{"id":252110,"date":"2021-02-25T08:34:43","date_gmt":"2021-02-25T11:34:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=252110"},"modified":"2021-02-25T08:34:43","modified_gmt":"2021-02-25T11:34:43","slug":"golpe-de-generais-insubordinados-vira-tiro-no-pe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/golpe-de-generais-insubordinados-vira-tiro-no-pe\/","title":{"rendered":"Golpe de generais insubordinados vira tiro no p\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>O famigerado tweet do general Villas B\u00f4as tinha endere\u00e7o certo, e alcan\u00e7ou seus objetivos: o STF se curvou. Sob a lideran\u00e7a do ministro Edson Fachin (que s\u00f3 agora se deu conta da intimida\u00e7\u00e3o dos fardados) negou o habeas corpus impetrado pela defesa do ex-presidente Lula, que, assim exclu\u00eddo da disputa presidencial, deixava livre a estrada para a aventura do capit\u00e3o. O resto \u00e9 hist\u00f3ria sabida. Na mesma l\u00f3gica se insere o livro do ex-comandante do ex\u00e9rcito, que tampouco \u00e9 obra do acaso. O texto e a oportunidade de sua divulga\u00e7\u00e3o implicam um objetivo, que, ao que tudo indica, desta feita n\u00e3o foi alcan\u00e7ado. Se era para desestabilizar o sistema, como parece haver suposto o meliante Daniel Silveira, o tiro saiu pela culatra. A exegese fica para os especialistas. Por enquanto, aplausos para o STF e para a C\u00e2mara dos Deputados: a democracia, por seus poderes constitu\u00eddos, parece haver acionado seu instinto de defesa. E sauda\u00e7\u00f5es ao ministro Gilmar Mendes, ao proclamar: &#8220;Ditadura nunca mais&#8221;. Hosanas!<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do normal dos preciosos depoimentos cedidos ao CPDOC da FGV, narrados para o cautelar estudo da posterioridade e eventualmente enfeixados em livros (como, por exemplo, os de Geisel e Cordeiro de Farias, este sa\u00eddo a lume ap\u00f3s a morte do general), o de Villas B\u00f4as foi ditado para ser logo impresso. O livro precisava circular; supostamente continha mensagem que havia de correr mundo. Levou tempo sua feitura e mobilizou estrat\u00e9gia, envolvendo mesmo o presidente da Funda\u00e7\u00e3o, e o general, consciente da miss\u00e3o, dedicou-lhe 13 horas de grava\u00e7\u00f5es, entre 12 de agosto e 4 de setembro de 2019. O depoimento foi degravado, tratado com zelo pelo pesquisador Celso de Castro e devolvido ao general, que o reteve por oito meses. Durante esse per\u00edodo, suas quase-mem\u00f3rias foram lidas e revistas por um &#8220;estado-maior&#8221; de assistentes e ganharam acr\u00e9scimo de texto correspondente a mais de 30% do original. Teria cabido ao general S\u00e9rgio Etchegoyen (&#8220;amigo-irm\u00e3o&#8221;) a maior parte da nova costura.<\/p>\n<p>Ou seja: respeitada a pobreza da biografia do depoente, trata-se de obra coletiva, lida, revista, corrigida, aditada. Nada de intempestivo, ao contr\u00e1rio: muito pensada. Para qu\u00ea? Todas as conjecturas s\u00e3o admiss\u00edveis, e uma delas, a mais curial, \u00e9 tratar-se de renovada tentativa de blindar a imagem da institui\u00e7\u00e3o militar ante o breve e severo julgamento da Hist\u00f3ria, que n\u00e3o poder\u00e1 deixar de considerar sua explicita corresponsabilidade nos desplantes do governo que sustenta. Se o objetivo era este, mais um tiro no p\u00e9. O efeito foi devastador para o general e a corpora\u00e7\u00e3o. Porque a \u00fanica pe\u00e7a relevante em todo o livro n\u00e3o \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o da g\u00eanese do tweet que garroteou o STF (epis\u00f3dio do dom\u00ednio p\u00fablico), mas o fato de o general, contrariando a tradi\u00e7\u00e3o dos comandantes, haver-se despido da responsabilidade de seu ato para dividi-lo com o Estado-maior do ex\u00e9rcito &#8220;e os generais em comandos em Bras\u00edlia&#8221;. Donde se conclui, agora, a valer esta vers\u00e3o, que a amea\u00e7a golpista teria sido projeto de toda a corpora\u00e7\u00e3o. Tanto pior. O general Villas B\u00f4as sai menor, o que \u00e9 bom; o ex\u00e9rcito sai mal, o que \u00e9 muito ruim.