{"id":253782,"date":"2021-03-20T16:05:15","date_gmt":"2021-03-20T19:05:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=253782"},"modified":"2021-03-21T07:05:31","modified_gmt":"2021-03-21T10:05:31","slug":"capitao-descre-mas-brasil-tem-valorosos-tupis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/capitao-descre-mas-brasil-tem-valorosos-tupis\/","title":{"rendered":"Capit\u00e3o descr\u00ea, mas temos valorosos Tupis"},"content":{"rendered":"<p>No meio das tabas de amenos verdores,<br \/>\nCercadas de troncos \u2014 cobertos de flores,<br \/>\nAlteiam-se os tetos d\u2019altiva na\u00e7\u00e3o;<br \/>\nS\u00e3o muitos seus filhos, nos \u00e2nimos fortes,<br \/>\nTem\u00edveis na guerra, que em densas coortes<br \/>\nAssombram das matas a imensa extens\u00e3o.<br \/>\nS\u00e3o rudes, severos, sedentos de gl\u00f3ria,<br \/>\nJ\u00e1 pr\u00e9lios incitam, j\u00e1 cantam vit\u00f3ria,<br \/>\nJ\u00e1 meigos atendem \u00e0 voz do cantor:<br \/>\nS\u00e3o todos Timbiras, guerreiros valentes!<br \/>\nSeu nome l\u00e1 voa na boca das gentes,<br \/>\nCond\u00e3o de prod\u00edgios, de gl\u00f3ria e terror!<br \/>\nAs tribos vizinhas, sem for\u00e7as, sem brio,<br \/>\nAs armas quebrando, lan\u00e7ando-as ao rio,<br \/>\nO incenso aspiraram dos seus marac\u00e1s:<br \/>\nMedrosos das guerras que os fortes acendem,<br \/>\nCustosos tributos ignavos l\u00e1 rendem,<br \/>\nAos duros guerreiros sujeitos na paz.<br \/>\nNo centro da taba se estende um terreiro,<br \/>\nOnde ora se aduna o conc\u00edlio guerreiro<br \/>\nDa tribo senhora, das tribos servis:<br \/>\nOs velhos sentados praticam d\u2019outrora,<br \/>\nE os mo\u00e7os inquietos, que a festa enamora,<br \/>\nDerramam-se em torno d\u2019um \u00edndio infeliz.<br \/>\nQuem \u00e9? \u2014 ningu\u00e9m sabe: seu nome \u00e9 ignoto,<br \/>\nSua tribo n\u00e3o diz: \u2014 de um povo remoto<br \/>\nDescende por certo \u2014 d\u2019um povo gentil;<br \/>\nAssim l\u00e1 na Gr\u00e9cia ao escravo insulano<br \/>\nTornavam distinto do vil mu\u00e7ulmano<br \/>\nAs linhas corretas do nobre perfil.<br \/>\nPor casos de guerra caiu prisioneiro<br \/>\nNas m\u00e3os dos Timbiras: \u2014 no extenso terreiro<br \/>\nAssola-se o teto, que o teve em pris\u00e3o;<br \/>\nConvidam-se as tribos dos seus arredores,<br \/>\nCuidosos se incumbem do vaso das cores,<br \/>\nDos v\u00e1rios aprestos da honrosa fun\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAcerva-se a lenha da vasta fogueira,<br \/>\nEntesa-se a corda de embira ligeira,<br \/>\nAdorna-se a ma\u00e7a com penas gentis:<br \/>\nA custo, entre as vagas do povo da aldeia<br \/>\nCaminha o Timbira, que a turba rodeia,<br \/>\nGarboso nas plumas de v\u00e1rio matiz.