{"id":254991,"date":"2021-04-12T10:05:00","date_gmt":"2021-04-12T13:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=254991"},"modified":"2021-04-12T10:05:00","modified_gmt":"2021-04-12T13:05:00","slug":"nao-da-mais-pra-segurar-vem-ai-a-explosao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/nao-da-mais-pra-segurar-vem-ai-a-explosao\/","title":{"rendered":"N\u00e3o d\u00e1 mais pra segurar, vem a\u00ed a explos\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>S\u00e3o pouco mais de oito horas da manh\u00e3, faz 26 graus \u00e0 sombra, e Andreia Ven\u00e2ncio j\u00e1 percorreu cinco vezes o caminho que separa sua casa da caixa d\u2019\u00e1gua comunit\u00e1ria onde enche os baldes para limpar, dar banho nos cinco filhos, entre cinco e 16 anos, e cozinhar a pouca comida que lhe resta. A mulher de 37 anos caminha inclinada para a direita, equilibrando o peso dos 10 litros de \u00e1gua que carrega. At\u00e9 o anoitecer, ela far\u00e1 esse trajeto in\u00fameras vezes, vezes demais para contar exatamente quantas s\u00e3o. Na Ocupa\u00e7\u00e3o Esperan\u00e7a, em Osasco, a quarenta minutos em carro do centro de S\u00e3o Paulo, a \u00e1gua \u00e9 um bem escasso. \u201cEstamos h\u00e1 mais de um m\u00eas sem \u00e1gua em casa, passo os dias carregando baldes\u201d, conta ela, que, como a maioria dos mais de mil moradores da ocupa\u00e7\u00e3o, depende quase exclusivamente de benef\u00edcios governamentais para sobreviver.<\/p>\n<p>Andreia recebe 510 reais do programa Bolsa Fam\u00edlia e, at\u00e9 dezembro, contava com o aux\u00edlio emergencial, criado pelo Governo durante a pandemia, no valor de 600 reais. Com o corte deste \u00faltimo, em dezembro, o que j\u00e1 era dif\u00edcil ficou ainda mais complicado. \u201cMeu marido ainda faz bicos como pintor, mas, justamente no ano de pandemia, os alimentos ficaram mais caros, n\u00e3o d\u00e1 mais para comprar carne. Carne \u00e9 luxo! At\u00e9 o pre\u00e7o do ovo, que era mais barato e que a gente sempre comia, aumentou\u201d, lamenta, na porta de casa, diante das quatro vizinhas com quem comparte uma viela. Todas assentem com a cabe\u00e7a e fazem coro \u00e0s suas queixas. \u201cFalta at\u00e9 arroz e feij\u00e3o. A gente vai se virando, pede aos vizinhos&#8230; E tem dias que, em vez de fazer arroz com feij\u00e3o, fazemos s\u00f3 um macarr\u00e3o e farofa\u201d, acrescenta. No dia 18 de mar\u00e7o, o presidente Jair Bolsonaro assinou a medida provis\u00f3ria com as regras para a nova rodada desse benef\u00edcio, que constar\u00e1 de quatro parcelas, pagas a partir de abril a 45,6 milh\u00f5es de pessoas \u201522,6 milh\u00f5es a menos do que as contempladas em 2020\u2014. Elas s\u00f3 receber\u00e3o, no entanto, entre 150 e 375 reais, a depender da composi\u00e7\u00e3o familiar.<\/p>\n<p>Andreia \u00e9 uma dos mais de 116,8 milh\u00f5es de brasileiros que conviveram com algum grau de inseguran\u00e7a alimentar nos \u00faltimos tr\u00eas meses de 2020, uma situa\u00e7\u00e3o que se repete em 55% dos domic\u00edlios do pa\u00eds, de acordo com o Inqu\u00e9rito Nacional sobre Inseguran\u00e7a Alimentar no contexto da pandemia de covid-19, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN). O mesmo informe aponta que 9% dos brasileiros vivenciaram, no ano passado, inseguran\u00e7a alimentar grave. Quer dizer, 19 milh\u00f5es de brasileiros passaram fome, um retrocesso aos n\u00edveis de 2004, quase um ano ap\u00f3s o lan\u00e7amento do programa Fome Zero.