{"id":253504,"date":"2021-03-16T02:45:07","date_gmt":"2021-03-16T05:45:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=253504"},"modified":"2021-03-16T09:55:59","modified_gmt":"2021-03-16T12:55:59","slug":"sirios-ganham-pao-aqui-mas-la-so-levam-tiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sirios-ganham-pao-aqui-mas-la-so-levam-tiro\/","title":{"rendered":"S\u00edrios ganham p\u00e3o aqui, mas l\u00e1 s\u00f3 levam tiro"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dez anos, o dia 15 de mar\u00e7o traz para a popula\u00e7\u00e3o s\u00edria lembran\u00e7as de um passado que se foi. Nesta data, em 2011, come\u00e7ou a se desenhar o conflito armado na S\u00edria \u2013 que dura at\u00e9 os dias de hoje. Cerca de dois meses antes, grandes protestos populares, em sintonia com o que ocorria em outros pa\u00edses e que ficou conhecido mundialmente como a Primavera \u00c1rabe, ganhava contornos violentos. Desde ent\u00e3o, uma guerra por poder entre o governo liderado pelo presidente Bashar al-Assad e oposicionistas ficou mais complexa, com contornos pol\u00edticos, \u00e9tnicos e religiosos, e com diversos grupos promovendo a\u00e7\u00f5es hostis entre si.<\/p>\n<p>Passados dez anos, o conflito n\u00e3o parece pr\u00f3ximo de uma solu\u00e7\u00e3o. Segundo estimativas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), 387 mil pessoas morreram, sendo mais de 115 mil civis. Al\u00e9m disso, h\u00e1 atualmente cerca de 6,6 milh\u00f5es de refugiados s\u00edrios espalhados por todo o mundo. S\u00e3o pessoas que tinham uma vida normal, trabalhavam, estudavam, passeavam, tomavam caf\u00e9 com seus amigos e tiveram que deixar tudo para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Aproximadamente 3,8 mil deles chegaram ao Brasil na \u00faltima d\u00e9cada. Mais de 80% deles se concentram em S\u00e3o Paulo, no Rio de Janeiro e no Paran\u00e1, onde j\u00e1 existia uma comunidade s\u00edrio-libanesa consolidada.<\/p>\n<p>O choque cultural e a diferen\u00e7a de realidade entre pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul e do Oriente M\u00e9dio fazem com que, para os refugiados s\u00edrios, a adapta\u00e7\u00e3o ao Brasil seja um processo mais lento e repleto de desafios adicionais. Aprender um idioma com alfabeto e regras gramaticais completamente diferentes \u00e9 o principal deles. Mas, tendo superado as dificuldades, o ativista Abdul Jarour, a chefe de cozinha Fatima Ismail e a arquiteta Lucia Loxca se sentem hoje em casa.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o sou a mesma pessoa que vivia na S\u00edria. Sou outra pessoa. Absorvi uma nova cultura, uma nova l\u00edngua. Hoje sou brasis\u00edrio&#8221;, diz Abdul. O termo usado por ele para descrever sua nova nacionalidade parece traduzir o sentimento de outros refugiados que encontraram no territ\u00f3rio brasileiro um local para reconstruir suas vidas.<\/p>\n<p>Abdul conta que encontrou no futebol e na m\u00fasica portas de acesso \u00e0 cultura brasileira. &#8220;Comecei a ir aos jogos para ver como \u00e9 o povo brasileiro e me apaixonei. Me tornei corintiano. Quando voc\u00ea est\u00e1 no campo \u00e9 todo mundo junto, todo mundo gritando. Ningu\u00e9m sabe sua identifica\u00e7\u00e3o social, sua riqueza. Tamb\u00e9m me apaixonei pelo ritmo sertanejo. Gostei muito de Henrique e Juliano. Repetia as palavras sem entender o significado. Com o tempo fui entendendo. Jorge e Matheus \u00e9 muito bom. Cristiano Ara\u00fajo, que faleceu, mexeu muito comigo. O acidente dele em 2015 me emocionou porque tinha uma m\u00fasica dele que eu cantava todos os dias&#8221;, conta.