{"id":253120,"date":"2021-03-10T09:58:07","date_gmt":"2021-03-10T12:58:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=253120"},"modified":"2021-03-10T11:00:27","modified_gmt":"2021-03-10T14:00:27","slug":"telefone-ha-145-anos-encurtando-os-ouvidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/telefone-ha-145-anos-encurtando-os-ouvidos\/","title":{"rendered":"Telefone, h\u00e1 145 anos encurtando os ouvidos"},"content":{"rendered":"<p>Graham Bell levou a fama e o dinheiro. Meucci, o reconhecimento tardio da inven\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 com Cleonice, Roseli e L\u00facia que a hist\u00f3ria do telefone \u00e9 recontada diariamente. \u00c9 por esse aparelho que brasileiros com diferentes profiss\u00f5es contam uma hist\u00f3ria que come\u00e7ou h\u00e1 145 anos, quando foi feita a primeira comunica\u00e7\u00e3o oficial, por Alexander Graham Bell, em 10 de mar\u00e7o de 1876.<\/p>\n<p>O escoc\u00eas era considerado o inventor do telefone at\u00e9 uma reviravolta em 2002, quando se reconheceu oficialmente o italiano Antonio Meucci como o verdadeiro pai da ferramenta (&#x1f50e;Guerra de patentes). Em 2021, o tom de discagem continua ativo, com direito \u00e0 nostalgia dos tempos das centrais telef\u00f4nicas e orelh\u00f5es e com a facilidade dos sinais digitais que fazem de tudo &#8211; at\u00e9 mesmo uma liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A baiana Cleonice Santos mora em Uruar\u00e1, no Par\u00e1, e divide o tempo entre a zona rural e sua casa no centro da cidade. Desde muito nova, trabalha na lavoura e tinha dificuldades em se comunicar com a sua maior paix\u00e3o: a R\u00e1dio Nacional. Depois que se mudou ainda crian\u00e7a de Itamaraju (BA) para Uruar\u00e1, conheceu o orelh\u00e3o funcionando e passou a ligar semanalmente para a Central de Ouvintes da R\u00e1dio Nacional (&#x1f50e; Saiba como entrar em contato), um canal \u00fanico que ajuda a aproxim\u00e1-la da emissora e mandar \u201csinal de fuma\u00e7a\u201d aos apresentadores. Segundo Cleonice, a R\u00e1dio Nacional \u00e9 uma aliada na hora de mandar not\u00edcias a pessoas mais distantes. \u201cEu nunca precisei para mim, mas j\u00e1 liguei a pedido de uma amiga que queria encontrar um parente\u201d, explica, satisfeita com o sucesso dessa miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Como se fosse a escala\u00e7\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o brasileira, Cleonice sabe os nomes de praticamente todos os apresentadores da R\u00e1dio Nacional da Amaz\u00f4nia, com quem se comunicava antes s\u00f3 por cartas. \u201cDemorava uns dez, 15 dias pra receber resposta, mas era uma alegria s\u00f3\u201d. Agora, com o telefone, ela pede m\u00fasicas e manda \u201cal\u00f4s\u201d para a redondeza. Da r\u00e1dio, j\u00e1 recebeu receitas e at\u00e9 sementes de uma \u00e1rvore da apresentadora do Viva Maria, Mara R\u00e9gia. \u201cA moringa tem sido uma farm\u00e1cia dentro de casa\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p>Uruar\u00e1 tem cerca de 45 mil habitantes e 45% deles vivem na zona rural. Quando est\u00e1 na ro\u00e7a junto com seu marido, ela continua a se comunicar com a r\u00e1dio pelo aplicativo de mensagens instant\u00e2neas WhatsApp. Outra vantagem no local onde mora \u00e9 que o sinal de internet funciona bem e ela utiliza para se comunicar com os filhos. \u201cUso direto, ainda mais nesses tempos de pandemia.\u201d, diz Cleonice.<\/p>\n<p><strong>\u201cTelefonista, faz um DDD\u201d<\/strong><br \/>\nAssim como Cleonice, Roseli Cipriani tamb\u00e9m tem uma casa na ro\u00e7a, mas trabalha diariamente em frente \u00e0 Pra\u00e7a Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, no centro do munic\u00edpio de Bragan\u00e7a Paulista. Quando crian\u00e7a, a servidora p\u00fablica da prefeitura estava acostumada a acompanhar seus pais ao centro da cidade em busca de uma chamada interurbana bem-sucedida.