<br \/>\nEntanto as mulheres com leda trigan\u00e7a,<br \/>\nAfeitas ao rito da b\u00e1rbara usan\u00e7a,<br \/>\nO \u00edndio j\u00e1 querem cativo acabar:<br \/>\nA coma lhe cortam, os membros lhe tingem,<br \/>\nBrilhante endu\u00e1pe no corpo lhe cingem,<br \/>\nSombreia-lhe a fronte gentil canitar.<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><br \/>\nEm fundos vasos d\u2019alvacenta argila<br \/>\nFerve o cauim;<br \/>\nEnchem-se as copas, o prazer come\u00e7a,<br \/>\nReina o festim.<br \/>\nO prisioneiro, cuja morte anseiam,<br \/>\nSentado est\u00e1,<br \/>\nO prisioneiro, que outro sol no ocaso<br \/>\nJamais ver\u00e1!<br \/>\nA dura corda, que lhe enla\u00e7a o colo,<br \/>\nMostra-lhe o fim<br \/>\nDa vida escura, que ser\u00e1 mais breve<br \/>\nDo que o festim!<br \/>\nContudo os olhos d\u2019ign\u00f3bil pranto<br \/>\nSecos est\u00e3o;<br \/>\nMudos os l\u00e1bios n\u00e3o descerram queixas<br \/>\nDo cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas um mart\u00edrio, que encobrir n\u00e3o pode,<br \/>\nEm rugas faz<br \/>\nA mentirosa placidez do rosto<br \/>\nNa fronte audaz!<br \/>\nQue tens, guerreiro? Que temor te assalta<br \/>\nNo passo horrendo?<br \/>\nHonra das tabas que nascer te viram,<br \/>\nFolga morrendo.<br \/>\nFolga morrendo; porque al\u00e9m dos Andes<br \/>\nRevive o forte,<br \/>\nQue soube ufano contrastar os medos<br \/>\nDa fria morte.<br \/>\nRasteira grama, exposta ao sol, \u00e0 chuva,<br \/>\nL\u00e1 murcha e pende:<br \/>\nSomente ao tronco, que devassa os ares,<br \/>\nO raio ofende!<br \/>\nQue foi? Tup\u00e3 mandou que ele ca\u00edsse,<br \/>\nComo viveu;<br \/>\nE o ca\u00e7ador que o avistou prostrado<br \/>\nEsmoreceu!<br \/>\nQue temes, \u00f3 guerreiro? Al\u00e9m dos Andes<br \/>\nRevive o forte,<br \/>\nQue soube ufano contrastar os medos<br \/>\nDa fria morte.<\/p>\n<p><strong>III<\/strong><br \/>\nEm larga roda de nov\u00e9is guerreiros<br \/>\nLedo caminha o festival Timbira,<br \/>\nA quem do sacrif\u00edcio cabe as honras.<br \/>\nNa fronte o canitar sacode em ondas,<br \/>\nO enduape na cinta se embalan\u00e7a,<br \/>\nNa destra m\u00e3o sopesa a iverapeme,<br \/>\nOrgulhoso e pujante. \u2014 Ao menor passo<br \/>\nColar d\u2019alvo marfim, ins\u00edgnia d\u2019honra,<br \/>\nQue lhe orna o colo e o peito, ruge e freme,<br \/>\nComo que por feiti\u00e7o n\u00e3o sabido<br \/>\nEncantadas ali as almas grandes<br \/>\nDos vencidos Tapuias, inda chorem<br \/>\nSerem gl\u00f3ria e bras\u00e3o d\u2019imigos feros.<br \/>\n\u201cEis-me aqui, diz ao \u00edndio prisioneiro;<br \/>\n\u201cPois que fraco, e sem tribo, e sem fam\u00edlia,<br \/>\n\u201cAs nossas matas devassaste ousado,<br \/>\n\u201cMorrer\u00e1s morte vil da m\u00e3o de um forte.\u201d<br \/>\nVem a terreiro o m\u00edsero contr\u00e1rio;<br \/>\nDo colo \u00e0 cinta a mu\u00e7urana desce:<br \/>\n\u201cDize-me quem \u00e9s, teus feitos canta,<br \/>\n\u201cOu se mais te apraz, defende-te.