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, a situa\u00e7\u00e3o de Andreia ainda n\u00e3o \u00e9 a pior encontrada na Ocupa\u00e7\u00e3o Esperan\u00e7a. A casa dela \u00e9 uma das poucas constru\u00eddas com alvenaria no terreno sobre o morro de 48.000 metros quadrados que foi ocupado por 500 fam\u00edlias em 2013, mas que ainda n\u00e3o aparece sequer nos mapas dos mais avan\u00e7ados sat\u00e9lites. Hoje, em cada lote de terra vivem at\u00e9 tr\u00eas ou quatro fam\u00edlias que dividem barracos de madeira e tapume. Sem reconhecimento da Prefeitura de Osasco, em algumas casas ainda chega \u2014lenta e esparsamente\u2014 \u00e1gua da Sabesp, mas a maior parte da comunidade depende da caixa d\u2019\u00e1gua de 20.000 litros (que nunca fica cheia por completo) comprada com o dinheiro de todos, para se abastecer. \u00c9 para l\u00e1 que peregrinam, dia e noite, mulheres e crian\u00e7as com seus baldes sedentos.<\/p>\n<p>E se falta \u00e1gua, falta quase tudo. \u201cTodo mundo na comunidade sobrevivia de bico, quase ningu\u00e9m tem emprego formal, com carteira assinada. Com a pandemia, muita gente ficou desempregada e passou a depender do aux\u00edlio. A gente achava que a pandemia pelo menos n\u00e3o seria t\u00e3o forte este ano, que haveria vacinas para todos e poder\u00edamos voltar para nossas rotinas, mas isso n\u00e3o aconteceu\u201d, relata Maura Lopes, de 49 anos, uma das lideran\u00e7as da Ocupa\u00e7\u00e3o Esperan\u00e7a, no espa\u00e7o antes destinado ao pequeno bar que mantinha e que hoje virou cozinha da casa onde vive com o marido e tr\u00eas filhos.<\/p>\n<p>Andreia Ven\u00e2ncio , de 37 anos, m\u00e3e de cinco filhos, passa o dia enchendo baldes de \u00e1gua para levar para casa. \u00c9 ela quem organiza as poucas cestas b\u00e1sicas que chegam como doa\u00e7\u00e3o para os moradores \u2014caf\u00e9, a\u00e7\u00facar, arroz, lata de \u00f3leo e feij\u00e3o\u2014 e as distribui, uma tarefa nada f\u00e1cil. \u201cComo selecionar, entre mais de 500 fam\u00edlias, para quem vamos dar 30 cestas b\u00e1sicas? Tentamos priorizar as m\u00e3es solo, que n\u00e3o t\u00eam trabalho, e s\u00f3 contam com essa ajuda. \u00c9 muito triste ver uma m\u00e3e de fam\u00edlia descer o morro para pedir pelo menos um pacote de arroz para dar de comer aos filhos\u201d, lamenta a maranhense de estatura mediana, porte forte, cabelos cacheados tingidos de acaju e um longo sorriso que se adivinha mesmo por debaixo da m\u00e1scara e que surge quando fala da solidariedade comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Agora as cestas b\u00e1sicas est\u00e3o minguando, e os moradores sobrevivem com a ajuda um do outro. Quem tem um pouco de arroz, troca por um pouco de feij\u00e3o. Quem tem um pouco mais de \u00e1gua, enche um balde para quem precisa. \u201c\u00c9 n\u00f3s por n\u00f3s\u201d, resume Maura, com o barulho ao fundo de uma panela el\u00e9trica onde cozinha feij\u00e3o. Seu botij\u00e3o de g\u00e1s acabou h\u00e1 tr\u00eas dias e ela ainda n\u00e3o pode comprar outro. A l\u00edder da ocupa\u00e7\u00e3o teve covid-19 no ano passado e se infectou novamente no in\u00edcio de mar\u00e7o. Ela, que fazia bicos de passadeira na lavanderia