lojas eram sin\u00f4nimos de alegria e de festas intermin\u00e1veis. Foi assim em todas as minhas primeiras vezes: a fatia de bolo, o refrigerante, o sorvete, as pretendentes, debutar no Maracan\u00e3 com mais de 180 mil pagantes. 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