{"id":254156,"date":"2021-03-27T11:21:43","date_gmt":"2021-03-27T14:21:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=254156"},"modified":"2021-03-27T15:19:05","modified_gmt":"2021-03-27T18:19:05","slug":"pandemia-acaba-com-marmelada-a-risada-no-circo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pandemia-acaba-com-marmelada-a-risada-no-circo\/","title":{"rendered":"Pandemia acaba com a marmelada no picadeiro"},"content":{"rendered":"<p>Hoje n\u00e3o tem marmelada e o picadeiro est\u00e1 vazio. Celebrado anualmente no dia 27 de mar\u00e7o, o Dia Nacional do Circo n\u00e3o poder\u00e1 ser festejado como queriam os palha\u00e7os: gerando risadas de plateias aglomeradas e recebendo intensos aplausos como retribui\u00e7\u00e3o. A pandemia de covid-19 mudou completamente o cotidiano de quase 10 mil brasileiros que se sustentavam dos rendimentos obtidos a partir de suas apresenta\u00e7\u00f5es debaixo da lona.<\/p>\n<p>&#8220;J\u00e1 vivi outros momentos complicados, pois tenho uma carreira de mais de 30 anos. Mas esse \u00e9 mais desafiador porque est\u00e1 cercado de muita incerteza. H\u00e1 uma inseguran\u00e7a, pois precisamos nos reinventar e n\u00e3o sabemos se vamos acertar&#8221;, diz Jonathan Cericola, que d\u00e1 vida ao palha\u00e7o P\u00e3o de L\u00f3, personagem criado originalmente por seu bisav\u00f4.<\/p>\n<p>Cericola come\u00e7ou na atividade aos 7 anos de idade e representa a quinta gera\u00e7\u00e3o de artistas circenses da fam\u00edlia respons\u00e1vel pelo Circo Teatro Saltimbanco, que possui uma lona fixa em Itagua\u00ed (RJ) e outra itinerante que costumava rodar por munic\u00edpios do estado do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A pandemia chegou no Brasil em mar\u00e7o do ano passado. Jonathan Cericola conta que os desdobramentos da r\u00e1pida propaga\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a deixou a todos espantados e sem saber o que fazer no primeiro momento. A partir do segundo m\u00eas de paralisa\u00e7\u00e3o das atividades, a necessidade de se reinventar foi ficando clara para aqueles que dependem do circo. Um desafio para muitas pessoas que n\u00e3o se viam, de uma hora pra outra, abandonando suas atividades como palha\u00e7os, malabaristas, acrobatas, contorcionistas, equilibristas, ilusionistas e outros artistas.<\/p>\n<p>Alguns se aventuraram em novos neg\u00f3cios, como a venda de alimentos e o transporte de passageiros. Outras apostaram em levar o picadeiro para a internet, como Jonathan. Fechado desde mar\u00e7o do ano passado, o Circo Teatro Saltimbanco chegou a retomar apresenta\u00e7\u00f5es com p\u00fablico reduzido no in\u00edcio do ano. N\u00e3o durou muito: um novo agravamento da curva de cont\u00e1gio for\u00e7ou novamente a interrup\u00e7\u00e3o. Para lidar com a situa\u00e7\u00e3o, o int\u00e9rprete do Palha\u00e7o P\u00e3o de L\u00f3 tem adaptado apresenta\u00e7\u00f5es para as redes sociais, usando canais no YouTube e no Instagram. Embora avalie que as ferramentas virtuais ofere\u00e7am algumas possibilidades interessantes, lamenta a falta de calor humano.<\/p>\n<p>&#8220;No nosso trabalho, n\u00f3s interpretamos o p\u00fablico. Antes do espet\u00e1culo, eu n\u00e3o sei exatamente qual esquete eu vou apresentar. Isso depende do comportamento da plateia. A gente observa alguns sinais para selecionar a melhor esquete dentro do nosso repert\u00f3rio&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;A troca \u00e9 fundamental para nos orientar e tamb\u00e9m para nos dar um retorno. Atrav\u00e9s dela, sabemos se o p\u00fablico est\u00e1 gostando ou se precisamos mudar a apresenta\u00e7\u00e3o de rumo. E, na internet, n\u00e3o tem isso. N\u00e3o tem o riso, o aplauso, aquela senhora que aperta sua m\u00e3o e te agradece no fim do espet\u00e1culo. Recebemos curtidas, coment\u00e1rios, mas o calor humano faz falta&#8221;, acrescenta Jonathan.