\u201d Come\u00e7a<br \/>\nO \u00edndio, que ao redor derrama os olhos,<br \/>\nCom triste voz que os \u00e2nimos comove.<\/p>\n<p><strong>IV<\/strong><br \/>\nMeu canto de morte,<br \/>\nGuerreiros, ouvi:<br \/>\nSou filho das selvas,<br \/>\nNas selvas cresci;<br \/>\nGuerreiros, descendo<br \/>\nDa tribo Tupi.<br \/>\nDa tribo pujante,<br \/>\nQue agora anda errante<br \/>\nPor fado inconstante,<br \/>\nGuerreiros, nasci:<br \/>\nSou bravo, sou forte,<br \/>\nSou filho do Norte;<br \/>\nMeu canto de morte,<br \/>\nGuerreiros, ouvi.<br \/>\nJ\u00e1 vi cruas brigas,<br \/>\nDe tribos imigas,<br \/>\nE as duras fadigas<br \/>\nDa guerra provei;<br \/>\nNas ondas mendaces<br \/>\nSenti pelas faces<br \/>\nOs silvos fugaces<br \/>\nDos ventos que amei.<br \/>\nAndei longes terras,<br \/>\nLidei cruas guerras,<br \/>\nVaguei pelas serras<br \/>\nDos vis Aimor\u00e9s;<br \/>\nVi lutas de bravos,<br \/>\nVi fortes \u2014 escravos!<br \/>\nDe estranhos ignavos<br \/>\nCalcados aos p\u00e9s.<br \/>\nE os campos talados,<br \/>\nE os arcos quebrados,<br \/>\nE os piagas coitados<br \/>\nSem seus marac\u00e1s;<br \/>\nE os meigos cantores,<br \/>\nServindo a senhores,<br \/>\nQue vinham traidores,<br \/>\nCom mostras de paz.<br \/>\nAos golpes do imigo<br \/>\nMeu \u00faltimo amigo,<br \/>\nSem lar, sem abrigo<br \/>\nCaiu junto a mi!<br \/>\nCom pl\u00e1cido rosto,<br \/>\nSereno e composto,<br \/>\nO acerbo desgosto<br \/>\nComigo sofri.<br \/>\nMeu pai a meu lado<br \/>\nJ\u00e1 cego e quebrado,<br \/>\nDe penas ralado,<br \/>\nFirmava-se em mi:<br \/>\nN\u00f3s ambos, mesquinhos,<br \/>\nPor \u00ednvios caminhos,<br \/>\nCobertos d\u2019espinhos<br \/>\nChegamos aqui!<br \/>\nO velho no entanto<br \/>\nSofrendo j\u00e1 tanto<br \/>\nDe fome e quebranto,<br \/>\nS\u00f3 queria morrer!<br \/>\nN\u00e3o mais me contenho,<br \/>\nNas matas me embrenho,<br \/>\nDas frechas que tenho<br \/>\nMe quero valer.<br \/>\nEnt\u00e3o, forasteiro,<br \/>\nCa\u00ed prisioneiro<br \/>\nDe um tro\u00e7o guerreiro<br \/>\nCom que me encontrei:<br \/>\nO cru dessossego<br \/>\nDo pai fraco e cego,<br \/>\nEnquanto n\u00e3o chego,<br \/>\nQual seja \u2014 dizei!<br \/>\nEu era o seu guia<br \/>\nNa noite sombria,<br \/>\nA s\u00f3 alegria<br \/>\nQue Deus lhe deixou:<br \/>\nEm mim se apoiava,<br \/>\nEm mim se firmava,<br \/>\nEm mim descansava,<br \/>\nQue filho lhe sou.<br \/>\nAo velho coitado<br \/>\nDe penas ralado,<br \/>\nJ\u00e1 cego e quebrado,<br \/>\nQue resta? &#8211; Morrer.<br \/>\nEnquanto descreve<br \/>\nO giro t\u00e3o breve<br \/>\nDa vida que teve,<br \/>\nDeixa-me viver!<br \/>\nN\u00e3o vil, n\u00e3o ignavo,<br \/>\nMas forte, mas bravo,<br \/>\nSerei vosso escravo:<br \/>\nAqui virei ter.