onde o marido trabalhava, viu-se doente e desempregada. \u201cMeu filho mais velho [de 21 anos, que trabalha em uma empresa de T.I.] teve que se tornar o homem da casa. Ele segurou as pontas quando todos ficamos desempregados\u201d, relata, enquanto guia a reportagem pela comunidade \u2014uma subida \u00edngreme entre ch\u00e3o de terra e pedregulhos, mas com vista privilegiada de toda S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A l\u00edder comunit\u00e1ria s\u00f3 para ao desviar-se de um pequeno c\u00f3rrego de esgoto formado por um cano que quebrou e espalhou excrementos pelas vielas, um odor que impregna o ar, mas n\u00e3o impede que as pessoas e seus baldes continuem saindo de casa rumo \u00e0 caixa d\u2019\u00e1gua. Se aproxima a hora do almo\u00e7o e \u00e9 preciso cozinhar. Mas o qu\u00ea? \u201cCom esse valor de 150 reais de aux\u00edlio n\u00e3o d\u00e1 para sobreviver, a gente vai morrer de fome\u201d, lamenta Marinalva Souza, Nan\u00e1, como prefere ser chamada, de 49 anos, moradora da ocupa\u00e7\u00e3o. \u201cPorque um pacote de cinco quilos de arroz est\u00e1 40 reais, uma lata de \u00f3leo custa 10, uma bandeja de ovos que voc\u00ea comprava por 6 reais custa 14 ou 15 reais agora\u201d, acrescenta, enquanto tosse, sentada em frente ao barraco que divide com o marido, demitido da vidra\u00e7aria em que trabalhava logo no in\u00edcio da pandemia no Brasil.<\/p>\n<p>Nan\u00e1, que lavava roupa para as m\u00e3es da comunidade que trabalhavam fora como diaristas, tamb\u00e9m ficou sem ganha-p\u00e3o. \u201cN\u00e3o recebia muito, mas dava para sobreviver. Agora estou sem renda nenhuma, porque essas m\u00e3es tamb\u00e9m est\u00e3o sem trabalho. Vivemos das doa\u00e7\u00f5es da associa\u00e7\u00e3o de moradores, ainda resta um pouco de arroz\u201d, conta.<\/p>\n<p>Com seis filhos adultos que vivem longe, Nan\u00e1 \u00e9 uma esp\u00e9cie de m\u00e3e de todos na Ocupa\u00e7\u00e3o Esperan\u00e7a. Onde a sa\u00fade n\u00e3o chega, \u00e9 ela quem receita ch\u00e1 de sabugueiro \u2014\u00e1rvore que fica perto de sua casa\u2014 para tratar a asma e a tosse de crian\u00e7as e adultos. \u201cEsse sabugueiro tem sido a salva\u00e7\u00e3o do povo daqui\u201d, diz ela, que tamb\u00e9m n\u00e3o hesita em encher garrafas de refrigerante com \u00e1gua de sua caixa pequena para dar \u00e0s pessoas que batem \u00e0 sua porta. Nan\u00e1 s\u00f3 destina rancor aos governantes. \u201cS\u00f3 n\u00e3o tem dinheiro para o povo pobre, trabalhador. Enquanto eles querem pagar 150 reais de aux\u00edlio, est\u00e3o a\u00ed comprando mans\u00f5es de seis milh\u00f5es de reais\u201d, diz em refer\u00eancia ao im\u00f3vel adquirido pelo senador Fl\u00e1vio Bolsonaro, filho do presidente, investigado por lavagem de dinheiro.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tem trabalho, n\u00e3o tem vacina. Nosso destino \u00e9 passar fome e morrer dentro de casa\u201d. Nan\u00e1 lamenta n\u00e3o ter dinheiro para comer sequer uma banana, mas, generosa, ela se emociona ao falar das fam\u00edlias mais numerosas, que passam \u201cmais aperto\u201d do que ela e o companheiro. \u201cA gente se vira. Mas uma m\u00e3e de fam\u00edlia que tem tr\u00eas ou cinco filhos v\u00ea as crian\u00e7as chorarem de manh\u00e3 sem ter o que comer.