{"id":254488,"date":"2021-04-01T19:28:38","date_gmt":"2021-04-01T22:28:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=254488"},"modified":"2021-04-03T11:31:29","modified_gmt":"2021-04-03T14:31:29","slug":"todo-cuidado-e-pouco-sem-golpe-seria-1-de-abril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/todo-cuidado-e-pouco-sem-golpe-seria-1-de-abril\/","title":{"rendered":"&#8216;Todo cuidado \u00e9 pouco. Sem golpe \u00e9 1\u00b0 de abril&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>O general Braga Netto, rec\u00e9m nomeado ministro da Defesa, disse a que veio. Com a Ordem do Dia sobre o 1\u00ba de abril de 1964, por si s\u00f3 uma insubordina\u00e7\u00e3o em face do Pacto de 1988, cumpriu a primeira tarefa que lhe ter\u00e1 sido imposta pelo capit\u00e3o, em busca de narrativa que favore\u00e7a seus planos antidemocr\u00e1ticos. Essas maquina\u00e7\u00f5es palacianas \u2013 as quais, reconhe\u00e7amos, jamais foram escondidas \u2013 podem ter sido postas em repouso t\u00e1tico, mas \u00e9 certo que at\u00e9 o ultimo dia desse intermin\u00e1vel mandato estar\u00e3o nas cogita\u00e7\u00f5es do Bonaparte de hosp\u00edcio que nos governa. Na crise desta semana, preocupa a ligeireza com que militares graduados se apressaram em garantir que &#8220;n\u00e3o h\u00e1 risco de golpe&#8221;. Em situa\u00e7\u00e3o normal chefes militares s\u00e3o dispensados dessas garantias. No futebol, que tanto nos ensina, quando o dirigente de clube garante que o t\u00e9cnico &#8220;est\u00e1 prestigiado&#8221;, \u00e9 certo que ele estar\u00e1 desempregado em uma semana.<\/p>\n<p>Portanto, todo cuidado \u00e9 pouco.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o \u00e9 o problema que nos assola, e seguir\u00e1 assolando enquanto tiver a solidariedade das baionetas ou dispuser da guarda pretoriana que cuida de seus interesses no Congresso. Ali\u00e1s, ainda se est\u00e1 por conhecer a real intelig\u00eancia da reforma ministerial levada a cabo no in\u00edcio da semana, depois de o capit\u00e3o perder o apoio da fatia mais grossa do PIB e sua popularidade despencar, no momento mais grave da pandemia, quando a crise econ\u00f4mica prenuncia o caos social.<\/p>\n<p>O general n\u00e3o poderia, pois, escolher momento mais inoportuno para defender o golpe militar de primeiro de abril que os fardados insistem em comemorar no dia 31 de mar\u00e7o, que nada fez para merecer tamanha inj\u00faria. Ali\u00e1s, a primeira quest\u00e3o que se imp\u00f5e \u00e9 a legitimidade desses pronunciamentos. Por que a retomada das louva\u00e7\u00f5es a um monstruoso golpe de Estado que nos roubou 21 anos de democracia? Sua defesa, por uma institui\u00e7\u00e3o do Estado, atenta contra a Constitui\u00e7\u00e3o e a ordem democr\u00e1tica que ela consagra. Ademais, essas &#8220;ordens do dia&#8221; s\u00e3o, sempre, a repeti\u00e7\u00e3o mon\u00f3tona e pobre de inverdades e meias verdades, umas e outras desmentidas pela Hist\u00f3ria que a caserna jamais conseguir\u00e1 reescrever. A primeira aleivosia \u00e9 chamar de &#8220;movimento&#8221; um golpe de Estado que se perpetuou como ditadura.<\/p>\n<p>Num esfor\u00e7o n\u00e3o alcan\u00e7ado de apresentar atenuantes ao golpe, o general ministro da defesa tenta inseri-lo nos feitos da Guerra Fria, que teria chegado ao Brasil, segundo ele, como as chuvas de ver\u00e3o. Ora, foram as for\u00e7as armadas brasileiras, dependentes ideol\u00f3gicas da geopol\u00edtica militar estadunidense, que nos inseriram no conflito entre os EUA e a URSS de ent\u00e3o, que em nada nos dizia respeito, como n\u00e3o nos dizem respeito as contendas de hoje entre os EUA e a China, sen\u00e3o na medida da defesa dos nossos interesses, pelos quais n\u00e3o se interessa o capit\u00e3o. Mas os militares brasileiros j\u00e1 n\u00e3o pensavam com suas pr\u00f3prias cabe\u00e7as, porque as escolas de forma\u00e7\u00e3o de nossos oficiais de h\u00e1 muito funcionavam como correias de transmiss\u00e3o ideol\u00f3gica do pensamento estrat\u00e9gico formulado na Escola de Comando e Estado-Maior dos EUA, em Fort Leavenworth, onde se formaram ou estagiaram numerosos oficiais brasileiros das tr\u00eas armas, e na National War College (e suas cong\u00eaneres), matriz de nossa Escola Superior de Guerra. Nem o anticomunismo de nossos militares \u00e9 aut\u00eantico.