{"id":253827,"date":"2021-03-21T14:23:47","date_gmt":"2021-03-21T17:23:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=253827"},"modified":"2021-03-21T18:42:26","modified_gmt":"2021-03-21T21:42:26","slug":"recuperar-voto-impresso-e-uma-justificativa-que-nao-se-justifica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/recuperar-voto-impresso-e-uma-justificativa-que-nao-se-justifica\/","title":{"rendered":"Recuperar voto impresso \u00e9 argumento injustific\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>Benditos sejam os que procuram \u2013 e n\u00e3o acham \u2013 pelo em ovo. Vida longa \u00e0quele que, por algum desassombro, insiste em procurar o que sabe que jamais encontrar\u00e1. Em qualquer democracia do mundo \u00e9 salutar que haja diverg\u00eancias, conflitos, questionamentos e posicionamentos diferentes sobre o mesmo tema. \u00c9 do jogo pol\u00edtico. Passa a ser preocupa\u00e7\u00e3o quando, em um universo macro, apenas um ou dois teimam em reclamar sobre algo que agrada a milh\u00f5es. Refiro-me ao sistema eletr\u00f4nico de vota\u00e7\u00e3o do Brasil, mecanismo sem o qual seria imposs\u00edvel realizar elei\u00e7\u00f5es seguras no pa\u00eds. Produto genuinamente nacional, elogiado em todo planeta e testado em pequenos, m\u00e9dios e grandes &#8220;mercados&#8221; eleitorais, a maquininha brasileira sofre ataques desconfiados e carentes de provas desde sua ado\u00e7\u00e3o, em 1996, na primeira gest\u00e3o do ministro Marco Aur\u00e9lio Mello \u00e0 frente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).<\/p>\n<p>Quase 25 anos ap\u00f3s uma conquista hist\u00f3rica, o Brasil \u2013 na verdade integrantes do governo brasileiro \u2013 come\u00e7a a pavimentar um caminho que certamente o levar\u00e1 de volta ao fim da fila no quesito informatiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es. Na contram\u00e3o do mundo no combate \u00e0 pandemia, o presidente da Rep\u00fablica, seguindo ensinamentos fracassados de Tio Sam, encasquetou com o tal do voto impresso, apetrecho que todos os magistrados, juristas e pessoas que j\u00e1 serviram ou servem \u00e0 Justi\u00e7a Eleitoral entendem como retr\u00f3grado e sem qualquer novo valor ao sistema. A insist\u00eancia parece birra de menino mimado ou, quem sabe, uma antecipada desculpa supostamente honrosa para uma derrota que se desenha iminente.<\/p>\n<p>Advogado, ex-ministro do TSE e entusiasta da urna eletr\u00f4nica, Carlos Eduardo Caputo Bastos foi quem melhor definiu as cr\u00edticas e desconfian\u00e7as at\u00e9 mesmo de quem vence elei\u00e7\u00f5es. Segundo ele, o ceticismo faz parte do script pr\u00e9-eleitoral dos candidatos, principalmente daqueles que se acham com poucas condi\u00e7\u00f5es de vit\u00f3ria. O enredo \u00e9 simples: elogios dos vencedores e gritos e cr\u00edticas dos perdedores. Interessante \u00e9 que hoje o principal cr\u00edtico \u00e9 um vencedor. Como na comida japonesa, a sinopse parece um combinado com a atual ladainha da impress\u00e3o do voto como algo que agregaria mais seguran\u00e7a \u00e0 maquininha de votar. Al\u00e9m de absurda e cara, a ideia, defendida com unhas e dentes pelo presidente Jair Bolsonaro e apoiadores, representa uma galopante e desnecess\u00e1ria volta ao passado de coronelismo e de fraudes eleitorais.<\/p>\n<p>Entre os absurdos j\u00e1 divulgados nas redes sociais sobre nossas elei\u00e7\u00f5es, um dos mais recentes sumiu como surgiu. Dizia que somente o Brasil n\u00e3o utiliza votos em papel e que o resultado poderia sofrer influ\u00eancia da Venezuela. Obviamente a mentira n\u00e3o se sustentou, porque, na bancarrota em que se encontra, a \u00fanica coisa que o governo venezuelano, mal e porcamente, consegue ensinar \u00e9 como golpear seu povo e a democracia. Tudo a ver com o que paira sob o c\u00e9u azul de anil do pa\u00eds. E, como l\u00e1, se surgir c\u00e1, transformaremos a na\u00e7\u00e3o de um milagre econ\u00f4mico que virou p\u00f3 e que um dia foi cantada como terra do futuro em barranco do inferno. A diferen\u00e7a ser\u00e1 o comando.