<\/p>\n<p>No pa\u00eds desde 2014, mais precisamente em S\u00e3o Paulo, Abdul estudava administra\u00e7\u00e3o de empresas e comercializava acess\u00f3rios eletr\u00f4nicos na S\u00edria. Deixou sua terra natal quando completou 20 anos, fugindo do servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio. No L\u00edbano, pa\u00eds vizinho \u00e0 S\u00edria, recorreu \u00e0s embaixadas do Canad\u00e1 e da Austr\u00e1lia, mas n\u00e3o obteve o retorno esperado. Cogitou a travessia por mar at\u00e9 a Turquia, mas tinha receio de se afogar como alguns de seus compatriotas.<\/p>\n<p>&#8220;Queria um pa\u00eds que me reconhecesse como ser humano, que me desse direito de viajar legalmente. E foi a\u00ed que tive not\u00edcia que o Brasil estava concedendo um visto humanit\u00e1rio para o povo s\u00edrio. Fui \u00e0 embaixada, fiz uma entrevista, paguei o visto e comprei minhas passagens, de ida e volta, porque n\u00e3o sabia se ia ficar. Tinha medo tamb\u00e9m. Estava indo pra um pa\u00eds do outro lado do mundo. Ent\u00e3o eu digo que vir para o Brasil n\u00e3o foi minha escolha. Foi uma escolha de Deus&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Brasil e S\u00edria n\u00e3o possuem entendimentos bilaterais para isen\u00e7\u00e3o de vistos de entrada. Dessa forma, antes de embarcarem, os s\u00edrios precisam se dirigir a uma embaixada ou consulado brasileiro e solicitar permiss\u00e3o para entrada no pa\u00eds. At\u00e9 2012, muitos refugiados chegavam com o visto de turista, o que permite a perman\u00eancia em territ\u00f3rio brasileiro por um per\u00edodo inicial de 90 dias e que pode ser renovado por mais 90 dias.<\/p>\n<p>O que se convencionou chamar de visto humanit\u00e1rio \u00e9 um procedimento simplificado que o Brasil adotou em 2013 para a entrada dos s\u00edrios. Paralelamente, o Comit\u00ea Nacional para os Refugiados (Conare) reconheceu a grave e generalizada viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos na S\u00edria e acelerou o processo de an\u00e1lise dos pedidos de reconhecimento da condi\u00e7\u00e3o de refugiado. Assim, a partir de 2014, houve um aumento no n\u00famero de s\u00edrios que desembarcaram no pa\u00eds ainda que esse fluxo tenha ca\u00eddo significativamente desde o in\u00edcio da pandemia de covid-19, no ano passado.<\/p>\n<p>Abdul foi acolhido na capital paulista. O s\u00edrio chegou a trabalhar vendendo alimentos e como motorista. Com o tempo, se tornou ativista da causa migrat\u00f3ria. Hoje lidera projetos sociais e promove palestras que abordam temas como ref\u00fagio e migra\u00e7\u00e3o, hist\u00f3ria da S\u00edria, pol\u00edtica no mundo \u00e1rabe. Uma iniciativa da qual se orgulha \u00e9 ter sido um dos criadores da Copa dos Refugiados, uma competi\u00e7\u00e3o de futebol coordenada pela organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental \u00c1frica do Cora\u00e7\u00e3o e financiada pela ONU, por meio do Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Refugiados (Acnur). A \u00faltima edi\u00e7\u00e3o, ocorrida em 2019, reuniu cerca de 1,12 mil atletas de 39 nacionalidades.<\/p>\n<p><strong>Apoio e acolhimento<\/strong><br \/>\nA experi\u00eancia pessoal \u00e9 um dos motivos que levaram Abdul a engajar-se em a\u00e7\u00f5es voltadas para o acolhimento dos refugiados e imigrantes. Sem conhecer ningu\u00e9m nem dominar o idioma portugu\u00eas, ele conta que se sentiu perdido, em um primeiro momento. Apesar de ressaltar o perfil acolhedor do povo brasileiro, avalia que a integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simples.