{"id":252373,"date":"2021-02-28T16:02:17","date_gmt":"2021-02-28T19:02:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=252373"},"modified":"2021-02-28T16:03:40","modified_gmt":"2021-02-28T19:03:40","slug":"gripezinha-matou-o-primeiro-no-dia-que-a-terra-parou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/gripezinha-matou-o-primeiro-no-dia-que-a-terra-parou\/","title":{"rendered":"Gripezinha matou o primeiro no Dia que a Terra Parou"},"content":{"rendered":"<p>Mar\u00e7o desponta no horizonte do mundo como um m\u00eas que deve ser esquecido, pelo menos at\u00e9 que um dia tenhamos a exata no\u00e7\u00e3o do que ele representou em 2020 e 2021. Precisamente no dia 12 de mar\u00e7o do ano passado, uma quinta-feira, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade confirmava a morte da primeira paciente da Covid-19, uma paulistana de 57 anos. Antes da chegada das \u00e1guas de mar\u00e7o deste ano, iniciamos o m\u00eas com uma nova e perigosa vertente do v\u00edrus. Ainda sem o pleno aproveitamento da \u00faltima pris\u00e3o domiciliar e sem saber quando seremos vacinados, voltamos ao necess\u00e1rio isolamento social, uma das formas conhecidas de controle da doen\u00e7a. Apesar de, naturalmente, ter se transformado em um m\u00eas de tristes lembran\u00e7as, mar\u00e7o tamb\u00e9m \u00e9 emblem\u00e1tico, pois teve um dia simb\u00f3lico que jamais imaginamos fosse chegar.<\/p>\n<p>Chegou, assustou, virou verso, m\u00fasica e continuamos sem saber como ser\u00e1 encerrado. Terceiro m\u00eas do calend\u00e1rio gregoriano, mar\u00e7o come\u00e7a em Peixes, termina em \u00c1ries e \u00e9 um dos sete meses com 31 dias. No dia 16, o f\u00e3-clube do falecido cantor e compositor Raul Seixas comemora exatos 44 anos em que um cl\u00e1ssico da MPB se transformou numa infeliz coincid\u00eancia para o mundo. Nesse dia de 1977, o baiano lan\u00e7ava o s\u00e9timo \u00e1lbum solo de sua vitoriosa carreira, com uma previs\u00e3o que tem tudo a ver com o momento que estamos vivendo. Muito mais com o que vivemos em 2020. Na inesquec\u00edvel e cl\u00e1ssica O Dia em que a Terra Parou, Raul criou um acontecimento que simbolicamente paralisou a vida do ser humano. O mundo ainda n\u00e3o era globalizado, mas o sentido da m\u00fasica era o de que, naquele fat\u00eddico dia, as pessoas ficassem em casa, deixando de ir ao trabalho, mercados, escolas, pra\u00e7as, botecos.<\/p>\n<p>Era um SOS, um chamamento a Paulo Coelho, aos Super-her\u00f3is, ao riso franco e puro de Silvio Santos e a Mequinho para o salvamento do planeta. Mera coincid\u00eancia com os dias de hoje. Como estamos nos tempos do politicamente correto, o isolamento acabou denominado eufemisticamente de quarentena. \u00c9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de sem\u00e2ntica. A pris\u00e3o domiciliar for\u00e7ada \u00e9 a mesma. O inesquec\u00edvel Raul Seixas e sua Metamorfose ambulante errou por pouco. Ele previu apenas um dia de paralisa\u00e7\u00e3o, mas em 2020 foram mais de 300, levando em considera\u00e7\u00e3o que nosso primeiro contato oficial com a Covid-19 ocorreu no fim do carnaval passado, entre 21 e 26 de fevereiro. No in\u00edcio da pandemia, os menos c\u00e9ticos, mesmo sem certeza, afirmavam que o mundo e o Brasil sairiam dela mais humanizados, mais crentes, mais solid\u00e1rios, mais religiosos e mais politizados. Se realmente ocorreu, ainda n\u00e3o percebi nenhuma mudan\u00e7a. Quem sabe quando acordar em 2022.<\/p>\n<p>Certamente dedilhando um viol\u00e3o em suas andan\u00e7as pelo c\u00e9u de anil, Raul deve estar se perguntando: O que houve com 2020? O alquimista Dom Paulete teria de pronto a resposta: os bares fecharam, nossas m\u00e3os se embebedaram acima do permitido, as m\u00e1scaras nos tornaram semelhantes e indiferentes aos cremes e perfumes usados pelos amigos (as) que consegu\u00edamos ver, muitos foram internados, outros intubados e alguns morreram sem que pud\u00e9ssemos vel\u00e1-los. Pior foram as ruas. Ficaram sombrias, sem luminosidade e sem trabalho para as meninas de vida dif\u00edcil. Fomos obrigados a descobrir que m\u00e9dicos, param\u00e9dicos e enfermeiros n\u00e3o s\u00e3o invis\u00edveis. Perdemos muitas vidas, adquirimos novos h\u00e1bitos, ganhamos medos, mas jamais esquecemos da alegria e do carnaval, que este ano n\u00e3o tivemos oficialmente, mas, por conta da ignor\u00e2ncia de alguns, na calada da noite e nas festinhas clandestinas, o v\u00edrus voltou a circular com mais desenvoltura.