<\/p>\n<p>Houve tempo em que os militares insubordinados alegavam supostas amea\u00e7as subversivas (como o aumento de 100% do sal\u00e1rio m\u00ednimo dado por Get\u00falio) como justificativa para as ofensas \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o que haviam jurado defender. A mudan\u00e7a de narrativa ocorre nas andan\u00e7as do golpe de 1964. O marechal Castello Branco, primeiro ditador do mandarinato, inaugurou o cinismo: a m\u00e3o pesada da repress\u00e3o baixava sobre os democratas para evitar o cassetete da linha dur\u00edssima. O vezo pegou. E todas as recidivas atrabili\u00e1rias vinham com essa ressalva: \u00e9 para evitar o pior. Como quem diz: voc\u00ea ser\u00e1 esfolado para n\u00e3o ser escapelado. Na reg\u00eancia prussiana de Geisel, a retranca procurava legitimar-se na promessa de abertura. Foi quando vieram os decretos de abril de 1977, fechando ainda mais a ditadura.<\/p>\n<p>Essa contum\u00e9lia foi recuperada pelo general Villas B\u00f4as e seus associados, ao tentar impingir-nos, como justificativa do golpe assestado contra a soberania popular nas elei\u00e7\u00f5es de 2018, a necessidade de evitar um mau maior: a amea\u00e7a ao STF deveria, nessas conting\u00eancias, ser vista como um esfor\u00e7o dos &#8220;bem comportados&#8221; para evitar que os &#8220;mal comportados&#8221; (de farda ou de pijama) desandassem o que j\u00e1 n\u00e3o vinha bem, e virassem o barco de uma vez, como sempre desejaram a fam\u00edlia Bolsonaro e o \u00e1ulicos do terceiro andar do Pal\u00e1cio do Planalto. Em outras palavras, coautores do crime contra as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, querem os generais passar como baluartes da democracia. N\u00e3o se sabe se essa alegada amea\u00e7a era real, n\u00e3o se conhece sua dimens\u00e3o. Sabe-se que o STF em abril de 2018 deixou de julgar com base no direito para reconhecer a l\u00f3gica das baionetas. E n\u00e3o pela primeira vez, ressalte-se em defesa da honra dos atuais ministros.<\/p>\n<p>Diziam ent\u00e3o, e repetem agora os comandantes, que a caserna, passados aqueles tempos, est\u00e1 em paz, atenta aos seus deveres, embora a vejamos politizada e partidarizada de alto a baixo, trabalhada diuturnamente por um antilulismo, um antipetismo e um antiesquerdismo farisaicos, ou seja, um anti qualquer coisa que n\u00e3o seja conservadorismo, a ordem da classe dominante. Um reacionarismo que se associa \u00e0 reiterada defesa da ditadura que a maioria da tropa e da oficialidade sequer conheceu, o que implica a defesa de solu\u00e7\u00f5es golpistas, de interven\u00e7\u00f5es inconstitucionais e, finalmente, da tortura e dos torturadores, com os quais a institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria querer confundir-se. Esse sentimento, essa vis\u00e3o canhestra da pol\u00edtica e da vida, est\u00e1 nas p\u00e1ginas ditadas por Villas B\u00f4as.<\/p>\n<p>O general diz que os fardados se sentiram apunhalados pelas costas quando a presidente da Rep\u00fablica instituiu a Comiss\u00e3o da Verdade \u2013 iniciativa muito t\u00edmida e tomada com muitos anos de atraso, por quem, ali\u00e1s, n\u00e3o poderia deixar de tomar, uma brasileira seviciada nos por\u00f5es da ditadura. De que se queixam? At\u00e9 esta data nenhum golpista brasileiro foi punido e nenhum torturador foi para a cadeia, ao contr\u00e1rio, por exemplo, do que se abateu sobre seus cong\u00eaneres argentinos, chilenos, paraguaios e uruguaios.