<\/p>\n<p>O setor cultural foi um dos primeiros a sentir o impacto da pandemia. Cinemas, teatros, casas de shows, circos e outros espa\u00e7os voltados para a arte ficaram impossibilitados de reunirem p\u00fablico. Um aux\u00edlio emergencial para garantir uma renda m\u00ednima a artistas foi aprovado no Congresso Nacional em mar\u00e7o do ano passado. Ele foi pago pelo governo federal em nove parcelas entre abril e dezembro de 2020: nos primeiros cinco meses, o valor era de R$ 600 e, nos outros quatro, caiu para R$ 300.<\/p>\n<p>Os repasses foram feitos a maiores de 18 anos sem emprego formal e com renda inferior a maio sal\u00e1rio m\u00ednimo, que n\u00e3o estivessem recebendo benef\u00edcio previdenci\u00e1rio ou assistencial e que tenha tido, no ano anterior, rendimento tribut\u00e1veis abaixo de R$ 28,5 mil. Muitos artistas circenses se enquadravam nessas condi\u00e7\u00f5es. Na semana passada, o governo federal instituiu por medida provis\u00f3ria um novo aux\u00edlio de quatro parcelas, com valores mais baixos, entre R$ 150 e R$ 375, e com pr\u00e9-requisitos novos que reduziram o n\u00famero de benefici\u00e1rios.<\/p>\n<p>Uma a\u00e7\u00e3o emergencial espec\u00edfica para o setor cultural tamb\u00e9m saiu do papel em junho do ano passado. Trata-se da Lei 14.070\/2020, que ficou conhecida como Lei Aldir Blanc em homenagem ao compositor que faleceu devido a complica\u00e7\u00f5es da covid-19 logo no in\u00edcio da pandemia. Articulada no Congresso Nacional, ela foi aprovada com apoio de parlamentares da base do governo e da oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s dela, a Uni\u00e3o ficou respons\u00e1vel por repassar aos estados e munic\u00edpios R$ 3 bilh\u00f5es, que poderiam ser empregados de diferentes formas: renda emergencial aos artistas, subs\u00eddios para manuten\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os, empresas e institui\u00e7\u00f5es culturais, editais para realiza\u00e7\u00e3o de eventos ou para produ\u00e7\u00e3o cultural, entre outros.<\/p>\n<p>Jonathan teve acesso a recursos p\u00fablicos do aux\u00edlio emergencial e tamb\u00e9m da Lei Aldir Blanc. Segundo ele, os repasses s\u00e3o bem inferiores aos rendimentos que o circo daria se estivesse funcionando, mas d\u00e3o um desafogo. Por\u00e9m, manifesta preocupa\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o a longo prazo, sobretudo, pelas exig\u00eancias do Poder P\u00fablico.<\/p>\n<p>&#8220;A subven\u00e7\u00e3o nos coloca numa situa\u00e7\u00e3o complexa, pois temos que oferecer uma contrapartida e temos que prestar contas. Ent\u00e3o, os mesmos governos que te exigem a contrapartida s\u00e3o tamb\u00e9m os que n\u00e3o d\u00e3o autoriza\u00e7\u00e3o para o funcionamento. Imagine um circo pobre onde est\u00e1 faltando comida. A fam\u00edlia quer usar o dinheiro pra se alimentar. Mas n\u00e3o pode, tem que usar esse dinheiro pra comprar uma lona nova para o circo. Isso ajuda em que? N\u00e3o adianta ter dinheiro na conta e n\u00e3o ter comida na mesa. \u00c9 emergencial. Se a situa\u00e7\u00e3o se prolongar e n\u00e3o for poss\u00edvel reabrir o circo, em algum momento, o circense vai precisar desse dinheiro para sobreviver&#8221;, avalia.<\/p>\n<p><strong>Mapeamento dos circos<\/strong><br \/>\nO Instituto Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) chegou a divulgar estudo onde estimava que 700 mil pessoas poderiam ser beneficiadas pela Lei Aldir Blanc. No meio circense, no entanto, o acesso ao recurso foi restrito. E, entre quem teve acesso, relatos como o de Jonathan s\u00e3o comuns.