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, foi justamente durante os festejos de Momo que percebemos que 2020 n\u00e3o existiria. A pandemia mudou h\u00e1bitos, acabou com postos de trabalho, tirou Donald Trump de circula\u00e7\u00e3o, colocou o governo bolsonarista \u00e0 prova, recuperou o poder de barganha do Centr\u00e3o, gerou at\u00e9 agora 254 mil mortes e 11 milh\u00f5es de casos, deixou muitas sequelas e sepultou temporariamente festejos seculares. Dif\u00edcil culpar algu\u00e9m antes, durante e depois do per\u00edodo pand\u00eamico. Contudo, n\u00e3o devemos usar da hipocrisia para fazer de conta que o governo, depois de desdenhar da doen\u00e7a, perdeu tempo no controle e na imuniza\u00e7\u00e3o, raz\u00e3o pela qual tive de recorrer e lembrar de Dom Raul para algumas conclus\u00f5es. Pedi ao Maluco beleza para Tentar outra vez uma nova Sociedade alternativa e, se fosse o caso, convocasse os mestres Cazuza e Renato Russo na tentativa de dissuadir o Carimbador maluco de evitar a Ideologia e apagar a ideia de que o Mundo anda t\u00e3o complicado.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguiram. O resultado \u00e9 que, desde 1\u00ba. de janeiro de 2019, o Brasil est\u00e1 essencialmente ideol\u00f3gico e cada vez mais complicado. O pior ainda est\u00e1 por vir. Por isso, precisamos mudar antes que o Exagerado pol\u00edtico esque\u00e7a o Deus Gita e decida aceitar como definitivo o Dia em que a Terra Parou. Felizmente, as \u00fanicas coisas que esse insensato e tresloucado v\u00edrus n\u00e3o tirou do nativo da terra de Cabral foram a esperan\u00e7a e a criatividade. O povo feliz ficou sem a alegria do futebol, as festinhas populares, shows musicais e sem o carnaval. Entretanto, compensou as perdas com um novo tipo de entretenimento. Encontros virtuais nos quais, como determina a regra nacional, n\u00e3o faltam cervejas geladas, petiscos, alegria e bom humor, as lives streamings s\u00e3o o novo normal da distra\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Preocupados com as ordens da dona patroa, alguns optaram por cria\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas, como as live lou\u00e7a, live banheiro e live janelas. Nada demais. Cada um sabe onde o calo aperta. Que bom que, para cerca de 43 milh\u00f5es de fan\u00e1ticos, restou o Flamengo novamente campe\u00e3o brasileiro. E dessa vez n\u00e3o permitiram que o presidente populista vestisse o Manto Sagrado rubro-negro. Convenhamos que, longe de Jesus, o escrete preto e vermelho perdeu parte do brilho de 2019. Entretanto, em 2021, nas \u00faltimas rodadas do Brasileir\u00e3o de 2020, novamente ganhou do Vasco de Wanderlei Luxemburgo, finalmente desengasgando o bisonho 4 a 4 do campeonato passado, com gol, nos acr\u00e9scimos, de um tal Ribamar. N\u00e3o se ofendam os extremistas da direita, mas quem realmente ficou ofuscado nesse per\u00edodo foi o governo federal, que teve de fazer das negativas da pandemia um emaranhado de manobras para n\u00e3o ser engolido pelo jeito educado e engomado do governador de S\u00e3o Paulo, Jo\u00e3o D\u00f3ria, o primeiro a conseguir um ant\u00eddoto para controlar o v\u00edrus mortal.<\/p>\n<p>O governo dos sonhos de uma minoria acabou se transformando em pesadelo para a maioria, principalmente para os que, por raz\u00f5es que a pr\u00f3pria raz\u00e3o desconhece, votaram num contra o outro. Confirmada a nova fase de quarentena, tentei encontrar em Raul Santos Seixas inspira\u00e7\u00e3o para n\u00e3o escrever sobre pol\u00edtica. Dif\u00edcil nos dias de hoje, quando o presidente da Rep\u00fablica faz da imuniza\u00e7\u00e3o em massa um ato pol\u00edtico. Uma pena, porque milhares morrer\u00e3o antes do pr\u00f3ximo voto. Alguns minutos de reflex\u00e3o e conclu\u00ed que Raulzito morreu sonhando e que Bolsonaro sonha com a morte. A diferen\u00e7a entre devaneios e estupidez \u00e9 a verdade. A principal delas est\u00e1, com outro formato, na letra de Dom Raulzito. N\u00e3o adianta procurar o posto para se vacinar, pois o vacinador e a vacina n\u00e3o estar\u00e3o l\u00e1.<\/p>\n<p>Busquemos apoio em outro brilhante compositor (Tom Jobim) para rogarmos a Deus que as \u00c1guas de mar\u00e7o n\u00e3o inundem ainda mais o cora\u00e7\u00e3o do sofrido povo brasileiro. Assim como Elvis Presley, Raul Seixas partiu no Trem das Sete, mas continua vivo e atual\u00edssimo nos versos de Ouro de Tolo. &#8220;&#8230;\u00c9 voc\u00ea olhar no espelho e se sentir um grand\u00edssimo idiota, saber que \u00e9 humano, rid\u00edculo, limitado e que s\u00f3 usa dez por cento de sua cabe\u00e7a animal&#8221;. Pior &#8220;\u00e9 acreditar que \u00e9 um presidente, doutor, padre ou policial e que est\u00e1 contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social&#8221;. O termo presidente n\u00e3o consta da letra original. \u00c9 de minha autoria. Por fim, de concreto jamais apagaremos da trilha sonora de nossas vidas O Dia em que a Terra Parou de Raul e a &#8220;gripezinha&#8221; do Jair. Ambas foram escritas em dias deste m\u00eas de mar\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>*Armando Cardoso \u00e9 jornalista<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mar\u00e7o desponta no horizonte do mundo como um m\u00eas que deve ser esquecido, pelo menos at\u00e9 que um dia tenhamos a exata no\u00e7\u00e3o do que ele representou em 2020 e 2021. 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