<\/p>\n<p>O posto a que ela se refere ficava no pr\u00e9dio do Museu do Telefone (&#x1f50e; conhe\u00e7a sua hist\u00f3ria ), antiga Companhia Rede Telephonica Bragantina. A empresa foi instalada no local em 1908, mas virou o primeiro museu do telefone do Brasil em 28 de outubro de 1976. Por dez anos, coexistiram museu e o posto de interurbano. \u201cO posto era no primeiro andar. Com a abertura do museu, o posto subiu e o acervo desceu para o t\u00e9rreo\u201d, lembra Roseli.<\/p>\n<p>Em agosto de 2019, a prefeitura de Bragan\u00e7a Paulista comprou o museu da Telef\u00f4nica. Ele foi o primeiro do tipo a abrir no Brasil. L\u00e1 est\u00e3o expostos os aparelhos mais antigos, a mesa da telefonista com os cabos de conex\u00e3o e v\u00e1rias curiosidades sobre a hist\u00f3ria das telecomunica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Roseli conta que, se pudesse, preferiria viver somente conectada ao telefone fixo, apoiada por cartas, e sem tantas parafern\u00e1lias tecnol\u00f3gicas. Mas \u00e9 de um celular, usando um aplicativo de mensagem instant\u00e2nea, que consegue se comunicar com a reportagem.<\/p>\n<p>\u201cSabe, tenho um pouco de dificuldade para entender essa tecnologia&#8230;. O telefone pra mim \u00e9 uma das maiores inven\u00e7\u00f5es da humanidade. Hoje \u00e9 a ferramenta de trabalho de praticamente boa parte de profissionais como voc\u00ea! Sem sair de casa, neste momento t\u00e3o dif\u00edcil que estamos vivendo&#8230;. Voc\u00ea trabalha, se conecta com o mundo&#8230; Se v\u00ea pela c\u00e2mera de um aparelho celular &#8230;.. Quem n\u00e3o acompanha essa evolu\u00e7\u00e3o ficou parado no tempo\u201d, explica.<\/p>\n<p>Atualmente, o munic\u00edpio de Bragan\u00e7a Paulista est\u00e1 na Fase Vermelha da pandemia e Roseli precisa do sinal de telefonia e dos dados m\u00f3veis mais do que nunca. Ela atua como monitora do Museu do Telefone. \u201cPara minha surpresa, um dia minha chefe me disse para substituir uma pessoa de l\u00e1. Foi uma experi\u00eancia maravilhosa.\u201d J\u00e1 s\u00e3o 15 anos assim, diante de aparelhos cheios de n\u00fameros, estudantes e adultos curiosos. Mas agora, sem p\u00fablico presencial, ela presta assist\u00eancia pelo trabalho remoto (home office), ao lado de vacas, galinhas, fog\u00e3o de lenha, terreiros de terra batida e, claro, do aparelho celular. \u201cSim, eu moro na ro\u00e7a de verdade&#8230;\u201d Mas em uma ro\u00e7a devidamente conectada, ou nem tanto: \u201cMinha internet desaparece aqui na ro\u00e7a&#8221;. Pausa: \u201cL\u00e1 se foi o sinal. Caiu de novo!\u201d<\/p>\n<p><strong>\u201cMe manda um telex\u201d<\/strong><br \/>\nEra 1972 e o Sistema Telebras tinha acabado de ser criado pela Lei n\u00ba 5.792, com previs\u00e3o de ser gerido por uma operadora nacional e internacional: a Embratel. Nesse mesmo ano, a septuagen\u00e1ria jornalista L\u00facia Chayb tinha apenas 21 anos de idade, e chegava ao Rio de Janeiro para estudar e trabalhar no consulado do Chile. Instalou-se no Leme e fez amizade com o propriet\u00e1rio de um quarto-sala alugado, onde morou por 18 anos. Com o tempo, o dono decorou o apartamento com v\u00e1rios bens de luxo: linhas fixas de telefone.<\/p>\n<p>\u201cO propriet\u00e1rio fazia neg\u00f3cios com telefones e pediu alguns para instalar no meu apartamento. Assim, eu tinha a minha linha, mas podia usar as dele de gra\u00e7a.\u201d De acordo com informa\u00e7\u00f5es do site da Telebras, at\u00e9 o final da d\u00e9cada de 1970 havia 5 milh\u00f5es de terminais instalados, ao custo individual de aproximadamente US$ 2 mil. A pr\u00f3pria L\u00facia chegou a ganhar algum dinheiro vendendo as a\u00e7\u00f5es do n\u00famero de telefone que tem at\u00e9 hoje. \u201cMas quem ganhou mesmo foi o propriet\u00e1rio do apartamento\u201d, brinca.<\/p>\n<p>A reda\u00e7\u00e3o da revista, que ainda hoje \u00e9 tocada pelos dois, era dividida com correspondentes internacionais. O contato com o exterior exigia recursos tecnol\u00f3gicos de ponta: \u201cNa sala tinha um aparelho chamado telex, que era conectado ao telefone, e recebia as informa\u00e7\u00f5es como se fossem datilografadas\u201d. Partindo do telex, uma esp\u00e9cie de impressora de tel\u00e9grafo, a sua lembran\u00e7a sobre o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico do telefone chega ao fax.