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje me tratam como brasileiro. O povo \u00e9 muito acolhedor, simp\u00e1tico, amoroso. Na Europa, talvez ainda me tratassem como estrangeiro. Mas aqui no Brasil n\u00e3o, me tratam como um igual. Houve pessoas que eu conheci que considero como minha fam\u00edlia. Me deram for\u00e7a, me estenderam a m\u00e3o. Mas no in\u00edcio me senti perdido. \u00c9 um pa\u00eds t\u00e3o grande. A quest\u00e3o de documenta\u00e7\u00e3o, de integra\u00e7\u00e3o, de conseguir emprego e moradia. Hoje tenho dom\u00ednio da l\u00edngua, conhecimento da cidade, estou me virando como trabalhador aut\u00f4nomo. Mas seria muito dif\u00edcil sem o apoio das organiza\u00e7\u00f5es sociais, das institui\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 ONU, de entidades do terceiro setor. Eles fazem projetos que possibilitam a integra\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Estas organiza\u00e7\u00f5es e entidades se articulam por meio de uma rede mobilizada pelo Acnur. Ela foi criada pela ONU para assegurar e proteger os direitos das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de ref\u00fagio em todo o mundo. No Brasil, o Acnur atua diretamente apenas em Roraima, devido a preocupa\u00e7\u00f5es com a situa\u00e7\u00e3o na fronteira com a Venezuela: o \u00faltimo balan\u00e7o do Conare mostrou que 65% das 82.552 pessoas que solicitaram ref\u00fagio ao Brasil no ano de 2019 eram venezuelanos.<\/p>\n<p>No resto do pa\u00eds, a atua\u00e7\u00e3o \u00e9 indireta, financiando organiza\u00e7\u00f5es sociais e entidades do terceiro setor. Elas desenvolvem a\u00e7\u00f5es em frentes variadas que incluem cursos de portugu\u00eas, capacita\u00e7\u00e3o profissional, encaminhamento de crian\u00e7as para a escola, concess\u00e3o de aux\u00edlios sociais e financeiros, atendimento psicossocial, entre outras a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O Acnur se mant\u00e9m exclusivamente com doa\u00e7\u00f5es que podem ser feitas, por meio de seu site, tanto por pessoas f\u00edsicas como por governos e empresas privadas. Para 2021, est\u00e1 prevista a aplica\u00e7\u00e3o de US$ 5,8 bilh\u00f5es na resposta humanit\u00e1ria internacional aos problemas decorrentes da guerra na S\u00edria. O investimento, no entanto, depender\u00e1 da arrecada\u00e7\u00e3o. No ano passado, em meio a uma crise econ\u00f4mica atrelada \u00e0 crise sanit\u00e1ria causada pela pandemia de covid-19, apenas 53% dos recursos estimados foram levantados.<\/p>\n<p>Segundo Luiz Fernando Godinho, oficial de informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica do Acnur, o subfinanciamento for\u00e7a a ag\u00eancia a focar no que \u00e9 mais urgente como garantia de acesso \u00e0 \u00e1gua, alimenta\u00e7\u00e3o e moradia, prejudicando outras a\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m s\u00e3o fundamentais, entre elas os programas educacionais e de gera\u00e7\u00e3o de renda. Ele assinala que, embora os refugiados s\u00edrios estejam espalhados por mais 130 na\u00e7\u00f5es, cerca de 5,5 milh\u00f5es dos 6,6 milh\u00f5es se concentram nos pa\u00edses vizinhos: Jord\u00e2nia, L\u00edbano, Iraque, Egito e Turquia. A maior parte dos US$ 5,8 bilh\u00f5es seria empregada nessa regi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Nesses locais, os