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Artes, Cultura e Divers\u00f5es Itinerantes (ABACDI), entidade que re\u00fane artistas e produtores culturais que atuam em defesa de pol\u00edticas p\u00fablicas para a cultura, avalia que h\u00e1 um excesso de normas impostas pelos governos estaduais e municipais, que tinham autonomia na distribui\u00e7\u00e3o dos recursos e usaram a lei como se fosse uma iniciativa de fomento e n\u00e3o de aux\u00edlio emergencial.<\/p>\n<p>&#8220;Vejo muita burocracia na presta\u00e7\u00e3o de contas, muita exig\u00eancia absurda. Se era para ajudar, deveria ser uma doa\u00e7\u00e3o aos artistas, nos moldes do aux\u00edlio emergencial. Mas n\u00e3o tem sido assim&#8221;, diz Ana Lamenha, presidente da ABACDI.<\/p>\n<p>&#8220;Tem dono de circo que quando pega esse dinheiro j\u00e1 est\u00e1 endividado, com comida faltando na sua mesa e sem condi\u00e7\u00f5es de pagar sal\u00e1rio para sua equipe. Como que ele pega esse dinheiro e n\u00e3o pode resolver esses problemas imediatos? Vai ter que investir s\u00f3 em material para o circo? Prioridade \u00e9 alimenta\u00e7\u00e3o e o circense \u00e9 gente como qualquer um&#8221;, completa.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 pandemia, associa\u00e7\u00f5es e sindicatos de todo o pa\u00eds criaram um f\u00f3rum permanente em prol de pol\u00edticas p\u00fablicas. A alian\u00e7a, da qual a ABACDI faz parte, conseguiu tirar do papel uma demanda antiga dos circenses: um censo do circo.<\/p>\n<p>O mapeamento foi publicado em julho do ano passado no site da Funda\u00e7\u00e3o Nacional de Artes (Funarte), que \u00e9 vinculada ao Minist\u00e9rio da Cidadania. Ele lista 651 circos em todo o Brasil, respons\u00e1vel por garantir sustento para 9.579 pessoas. Quase 80% est\u00e3o concentrados nas regi\u00f5es Nordeste (271) e Sudeste (248). Foram mapeados ainda 31 circos no Norte, 31 no Centro-Oeste e 70 no Sul.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o s\u00e3o tantos circos assim. Se houver boa vontade, \u00e9 poss\u00edvel ajud\u00e1-los&#8221;, diz Ana Lamenha.<\/p>\n<p>A realidade, por\u00e9m, n\u00e3o tem sido f\u00e1cil para boa parte deles. Enquanto alguns est\u00e3o enfrentando dificuldades para prestar contas de recursos da Lei Aldir Blanc, a maioria n\u00e3o conseguiu sequer ser inclu\u00eddo como benefici\u00e1rio, por motivos variados. Os que conseguiram recursos, ter\u00e3o prazo para presta\u00e7\u00e3o de recursos ampliado para 31 de dezembro, segundo garantiu o secret\u00e1rio de Cultura, M\u00e1rio Frias. O decreto deve sair na semana que vem,<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 uma parcela significativa de trabalhadores do circo analfabetos ou semianalfabetos. E para essas pessoas, o acesso ao recurso \u00e9 um desafio. A lei exige um projeto que deve ser apresentado online. E tem estados que pedem uma por\u00e7\u00e3o de documentos. A pessoa nem sabe ler, como ela vai fazer isso tudo?&#8221;, questiona Ana Lamenha.<\/p>\n<p>Esse, entretanto, n\u00e3o foi o \u00fanico problema que causou a restri\u00e7\u00e3o do n\u00famero de benefici\u00e1rios.&#8221;Teve munic\u00edpio onde o prefeito simplesmente n\u00e3o quis pegar recursos da Lei Aldir Blanc, porque n\u00e3o queria ter trabalho com a presta\u00e7\u00e3o de contas. Outras cidades que receberam a verba n\u00e3o inclu\u00edram os trabalhadores do circo entre os benefici\u00e1rios. \u00c9 complicado porque a maioria dos circos \u00e9 itinerante. Muitos estavam em cidades pequenas e pobres do interior quando a pandemia chegou. E nem sempre foram reconhecidos como cidad\u00e3os pela secretaria de assist\u00eancia social desses munic\u00edpios. O apoio recebido variou muito, dependendo de cada prefeitura&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p><strong>Atividade familiar<\/strong><br \/>\nO uso de apresenta\u00e7\u00f5es circenses como parte de um espet\u00e1culo que visa o entretenimento \u00e9 uma pr\u00e1tica que remete \u00e0 Antiguidade. Na sociedade grega, exibi\u00e7\u00f5es de contorcionismo. No Egito e na \u00cdndia, existem registros hist\u00f3ricos de pinturas de malabaristas. O Imp\u00e9rio Romano foi respons\u00e1vel por erguer arenas onde milhares de pessoas eram recebidas para assistir corridas de cavalos, ca\u00e7ada de animais, lutas de gladiadores, etc.