{"id":253768,"date":"2021-03-20T10:52:55","date_gmt":"2021-03-20T13:52:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=253768"},"modified":"2021-03-20T10:54:02","modified_gmt":"2021-03-20T13:54:02","slug":"frente-ampla-pode-ter-lula-puxando-votos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/frente-ampla-pode-ter-lula-puxando-votos\/","title":{"rendered":"Frente ampla pode ter Lula puxando votos"},"content":{"rendered":"<p>Foram-se as tabas e s\u00e3o poucos os verdores. H\u00e1 t\u00famulos cobertos de flores, mas o povo, altivo, n\u00e3o teme a guerra do voto nem a morte. Essa \u00e9 a complexa hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina, marcada por coloniza\u00e7\u00e3o majoritariamente espanhola e a nossa portuguesa, com independ\u00eancias constru\u00eddas com muita luta e muito sangue, a exce\u00e7\u00e3o da brasileira, o que n\u00e3o quer dizer que o nosso povo n\u00e3o tenha tradi\u00e7\u00e3o de lutas, podemos lembrar centenas de levantes populares como a Revolta da Chibata, Cabanagem, Sabinada, Balaiada, Fora Collor e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Fomos marcados nos anos 60 do s\u00e9culo XX por ditaturas e por interfer\u00eancia dos Estados Unidos em v\u00e1rios pa\u00edses, em ataques aos governantes democraticamente constitu\u00eddos e todo um processo de luta para reverter isso que levou d\u00e9cadas. Da\u00ed brotaram as democracias dos anos 80, ainda fr\u00e1geis, apoiadas em novas constitui\u00e7\u00f5es como no Brasil, ou tendo que carregar o fardo das velhas, como no Chile.<\/p>\n<p>Essas democracias sentiram o peso do neoliberalismo, o desmonte dos Estados nacionais, as privatiza\u00e7\u00f5es que prometiam dias melhores e tomavam nossas riquezas em leil\u00f5es suspeitos. Os anos 2000 trouxeram um novo f\u00f4lego as ideias progressistas na Am\u00e9rica Latina, elei\u00e7\u00f5es de presidentes democr\u00e1ticos e de esquerda na Argentina, Paraguai, Uruguai, Brasil, Venezuela, Peru, Equador e Bol\u00edvia, apesar de uma derrota no Chile para a direita neoliberal. Mas o que marca esse momento \u00e9 que a disputa se dava nos marcos democr\u00e1ticos, quando se ganhava e perdia o respeito era o fator majorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Isso come\u00e7a a mudar nos mesmos anos 2000, assistimos sem muita contesta\u00e7\u00e3o o presidente Fernando Lugo, do Paraguai, e Manuel Zelaya, de Honduras, serem apeados do poder em golpes \u201cconstitucionais\u201d. A t\u00edtulo de curiosidade, Zelaya chegou a ficar refugiado na embaixada brasileira na \u00e9poca do governo Lula.<\/p>\n<p>Ali se gestava uma nova pol\u00edtica, a do golpe brando, reza a lenda que at\u00e9 livro sobre isso foi escrito por um ex-agente da CIA. Nada mais de armas, de derrubadas violentas de governantes com mortes, agora a ideia \u00e9 se aproveitar das redes sociais, construir redes de boataria somada ao \u00f3dio de classe e derrubar governantes. Em certa medida tamb\u00e9m foi assim com Dilma no Brasil, partindo da n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o do resultado pelo tucano A\u00e9cio Neves come\u00e7ou-se uma novela longa que at\u00e9 hoje n\u00e3o chegou ao seu fim e vai deixando cad\u00e1veres (literalmente falando) e preju\u00edzos a todo o Estado de Direito e democracia constru\u00edda e reconstru\u00edda desde a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p>A onda virou novamente, assistimos novas elei\u00e7\u00f5es de governantes neoliberais e de direita em quase todos esses pa\u00edses j\u00e1 citados, al\u00e9m de um golpe de Estado na Bol\u00edvia que arrancou a for\u00e7a do poder o presidente Evo Morales, passando este um largo per\u00edodo exilado no M\u00e9xico. Aqui se insere a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro no Brasil.<\/p>\n<p>O balan\u00e7o desses governos n\u00e3o agradou em linhas gerais os habitantes desses pa\u00edses e, a exce\u00e7\u00e3o do Brasil que s\u00f3 tem elei\u00e7\u00e3o em 2022, a onda parece virar mais uma vez, com uma nuance preocupante: os processos eleitorais passaram a serem muito mais questionados, com as redes sociais pressionando e pondo em d\u00favida resultados em v\u00e1rios desses pleitos.<\/p>\n<p>O que tudo isso pode apontar? Que se inaugura um novo paradigma ap\u00f3s a vit\u00f3ria expressiva de Alberto Fern\u00e1ndez na Argentina, da derrota no golpe na Bol\u00edvia com a elei\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds Arce, candidato apoiado por Evo Morales e membro do seu partido, e pris\u00e3o da senadora golpista que se auto intitulou presidente, e de uma vit\u00f3ria da direita no Uruguai, mas que procurou se afastar ao m\u00e1ximo dos extremistas como Bolsonaro, recusando inclusive seu apoio.