impactos da pandemia de covid-19 aprofundaram muito as necessidades econ\u00f4micas. Vemos um n\u00edvel de pobreza muito grande. Os levantamentos indicam que 80% deles est\u00e3o abaixo da linha de pobreza&#8221;, diz. Para ele, h\u00e1 uma falha da comunidade internacional, que n\u00e3o parece se empenhar para resolver o conflito, gerando assim maior demanda por recursos. &#8220;S\u00f3 vai haver solu\u00e7\u00e3o quando os s\u00edrios puderem voltar \u00e0s suas casas. Ningu\u00e9m quer ser refugiado. S\u00e3o as circunst\u00e2ncias que os levam a sair do pa\u00eds. E a S\u00edria n\u00e3o oferece hoje condi\u00e7\u00f5es de retorno. Sem solu\u00e7\u00e3o do conflito, a crise humanit\u00e1ria permanece&#8221;. Em 2019 e 2020, apenas 133.204 s\u00edrios voltaram para o pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Retorno improv\u00e1vel<\/strong><br \/>\nNo Brasil, nem todos os refugiados t\u00eam expectativa de retorno. Embora divididos entre a saudade da terra natal e o sentimento de pertencimento que desenvolveram em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil, \u00e9 comum que eles se sintam integrados na nova sociedade e, muitas vezes, com v\u00ednculos formados no pa\u00eds. Segundo Godinho, a realidade brasileira \u00e9 peculiar pois temos uma legisla\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada que contribui para essa integra\u00e7\u00e3o, uma vez que garante aos refugiados acesso a servi\u00e7os considerados universais, como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e mesmo programas sociais.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 diferente de uma situa\u00e7\u00e3o de campo de refugiados, que existem em outros pa\u00edses do mundo para receber os s\u00edrios. Isolados ali, s\u00e3o oferecidos servi\u00e7os diretamente a eles. No modelo brasileiro, h\u00e1 a inser\u00e7\u00e3o das pessoas na rede de sa\u00fade, na rede de educa\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 dispon\u00edvel para todos os cidad\u00e3os&#8221;, diz o oficial de informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica do Acnur.<\/p>\n<p>Este cen\u00e1rio foi fundamental para Fatima Ismail. De origem curda, etnia que responde por aproximadamente 7% da popula\u00e7\u00e3o s\u00edria, ela vivia em Alepo, a maior cidade do pa\u00eds. Deixou sua casa quando a guerra se aproximava e problemas variados come\u00e7aram a surgir, como desabastecimento de alimentos e crescimento do desemprego. Primeiramente, se instalou na Jord\u00e2nia, onde ela e o marido trabalharam na fabrica\u00e7\u00e3o de roupas e sapatos. Mas um problema lhe incomodava: apenas um de seus tr\u00eas filhos foi aceito na escola. Al\u00e9m disso, temia que a press\u00e3o do governo s\u00edrio sobre os pa\u00edses da regi\u00e3o pudesse complicar a situa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8220;Com o passaporte s\u00edrio, era dif\u00edcil conseguir entrar na Europa. A gente n\u00e3o sabia muito sobre o Brasil, mas pesquisamos pela internet e achamos que S\u00e3o Paulo parecia com Alepo. Eu costumo dizer que n\u00e3o fui eu que escolhi o Brasil. Foi o Brasil que me escolheu. E hoje, eu n\u00e3o penso em voltar. No Brasil passamos algumas dificuldades, mas \u00e9 melhor do que l\u00e1 hoje. Se voltarmos hoje, por exemplo, meus filhos tem que parar de estudar e entrar no ex\u00e9rcito. E podem morrer. N\u00e3o h\u00e1 garantias para quem entra na guerra&#8221;, conta Fatima.