<br \/>\nGuerreiros, n\u00e3o coro<br \/>\nDo pranto que choro;<br \/>\nSe a vida deploro,<br \/>\nTamb\u00e9m sei morrer.<\/p>\n<p><strong>V<\/strong><br \/>\nSoltai-o! \u2014 diz o chefe. \u2014 Pasma a turba;<br \/>\nOs guerreiros murmuram: mal ouviram,<br \/>\nNem p\u00f4de nunca um chefe dar tal ordem!<br \/>\nBrada segunda vez com voz mais alta,<br \/>\nAfrouxam-se as pris\u00f5es, a embira cede,<br \/>\nA custo, sim; mas cede: o estranho \u00e9 salvo.<br \/>\n\u2014 Timbira, diz o \u00edndio enternecido,<br \/>\nSolto apenas dos n\u00f3s que o seguravam:<br \/>\n\u00c9s um guerreiro ilustre, um grande chefe,<br \/>\nTu que assim do meu mal te comoveste,<br \/>\nNem sofres que, transposta a natureza,<br \/>\nCom olhos onde a luz j\u00e1 n\u00e3o cintila,<br \/>\nChore a morte do filho o pai cansado,<br \/>\nQue somente por seu na voz conhece.<br \/>\n\u2014 \u00c9s livre; parte.<br \/>\n\u2014 E voltarei.<br \/>\n\u2014 Debalde.<br \/>\n\u2014 Sim, voltarei, morto meu pai.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o voltes!<br \/>\n\u00c9 bem feliz, se existe, em que n\u00e3o veja,<br \/>\nQue filho tem, qual chora: \u00e9s livre; parte!<br \/>\n\u2014 Acaso tu sup\u00f5es que me acobardo,<br \/>\nQue receio morrer!<br \/>\n\u2014 \u00c9s livre; parte!<br \/>\n\u2014 Ora n\u00e3o partirei; quero provar-te<br \/>\nQue um filho dos Tupis vive com honra,<br \/>\nE com honra maior, se acaso o vencem,<br \/>\nDa morte o passo glorioso afronta.<br \/>\n\u2014 Mentiste, que um Tupi n\u00e3o chora nunca,<br \/>\nE tu choraste!&#8230; parte; n\u00e3o queremos<br \/>\nCom carne vil enfraquecer os fortes.<br \/>\nSobresteve o Tupi: \u2014 arfando em ondas<br \/>\nO rebater do cora\u00e7\u00e3o se ouvia<br \/>\nPrecipite. &#8211; Do rosto afogueado<br \/>\nG\u00e9lidas bagas de suor corriam:<br \/>\nTalvez que o assaltava um pensamento&#8230;<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o&#8230; que na enlutada fantasia,<br \/>\nUm pesar, um mart\u00edrio ao mesmo tempo,<br \/>\nDo velho pai a moribunda imagem<br \/>\nQuase bradar-lhe ouvia: &#8211; Ingrato! ingrato!<br \/>\nCurvado o colo, taciturno e frio,<br \/>\nEspectro d\u2019homem, penetrou no bosque!<\/p>\n<p><strong>VI<\/strong><br \/>\n\u2014 Filho meu, onde est\u00e1s?<br \/>\n\u2014 Ao vosso lado;<br \/>\nAqui vos trago provis\u00f5es: tomai-as,<br \/>\nAs vossas for\u00e7as restaurai perdidas,<br \/>\nE a caminho, e j\u00e1!<br \/>\n\u2014 Tardaste muito!<br \/>\nN\u00e3o era nado o sol, quando partiste,<br \/>\nE frouxo o seu calor j\u00e1 sinto agora!<br \/>\n\u2014 Sim, demorei-me a divagar sem rumo,<br \/>\nPerdi-me nestas matas intrincadas,<br \/>\nReaviei-me e tornei; mas urge o tempo;<br \/>\nConv\u00e9m partir, e j\u00e1!