<\/p>\n<p>Mas o circo moderno, da forma como conhecemos, tem origem na Inglaterra do s\u00e9culo 18. Ele foi trazido para o Brasil por imigrantes europeus em meados do s\u00e9culo 19 e foi pouco a pouco se popularizando.<\/p>\n<p>O Dia Nacional do Circo foi institu\u00eddo em 1972 e a data remete ao anivers\u00e1rio de Abelardo Pinto, respons\u00e1vel por dar vida ao palha\u00e7o Piolin, que fez muito sucesso na d\u00e9cada de 1920 e foi homenageado pelos modernistas na Semana de Arte Moderna.<\/p>\n<p>Como em boa parte do mundo, a atividade no Brasil ganhou uma dimens\u00e3o familiar. O of\u00edcio de palha\u00e7o, malabarista, acrobata \u00e9 ensinado de pai para filho. O circo vai assim atravessando gera\u00e7\u00f5es, que dele extraem o sustento para toda a fam\u00edlia, incluindo idosos e crian\u00e7as. A pandemia colocou um desafio in\u00e9dito para toda essa comunidade.<\/p>\n<p>&#8220;A vida de circo, muitas vezes, j\u00e1 \u00e9 uma vida sofrida. Ent\u00e3o os artistas n\u00e3o se deixam abater por pouco&#8221;, diz Ana Lamenha.<\/p>\n<p>Ela avalia que o circense \u00e9, geralmente, um empreendedor formado pela pr\u00f3pria vida. Mais do que se apresentar no picadeiro, ele aprende a administrar o com\u00e9rcio de pipoca e de cachorro-quente e a organizar a bilheteria. Assim, al\u00e9m da criatividade inerente \u00e0 sua atividade art\u00edstica, ele desenvolve uma versatilidade que tem sido importante durante a pandemia.<\/p>\n<p>Um document\u00e1rio financiado atrav\u00e9s de edital da Funarte e lan\u00e7ado no ano passado pela ABACDI mostra como alguns artistas est\u00e3o se virando: uns vendendo brinquedos infantis e alimentos na beira do asfalto, outros trabalhando na constru\u00e7\u00e3o civil ou como cuidador de idosos.<\/p>\n<p>&#8220;Fa\u00e7o transporte de passageiros de uma cidade para outra de manh\u00e3 e, \u00e0 tarde, vendo ovos&#8221;, conta Edson Oliveira da Concei\u00e7\u00e3o, o palha\u00e7o Pessebe do Circo F\u00eanix, em Jaguaribe (BA).<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil criar, de uma hora para outra, novos caminhos para obter renda. Sens\u00edvel a esse cen\u00e1rio, em determinados locais, a popula\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias comunidades onde eles est\u00e3o inseridos colaboraram doando cesta b\u00e1sicas. Algumas regi\u00f5es tamb\u00e9m contam com a presen\u00e7a da Pastoral dos N\u00f4mades, servi\u00e7o da Igreja Cat\u00f3lica organizado para prestar assist\u00eancia a ciganos e a trabalhadores de circos e parques itinerantes. Sua a\u00e7\u00e3o tem garantido apoio em situa\u00e7\u00f5es consideradas mais cr\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>Coletivo art\u00edstico<\/strong><br \/>\nUm grupo de artistas que h\u00e1 anos aposta no poder da organiza\u00e7\u00e3o coletiva encontrou caminhos para ajudar o maior n\u00famero poss\u00edvel de circenses. O Circo no Beco \u00e9 uma ocupa\u00e7\u00e3o art\u00edstica que ocorre h\u00e1 18 anos no Beco do Aprendiz, no bairro de Pinheiros, na cidade de S\u00e3o Paulo. Realizando eventos que mobilizam a popula\u00e7\u00e3o, colocam em pauta discuss\u00f5es sobre a diversidade cultural e sobre os efeitos positivos da ocupa\u00e7\u00e3o art\u00edstica dos espa\u00e7os p\u00fablicos. N\u00e3o se trata, portanto, de um circo tradicional com lona e picadeiro, mas de uma articula\u00e7\u00e3o de mais 150 artistas que encontraram na uni\u00e3o uma fonte de renda.