<\/p>\n<p>Em lugar de generais com fardas engomadas, um capit\u00e3o, fam\u00edlia e apoiadores absolutamente despreparados para chamar de seu o que um dia foi de todos. Reitero o voto impresso como a embroma\u00e7\u00e3o da vez. Justamente ele que foi retirado do sistema quando a Justi\u00e7a Eleitoral entendeu por nefasta a interven\u00e7\u00e3o do ser humano no processo de escolha de parlamentares, prefeitos, governadores e presidente da Rep\u00fablica. Na pr\u00e1tica, o consenso tirou da m\u00e3o do homem o poder de ajudar a eleger quem n\u00e3o tinha votos. Foi um longo per\u00edodo em que o retrato do Brasil era clicado de acordo com o \u00e2ngulo determinado pelos bar\u00f5es e coron\u00e9is sem fardas, mas armados de raz\u00f5es que eles mesmo criavam. \u00c9ramos o pa\u00eds dos jovens, governado por pessoas antiquadas e que sustentavam poderes por meio de fraudes.<\/p>\n<p>O futuro come\u00e7ou a ser delineado com a urna eletr\u00f4nica. Com ela, sa\u00edmos do limbo e da vergonhosa pecha de Rep\u00fablica de Bananas. Lamentavelmente, corremos o risco de, al\u00e9m do retorno ao bananismo, recuperarmos um sentimento de inferioridade que, pelo menos como pa\u00eds exportador de boas e seguras elei\u00e7\u00f5es, h\u00e1 muito n\u00e3o sent\u00edamos. Novamente o complexo de vira-lata est\u00e1 bem pr\u00f3ximo de n\u00f3s. E n\u00e3o apenas como eufemismo. Inveross\u00edmil, mas verdadeiro, ele est\u00e1 sendo posto \u00e0 mesa exatamente pelo presidente da Rep\u00fablica, figura que, em vez de rebaixar e desonrar a p\u00e1tria que diz amar, deveria contribuir com seu crescimento e, com base na convic\u00e7\u00e3o de que o sistema eleitoral \u00e9 confi\u00e1vel, dizer aos seguidores mais radicais que o pa\u00eds que dirige n\u00e3o vive mais de fraudes, de coronelismo ou de mapismo.<\/p>\n<p>Seria fundamental tamb\u00e9m explicar que mapismo n\u00e3o \u00e9 uma nova especialidade de quem estuda mapas, mas uma pr\u00e1tica fraudulenta de antigas elei\u00e7\u00f5es, nas quais o n\u00famero 17 (casualmente o de Bolsonaro hoje) poderia virar 170, 177 ou 117. Em s\u00edntese, deputado federal de sete mandatos \u2013 a maioria deles conquistado ap\u00f3s o advento da urna eletr\u00f4nica \u2013, o l\u00edder nacional bem que poderia se colocar como a prova irrefut\u00e1vel da seguran\u00e7a da m\u00e1quina e da desnecessidade do voto impresso. Presidente, proteja a democracia e n\u00e3o o mantra da mentira de perdedores. Diga a seus apoiadores que acoplar um equipamento para imprimir votos \u00e9 sin\u00f4nimo de potencializar a chance de novos problemas. Pior do que isso. \u00c9 formalizar o est\u00edmulo \u00e0 compra de sufr\u00e1gios, na medida em que, garantindo a c\u00f3pia do voto, o &#8220;comprador&#8221; ter\u00e1 facilitado o controle de seu &#8220;eleitorado&#8221;.<\/p>\n<p>Mais uma vez lembro Caputo Bastos ao afirmar que a festa da democracia era &#8220;a farra da acrobacia num\u00e9rica&#8221;, t\u00e9cnica que n\u00e3o permitia desperdi\u00e7ar votos em branco. E n\u00e3o eram desperdi\u00e7ados. Os coron\u00e9is os recebiam e, quando perguntado por algum de seus &#8220;eleitores&#8221; em quem havia votado, a resposta era carregada de sarcasmo e hipocrisia: &#8220;N\u00e3o posso revelar, pois o voto \u00e9 secreto&#8221;. Ser\u00e1 que queremos voltar a esse est\u00e1gio? A quem incomoda ter resultados seguros em uma, duas ou tr\u00eas horas ap\u00f3s a apura\u00e7\u00e3o do \u00faltimo voto? Por que o presidente, ao lan\u00e7ar d\u00favidas sobre a lisura das urnas eletr\u00f4nicas, n\u00e3o apresenta provas? Porque elas n\u00e3o existem. Ele ganhou todas as elei\u00e7\u00f5es que disputou. Ent\u00e3o, na hip\u00f3tese de fraudes, foram a seu favor. Simples assim. Muito mais do que recuperar o complexo de vira-lata, o voto impresso representar\u00e1 um dos maiores retrocessos que o Brasil experimentou desde seu descobrimento.<\/p>\n<p><strong>*Armando Cardoso \u00e9 jornalista<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Benditos sejam os que procuram \u2013 e n\u00e3o acham \u2013 pelo em ovo. Vida longa \u00e0quele que, por algum desassombro, insiste em procurar o que sabe que jamais encontrar\u00e1. Em qualquer democracia do mundo \u00e9 salutar que haja diverg\u00eancias, conflitos, questionamentos e posicionamentos diferentes sobre o mesmo tema. \u00c9 do jogo pol\u00edtico. 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