<br \/>\n\u2014 Que novos males<br \/>\nNos resta de sofrer? \u2014 que novas dores,<br \/>\nNo outro fado pior Tup\u00e3 nos guarda?<br \/>\n\u2014 As setas da afli\u00e7\u00e3o j\u00e1 se esgotaram,<br \/>\nNem para novo golpe espa\u00e7o intacto<br \/>\nEm nossos corpos resta.<br \/>\n\u2014 Mas tu tremes!<br \/>\n\u2014 Talvez do af\u00e3 da ca\u00e7a&#8230;<br \/>\n\u2014 Oh filho caro!<br \/>\nUm qu\u00ea misterioso aqui me fala,<br \/>\nAqui no cora\u00e7\u00e3o; piedosa fraude<br \/>\nSer\u00e1 por certo, que n\u00e3o mentes nunca!<br \/>\nN\u00e3o conheces temor, e agora temes?<br \/>\nVejo e sei: \u00e9 Tup\u00e3 que nos aflige,<br \/>\nE contra o seu querer n\u00e3o valem brios.<br \/>\nPartamos!&#8230; \u2014<br \/>\nE com m\u00e3o tr\u00eamula, incerta<br \/>\nProcura o filho, tateando as trevas<br \/>\nDa sua noite l\u00fagubre e medonha.<br \/>\nSentindo o acre odor das frescas tintas,<br \/>\nUma ideia fatal correu-lhe \u00e0 mente&#8230;<br \/>\nDo filho os membros g\u00e9lidos apalpa,<br \/>\nE a dolorosa maciez das plumas<br \/>\nConhece estremecendo: \u2014 foge, volta,<br \/>\nEncontra sob as m\u00e3os o duro cr\u00e2nio,<br \/>\nDespido ent\u00e3o do natural ornato!&#8230;<br \/>\nRecua aflito e p\u00e1vido, cobrindo<br \/>\n\u00c0s m\u00e3os ambas os olhos fulminados,<br \/>\nComo que teme ainda o triste velho<br \/>\nDe ver, n\u00e3o mais cruel, por\u00e9m mais clara,<br \/>\nDaquele ex\u00edcio grande a imagem viva<br \/>\nAnte os olhos do corpo afigurada.<br \/>\nN\u00e3o era que a verdade conhecesse<br \/>\nInteira e t\u00e3o cruel qual tinha sido;<br \/>\nMas que funesto azar correra o filho,<br \/>\nEle o via; ele o tinha ali presente;<br \/>\nE era de repetir-se a cada instante.<br \/>\nA dor passada, a previs\u00e3o futura<br \/>\nE o presente t\u00e3o negro, ali os tinha;<br \/>\nAli no cora\u00e7\u00e3o se concentrava,<br \/>\nEra num ponto s\u00f3, mas era a morte!<br \/>\n\u2014 Tu prisioneiro, tu?<br \/>\n\u2014 V\u00f3s o dissestes.<br \/>\n\u2014 Dos \u00edndios?<br \/>\n\u2014 Sim.<br \/>\n\u2014 De que na\u00e7\u00e3o?<br \/>\n\u2014 Timbiras.<br \/>\n\u2014 E a mu\u00e7urana funeral rompeste,<br \/>\nDos falsos manit\u00f4s quebraste a ma\u00e7a&#8230;<br \/>\n\u2014 Nada fiz&#8230; aqui estou.<br \/>\n\u2014 Nada! \u2014<br \/>\nEmudecem;<br \/>\nCurto instante depois prossegue o velho:<br \/>\n\u2014 Tu \u00e9s valente, bem o sei; confessa,<br \/>\nFizeste-o, certo, ou j\u00e1 n\u00e3o foras vivo!<br \/>\n\u2014 Nada fiz; mas souberam da exist\u00eancia<br \/>\nDe um pobre velho, que em mim s\u00f3 vivia&#8230;<br \/>\n\u2014 E depois?&#8230;<br \/>\n\u2014Eis-me aqui.<br \/>\n\u2014Fica essa taba?<br \/>\n\u2014 Na dire\u00e7\u00e3o do sol, quando transmonta.<br \/>\n\u2014 Longe?<br \/>\n\u2014 N\u00e3o muito.<br \/>\n\u2014 Tens raz\u00e3o: partamos.<br \/>\n\u2014 E quereis ir?