<\/p>\n<p>Entre esses artistas est\u00e1 L\u00facio Maia, ator que iniciou sua trajet\u00f3ria no teatro em 1989. Em 2007, quando se mudou para S\u00e3o Paulo, se sentiu abra\u00e7ado pelo universo do circo. Hoje, atua como ator, diretor, palha\u00e7o, arte-educador e produtor. Ele conta que, quando a pandemia chegou ao Brasil, o coletivo estava no meio de um festival, realizado anualmente para celebrar o anivers\u00e1rio do Circo no Beco, que coincide com o Dia Nacional do Circo.<\/p>\n<p>&#8220;Na sexta-feira, dia 13 de mar\u00e7o, o evento lotou. Foi uma noite linda. No dia seguinte, notamos uma forte redu\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. Parecia mais um ensaio que um festival. E a\u00ed a gente foi se atentar para as not\u00edcias da pandemia. Notamos que muitos eventos estavam sendo cancelados e resolvemos seguir o fluxo. A gente n\u00e3o tinha ainda a completa no\u00e7\u00e3o do que estava acontecendo. Interrompemos o festival no dia 15. Mas t\u00ednhamos trabalhado meses para organiz\u00e1-lo e ficamos muito frustrados. E a\u00ed surgiu a ideia do online&#8221;.<\/p>\n<p>Do Circo no Beco, surgiu o Circo na Nuvem, que se desdobrou em novos projetos inscritos em editais p\u00fablicos de fomento, incluindo a Lei Aldir Blanc. O mais recente se encerrou nessa semana: a Conven\u00e7\u00e3o na Nuvem. O evento, todo online, incluiu espet\u00e1culos, oficinas, workshops e rodas de conversa sobre os mais variados temas como metodologias pedag\u00f3gicas do malabarismo e o potencial de transforma\u00e7\u00e3o social do circo.<\/p>\n<p>&#8220;O projeto inicial inclu\u00eda compra de alguns equipamentos. Mas vimos que tinham muitos artistas passando dificuldade. Ent\u00e3o abrimos m\u00e3o dos equipamentos para contratar e envolver mais artistas. Eram 32 atra\u00e7\u00f5es no projeto original e, no fim, ficou com quase 50 atra\u00e7\u00f5es. \u00c9 hora de investir em material humano&#8221;, avalia L\u00facio.<\/p>\n<p>Essa perspectiva tamb\u00e9m foi adotada pelos eventos j\u00e1 consolidados. O Festival Internacional de Circo de S\u00e3o Paulo (FIC) realizou sua \u00faltima edi\u00e7\u00e3o em dezembro de 2020, com um modelo h\u00edbrido, mesclando apresenta\u00e7\u00f5es presenciais e online. &#8220;Nossa primeira preocupa\u00e7\u00e3o foi a de, minimamente, contribuir e abra\u00e7ar os profissionais e representantes da produ\u00e7\u00e3o em circo estabelecidos, em especial, na cidade de S\u00e3o Paulo, sem restringir a participa\u00e7\u00e3o de representantes de outras regi\u00f5es. Como tal, aumentamos significativamente o n\u00famero de atividades e de profissionais beneficiados&#8221;, informa a organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo o site do FIC, mais de 850 artistas foram contemplados. As apresenta\u00e7\u00f5es selecionadas, bem como os debates realizados, ainda est\u00e3o acess\u00edveis ao p\u00fablico. Elas ficar\u00e3o dispon\u00edveis at\u00e9 junho num esfor\u00e7o para gerar reconhecimento e abrir oportunidades aos profissionais envolvidos.<\/p>\n<p>Se os eventos online podem oferecer novos caminhos para a capacita\u00e7\u00e3o, a crise da pandemia afeta iniciativas tradicionais voltadas para a forma\u00e7\u00e3o. A Escola Nacional de Circo, vinculada \u00e0 Funarte e sediada no Rio de Janeiro, est\u00e1 fechada desde o in\u00edcio da pandemia. Em dezembro do ano passado, a lona de circo foi retirada do espa\u00e7o. Recentemente, a Funarte informou que as aulas dos alunos voltariam em um novo espa\u00e7o, ainda n\u00e3o divulgado.