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de Ana Teresa Couto, de 39 anos, m\u00e3e de duas crian\u00e7as, de quatro e tr\u00eas anos. Enquanto esquenta \u00e1gua num balde com um fio el\u00e9trico ligado na energia \u2014um rabo quente improvisado\u2014 para dar banho nos filhos, ela conta que, com os 234 reais que recebe do Bolsa Fam\u00edlia s\u00f3 consegue comprar leite \u201ce alguma mistura\u201d (como paulistanos chamam a prote\u00edna animal). \u201cAinda fico catando as moedinhas para comprar uma bolacha ou algo assim. A gente ainda consegue comprar fiado nos mercadinhos da comunidade, mas tem que pagar para comprar de novo\u201d, acrescenta ela, que acabou de usar outro balde de \u00e1gua para lavar o ch\u00e3o da casa, que consiste de um c\u00f4modo que \u00e9 ao mesmo tempo sala e cozinha e outro que \u00e9 o quarto, onde uma cortina de pl\u00e1stico separa o local que serve de banheiro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das crian\u00e7as, Ana mora com o marido, soldador, que sofreu um acidente de carro h\u00e1 dois meses e quebrou a bacia. Apesar disso, ele sai diariamente \u00e0 procura de trabalho. \u201cJ\u00e1 estava dif\u00edcil antes da pandemia, agora piorou. N\u00e3o posso trabalhar porque n\u00e3o tem escola, preciso ficar com as crian\u00e7as. Meu marido s\u00f3 acha servi\u00e7o de vez em quando, porque com a covid-19, as pessoas t\u00eam medo de chamar ele para trabalhar em casa\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>Algumas vielas abaixo, Rose Pereira, m\u00e3e solo de tr\u00eas meninas de tr\u00eas, quatro e nove anos, conta apenas com a generosidade da comunidade. Seu barraco \u00e9 constitu\u00eddo de um \u00fanico c\u00f4modo, tem uma cama de casal, uma pia, um tanquinho de lavar roupa e um fog\u00e3o pequeno, de duas bocas, com uma panela el\u00e9trica. Quase n\u00e3o h\u00e1 brinquedos espalhados pelo ch\u00e3o. Rose trabalhava como faxineira, antes da pandemia, e \u00e0s vezes lava roupa para fora. Quando a reportagem chega, ela deixa de lavar a roupa das filhas para contar sua realidade: \u201cRecebo 310 reais do Bolsa Fam\u00edlia, que \u00e9 um pinguinho, e comprei mantimentos apenas uma vez desde que fiquei sem o aux\u00edlio. Aproveito as cestas b\u00e1sicas que chegam de doa\u00e7\u00e3o. As meninas tamb\u00e9m ganham muita roupa de doa\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes at\u00e9 separo umas para outras crian\u00e7as que n\u00e3o t\u00eam, principalmente no interior. Ficar acumulando muita coisa dentro de casa n\u00e3o presta\u201d, diz a mulher negra, sem dentes na boca, apesar dos 37 anos.<\/p>\n<p>Com o pouco dinheiro, Rose consegue comprar p\u00e3o, leite, \u201cuma misturinha\u201d e pelo menos uma cartela de ovos. Quando as filhas pedem \u201calguma bolacha, alguma besteira que crian\u00e7a gosta\u201d, ela compra fiado em algum mercadinho da Ocupa\u00e7\u00e3o. \u201cFa\u00e7o d\u00edvida com alimenta\u00e7\u00e3o. Quando recebo o Bolsa Fam\u00edlia, entrego no mercadinho e vou pegando as coisas para comer no m\u00eas. Mas a\u00ed fico sem um tost\u00e3o sequer no bolso. \u00c9 dif\u00edcil.\u201d No in\u00edcio da manh\u00e3, o g\u00e1s de Rose acabou e ela precisar\u00e1 cozinhar o arroz na panela el\u00e9trica onde frita a carne. \u00c9 o que ela e as filhas v\u00e3o comer pelos pr\u00f3ximos tr\u00eas dias, at\u00e9 receber mais uma parcela do benef\u00edcio social.