<\/p>\n<p>Enquanto isso, m\u00e3es e pais, esposas e maridos, filhas e filhos e amigos ainda procuram no Brasil pelos seus &#8220;desaparecidos&#8221;. Todos procuram algu\u00e9m. Eu desejo saber o que fizeram com o cad\u00e1ver de M\u00e1rio Alves de Souza, preso, torturado e assassinado nas depend\u00eancias da PE no Rio de Janeiro. Hildegard Angel quer saber onde est\u00e1 seu irm\u00e3o Stuart.<\/p>\n<p>O mundo caminha em marcha constante, indiferente aos retardat\u00e1rios. No todo, a soma \u00e9 o avan\u00e7o do processo civilizat\u00f3rio, apesar dos Trumps e Bolsonaros, sempre passageiros, por mais longos ou perversos que sejam seus tempos. O mundo de hoje \u2013 tocado pelas conquistas da ci\u00eancia e da tecnologia \u2013 se transformou em experimento que recha\u00e7a o j\u00e1 sabido e destro\u00e7a as verdades sedimentadas. S\u00f3 os incuravelmente n\u00e9scios est\u00e3o cheios de certeza. Talvez Eric Hobsbawn pudesse chamar esta era que ele n\u00e3o p\u00f4de ver (mas certamente anteviu) como a das incertezas. Tudo est\u00e1 por ser visto e constru\u00eddo. A \u00fanica coisa monol\u00edtica neste mundo em movimento \u00e9 a ideologia do militar brasileiro, atrasada, anacr\u00f4nica, subdesenvolvida, presa a uma guerra fria superada \u2013 incapaz, portanto, de ver o presente, e assim condenada a recuperar fantasmas e viver as fantasias de um mundo bipolar no qual s\u00f3 nos caberia o papel da mais abjeta subservi\u00eancia: a ren\u00fancia a ocupar um lugar pr\u00f3prio, a construir sua pr\u00f3pria identidade e decidir seu destino.<\/p>\n<p>Quero crer, por\u00e9m, que a tanto arb\u00edtrio se armam resist\u00eancias. Vejo-as nas recentes decis\u00f5es do STF e da C\u00e2mara dos Deputados impondo limites \u00e0 barb\u00e1rie. Antes de mais nada, por\u00e9m, que recolham ambas as Casas a li\u00e7\u00e3o: se, nos epis\u00f3dios passados de agress\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e ao decoro parlamentar as medidas profil\u00e1ticas tivessem sido tomadas, muito provavelmente outra seria a paisagem da esplanada dos minist\u00e9rios. Bolsonaro, por exemplo, certamente estaria na cadeia que o aguarda. Na condena\u00e7\u00e3o aos desmandos verborr\u00e1gicos do miliciano ainda deputado, o ministro Alexandre Moraes imputa como condutas criminalmente pun\u00edveis n\u00e3o s\u00f3 as ofensas a magistrados ou aos poderes da Rep\u00fablica, mas, igualmente, a defesa do &#8220;arb\u00edtrio e da ditadura, como ocorreu com a edi\u00e7\u00e3o do AI-5&#8221;, defesa tantas vezes entoada seja por militares (como o general Mour\u00e3o), seja por parlamentares e hordas bolsonaristas, seja pelo pr\u00f3prio presidente da rep\u00fablica. A democracia ter\u00e1 for\u00e7as para manter esse entendimento, alicer\u00e7ado em decis\u00e3o un\u00e2nime do plen\u00e1rio do STF? A conferir, e cobrar.<\/p>\n<p>Uma for\u00e7a s\u00f3 \u00e9 superada quando alcan\u00e7ada por uma for\u00e7a maior; nas democracias, a for\u00e7a que pode derrotar o arb\u00edtrio \u00e9 a mobiliza\u00e7\u00e3o popular. Com a palavra os partidos, os sindicatos, o movimento social.<\/p>\n<p><strong>*Ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia de Lula<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O famigerado tweet do general Villas B\u00f4as tinha endere\u00e7o certo, e alcan\u00e7ou seus objetivos: o STF se curvou. 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