{"id":252703,"date":"2021-03-05T06:37:15","date_gmt":"2021-03-05T09:37:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=252703"},"modified":"2021-03-04T22:38:11","modified_gmt":"2021-03-05T01:38:11","slug":"frente-politica-de-direita-agora-nada-de-bracada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/frente-politica-de-direita-agora-nada-de-bracada\/","title":{"rendered":"Frente pol\u00edtica de direita agora nada de bra\u00e7ada"},"content":{"rendered":"<p>A frente pol\u00edtica finalmente se p\u00f4s de p\u00e9, no Congresso Nacional, mas puxada pela extrema direita, para dar sustenta\u00e7\u00e3o ao seu governo. N\u00e3o nasceu a sonhada frente democr\u00e1tica. A frente de esquerda segue ainda mais distante, como longe est\u00e1 a frente simplesmente oposicionista, visto lhe faltarem uni\u00e3o, programa e rumo.<\/p>\n<p>A frente governista, por\u00e9m, se fortalece no casamento do reacionarismo com o fisiologismo larvar. Estrutura-se para sustentar, a peso de ouro, um situacionismo envilecido que investe contra a na\u00e7\u00e3o e desmonta o Estado social, mas que ainda tem muitos recursos para distribuir e est\u00e1 disposto a pagar o pre\u00e7o do mercado de votos.<\/p>\n<p>Urdido no submundo da pequena pol\u00edtica, no tug\u00fario da caserna e nas franjas do crime organizado, esse \u00e9 o mais aut\u00eantico governo da casa-grande em toda a hist\u00f3ria republicana, por isso tem o apoio sincero dos generais. Tem o apoio, no fundamental, dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, porta-vozes dos interesses do 1% de brancos ricos e rentistas que nos governam desde a Col\u00f4nia; \u00e9 sustentado pelo grande capital financeiro, nacional-internacional, que jamais errou na identifica\u00e7\u00e3o de seu lado na luta de classes. E conta com a aprova\u00e7\u00e3o de significativos segmentos da classe m\u00e9dia e das popula\u00e7\u00f5es das periferias, abandonadas pelas esquerdas quando, iludidas pela miragem da concilia\u00e7\u00e3o, desertaram da batalha ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Trata-se de advers\u00e1rio que, pelas armas que ter\u00e7a, imp\u00f5e a unidade de a\u00e7\u00e3o a quem se decida a fazer-lhe frente. Essa unidade, por\u00e9m, ser\u00e1 de pouca valia se n\u00e3o tivermos compet\u00eancia para analisar o processo pol\u00edtico das \u00faltimas d\u00e9cadas e nele rever nosso papel.<\/p>\n<p>Em que pesem os avan\u00e7os que logramos produzir, o fato \u00e9 que mantivemos intocado o monop\u00f3lio da terra e o imp\u00e9rio da propriedade privada, quando t\u00ednhamos o compromisso hist\u00f3rico com a reforma agr\u00e1ria; n\u00e3o movemos uma palha pela reforma tribut\u00e1ria, mantendo um sistema fiscal que beneficia o capital e agrava a injusti\u00e7a social; n\u00e3o demos um s\u00f3 passo com vistas \u00e0 reforma do Judici\u00e1rio, o centro do poder olig\u00e1rquico; nos esquivamos da reforma do Estado e, ao cabo de treze anos, o devolvemos \u00e0 direita como o hav\u00edamos recebido; n\u00e3o cuidamos da forma\u00e7\u00e3o de nossos oficiais, deixando intocado um ensino antirrepublicano, reacion\u00e1rio, que alimenta a concep\u00e7\u00e3o de casta sem compromisso com a sociedade nem submiss\u00e3o ao poder civil; mantivemos o oligop\u00f3lio midi\u00e1tico e n\u00e3o nos preparamos para a batalha da comunica\u00e7\u00e3o de massa, que assumiu nov\u00edssimos contornos na era digital. Ou seja, historicamente revolucion\u00e1rios, n\u00e3o ousamos sequer ser reformistas.<\/p>\n<p>Por fim, confiamos cegamente no &#8220;republicanismo&#8221; de almanaque, na isen\u00e7\u00e3o do aparato jur\u00eddico-policial, ignorando que, em sociedade capitalista, as institui\u00e7\u00f5es servem fundamentalmente \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio de classe. Negamo-nos a interpretar os idos de 2013, n\u00e3o compreendemos o recado de 2014, nos surpreendemos com o golpe de 2016 e n\u00e3o pudemos impedir a pris\u00e3o ilegal de Lula. Por fim, a manifesta\u00e7\u00e3o da soberania popular rejeitou nosso retorno em 2018. E ainda h\u00e1 quem insista que n\u00e3o h\u00e1 o que rever&#8230;<\/p>\n<p>O governo de militares e milicianos p\u00f5e em marcha o projeto da classe dominante brasileira, baseado na concentra\u00e7\u00e3o de renda e no desmonte do Estado em sua capacidade de combate \u00e0 desigualdade social e \u00e0 pobreza. Desmonta a soberania nacional, promove a aliena\u00e7\u00e3o de empresas estatais estrat\u00e9gicas, fomenta o privatismo na bacia das almas e abre nossa economia ao pasto das multinacionais, com o aux\u00edlio de uma pol\u00edtica externa que prima pela sabujice.