{"id":252418,"date":"2021-03-01T09:09:41","date_gmt":"2021-03-01T12:09:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=252418"},"modified":"2021-03-01T10:15:08","modified_gmt":"2021-03-01T13:15:08","slug":"do-jeito-que-esta-pandemia-nao-tem-como-acabar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/do-jeito-que-esta-pandemia-nao-tem-como-acabar\/","title":{"rendered":"Do jeito que est\u00e1, pandemia n\u00e3o vai acabar"},"content":{"rendered":"<p>Segundo a Bloomberg, se o atual ritmo de vacina\u00e7\u00e3o, lento e desigual, permanecer, o mundo demorar\u00e1 cerca de sete anos para obter imunidade coletiva contra o coronav\u00edrus. Nesse \u00ednterim, surgiriam, \u00e9 claro, novas variantes resistentes \u00e0s atuais vacinas.<\/p>\n<p>Imunidade que tarda n\u00e3o \u00e9 imunidade. Obviamente, isso n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel. O conhecimento cient\u00edfico para controlar a pandemia j\u00e1 existe. H\u00e1 cerca de 10 vacinas, algumas j\u00e1 dispon\u00edveis e outras em fase avan\u00e7ada de testes, bastante eficientes para conferir imunidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, est\u00e3o sendo desenvolvidos tamb\u00e9m medicamentos para mitigar os efeitos do v\u00edrus nos doentes. Qual \u00e9 o problema, ent\u00e3o? O problema essencial est\u00e1 na apropria\u00e7\u00e3o desse conhecimento por grandes companhias farmac\u00eauticas mundiais.<\/p>\n<p>Essas grandes companhias oligopolizam a produ\u00e7\u00e3o de vacinas e, ante a alta demanda, praticam pre\u00e7os abusivos que inviabilizam a massifica\u00e7\u00e3o real de um produto que poderia estar salvando a vida milhares de pessoas a cada dia.<\/p>\n<p>Na defesa dessa situa\u00e7\u00e3o inaceit\u00e1vel, est\u00e3o os dogmas neoliberais. Dizem, em primeiro lugar, que sem o investimento privado dessas grandes companhias, as vacinas n\u00e3o existiriam. Mentira.<\/p>\n<p>Todas essas vacinas foram desenvolvidas basicamente com fundos p\u00fablicos, atrav\u00e9s de subs\u00eddios ou grandes compras antecipadas feitas por governos de pa\u00edses mais abonados.<\/p>\n<p>Tais companhias se apropriaram desses recursos p\u00fablicos e, agora, praticam o pre\u00e7o que querem.<\/p>\n<p>Elas chegam at\u00e9 mesmo a desrespeitar contratos, como a Astra Zeneca fez com a Uni\u00e3o Europeia, ao encontrar compradores dispostos a pagar pre\u00e7o mais elevado.<\/p>\n<p>Na realidade, o desenvolvimento do conhecimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico \u00e9 feito essencialmente com recursos p\u00fablicos, que s\u00e3o injetados majoritariamente na chamada pesquisa b\u00e1sica.<\/p>\n<p>Mesmo em pa\u00edses muito liberais economicamente, como os EUA, a maior parte das pesquisas, inclusive das aplicadas, \u00e9 financiada por recursos p\u00fablicos, atrav\u00e9s do Departamento de Defesa e da Nasa, entre outras institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No entanto, mediante patentes, empresas privadas se apropriam desse conhecimento e cobram caro para lev\u00e1-lo \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que o financiou. Essa apropria\u00e7\u00e3o \u00e9 inaceit\u00e1vel, especialmente numa emerg\u00eancia mundial.<\/p>\n<p>Por isso, a \u00cdndia e a \u00c1frica do Sul propuseram, na OMC, a suspens\u00e3o dos direitos de propriedade intelectual sobre vacinas, no \u00e2mbito do TRIPS, pelo per\u00edodo em que durar a atual pandemia, reivindica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi apoiada pelo Brasil.<\/p>\n<p>Na realidade, o ideal \u00e9 que produtos m\u00e9dicos essenciais \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica n\u00e3o fossem pass\u00edveis de patenteamento, como previam v\u00e1rias leis nacionais de propriedade intelectual pr\u00e9vias ao TRIPS, que foi um acordo proposto (e imposto) pelos EUA e pela UE, no contexto da OMC, para beneficiar suas grandes companhias farmac\u00eauticas.<\/p>\n<p>A antiga lei de patentes da \u00cdndia, por exemplo, proibia o patenteamento de medicamentos e vacinas. Foi essa lei, ali\u00e1s, que permitiu o desenvolvimento de uma poderosa ind\u00fastria de produ\u00e7\u00e3o de medicamentos naquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>Antes do predom\u00ednio do paradigma neoliberal e do TRIPS, algumas epidemias foram enfrentadas exitosamente, com aus\u00eancia de patentes.