<\/p>\n<p>Para ela, a S\u00edria voltou no tempo e o desabastecimento de comida, g\u00e1s, \u00e1gua, eletricidade se tornou uma realidade: &#8220;Tem locais que chega luz duas, tr\u00eas horas por dia. H\u00e1 filas para comprar p\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Essa mesma situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m desperta na arquiteta Lucia Loxca a sensa\u00e7\u00e3o de que um retorno \u00e0 terra natal \u00e9 algo improv\u00e1vel. Morando em Curitiba desde 2013, ela diz que o conflito ensinou a n\u00e3o planejar o futuro: &#8220;Claro que, como todos os s\u00edrios, temos o sonho de voltar. Mas sendo realista, se voltarmos, n\u00e3o encontraremos a S\u00edria como ela era. Provavelmente seria muito diferente. Parentes e amigos tamb\u00e9m foram embora e n\u00e3o est\u00e3o mais l\u00e1. Seria muito complicado reconstruir a vida mais uma vez. Hoje nos sentimos estabelecidos no Brasil. Na verdade, \u00e9 o nosso pa\u00eds agora&#8221;.<\/p>\n<p>Mesmo sem expectativa de retorno, o v\u00ednculo com os amigos que ficaram para tr\u00e1s se mant\u00e9m. &#8220;Tentamos falar com eles quando bate a saudade. Mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil o contato. H\u00e1 regi\u00f5es onde n\u00e3o h\u00e1 internet sempre. Tamb\u00e9m tentamos nos manter informados sobre os acontecimentos, mas acompanhar as not\u00edcias todo dia cansa e d\u00f3i o cora\u00e7\u00e3o&#8221;, conta a arquiteta.<\/p>\n<p><strong>Fam\u00edlia dispersa<\/strong><br \/>\nLucia viveu uma realidade n\u00e3o muito comum entre os refugiados. Sua fam\u00edlia, composta por 16 pessoas, deixou Alepo e veio inteira para o pa\u00eds. &#8220;Busc\u00e1vamos um lugar seguro para podermos continuar nossa vida. E n\u00e3o havia muitas op\u00e7\u00f5es. Na verdade, s\u00f3 tinha o Brasil. Era o \u00fanico caminho que poderia ser mais seguro para todos, inclusive os idosos da fam\u00edlia. Fizemos uma pesquisa r\u00e1pida sobre Curitiba e nos pareceu uma cidade tranquila&#8221;.<\/p>\n<p>Atualmente, diz ela, todos conseguiram se restabelecer economicamente. Lucia manteve vivo o sonho de se tornar arquiteta. Na S\u00edria, a universidade onde ela estudava foi bombardeada. Tempos ap\u00f3s chegar no pa\u00eds, ela conseguiu concluir a gradua\u00e7\u00e3o na Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFP), a partir de um programa de a\u00e7\u00f5es afirmativas para refugiados. Hoje, ela atua na \u00e1rea.<\/p>\n<p>Para outros, no entanto, a realidade \u00e9 bem diferente. Fatima conta que quatro dos seus sete irm\u00e3os tamb\u00e9m est\u00e3o fora S\u00edria, dispersos na Europa. Al\u00e9m disso, a guerra causou uma profunda tristeza em sua m\u00e3e, que veio a falecer. Situa\u00e7\u00e3o similar vive Abdul.<\/p>\n<p>&#8220;Minha fam\u00edlia se espalhou pelo mundo. Tive uma irm\u00e3 que perdeu uma perna e perdeu o marido. Ela vive na Alemanha. Outra irm\u00e3 fugiu pro Canad\u00e1 e outra para o Iraque. Consegui trazer minha m\u00e3e e minha irm\u00e3 ca\u00e7ula em 2019. E infelizmente perdi minha m\u00e3e para a covid-19. Ela tinha diabetes e press\u00e3o alta e n\u00e3o resistiu. Foi chocante, porque achei que tinha salvado a vida dela e a morte nos perseguiu at\u00e9 aqui&#8221;, conta Abdul.<\/p>\n<p><strong>Cultura h\u00edbrida<\/strong><br \/>\nDo idioma \u00e0 culin\u00e1ria, da m\u00fasica aos costumes cotidianos. O dia a dia desses refugiados moldou uma cultura h\u00edbrida: uma cultura simultaneamente s\u00edria e brasileira. Ao mesmo tempo em que abriu espa\u00e7o para o Corinthians e para a m\u00fasica sertaneja em sua vida, Abdul mant\u00e9m h\u00e1bitos de sua terra natal. A integra\u00e7\u00e3o na comunidade de refugiados colabora.