{"id":253369,"date":"2021-03-13T17:37:56","date_gmt":"2021-03-13T20:37:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=253369"},"modified":"2021-03-13T14:38:24","modified_gmt":"2021-03-13T17:38:24","slug":"brasil-fica-a-deriva-com-um-ano-da-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-fica-a-deriva-com-um-ano-da-pandemia\/","title":{"rendered":"Brasil fica \u00e0 deriva com um ano da pandemia"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 um ano, a pandemia da Covid-19 era oficialmente declarada. Para explicar os motivos de o n\u00famero de mortes no Brasil continuar crescendo r\u00e1pido at\u00e9 hoje, a Sputnik Brasil ouviu microbiologistas e epidemiologistas, que apontaram que o pa\u00eds segue sem horizonte de controle da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>A pandemia da Covid-19 foi declarada pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) em 11 de mar\u00e7o de 2020. No dia seguinte, a primeira v\u00edtima do SARS-CoV-2 morreria no Brasil. \u00c0quela altura, a previs\u00e3o mais pessimista do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade brasileiro apontava 180 mil mortes at\u00e9 o final do ano \u2013 o que foi visto no governo como exagero. Ao final de 2020, cerca de 200 mil pessoas estavam mortas pela doen\u00e7a no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Apesar do in\u00edcio da vacina\u00e7\u00e3o em 2021, o ritmo vagaroso n\u00e3o mitigou a pandemia no Brasil. Diante do colapso dos hospitais, bastaram 68 dias para que mais de 75 mil brasileiros morressem de Covid-19 em 2021. Em 2020, essa marca levou 126 dias para ser alcan\u00e7ada.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um ano de pandemia, o Brasil soma 275.917 mortos e \u00e9 o segundo pa\u00eds com mais mortes por COVID-19. Na quarta-feira (10), com 2.364 mortes em 24 horas, o pior resultado at\u00e9 ent\u00e3o, o Brasil se tornou o pa\u00eds com a maior m\u00e9dia m\u00f3vel di\u00e1ria de \u00f3bitos no planeta. E o n\u00famero n\u00e3o para de crescer.<\/p>\n<p>Diante dos fatores para explicar a trag\u00e9dia brasileira, a microbiologista Natalia Pasternak, presidente do Instituto Quest\u00e3o de Ci\u00eancia (IQC), atribui ao negacionismo do governo federal de Jair Bolsonaro (sem partido) a principal raz\u00e3o para o quadro devastador.<\/p>\n<p>\u201cTudo isso \u00e9 resultado de uma pol\u00edtica negacionista que vem, infelizmente, do governo federal\u201d, salienta Pasternak, em entrevista \u00e0 Sputnik Brasil, acrescentando que houve complac\u00eancia do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para com essa postura. O atual ministro da Sa\u00fade, Eduardo Pazuello, \u00e9 investigado por neglig\u00eancia no colapso de hospitais em Manaus.<\/p>\n<p>Pasternak lista uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es do governo Bolsonaro que exemplificam uma postura negacionista, como negar a gravidade da pandemia, a necessidade do isolamento, a necessidade do uso de m\u00e1scaras, incitar aglomera\u00e7\u00f5es, promover curas milagrosas sem comprova\u00e7\u00e3o e difamar as vacinas.<\/p>\n<p>\u201cO que mais contribuiu para o fracasso na conten\u00e7\u00e3o da pandemia no Brasil foi o negacionismo. O negacionismo que veio diretamente do governo federal, endossado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade\u201d, afirma Pasternak.<\/p>\n<p>Da mesma forma pensa a epidemiologista Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo (UFES), que aponta que as pol\u00edticas necess\u00e1rias para a conten\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a no pa\u00eds foram totalmente negligenciadas.<\/p>\n<p>\u201cAcredito que o negacionismo \u00e9 a causa, o eixo central de todos os erros que aconteceram \u2013 o negacionismo junto com a incompet\u00eancia. O pr\u00f3prio fato de negar a ci\u00eancia j\u00e1 demonstra a qualidade t\u00e9cnica das pessoas que est\u00e3o como as autoridades no pa\u00eds neste momento\u201d, afirma a epidemiologista em entrevista \u00e0 Sputnik Brasil.<\/p>\n<p><strong>Mundo com medo<\/strong><br \/>\nRecentemente, ap\u00f3s a descoberta de variantes brasileiras do SARS-CoV-2, o pa\u00eds viu dezenas de na\u00e7\u00f5es proibindo viajantes que passassem pelo territ\u00f3rio brasileiro, isolando o Brasil do mundo com medo da doen\u00e7a sem controle.