<\/p>\n<p>Foi o caso da poliomielite. O inventor da primeira vacina, Dr, Jonas Salk, fez quest\u00e3o de tornar seu invento p\u00fablico, de forma a baratear o seu custo de produ\u00e7\u00e3o e permitir que todos os pa\u00edses pudessem produzi-lo.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, se n\u00e3o houver quebra de patentes das vacinas e sua consequente massifica\u00e7\u00e3o e barateamento, o mundo n\u00e3o conseguir\u00e1 enfrentar a pandemia. Mas o neoliberalismo se choca contra o interesse p\u00fablico n\u00e3o apenas na quest\u00e3o das vacinas e dos medicamentos.<\/p>\n<p>No Brasil, por exemplo, as pol\u00edticas neoliberais de austeridade tendem a impedir pol\u00edticas sociais destinadas a aliviar o sofrimento dos mais pobres e possibilitar que eles possam praticar o isolamento social.<\/p>\n<p>Prefere-se atender os interesses do \u201cmercado\u201d e dos rentistas, em detrimento das vidas dos que s\u00e3o obrigados a trabalhar sem quaisquer prote\u00e7\u00f5es. Para aprovar um aux\u00edlio emergencial raqu\u00edtico, imp\u00f5em a chantagem de se retirar dinheiro da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o. Imp\u00f5em, desse modo, a \u201cescolha de Sofia\u201d de optar por morrer de fome ou pelo v\u00edrus.<\/p>\n<p>Essa op\u00e7\u00e3o preferencial pelos ricos explica tamb\u00e9m por que tanto o negacionista e inepto governo federal quanto muitos governos estaduais e municipais evitam tomar medidas para impor o isolamento social, \u00fanica maneira de controlar a pandemia, enquanto a vacina n\u00e3o \u00e9 massificada.<\/p>\n<p>Rendem-se aos interesses de ind\u00fastria e com\u00e9rcio, em detrimento da vida da popula\u00e7\u00e3o. Muitas vezes, s\u00f3 decretam lockdown, quando o caos sanit\u00e1rio j\u00e1 est\u00e1 instalado. Por isso, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds pior avaliado, no combate \u00e0 pandemia.<\/p>\n<p>Segundo a OMS, o n\u00famero de casos semanais de Covid-19 a n\u00edvel mundial caiu 11%, na \u00faltima semana de avalia\u00e7\u00e3o, marcando a sexta semana consecutiva de quedas, enquanto as mortes ca\u00edram 20%. No Brasil, contudo, o descalabro s\u00f3 aumenta. Somos o patinho feio da pandemia.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante notar que, nos pa\u00edses nos quais o interesse p\u00fablico e a vida da popula\u00e7\u00e3o t\u00eam prioridade, em rela\u00e7\u00e3o aos interesses privados, a pandemia \u00e9 bem controlada.<\/p>\n<p>\u00c9 caso, por exemplo, da China, do Vietn\u00e3, de Cuba, da Nova Zel\u00e2ndia etc. E s\u00e3o tamb\u00e9m, em geral, pa\u00edses que sofrem menos danos econ\u00f4micos com a pandemia. A China gra\u00e7as, em boa parte, ao controle efetivo da pandemia, cresceu 2 %, no ano passado.<\/p>\n<p>Uma fa\u00e7anha, quando se leva em considera\u00e7\u00e3o que os EUA tiveram queda de 3,6% do PIB e que a UE apresentou redu\u00e7\u00e3o de 7,4%. Para este ano, prev\u00ea-se que a China crescer\u00e1 7,9%.<\/p>\n<p>Assim sendo, a grande doen\u00e7a mundial de hoje \u00e9 o neoliberalismo e sua irracionalidade intr\u00ednseca, fruto da aliena\u00e7\u00e3o do interesse p\u00fablico, popular e estrat\u00e9gico em suas pol\u00edticas, bem como a desigualdade que inexoravelmente produz.<\/p>\n<p>A pandemia apenas desnudou e aprofundou a incompatibilidade \u00faltima desse modelo com a vida da maioria da popula\u00e7\u00e3o. Portanto, a vida precisa ser defendida, ao mesmo tempo, contra o coronav\u00edrus e o neoliberalismo.<\/p>\n<p>Para o primeiro, j\u00e1 temos o conhecimento cient\u00edfico necess\u00e1rio. Para o segundo, bastam decis\u00f5es pol\u00edticas corretas. Tudo est\u00e1 ao nosso alcance.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo a Bloomberg, se o atual ritmo de vacina\u00e7\u00e3o, lento e desigual, permanecer, o mundo demorar\u00e1 cerca de sete anos para obter imunidade coletiva contra o coronav\u00edrus. Nesse \u00ednterim, surgiriam, \u00e9 claro, novas variantes resistentes \u00e0s atuais vacinas. Imunidade que tarda n\u00e3o \u00e9 imunidade. Obviamente, isso n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel. 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