<\/p>\n<p>Diante disso, o que fazer?<\/p>\n<p>Antes de tudo, \u00e9 preciso ter claro que a fortaleza a ser destru\u00edda \u00e9 o projeto reacion\u00e1rio da classe dominante brasileira, que tem no bolsonarismo sua mais perfeita tradu\u00e7\u00e3o. Portanto, suplantar o deplor\u00e1vel governo que a\u00ed est\u00e1, embora tarefa primordial, n\u00e3o \u00e9 um fim em si nem o \u00fanico desafio: precisamos, derrotando-o, vencer a direita tradicional e aquela batizada de &#8220;centro&#8221; pelos jornal\u00f5es, que se apresenta como alternativa &#8220;democr\u00e1tica&#8221; aos mandos e desmandos do capit\u00e3o.<\/p>\n<p>Para esse desafio, os dados dispon\u00edveis p\u00f5em em evid\u00eancia que a unidade das esquerdas \u00e9 um imperativo. A tarefa cobra disciplina e intelig\u00eancia para superar as querelas est\u00e9reis, o desperd\u00edcio de tempo e energia com o &#8220;fogo amigo&#8221;, e centrar nossa artilharia no inimigo principal.<\/p>\n<p>Se o processo pol\u00edtico acena com as elei\u00e7\u00f5es de 2022, \u00e9 preciso ter em conta que o processo social n\u00e3o se resolve na disputa eleitoral quando n\u00e3o enseja a ruptura. E \u00e9 para ela que devemos nos voltar estrategicamente, conscientes de que \u00e9 preciso enfrentar o n\u00f3 g\u00f3rdio do desafio hist\u00f3rico: a altera\u00e7\u00e3o na estrutura e na g\u00eanese do poder governante.<\/p>\n<p>Vivemos, ao longo da hist\u00f3ria, todas as experi\u00eancias oferecidas pelos manuais de ci\u00eancia pol\u00edtica. Transitamos da Col\u00f4nia ao Estado nacional, da monarquia \u00e0 Rep\u00fablica, projeto sempre por efetivar-se. Exercitamos o escravagismo e o etnoc\u00eddio. Nossa hist\u00f3ria cruenta conta um sem-n\u00famero de insurrei\u00e7\u00f5es, golpes de Estado, quarteladas, elei\u00e7\u00f5es fraudadas, elei\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas e per\u00edodos de franquias democr\u00e1ticas ao lado de ditaduras diversas e longas, como a \u00faltima, do mandarinato militar. Nossos l\u00edderes conheceram o degredo, o ex\u00edlio, a pris\u00e3o, a tortura e o assassinato; governos militares cassaram mandatos eletivos e suspenderam direitos pol\u00edticos de cidad\u00e3os; o Congresso foi v\u00e1rias vezes posto em recesso ou sitiado pelas For\u00e7as Armadas; contam-se as deposi\u00e7\u00f5es de presidentes, o suic\u00eddio de um deles, a ren\u00fancia de outros dois, e mais de um mandat\u00e1rio conheceu o ex\u00edlio. Nada disso, por\u00e9m, alterou a composi\u00e7\u00e3o e a natureza do poder e o mando pol\u00edtico, intoc\u00e1vel: o poder da casa-grande que nos governa desde sempre, mesmo quando o povo, aproveitando lapsos do sistema, elege governos democr\u00e1ticos e populares.<\/p>\n<p>Cada vez mais se revela impens\u00e1vel que as reformas sociais e econ\u00f4micas se fa\u00e7am nos termos prescritos pelo sistema. Sempre que essa perspectiva se coloca, a classe dominante interv\u00e9m, a ferro e fogo, para impor o congelamento.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso dar conte\u00fado pol\u00edtico transformador \u00e0 insatisfa\u00e7\u00e3o e \u00e0 revolta que a precariza\u00e7\u00e3o massacrante inevitavelmente desperta. Parcelas expressivas da sociedade, com destaque para a juventude, n\u00e3o est\u00e3o ap\u00e1ticas, nem indiferentes, nem inertes. Pelo contr\u00e1rio, mobilizam-se de formas diversas por causas igualmente m\u00faltiplas, no geral convergentes com as bandeiras da esquerda \u2013 por\u00e9m, repelem as palavras de ordem e os ritos desgastantes e desgastados de nossas organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias. Precisamos dialogar com essa milit\u00e2ncia sem partido, com os trabalhadores n\u00e3o sindicalizados, com as popula\u00e7\u00f5es das periferias; disput\u00e1-los com a direita e com o liberalismo que se disfar\u00e7a de progressista, integrando-os ao projeto de constru\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p><strong>*Pedro Amaral \u00e9 mestre em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e doutor em Letras pela PUC-Rio<\/strong><br \/>\n<strong>**Roberto Amaral \u00e9 escritor e ensa\u00edsta, e foi ministro de Ci\u00eancia e Tecnologia de Lula<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A frente pol\u00edtica finalmente se p\u00f4s de p\u00e9, no Congresso Nacional, mas puxada pela extrema direita, para dar sustenta\u00e7\u00e3o ao seu governo. N\u00e3o nasceu a sonhada frente democr\u00e1tica. A frente de esquerda segue ainda mais distante, como longe est\u00e1 a frente simplesmente oposicionista, visto lhe faltarem uni\u00e3o, programa e rumo. 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