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o ter o maior n\u00famero de mortes na pandemia, o Brasil foi considerado em janeiro deste ano como o pa\u00eds com a pior gest\u00e3o da crise sanit\u00e1ria mundial. Segundo dados do Instituto Lowy, um think tank da Austr\u00e1lia, o Brasil teve o desempenho mais fraco dentre 100 pa\u00edses analisados, levando em conta crit\u00e9rios como mortes, casos confirmados e capacidade de detec\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil \u00e9 classificado hoje como o pior pa\u00eds do mundo em desempenho na conten\u00e7\u00e3o da pandemia. N\u00f3s somos hoje um pa\u00eds que \u00e9 visto com medo pelo resto do mundo\u201d, afirma a microbiologista Nat\u00e1lia Pasternak.<\/p>\n<p>A professora da UFES, Ethel Maciel, tamb\u00e9m cita a pesquisa para mostrar o desempenho ruim do Brasil no combate \u00e0 pandemia e lembra que, \u00e0 \u00e9poca do estudo, Bolsonaro tinha companhia no continente em rela\u00e7\u00e3o ao negacionismo. Hoje, o brasileiro posa sozinho.<\/p>\n<p>\u201cA regi\u00e3o das Am\u00e9ricas \u00e9 uma das mais afetadas, mas n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que naquele momento os dois l\u00edderes negacionistas estavam no poder [Bolsonaro e o ex-presidente dos EUA, Donald Trump]\u201d, aponta Maciel. Os EUA ficaram em 94\u00ba no ranking.<\/p>\n<p>A cientista da UFES ressalta, por\u00e9m, que atualmente os EUA t\u00eam em curso uma campanha de vacina\u00e7\u00e3o e uma coordena\u00e7\u00e3o nacional cient\u00edfica para conter a pandemia e por isso t\u00eam visto o avan\u00e7o da doen\u00e7a perder f\u00f4lego, diferente do Brasil. \u00c9 o que lembra tamb\u00e9m a microbiologista Paula Martins, que refor\u00e7a a diferen\u00e7a que o planejamento da vacina\u00e7\u00e3o fez nos EUA, o pa\u00eds mais impactado pela pandemia at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>\u201cA gente passou a m\u00e9dia m\u00f3vel de mortes dos EUA. E por que isso? Eles [os EUA] t\u00eam a popula\u00e7\u00e3o maior [cerca de 328 milh\u00f5es contra 211 milh\u00f5es no Brasil], estavam com um \u00edndice de morte di\u00e1ria de pessoas elevad\u00edssimo. E o que \u00e9 isso? \u00c9 a vacina. E a gente n\u00e3o se planejou para ter a vacina\u00e7\u00e3o em massa, para comprar a vacina, ter a vacina. O sistema de vacina\u00e7\u00e3o a gente tem e \u00e9 muito eficiente. O SUS \u00e9 bem estruturado para isso\u201d, afirma Martins em entrevista \u00e0 Sputnik Brasil.<\/p>\n<p>Conforme dados do site Our World in Data, os EUA, que t\u00eam 529 mil mortes por COVID-19, s\u00e3o hoje o pa\u00eds que mais vacinou em n\u00fameros absolutos, chegando a quase 94 milh\u00f5es de pessoas inoculadas com pelo menos uma dose de vacina contra o novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil conduziu muito mal e continua conduzindo muito mal, com a performance j\u00e1 analisada, inclusive, por institutos de pesquisa, como pior pa\u00eds. Porque agora n\u00f3s estamos sozinhos nesse negacionismo, o que vai isolar o pa\u00eds e vai colocar o Brasil em uma posi\u00e7\u00e3o pior ainda frente \u00e0 comunidade internacional\u201d, avalia a epidemiologista Ethel Maciel.<\/p>\n<p><strong>Sem governo<\/strong><br \/>\nCom a lacuna deixada na coordena\u00e7\u00e3o da pandemia, governos de estados e munic\u00edpios ganharam protagonismo no enfrentamento \u00e0 Covid-19 ao longo da crise sanit\u00e1ria. Foram os governadores os primeiros a fechar o com\u00e9rcio e as escolas, e foi tamb\u00e9m um governador quem garantiu as primeiras doses de vacinas contra o novo coronav\u00edrus no Brasil \u2013 no caso, Jo\u00e3o Doria (PSDB), de S\u00e3o Paulo, que negociou a vacina chinesa CoronaVac por meio do Instituto Butantan.<\/p>\n<p>Diante da cont\u00ednua oposi\u00e7\u00e3o do governo federal e das press\u00f5es pol\u00edticas, as medidas restritivas foram afrouxadas ao longo da pandemia e s\u00f3 com a recente disparada do v\u00edrus voltaram a ser implementadas. Na quarta-feira (10), 21 governadores assinaram um pacto nacional pelo controle da pandemia, que pela primeira vez amea\u00e7a gerar um colapso de todo o sistema de sa\u00fade do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para Ethel Maciel, no Brasil, as atuais medidas adotadas em estados e munic\u00edpios n\u00e3o s\u00e3o suficientes para conter a pandemia. Ainda evitando o lockdown, nas \u00faltimas semanas diversos estados adotaram medidas tidas como de meio-termo, tais como toque de recolher e fechamento de atividades n\u00e3o essenciais, mas a doen\u00e7a segue avan\u00e7ando.