<\/p>\n<p>&#8220;Eu cheguei sozinho, mas conheci outros refugiados. Todo s\u00e1bado \u00e0 noite, nos reunimos e cozinhamos uma comida com os mesmos temperos que us\u00e1vamos na S\u00edria. E jogamos baralho, um jogo que costum\u00e1vamos jogar. Conversamos sobre pol\u00edtica, nos divertimos, usamos nossa l\u00edngua nativa, nos conectamos com nossa identidade. Mas fiquei meio misturado, porque o Brasil se tornou minha p\u00e1tria tamb\u00e9m. Fiz uma vida aqui&#8221;, conta.<\/p>\n<p>No caso de Fatima, a troca cultural se tornou fonte de renda. Hoje ela \u00e9 chefe de cozinha e prepara pratos s\u00edrios. Costumava atender festas e eventos, mas em meio \u00e0 pandemia de covid-19, tem se sustentado sobretudo vendendo pela internet. &#8220;Algumas pessoas gostaram muito da minha comida e falaram que era bem diferente inclusive do tempero dos restaurantes s\u00edrios aqui no Brasil. Me incentivaram a vender. Porque a gente traz uma hist\u00f3ria. A comida, como eu fa\u00e7o, tem uma mistura: comida curda com comida \u00e1rabe. O tipo de cozinha \u00e9 diferente&#8221;.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m oferece cursos culin\u00e1rios, como o que ensina a fazer p\u00e3o s\u00edrio. &#8220;O p\u00e3o \u00e9 nosso primeiro alimento. Aqui, o arroz \u00e9 a base dos pratos. L\u00e1, o mais importante pra gente \u00e9 o p\u00e3o. N\u00e3o fazemos uma refei\u00e7\u00e3o sem um p\u00e3o para dividir com a fam\u00edlia&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Uma dificuldade que ela relata \u00e9 o custo do trigo e do gr\u00e3o de bico, que s\u00e3o mais caros do que na S\u00edria, j\u00e1 que a produ\u00e7\u00e3o brasileira desses alimentos \u00e9 t\u00edmida e o pa\u00eds acaba sendo importador. &#8220;\u00c9 poss\u00edvel achar bons pre\u00e7os, mas \u00e9 preciso pesquisar&#8221;, pondera. Fatima ressalta que a conex\u00e3o com o Brasil tem uma via de m\u00e3o dupla, j\u00e1 que tamb\u00e9m aprendeu a gostar da combina\u00e7\u00e3o entre arroz e feij\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto Fatima dissemina os temperos de sua terra entre os brasileiros, Lucia divulga a m\u00fasica. Al\u00e9m de arquiteta, ela \u00e9 cantora e integra o Trio Alma S\u00edria, composto ainda por seu marido e sua cunhada, que tocam respectivamente ala\u00fade e kanun, dois instrumentos de corda populares no Oriente M\u00e9dio. O trio j\u00e1 se apresentou em eventos no Rio de Janeiro, em Bras\u00edlia, em Florian\u00f3polis e em Curitiba.<\/p>\n<p>&#8220;Temos forma\u00e7\u00e3o musical e, quando chegamos, sentimos a responsabilidade de transmitir a nossa hist\u00f3ria por meio da m\u00fasica. Buscamos preservar nossa cultura. Mantemos a l\u00edngua em casa, as comidas tradicionais. Mas n\u00e3o dispensamos um p\u00e3o de queijo, um pastel. Sempre tentamos misturar as duas culturas. At\u00e9 porque a fam\u00edlia cresceu e j\u00e1 tem uma nova gera\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o brasileiros natos.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dez anos, o dia 15 de mar\u00e7o traz para a popula\u00e7\u00e3o s\u00edria lembran\u00e7as de um passado que se foi. Nesta data, em 2011, come\u00e7ou a se desenhar o conflito armado na S\u00edria \u2013 que dura at\u00e9 os dias de hoje. 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