<\/p>\n<p>Ela conta que, durante a cobertura da ECO-92, a aten\u00e7\u00e3o da sala de imprensa parecia estar toda voltada ao sinal do fax. Diferente do telex, o fax era capaz de imprimir p\u00e1ginas com textos e imagens. \u201cEm todas as \u00e1reas de imprensa internacional &#8211; no aterro do Flamengo, no F\u00f3rum Global, quanto na pr\u00f3pria confer\u00eancia dos chefes de Estado &#8211; o fax era a atra\u00e7\u00e3o principal. Hoje em dia, est\u00e1 fora de uso. Fica tudo ali, na ponta da m\u00e3o, no celular\u201d. Para se ter uma ideia, a internet passou a ser comercializada no Brasil somente dois anos depois, em 1994.<\/p>\n<p>Nesse \u00faltimo ano, a pandemia exigiu do casal de jornalistas maior perman\u00eancia em casa, mas L\u00facia conta que a revista j\u00e1 havia se mudado para seu apartamento pr\u00f3prio, tamb\u00e9m no Leme, ainda em 2000, onde acumula o papel de s\u00edndica. Ao enxugar gastos e envolver os filhos no processo de produ\u00e7\u00e3o, a jornalista conseguiu manter a revista impressa at\u00e9 mar\u00e7o de 2020. Agora, todo o processo passou a ser online.<\/p>\n<p><strong>Chamada a cobrar<\/strong><br \/>\nSe voc\u00ea pudesse fazer uma chamada ao futuro para perguntar como anda a evolu\u00e7\u00e3o do telefone, o que voc\u00ea imaginaria ouvir como resposta?<\/p>\n<p>Em busca de previs\u00f5es, Cleonice, Roseli e L\u00facia enxergam que a grande inven\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 presente: o celular com internet. &#8220;A gente aperta ali, acabou de fechar a boca, a pessoa j\u00e1 t\u00e1 respondendo a gente bem rapidinho, mas acho que v\u00e3o vir coisas mais avan\u00e7adas ainda no celular.\u201d, diz Cleonice.<\/p>\n<p>No caso de L\u00facia, ela afirma que a idade e os avan\u00e7os dificultam um pouco. \u201cOs idosos t\u00eam dificuldade de apertar um bot\u00e3o ali, aqui. Agendar vacina, INSS \u00e9 dif\u00edcil. No meu caso, fui entrando nas novas tecnologias quase que automaticamente. Mas prefiro estar com as pessoas, adorava quando tinha a revista impressa\u201d. Cleonice tamb\u00e9m concorda que a tecnologia tem ajudado a diminuir o contato humano. Para o futuro, ela n\u00e3o duvida que um dia nem aparelho existir\u00e1. &#8220;Seremos chipados&#8221;, ri digitalmente com v\u00e1rios &#8220;kkk&#8221; para acompanhar.<\/p>\n<p>Enquanto o futuro n\u00e3o chega para tirar \u00e0 prova as previs\u00f5es, o passado continua preservado tanto nas mem\u00f3rias de Cleonice, L\u00facia e Roseli, quanto em museus e reportagens. Em junho de 2011, o videorrep\u00f3rter Rodrigo Leit\u00e3o entrevistou o sexagen\u00e1rio H\u00e9lio Forte. Na \u00e9poca, aos 66 anos, H\u00e9lio vendia, comprava, consertava, restaurava e tamb\u00e9m fabricava telefones com design original ou r\u00e9plicas sob demanda. A trajet\u00f3ria de H\u00e9lio mostrava o quanto sua paix\u00e3o e vaidade com os aparelhos o havia transformado em um \u201cmestre dos telefones\u201d.<\/p>\n<p>&#8220;Os primeiros telefones, de 1880, 1890, vinham muito arrebentados. E meu prazer era restaurar e aprender tamb\u00e9m, porque mexendo voc\u00ea ficava conhecendo as pe\u00e7as&#8230;Hoje eu sou considerado um dos melhores do Brasil&#8221;, disse o restaurador na ocasi\u00e3o da entrevista.<\/p>\n<p>Infelizmente, seu H\u00e9lio faleceu em 2015 e sua loja em S\u00e3o Paulo foi fechada permanentemente. &#8220;Ele j\u00e1 saiu daqui para outro plano. N\u00e3o deixemos de agradec\u00ea-lo de alguma forma&#8221;, comenta Rodrigo, na expectativa de que o v\u00eddeo que produziu possa contribuir com a mem\u00f3ria e homenage\u00e1-lo postumamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Graham Bell levou a fama e o dinheiro. Meucci, o reconhecimento tardio da inven\u00e7\u00e3o. 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