<\/p>\n<p>Os militares, que tanto se ufanam como &#8220;defensores da p\u00e1tria&#8221; (atributo que julgam ser exclusividade deles), se esquecem de que o &#8220;movimento&#8221; foi ditado por Washington. Al\u00e9m da registrada conversa telef\u00f4nica entre Lyndon Johnson, presidente dos EUA, e seu embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, autorizando o golpe, a &#8220;Opera\u00e7\u00e3o Brother Sam&#8221;, como os americanos chamaram o ancoramento de petroleiros na costa brasileira, j\u00e1 faz parte da historiografia sobre o golpe (Marcos S\u00e1 Corr\u00eaa. 1964 visto e comentado pela Casa Branca, L&amp;PM). As liga\u00e7\u00f5es com as autoridades dos EUA est\u00e3o documentadas, e podem mesmo ser revistas nos depoimentos de muitos dos principais conspiradores, como o general Cordeiro de Farias (Di\u00e1logo com Cordeiro de Farias, Nova Fronteira, p. 571). As pesquisas mostram ainda a participa\u00e7\u00e3o da CIA, as articula\u00e7\u00f5es da embaixada norte-americana e do adido militar dos EUA, o Cel. Vernon Walters, interlocutor de nossos generais desde os tempos da FEB, quando conheceu Castelo Branco e Cordeiro de Farias. (A prop\u00f3sito: as bibliotecas de Lyndon Johnson, em Austin, e de John Kennedy, em Boston, guardam extensa documenta\u00e7\u00e3o sobre a participa\u00e7\u00e3o dos EUA na prepara\u00e7\u00e3o do golpe).<\/p>\n<p>A subordina\u00e7\u00e3o de nossos interesses aos ditames de uma pot\u00eancia estrangeira foram escandalizados no primeiro governo do mandarinato militar, ditador o marechal Castelo Branco, quando o general Juraci Magalh\u00e3es, embaixador brasileiro nos EUA, declararia que &#8220;O que \u00e9 bom para os EUA \u00e9 bom para o Brasil&#8221;. Em nome desta subalternidade abjeta, tropas brasileiras invadiram a Rep\u00fablica Dominicana (1965), um pequeno e pobre pa\u00eds caribenho, para combater os constitucionalistas que lutavam contra uma ditadura de extrema-direita. Voltamos \u00e0 ilha de S\u00e3o Domingos, 2004, para exercer o policiamento nas ruas do Haiti. Ficamos 13 anos. A &#8220;elite&#8221; militar de hoje fez l\u00e1 seu &#8220;p\u00f3s-doutorado&#8221;, adestrando-se para a\u00e7\u00f5es internas de &#8220;seguran\u00e7a p\u00fablica&#8221;, como a fracassada interven\u00e7\u00e3o federal no Rio de Janeiro (2018), chefiada pelo general Walter Souza Braga Netto. Outra parte estagiou nos altos cargos do Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional, e agora habita o terceiro andar do pal\u00e1cio do planalto.<\/p>\n<p>Desses militares n\u00e3o podemos nos orgulhar.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se esses epis\u00f3dios constam das apostilas (os &#8216;pol\u00edgrafos&#8217; dos tempos de Castello Branco) que circulam nos cursos da EsAO. Tampouco sei se, quando estudam a hist\u00f3ria militar no Imp\u00e9rio, se referem \u00e0s invas\u00f5es da Cisplatina (1825), do Prata (1821), do Uruguai (1864) e do Paraguai (1864-1870), onde, no final da guerra, nossas tropas enfrentaram um ex\u00e9rcito de meninos, velhos e mulheres. Evento despido de gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Diz o general ministro da defesa, na absurda Ordem do Dia, que &#8220;As For\u00e7as Armadas acabaram assumindo a responsabilidade de pacificar o Pa\u00eds, enfrentando os desgastes para reorganiz\u00e1-lo e garantir as liberdades democr\u00e1ticas que hoje desfrutamos&#8221;. Essa sandice n\u00e3o se p\u00f5e de p\u00e9. Como