<\/p>\n<p>Edineide da Silva , de 56 anos, no barraco onde mora com dois filhos e dois netos pequenos na Ocupa\u00e7\u00e3o Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Entre a comida e o g\u00e1s, Luciene da Rocha, de 30 anos, escolheu o mais essencial. M\u00e3e de tr\u00eas crian\u00e7as (de 12, 9 e 4 anos) e com o marido caminhoneiro desempregado, ela voltou a cozinhar \u00e0 lenha, por falta de dinheiro. \u201cMeu fog\u00e3o est\u00e1 encostado ali, chega a dar uma tristeza olhar para ele\u201d, aponta ela, espirituosa e com bom humor, apesar da situa\u00e7\u00e3o. Em outubro, ela e a fam\u00edlia deixaram de pagar aluguel e constru\u00edram um barraco numa ocupa\u00e7\u00e3o rural a 15 minutos em carro da Ocupa\u00e7\u00e3o Esperan\u00e7a. Al\u00e9m da casa de madeira com uma esp\u00e9cie de varanda onde fica a cozinha, h\u00e1 uma grande horta ao lado esquerdo do terreno, onde gansos, patos, galinhas e cabras se misturam. Nas poucas \u00e1rvores em frente \u00e0 casa, est\u00e3o penduradas uma rede e o balan\u00e7o das crian\u00e7as \u2014que preferem se espalhar no sof\u00e1 assistido televis\u00e3o no interior do im\u00f3vel.<\/p>\n<p>\u201cAno passado, eu recebia o aux\u00edlio, mas meu marido n\u00e3o conseguiu fazer o cadastro dele. Hoje s\u00f3 recebo o Bolsa Fam\u00edlia e at\u00e9 tenho que cozinhar com banha de porco, porque n\u00e3o tem como comprar lata de \u00f3leo de 10 reais. O ruim da lenha \u00e9 s\u00f3 a fuma\u00e7a, mas a gente acostuma. A\u00ed a gente cria galinha para comer um ovo, faz a horta, eu vendo alface e, com o dinheiro, quando d\u00e1, compro uma mistura\u201d, relata Luciene. Na ro\u00e7a, um problema que ela n\u00e3o enfrenta \u00e9 a falta de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Mesmo Lucimar Farias, que ainda se recupera de uma ces\u00e1rea feita h\u00e1 dois meses, n\u00e3o escapa do peso do balde na ocupa\u00e7\u00e3o encravada nas margens da cidade. \u201cMesmo operada, tenho que me virar\u201d, resume ela, m\u00e3e de tr\u00eas filhas \u2014a mais velha \u00e9 uma adolescente de 14 anos, a mais nova \u00e9 embalada no colo da irm\u00e3 de seis anos\u2014, enquanto mostra sua casa de alvenaria de dois andares, ainda em constru\u00e7\u00e3o: embaixo, est\u00e3o sala, cozinha e banheiro; no andar de cima ficam os quartos. \u201cMeu marido estava desempregado, mas arrumou trabalho agora como pedreiro. Nos \u00faltimos meses, est\u00e1vamos vivendo da ajuda do povo\u201d, conta ao fim da tarde, quando continua a peregrina\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 caixa d\u2019\u00e1gua. A Ocupa\u00e7\u00e3o Esperan\u00e7a virou microcosmo do Brasil do desemprego e da fome \u00e0 espreita, onde falta \u00e1gua, falta tudo.<\/p>\n<p><strong>*Reportagem publicada originalmente na vers\u00e3o em portugu\u00eas do portal espanhol Elpa\u00eds<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o pouco mais de oito horas da manh\u00e3, faz 26 graus \u00e0 sombra, e Andreia Ven\u00e2ncio j\u00e1 percorreu cinco vezes o caminho que separa sua casa da caixa d\u2019\u00e1gua comunit\u00e1ria onde enche os baldes para limpar, dar banho nos cinco filhos, entre cinco e 16 anos, e cozinhar a pouca comida que lhe resta. 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