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m est\u00e1 representado pelos amplos movimentos no Chile que levar\u00e3o a uma nova e necess\u00e1ria constitui\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, acompanhado do crescimento de pr\u00e9-candidatos a presid\u00eancia ligados a esquerda e ao Partido Comunista Chileno, do resultado conturbado no Equador que segue sendo questionado, em que Andr\u00e9 Arauz, candidato do ex-presidente de esquerda Rafael Correa, lidera e vai ao segundo turno com Guillermo Lasso, de extrema-direita, um segundo colocado profundamente questionado que acabou ficando com a vaga, mas h\u00e1 toda uma contenda social e pol\u00edtica se desenrolando por parte do outro candidato de esquerda, Yaku P\u00e9rez que segue contestando em meio a recontagens intermin\u00e1veis.<\/p>\n<p>E, mais recentemente, o Peru, pa\u00eds de tradi\u00e7\u00e3o conservadora que pode ter dois candidatos que se declaram de esquerda no segundo turno em abril. A situa\u00e7\u00e3o dos peruanos n\u00e3o \u00e9 simples, entre golpes e contragolpes internos chegaram a ter tr\u00eas presidentes em uma semana e est\u00e3o h\u00e1 anos com seus governantes imersos em den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, o pleito re\u00fane quase 20 candidatos ao cargo e o que lidera mal ultrapassa os 10%, a grande maioria diz n\u00e3o saber em quem votar ou que n\u00e3o se sente representada por nenhum deles.<\/p>\n<p>Ainda assim, em pesquisa de 16 de mar\u00e7o do jornal El Comercio do Peru, chama a aten\u00e7\u00e3o Yonhy Lescano seguir liderando h\u00e1 semanas, consolidando a dist\u00e2ncia dos demais candidatos que seguem embolados. Lescano se apresenta como de esquerda, \u00e9 do A\u00e7\u00e3o Popular, partido que liderou as den\u00fancias e movimentos que levaram a derrubada do ent\u00e3o presidente Mart\u00edn Vizcarra. Seriam todos esses fatos acima listados sinais dos novos tempos, de uma nova onda?<\/p>\n<p>Se sim, h\u00e1 marcas aqui a serem consideradas e ressaltadas. Uma \u00e9 que o eleitor desses pa\u00edses cansou do modelo neoliberal, dos arrochos, desemprego, retirada de direitos, carestia e tudo mais. Outra \u00e9 que novos nomes parecem empolgar e ter mais chances eleitorais do que os antigos.<\/p>\n<p>Vejam bem, o eleitor do Equador e da Bol\u00edvia confia em Rafael Correa e Evo Morales, respectivamente, mas se anima mais com novos nomes, apoiados e apresentados por esses. Parece clara a antipatia do eleitorado latino-americano por presidentes que ficam d\u00e9cadas no cargo, as democracias do tipo das que est\u00e3o constitu\u00eddas no continente pedem por forma\u00e7\u00e3o de quadros para as dirigirem, que esses governos o fa\u00e7am, gerem novos pol\u00edticos em condi\u00e7\u00f5es de comandarem essas na\u00e7\u00f5es. Cristina Kirchner entendeu isso.<\/p>\n<p>Depois de toda uma campanha difamat\u00f3ria e criminosa do judici\u00e1rio argentino e do governo Macri contra ela, no mesmo estilo do que fizeram aqui com Lula, optou por ser vice de Alberto Fern\u00e1ndez e n\u00e3o candidata a presid\u00eancia mais uma vez, e lograram juntos uma acachapante vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que tudo isso n\u00e3o registra algumas li\u00e7\u00f5es a serem colhidas na elei\u00e7\u00e3o brasileira vindoura? Comemora-se por aqui a anula\u00e7\u00e3o das condena\u00e7\u00f5es do ex-presidente Lula, algo que efetivamente todos os democratas devem faz\u00ea-lo, aquilo foi o resultado de uma mil\u00edcia judiciaria, de uma deturpa\u00e7\u00e3o do processo e rito legal, mas qual o real impacto dessa novidade na disputa que se avizinha?<\/p>\n<p>Lula volta pro jogo, polariza com o presidente Bolsonaro. As pesquisas mostram um desgaste do eleitorado com as duas figuras, como os dois polos que representam, mas a evolu\u00e7\u00e3o das mesmas tamb\u00e9m apresenta um aumento do desgaste de Bolsonaro e a diminui\u00e7\u00e3o da rejei\u00e7\u00e3o do petista. Levanta-se a quest\u00e3o se n\u00e3o seria um bom momento para seguir o exemplo de Cristina Kirchner, Rafael Correa e Evo Morales, ungindo um novo nome da esquerda, geracionalmente e politicamente falando? Nomes que poderiam cumprir essa miss\u00e3o n\u00e3o faltam no pr\u00f3prio PT, al\u00e9m de figurarem no PCdoB, PSOL e PDT tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ineg\u00e1vel que o cen\u00e1rio \u00e9 outro com Lula apto a ser candidato, a disputa ganha outra dimens\u00e3o e nuances, mas agora \u00e9 fundamental a busca da constru\u00e7\u00e3o de uma ampla frente para tirar o Brasil na crise sanit\u00e1ria e econ\u00f4mica que o pa\u00eds est\u00e1 imerso. Essa frente necessariamente n\u00e3o \u00e9 a mesma que disputar\u00e1 o pleito, mas pode ser a que bote o Brasil de volta nos trilhos da democracia, da economia e da sa\u00fade p\u00fablica nesse ano de 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foram-se as tabas e s\u00e3o poucos os verdores. H\u00e1 t\u00famulos cobertos de flores, mas o povo, altivo, n\u00e3o teme a guerra do voto nem a morte. 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