{"id":254615,"date":"2021-04-04T18:28:01","date_gmt":"2021-04-04T21:28:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=254615"},"modified":"2021-04-04T18:29:36","modified_gmt":"2021-04-04T21:29:36","slug":"nem-fantasma-do-tse-cre-na-volta-do-voto-impresso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/nem-fantasma-do-tse-cre-na-volta-do-voto-impresso\/","title":{"rendered":"Nem fantasma do TSE cr\u00ea na volta do voto impresso"},"content":{"rendered":"<p>Em 1996, mais precisamente nos dias 3 de outubro e 15 de novembro, parte dos milh\u00f5es de eleitores de ent\u00e3o debutava com a urna eletr\u00f4nica. De l\u00e1 para c\u00e1, centenas de boatos varreram os c\u00e9us, os ares e os mares do Brasil at\u00e9 que inundassem as redes sociais de nossos dias. Sem quaisquer conhecimentos t\u00e9cnico ou cient\u00edfico, os mais constantes questionavam o elementar mecanismo da maquininha de votar, consequentemente a efici\u00eancia e seguran\u00e7a do equipamento. Tentaram de tudo para desqualificar a urna, cujo defeito (?) \u00e9 ser um produto genuinamente nacional. Coisa de patriota tupiniquim. A pedido da pr\u00f3pria Justi\u00e7a Eleitoral, o novo velho sistema passou no teste de conclaves de padres, sess\u00f5es esp\u00edritas, cultos evang\u00e9licos e reuni\u00f5es de hackers e de bacanas, entre eles deputados e supostos especialistas.<\/p>\n<p>At\u00e9 novembro de 2018, elei\u00e7\u00e3o que consagrou presidente da Rep\u00fablica um deputado do baixo clero, nenhuma fraude foi comprovada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, Pol\u00edcia Federal, Universidade de Bras\u00edlia (UnB), Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) ou pelos partidos pol\u00edticos. Lembro que, no pleito de 2002, primeiro a ser realizado com 100% de urnas eletr\u00f4nicas, um desses partidos mantinha em sua folha de pagamento um t\u00e9cnico que se dizia especializado. Mesmo com todo imagin\u00e1rio conhecimento, ele jamais produziu um texto ou paper capaz de assustar o eleitorado ou parlamentares que n\u00e3o fossem ligados \u00e0 legenda que, acredito, lhe pagava conforme o quantitativo do material que gerava para a imprensa. Digo isso porque eram muitos.<\/p>\n<p>Eram tantos que, mesmo ap\u00f3crifos, todos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) identificavam a autoria j\u00e1 no primeiro par\u00e1grafo. A boataria chegou ao c\u00famulo ao informar que o sistema brasileiro poderia ser fraudado pelo governo da Venezuela. O presidente vizinho ainda era o coronel Hugo Ch\u00e1vez, de p\u00e9ssima lembran\u00e7a para venezuelanos e para muitos de n\u00f3s. A raz\u00e3o da &#8220;viagem&#8221; dos cr\u00edticos de plant\u00e3o era simples. Na \u00e9poca &#8211; n\u00e3o sei se ainda \u00e9 -, a respons\u00e1vel pela fabrica\u00e7\u00e3o e desenvolvimento das urnas era a empresa Smartmatic, fundada por nativos da Venezuela, mas residentes nos Estados Unidos. Ou seja, inicialmente norte-americano, o grupo hoje est\u00e1 sob comando de brit\u00e2nicos e nunca conheceu Caracas ou Isla Margarita. O detalhe \u00e9 que a Smartmatic nunca produziu urnas para o TSE.<\/p>\n<p>Outro boato muito comum diz respeito \u00e0 possibilidade de hackers invadirem o sistema utilizado nas urnas para alterar votos e mudar o vencedor de uma elei\u00e7\u00e3o. Imposs\u00edvel, na medida em que a m\u00e1quina \u00e9 um equipamento isolado de redes (WiFi ou f\u00edsica). Ela \u00e9 ligada a uma tomada comum, onde dificilmente se esconderia um hacker. Muitos j\u00e1 tentaram, mas at\u00e9 agora ningu\u00e9m conseguiu quebrar o sigilo do voto ou alterar qualquer um dos registros das urnas, que atualmente deixaram de ser exclusividade nacional. Cerca de 30 pa\u00edses no mundo j\u00e1 adotam urnas eletr\u00f4nicas semelhantes \u00e0s nossas.<\/p>\n<p>Os boatos s\u00e3o v\u00e1rios, mas nenhum deles t\u00e3o cascudo como o que afirma que o voto impresso \u00e9 mais seguro, pois garante auditagem. Mentira espalhada por aventureiros e, nos \u00faltimos anos, disseminada por ningu\u00e9m menos do que o presidente Jair Bolsonaro, vencedor de oito pleitos sequenciais com a urna eletr\u00f4nica, incluindo a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, em 2018. Curioso \u00e9 que venceu todas sem impress\u00e3o de papel algum. Ministros, t\u00e9cnicos, servidores e at\u00e9 os fantasmas que habitavam a antiga sede do TSE, onde a m\u00e1quina foi concebida, t\u00eam certeza de que o voto impresso \u00e9 desnecess\u00e1rio porque n\u00e3o h\u00e1 falhas. E se houver, ao contr\u00e1rio do que espalham eventuais perdedores, todas as urnas s\u00e3o perfeitamente audit\u00e1veis.