<\/p>\n<p>\u201c[Essas medidas] s\u00e3o insuficientes porque estamos com uma vacina\u00e7\u00e3o muito lenta. As medidas de mitiga\u00e7\u00e3o, as medidas n\u00e3o farmacol\u00f3gicas, est\u00e3o sendo adotadas de forma ainda muito t\u00edmidas\u201d, avalia a professora Ethel Maciel.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o \u00e9 compartilhada tamb\u00e9m pela microbiologista Paula Martins, que ressalta que o Brasil n\u00e3o fez em nenhum momento um lockdown s\u00e9rio<\/p>\n<p>\u201cTalvez a gente devesse ter tomado medidas um pouco mais dr\u00e1sticas, no in\u00edcio da pandemia, para que n\u00e3o se chegasse a esse ponto, inclusive, de ter as novas variantes, porque o aparecimento das variantes \u00e9 uma coisa natural, esperada, mas quanto mais a pandemia evolui, maior a chance de a gente ter essas variantes perigosas\u201d, afirma Martins.<\/p>\n<p>J\u00e1 Ethel Maciel, al\u00e9m de criticar as medidas adotadas, tamb\u00e9m classifica a velocidade da vacina\u00e7\u00e3o no Brasil como \u201cp\u00edfia\u201d. Por ora, o Brasil n\u00e3o conseguiu vacinar sequer o grupo priorit\u00e1rio \u2013 cerca de 70 milh\u00f5es de pessoas, segundo Maciel. Desde o in\u00edcio da vacina\u00e7\u00e3o, em 17 de janeiro, apenas 8,3 milh\u00f5es de brasileiros receberam pelo menos a primeira dose de uma vacina, conforme apontam dados do cons\u00f3rcio dos ve\u00edculos de imprensa.<\/p>\n<p>Por outro lado, as medidas de restri\u00e7\u00f5es, mesmo quando adotadas, tamb\u00e9m enfrentam dificuldade na ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, o que Maciel atribui \u00e0 politiza\u00e7\u00e3o ao longo da pandemia. A situa\u00e7\u00e3o foi ainda refor\u00e7ada por esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o ligados \u00e0 compra de respiradores, como no Rio de Janeiro, onde o governador Wilson Witzel (PSC) foi afastado do cargo. Al\u00e9m disso, a desigualdade econ\u00f4mica no pa\u00eds dificulta ainda mais a realiza\u00e7\u00e3o plena das quarentenas, exigindo medidas como aux\u00edlios financeiros \u00e0s fam\u00edlias.<\/p>\n<p>\u201cNo momento, nem n\u00f3s, internamente, temos confian\u00e7a no governo, nem a comunidade internacional. Estamos a\u00ed estampando as principais capas de jornais internacionais, nas quais o Brasil agora representa, de fato, a possibilidade de emerg\u00eancia de novas variantes. Uma amea\u00e7a global\u201d, lamenta a epidemiologista Ethel Maciel.<\/p>\n<p><strong>Sem horizonte<\/strong><br \/>\nA microbiologista Natalia Pasternak ressalta que, com a aus\u00eancia do governo federal, resta depositar esperan\u00e7as de que estados e munic\u00edpios ajam em conjunto para impedir o avan\u00e7o das mortes. Para ela, ainda \u00e9 poss\u00edvel reverter o quadro.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil \u00e9 visto hoje como, na sua incompet\u00eancia em conter a pandemia, um risco sanit\u00e1rio mundial. Vergonha maior do que essa, acho que a gente nunca passou, nem no 7\u00d71. Reverter esse quadro \u00e9 poss\u00edvel, mas depende de vontade pol\u00edtica que n\u00e3o parece existir nesse governo\u201d, aponta a cientista<\/p>\n<p>Segundo Pasternak, apenas depois que uma coordena\u00e7\u00e3o nacional tomar forma concreta e com medidas firmes de restri\u00e7\u00e3o \u2013 mesmo sem o apoio de Bras\u00edlia \u2013 \u00e9 que ser\u00e1 poss\u00edvel fazer previs\u00f5es sobre o fim da pandemia no Brasil.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, vai caber ao Congresso, ao STF, a governadores e prefeitos, que fa\u00e7am impor as medidas de restri\u00e7\u00e3o, que fa\u00e7am acordos para a compra de vacinas, para que o Brasil n\u00e3o se transforme em um p\u00e1ria do mundo\u201d, afirma Pasternak.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um ano, a pandemia da Covid-19 era oficialmente declarada. 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