{"id":254988,"date":"2021-04-12T09:53:44","date_gmt":"2021-04-12T12:53:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=254988"},"modified":"2021-04-12T09:53:44","modified_gmt":"2021-04-12T12:53:44","slug":"evolucao-fez-do-neandertal-o-homem-moderno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/evolucao-fez-do-neandertal-o-homem-moderno\/","title":{"rendered":"Evolu\u00e7\u00e3o fez do neandertal o homem moderno"},"content":{"rendered":"<p>Reviravolta na hist\u00f3ria que est\u00e1 deixando os mais renomados antrop\u00f3logos de cabelo em p\u00e9. E Darwin, se vivo fosse, chamaria Einstein para discutir o assunto, sendo capaz, inclusive, de sugerir uma teoria diferente para a famosa ma\u00e7\u00e3 ca\u00edda sobre a cabe\u00e7a. E, pior, vai por \u00e1gua abaixo a hist\u00f3ria da macieira, do para\u00edso, da serpente e do ent\u00e3o casal nu Ad\u00e3o e Eva, logo ela, que mordeu a fruta do pecado, conforme vers\u00e3o, contada no livro mais lido pela esp\u00e9cie humana &#8211; a B\u00edblia.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que o debate sobre a capacidade cognitiva dos neandertais, a esp\u00e9cie humana mais pr\u00f3xima da nossa, desaparecida h\u00e1 cerca de 40.000 anos, parece cada vez mais convergente na comunidade cient\u00edfica: eram t\u00e3o inteligentes, habilidosos, solid\u00e1rios e criativos quanto n\u00f3s, os homo sapiens. Mas, agora, as novas descobertas gen\u00e9ticas abrem um debate ainda mais desafiador: e se, na realidade, eles n\u00e3o tiverem se extinguido? Impulsionados por novas an\u00e1lises de DNA f\u00f3ssil, alguns especialistas apontam que os neandertais continuam por aqui porque somos n\u00f3s, j\u00e1 que ocorreu uma integra\u00e7\u00e3o entre as duas esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Quanto mais material gen\u00e9tico conseguem extrair e analisar da pr\u00e9-hist\u00f3ria remota \u2014algo nada simples, porque quanto mais antigo o DNA, mais dif\u00edcil \u00e9 obter resultados confi\u00e1veis\u2014 fica mais evidente que neandertais e humanos mantiveram cruzamentos constantes. A revista Nature revelou na quarta-feira as an\u00e1lises de DNA de quatro indiv\u00edduos europeus de 45 mil anos atr\u00e1s: todos eles tinham ancestrais, mais ou menos diretos, neandertais. E n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que isso acontece: os outros dois genomas do homo sapiens daquela \u00e9poca analisados tamb\u00e9m revelam hibridiza\u00e7\u00e3o entre as esp\u00e9cies, num caso, ali\u00e1s, muito recente (o seu tatarav\u00f4 pertencia \u00e0 outra esp\u00e9cie).<\/p>\n<p>Se os cruzamentos entre os neandertais e o homo sapiens fossem raros e bem localizados no tempo e no espa\u00e7o, esses resultados seriam o equivalente cient\u00edfico a encontrar uma agulha no imenso palheiro da pr\u00e9-hist\u00f3ria. O fato de ancestrais diretos aparecerem repetidamente indica um padr\u00e3o. N\u00e3o est\u00e1 claro quantas ondas migrat\u00f3rias humanas vieram da \u00c1frica para a Europa e \u00c1sia, ou quando ocorreram. Nem o que aconteceu com os seres humanos \u2014neandertais e denisovanos\u2014 que estavam l\u00e1 quando nossa esp\u00e9cie chegou. Mas \u00e9 evidente que mantiveram muito mais do que rela\u00e7\u00f5es de amizade, como mostram os resultados obtidos pela equipe de Svante P\u00e4\u00e4bo, o geneticista sueco que revolucionou a investiga\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o humana gra\u00e7as \u00e0 an\u00e1lise de DNA antigo e que obteve o primeiro genoma completo de um neandertal.<\/p>\n<p>\u201cO rastro do neandertal est\u00e1 muito presente, em seis ou sete gera\u00e7\u00f5es anteriores\u201d, explica Antonio Rosas, paleoantrop\u00f3logo do Conselho Superior de Pesquisas Cient\u00edficas (CSIC) e um dos grandes especialistas europeus em neandertais. \u201cQuando os restos mais recentes foram analisados, parecia que a hibridiza\u00e7\u00e3o tinha sido mais espor\u00e1dica; mas os novos resultados mostram que \u00e9 muito mais frequente\u201d, acrescenta este pesquisador, que, no entanto, n\u00e3o concorda com a teoria da\u201d dilui\u00e7\u00e3o dos neandertais na popula\u00e7\u00e3o humana\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMe parece ser uma vis\u00e3o de benevol\u00eancia um pouco ing\u00eanua\u201d, prossegue Rosas. \u201cOs cro-magnons analisados s\u00e3o claramente sapiens do ponto de vista fenot\u00edpico: n\u00e3o s\u00e3o neandertais, nem mesmo uma mistura. Mas essas novas descobertas, sem d\u00favida, reabrem o debate sobre a possibilidade de que houve uma integra\u00e7\u00e3o de neandertais e sapiens. \u00c9 poss\u00edvel que em alguns lugares esse fen\u00f4meno tenha ocorrido; mas tamb\u00e9m \u00e9 prov\u00e1vel que em outros os neandertais foram extintos.