&#8230;<br \/>\n\u2014 Na dire\u00e7\u00e3o do ocaso.<\/p>\n<p><strong>VII<\/strong><br \/>\n\u201cPor amor de um triste velho,<br \/>\nQue ao termo fatal j\u00e1 chega,<br \/>\nV\u00f3s, guerreiros, concedestes<br \/>\nA vida a um prisioneiro.<br \/>\nA\u00e7\u00e3o t\u00e3o nobre vos honra,<br \/>\nNem t\u00e3o alta cortesia<br \/>\nVi eu jamais praticada<br \/>\nEntre os Tupis, \u2014 e mas foram<br \/>\nSenhores em gentileza.<br \/>\n\u201cEu por\u00e9m nunca vencido,<br \/>\nNem os combates por armas,<br \/>\nNem por nobreza nos atos;<br \/>\nAqui venho, e o filho trago.<br \/>\nV\u00f3s o dizeis prisioneiro,<br \/>\nSeja assim como dizeis;<br \/>\nMandai vir a lenha, o fogo,<br \/>\nA ma\u00e7a do sacrif\u00edcio<br \/>\nE a mu\u00e7urana ligeira:<br \/>\nEm tudo o rito se cumpra!<br \/>\nE quando eu for s\u00f3 na terra,<br \/>\nCerto acharei entre os vossos,<br \/>\nQue t\u00e3o gentis se revelam,<br \/>\nAlgu\u00e9m que meus passos guie;<br \/>\nAlgu\u00e9m, que vendo o meu peito<br \/>\nCoberto de cicatrizes,<br \/>\nTomando a vez de meu filho,<br \/>\nDe haver-me por pai se ufane!\u201d<br \/>\nMas o chefe dos Timbiras,<br \/>\nOs sobrolhos encrespando,<br \/>\nAo velho Tupi guerreiro<br \/>\nResponde com torvo acento:<br \/>\n\u2014 Nada farei do que dizes:<br \/>\n\u00c9 teu filho imbele e fraco!<br \/>\nAviltaria o triunfo<br \/>\nDa mais guerreira das tribos<br \/>\nDerramar seu ign\u00f3bil sangue:<br \/>\nEle chorou de cobarde;<br \/>\nN\u00f3s outros, fortes Timbiras,<br \/>\nS\u00f3 de her\u00f3is fazemos pasto. \u2014<br \/>\nDo velho Tupi guerreiro<br \/>\nA surda voz na garganta<br \/>\nFaz ouvir uns sons confusos,<br \/>\nComo os rugidos de um tigre,<br \/>\nQue pouco a pouco se assanha!<\/p>\n<p><strong>VIII<\/strong><br \/>\n\u201cTu choraste em presen\u00e7a da morte?<br \/>\nNa presen\u00e7a de estranhos choraste?<br \/>\nN\u00e3o descende o cobarde do forte;<br \/>\nPois choraste, meu filho n\u00e3o \u00e9s!<br \/>\nPossas tu, descendente maldito<br \/>\nDe uma tribo de nobres guerreiros,<br \/>\nImplorando cru\u00e9is forasteiros,<br \/>\nSeres presa de vis Aimor\u00e9s.<br \/>\n\u201cPossas tu, isolado na terra,<br \/>\nSem arrimo e sem p\u00e1tria vagando,<br \/>\nRejeitado da morte na guerra,<br \/>\nRejeitado dos homens na paz,<br \/>\nSer das gentes o espectro execrado;<br \/>\nN\u00e3o encontres amor nas mulheres,<br \/>\nTeus amigos, se amigos tiveres,<br \/>\nTenham alma inconstante e falaz!<br \/>\n\u201cN\u00e3o encontres do\u00e7ura no dia,<br \/>\nNem as cores da aurora te ameiguem,<br \/>\nE entre as larvas da noite sombria<br \/>\nNunca possas descanso gozar:<br \/>\nN\u00e3o encontres um tronco, uma pedra,<br \/>\nPosta ao sol, posta \u00e0s chuvas e aos ventos,<br \/>\nPadecendo os maiores tormentos,<br \/>\nOnde possas a fronte pousar.