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do m\u00eas, 38 artistas lan\u00e7aram um abaixo-assinado online pedindo que as instala\u00e7\u00f5es da Escola Nacional de Circo sejam destinadas \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o original e que as bolsas pagas aos estudantes sejam mantidas. Mais de 15 mil pessoas j\u00e1 assinaram. &#8220;Dita medida, que pega de surpresa toda a comunidade escolar e a classe circense, soma-se a um contexto j\u00e1 complexo e delicado. A falta de planejamento pedag\u00f3gico e de defini\u00e7\u00e3o de protocolos de enfrentamento \u00e0 pandemia para o restabelecimento das aulas, algo que foi obrigat\u00f3rio em todas as institui\u00e7\u00f5es de ensino, revela o total desconhecimento do papel da Escola como institui\u00e7\u00e3o de ensino&#8221;, diz o texto.<\/p>\n<p>Segundo a Funarte, a lona foi comprometida pelos ventos e chuvas em 2020, raz\u00e3o pela qual ser\u00e1 trocada em meio a outras medidas de revitaliza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 tratativas em curso com circos da cidade do Rio de Janeiro para a realiza\u00e7\u00e3o de algumas das aulas pr\u00e1ticas j\u00e1 nesse primeiro semestre.<\/p>\n<p>&#8220;Isso ocorrer\u00e1 apenas at\u00e9 que a nova lona da Escola Nacional de Circo seja instalada, quando ent\u00e3o as atividades retornar\u00e3o integralmente \u00e0 sede da institui\u00e7\u00e3o. Estamos trabalhando para o retorno gradual e respons\u00e1vel, respeitando a grade curricular e todos os protocolos de seguran\u00e7a&#8221;, informou, em nota, a Funarte. A funda\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m afirma que vem quitando as pend\u00eancias com os bolsistas e espera colocar em breve os pagamentos em dia.<\/p>\n<p>Criada em 1982, a Escola Nacional do Circo recebe jovens de todo o pa\u00eds, tendo formado mais de 2,5 mil profissionais e se consolidado como um espa\u00e7o de excel\u00eancia internacional voltado para forma\u00e7\u00e3o circense.<\/p>\n<p>Desde 2015, o Curso T\u00e9cnico em Arte Circense \u00e9 reconhecido pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC). A forma\u00e7\u00e3o, que inclui quatro semestres letivos e soma um total de 2.798 horas\/aula, tem sido respons\u00e1vel por formar novos talentos todos os anos, alguns dos quais se destacam hoje no exterior.<\/p>\n<p>No document\u00e1rio Dossi\u00ea Escola Nacional de Circo, produzido na marca dos 25 anos da institui\u00e7\u00e3o, sua import\u00e2ncia como vetor de valoriza\u00e7\u00e3o do circense em todo o Brasil \u00e9 destacada por um de seus fundadores, o produtor cultural Orlando Miranda. Ele lembra o impacto imediato que a novidade anunciada pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o criou no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;Qualquer circo que estivesse viajando no Brasil come\u00e7ou a ser visto de outra maneira. At\u00e9 ent\u00e3o, era considerado uma arte menor, que ainda n\u00e3o tinha tido destaque como o teatro, a dan\u00e7a e a \u00f3pera&#8221;, observou.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 pandemia, o tamanho do circo \u00e9 novamente questionado. Mas o artista luta porque sabe que, quando tudo passar, a resposta estar\u00e1 na risada da crian\u00e7a. Ela n\u00e3o pode ser medida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje n\u00e3o tem marmelada e o picadeiro est\u00e1 vazio. Celebrado anualmente no dia 27 de mar\u00e7o, o Dia Nacional do Circo n\u00e3o poder\u00e1 ser festejado como queriam os palha\u00e7os: gerando risadas de plateias aglomeradas e recebendo intensos aplausos como retribui\u00e7\u00e3o. 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