<\/p>\n<p>De forma aleat\u00f3ria, todos os votos s\u00e3o criptografados e gravados numa tabela impenetr\u00e1vel, de modo a impedir a identifica\u00e7\u00e3o da sequ\u00eancia dos eleitores. Ap\u00f3s assinados digitalmente, os registros ficam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos partidos e candidatos para recontagens seguras. N\u00e3o tenho lembran\u00e7a de um desses pedidos extremos. A proposta de imprimir votos \u00e9, ao mesmo tempo absurda e prim\u00e1ria, porque, mesmo um ne\u00f3fito em inform\u00e1tica, \u00e9 capaz de perceber que, nesse caso, o risco de quebra do sigilo do voto \u00e9 real. A tentativa, al\u00e9m de contrariar um preceito constitucional, estabelecido no artigo 14 da Constitui\u00e7\u00e3o, abre um precip\u00edcio para fraudes. Recentemente, o ministro Lu\u00eds Roberto Barroso, atual presidente do TSE, disse temer a judicializa\u00e7\u00e3o do pleito.<\/p>\n<p>Na abertura do ano judici\u00e1rio, em fevereiro passado, Barroso foi claro ao afirmar que, al\u00e9m do elevado custo, o voto em papel colocar\u00e1 o sistema sob risco de que perdedores pe\u00e7am confer\u00eancia, busquem inconsist\u00eancias ou nulidades que gerem a\u00e7\u00f5es questionando o resultado das elei\u00e7\u00f5es. Ex-parlamentares e especialistas s\u00e9rios n\u00e3o esquecem que o voto impresso j\u00e1 foi motivo das maiores roubalheiras eleitorais. Deputado federal de 11 mandatos, Miro Teixeira (RJ) lembra que, na Velha Rep\u00fablica &#8220;tinha at\u00e9 recibo, o que deu origem ao voto de cabresto&#8221;. Para Miro, as cr\u00edticas de Bolsonaro ao sistema n\u00e3o se sustentam e podem resultar num retrocesso de mais de 100 anos.<\/p>\n<p>Como diz qualquer soci\u00f3logo, professor, t\u00e9cnico ou eleitor bem intencionado, al\u00e9m de tumultuar, h\u00e1 o desejo incontido de alguns com a volta do coronelismo, fen\u00f4meno arraigado na cultura pol\u00edtica do Brasil. Professor da UnB, Elimar Pinheiro foi quem melhor definiu os arroubos do presidente da Rep\u00fablica e apoiadores na desconstru\u00e7\u00e3o da urna eletr\u00f4nica e na volta do voto impresso. &#8220;\u00c9 a narrativa golpista. Bolsonaro est\u00e1 tentando construir um discurso para contestar sua eventual derrota nas urnas, exatamente como ocorreu com Donald Trump&#8221;. De forma mais enf\u00e1tica, Pinheiro diz que a iniciativa n\u00e3o deu certo nos Estados Unidos por falta de apoio dos militares. Isso explica Bolsonaro ter loteado o governo com oficiais das tr\u00eas for\u00e7as e n\u00e3o perder uma formatura ou qualquer outra solenidade militar. De qualquer modo, o churrasco dos derrotados j\u00e1 est\u00e1 na grelha. Falta escolher a m\u00fasica de despedida. A can\u00e7\u00e3o V\u00e1 com Deus, de autoria da sertaneja Roberta Miranda, pode ser uma boa op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1996, mais precisamente nos dias 3 de outubro e 15 de novembro, parte dos milh\u00f5es de eleitores de ent\u00e3o debutava com a urna eletr\u00f4nica. De l\u00e1 para c\u00e1, centenas de boatos varreram os c\u00e9us, os ares e os mares do Brasil at\u00e9 que inundassem as redes sociais de nossos dias. Sem quaisquer conhecimentos t\u00e9cnico [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":254617,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-254615","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/254615","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=254615"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/254615\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":254619,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/254615\/revisions\/254619"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/254617"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=254615"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=254615"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=254615"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}