<br \/>\n\u201cQue a teus passos a relva se torre;<br \/>\nMurchem prados, a flor desfale\u00e7a,<br \/>\nE o regato que l\u00edmpido corre,<br \/>\nMais te acenda o vesano furor;<br \/>\nSuas \u00e1guas depressa se tornem,<br \/>\nAo contato dos l\u00e1bios sedentos,<br \/>\nLago impuro de vermes nojentos,<br \/>\nDonde fujas como asco e terror!<br \/>\n\u201cSempre o c\u00e9u, como um teto incendido,<br \/>\nCreste e punja teus membros malditos<br \/>\nE o oceano de p\u00f3 denegrido<br \/>\nSeja a terra ao ignavo tupi!<br \/>\nMiser\u00e1vel, faminto, sedento,<br \/>\nManit\u00f4s lhe n\u00e3o falem nos sonhos,<br \/>\nE do horror os espectros medonhos<br \/>\nTraga sempre o cobarde ap\u00f3s si.<br \/>\n\u201cUm amigo n\u00e3o tenhas piedoso<br \/>\nQue o teu corpo na terra embalsame,<br \/>\nPondo em vaso d\u2019argila cuidoso<br \/>\nArco e frecha e tacape a teus p\u00e9s!<br \/>\nS\u00ea maldito, e sozinho na terra;<br \/>\nPois que a tanta vileza chegaste,<br \/>\nQue em presen\u00e7a da morte choraste,<br \/>\nTu, cobarde, meu filho n\u00e3o \u00e9s.\u201d<\/p>\n<p><strong>IX<\/strong><br \/>\nIsto dizendo, o miserando velho<br \/>\nA quem Tup\u00e3 tamanha dor, tal fado<br \/>\nJ\u00e1 nos confins da vida reservara,<br \/>\nVai com tr\u00eamulo p\u00e9, com as m\u00e3os j\u00e1 frias<br \/>\nDa sua noite escura as densas trevas<br \/>\nPalpando. \u2014 Alarma! alarma! \u2014 O velho para!<br \/>\nO grito que escutou \u00e9 voz do filho,<br \/>\nVoz de guerra que ouviu j\u00e1 tantas vezes<br \/>\nNoutra quadra melhor. \u2014 Alarma! alarma!<br \/>\n\u2014 Esse momento s\u00f3 vale apagar-lhe<br \/>\nOs t\u00e3o compridos trances, as ang\u00fastias,<br \/>\nQue o frio cora\u00e7\u00e3o lhe atormentaram<br \/>\nDe guerreiro e de pai: \u2014 vale, e de sobra.<br \/>\nEle que em tanta dor se contivera,<br \/>\nTomado pelo s\u00fabito contraste,<br \/>\nDesfaz-se agora em pranto copioso,<br \/>\nQue o exaurido cora\u00e7\u00e3o remo\u00e7a.<br \/>\nA taba se alborota, os golpes descem,<br \/>\nGritos, impreca\u00e7\u00f5es profundas soam,<br \/>\nEmaranhada a multid\u00e3o braveja,<br \/>\nRevolve-se, enovela-se confusa,<br \/>\nE mais revolta em mor furor se acende.<br \/>\nE os sons dos golpes que incessantes fervem.<br \/>\nVozes, gemidos, estertor de morte<br \/>\nV\u00e3o longe pelas ermas serranias<br \/>\nDa humana tempestade propagando<br \/>\nQuantas vagas de povo enfurecido<br \/>\nContra um rochedo vivo se quebravam.<br \/>\nEra ele, o Tupi; nem fora justo<br \/>\nQue a fama dos Tupis &#8211; o nome, a gl\u00f3ria,<br \/>\nAturado labor de tantos anos,<br \/>\nDerradeiro bras\u00e3o da ra\u00e7a extinta,<br \/>\nDe um jacto e por um s\u00f3 se aniquilasse.