\u201d Fatores como geografia ou clima poderiam ter influ\u00eddo na extin\u00e7\u00e3o ou integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outros peritos acreditam, contudo, que esses resultados mostram claramente que a extin\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorreu, mas que os neandertais foram absorvidos pelos sapiens. Raquel P\u00e9rez G\u00f3mez, bi\u00f3loga especialista em gen\u00e9tica e doutora em Ci\u00eancias Veterin\u00e1rias da Universidade Complutense de Madri, publicou um artigo h\u00e1 tr\u00eas anos no EL PA\u00cdS em que destacava que a paleogen\u00e9tica estava corroendo a ideia de que se trata de duas esp\u00e9cies diferentes. \u201cEsses resultados confirmam (mais ainda, se for poss\u00edvel) a posi\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar em esp\u00e9cies, nem em h\u00edbridos, nem em extin\u00e7\u00e3o dos neandertais\u201d, diz P\u00e9rez G\u00f3mez por e-mail.<\/p>\n<p>\u201cNa ci\u00eancia os conceitos s\u00e3o fundamentais\u201d, continua P\u00e9rez G\u00f3mez. \u201cDe acordo com [o bi\u00f3logo evolucionista] Mayr e [o geneticista] Dobzhansky, se aceita que uma esp\u00e9cie biol\u00f3gica \u00e9 um grupo natural (ou popula\u00e7\u00e3o) de indiv\u00edduos que podem cruzar entre si e gerar descendentes f\u00e9rteis. Quanto mais f\u00f3sseis s\u00e3o sequenciados, mais eventos de cruzamento entre neandertais e humanas que migravam da \u00c1frica s\u00e3o documentados. Quanto mais informa\u00e7\u00f5es tivermos, mais completos se tornar\u00e3o o mapa gen\u00e9tico e a hist\u00f3ria evolutiva de nossa esp\u00e9cie. E apesar de todas as resist\u00eancias, dentro de algumas d\u00e9cadas ficar\u00e1 claro pelo peso das evid\u00eancias que os neandertais eram humanos como n\u00f3s, com caracter\u00edsticas, digamos, arcaicas\u201d.<\/p>\n<p>O interessante \u00e9 que o processo de hibridiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorreu ao contr\u00e1rio: nenhum vest\u00edgio de DNA de sapiens foi encontrado em neandertais europeus recentes, o que indicaria que os humanos modernos adotaram neandertais; mas estes n\u00e3o coexistiram em seus grupos com os humanos modernos. Embora, como sempre na pr\u00e9-hist\u00f3ria, quanto mais se sabe, mais misterioso tudo se torna: Antonio Rosas lembra, por\u00e9m, que em neandertais siberianos mais antigos, de cerca de 100.000 anos atr\u00e1s, foram encontrados vest\u00edgios de sapiens.<\/p>\n<p>O que parecia imposs\u00edvel h\u00e1 n\u00e3o muito tempo est\u00e1 se tornando realidade. Quando o filme A Guerra do Fogo foi lan\u00e7ado, em 1981\u2014a vers\u00e3o de Jean Jacques Annaud do romance cl\u00e1ssico de J.-H. Rosny A\u00een\u00e9\u2014, recebeu muitas cr\u00edticas por mostrar uma cena de sexo entre uma sapiens e um neandertal. A paleogen\u00e9tica o endossou, mas tamb\u00e9m enfatiza algo que tem uma clara leitura contempor\u00e2nea: o estudo da pr\u00e9-hist\u00f3ria nos mostra que \u00e9 um absurdo falar de ra\u00e7as, que a humanidade \u00e9 o resultado de um cruzamento infinito. N\u00f3s, a humanidade moderna, somos uma mistura intermin\u00e1vel, que se prolonga por s\u00e9culos e mil\u00eanios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reviravolta na hist\u00f3ria que est\u00e1 deixando os mais renomados antrop\u00f3logos de cabelo em p\u00e9. E Darwin, se vivo fosse, chamaria Einstein para discutir o assunto, sendo capaz, inclusive, de sugerir uma teoria diferente para a famosa ma\u00e7\u00e3 ca\u00edda sobre a cabe\u00e7a. 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