chamar de pacifica\u00e7\u00e3o uma ditadura de 21 anos, a persegui\u00e7\u00e3o a milhares de brasileiros, as cassa\u00e7\u00f5es de mandatos eletivos, a censura, a invas\u00e3o de universidades e a persegui\u00e7\u00e3o a cientistas e pesquisadores, o confinamento e o ex\u00edlio de centenas de patriotas, enfim, as pris\u00f5es, a tortura e os assassinatos, os incont\u00e1veis mortos sem sepultura? Reorganizar o pa\u00eds? Ora, isso foi obra da Constituinte de 88, requerida pelo povo contra o veto dos militares. Uma reorganiza\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, interrompida pelo golpe de 2016 e o governo militar do capit\u00e3o. Sim, governo militar, e dele n\u00e3o conseguir\u00e3o se apartar os fardados diante do severo julgamento da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E como falar em liberdades democr\u00e1ticas, se nossas for\u00e7as armadas sempre as golpearam, como nas ditaduras dos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, ou sustentando por trinta anos os governos autorit\u00e1rios e ileg\u00edtimos da velha rep\u00fablica, a servi\u00e7o do latif\u00fandio e do atraso, como o desastrado governo do quase grotesco marechal Hermes da Fonseca, que governou do primeiro ao \u00faltimo dia sob estado de s\u00edtio? Como podem se auto-nomear defensoras das liberdades democr\u00e1ticas as for\u00e7as armadas que deram o golpe de 1937, contra a democracia e a Constitui\u00e7\u00e3o liberal de 1934, implantaram a ditadura do Estado Novo, levaram Get\u00falio Vargas ao suic\u00eddio em 1954, se insurgiram contra a Constitui\u00e7\u00e3o em 1961 e, finalmente, instauraram a ditadura em 1964, rasgaram a Constitui\u00e7\u00e3o de 1946 e passaram a legislar mediante atos institucionais protofascistas? Foram generais, liderados pelo comandante do ex\u00e9rcito, que inventaram Bolsonaro \u2013 tenente de carreira reles, reformado como capit\u00e3o e por quase 30 anos habitante do baixo clero da c\u00e2mara dos deputados \u2013 e \u00e9 a caserna (o capit\u00e3o fala mesmo em &#8220;meu ex\u00e9rcito&#8221;) que lhe d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es, quando perdem a vis\u00e3o hist\u00f3rica, cavam sua pr\u00f3pria degrada\u00e7\u00e3o. As for\u00e7as armadas brasileiras, sem nenhuma justificativa, insistem na defesa do golpe militar de 1964, quando deveriam pedir desculpas pelos crimes cometidos e acobertados. Na hist\u00f3ria presente, d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o a um governo corrupto, inepto, antinacional e criminoso, surdas e cegas para os desmandos que est\u00e3o destruindo o pa\u00eds, sua economia, sua popula\u00e7\u00e3o e sua dignidade. Como j\u00e1 observou o professor Manuel Domingos Neto, da UFF, esse erro clamoroso pode ser as Malvinas de nossas tropas.<\/p>\n<p>O ministro nos fala em defesa da &#8216;P\u00e1tria&#8217;. Que \u00e9, mesmo, a p\u00e1tria? \u00c9 nosso territ\u00f3rio? \u00c9 nosso povo? \u00c9 nossa hist\u00f3ria? \u00c9 o meio ambiente devastado? S\u00e3o os \u00edndios massacrados? Os desempregados? As mais de trezentas mil v\u00edtimas da Covid-19 e da incompet\u00eancia do general (da ativa) Eduardo Pazuello? S\u00e3o os trabalhadores sem terra? Ou os capit\u00e3es do agroneg\u00f3cio e as mineradoras, ou os rentistas da Faria Lima? De quem os militares est\u00e3o defendendo a p\u00e1tria? Dos que lutam internamente por uma sociedade distinta desta fundada na desigualdade, sociedade e capitalismo arcaicos que generais fardados e de pijama defendem e imp\u00f5em pela for\u00e7a das armas que o povo lhes entregou (e os remunera) para defend\u00ea-lo?<\/p>\n<p><strong>*Ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia de Lula<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O general Braga Netto, rec\u00e9m nomeado ministro da Defesa, disse a que veio. 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