<br \/>\n\u2014 Basta! clama o chefe dos Timbiras,<br \/>\n\u2014 Basta, guerreiro ilustre! assaz lutaste,<br \/>\nE para o sacrif\u00edcio \u00e9 mister for\u00e7as. \u2014<br \/>\nO guerreiro parou, caiu nos bra\u00e7os<br \/>\nDo velho pai, que o cinge contra o peito,<br \/>\nCom l\u00e1grimas de j\u00fabilo bradando:<br \/>\n\u201cEste, sim, que \u00e9 meu filho muito amado!<br \/>\n\u201cE pois que o acho enfim, qual sempre o tive,<br \/>\n\u201cCorram livres as l\u00e1grimas que choro,<br \/>\n\u201cEstas l\u00e1grimas, sim, que n\u00e3o desonram.\u201d<\/p>\n<p><strong>X<\/strong><br \/>\nUm velho Timbira, coberto de gl\u00f3ria,<br \/>\nGuardou a mem\u00f3ria<br \/>\nDo mo\u00e7o guerreiro, do velho Tupi!<br \/>\nE \u00e0 noite, nas tabas, se algu\u00e9m duvidava<br \/>\nDo que ele contava,<br \/>\nDizia prudente: &#8211; \u201cMeninos, eu vi!<br \/>\n\u201cEu vi o brioso no largo terreiro<br \/>\nCantar prisioneiro<br \/>\nSeu canto de morte, que nunca esqueci:<br \/>\nValente, como era, chorou sem ter pejo;<br \/>\nParece que o vejo,<br \/>\nQue o tenho nest\u2019hora diante de mi.\u201cEu disse comigo: Que inf\u00e2mia d\u2019escravo!<br \/>\nPois n\u00e3o, era um bravo;<br \/>\nValente e brioso, como ele, n\u00e3o vi!<br \/>\nE \u00e0 f\u00e9 que vos digo: parece-me encanto<br \/>\nQue quem chorou tanto,<br \/>\nTivesse a coragem que tinha o Tupi!\u201d<br \/>\nAssim o Timbira, coberto de gl\u00f3ria,<br \/>\nGuardava a mem\u00f3ria<br \/>\nDo mo\u00e7o guerreiro, do velho Tupi.<br \/>\nE \u00e0 noite nas tabas, se algu\u00e9m duvidava<br \/>\nDo que ele contava,<br \/>\nTornava prudente: \u201cMeninos, eu vi!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No meio das tabas de amenos verdores, Cercadas de troncos \u2014 cobertos de flores, Alteiam-se os tetos d\u2019altiva na\u00e7\u00e3o; S\u00e3o muitos seus filhos, nos \u00e2nimos fortes, Tem\u00edveis na guerra, que em densas coortes Assombram das matas a imensa extens\u00e3o. S\u00e3o rudes, severos, sedentos de gl\u00f3ria, J\u00e1 pr\u00e9lios incitam, j\u00e1 cantam vit\u00f3ria, J\u00e1 meigos atendem \u00e0 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":253783,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-253782","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253782","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=253782"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253782\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":253815,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253782\/revisions\/253815"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/253783"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=253782"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=253782"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=253782"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}