{"id":255001,"date":"2021-04-12T12:45:10","date_gmt":"2021-04-12T15:45:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=255001"},"modified":"2021-04-12T12:48:10","modified_gmt":"2021-04-12T15:48:10","slug":"perdido-como-jose-povo-sonha-com-pasargada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/perdido-como-jose-povo-sonha-com-pasargada\/","title":{"rendered":"Perdido como Jos\u00e9, povo sonha com Pas\u00e1rgada"},"content":{"rendered":"<p>Publicado originalmente em 1942, o poema E agora, Jos\u00e9? parece ter brotado na noite de domingo, 11, da cabe\u00e7a brilhante de Carlos Drummond de Andrade (1902\/1987). Farmac\u00eautico por forma\u00e7\u00e3o, contista e cronista por devo\u00e7\u00e3o, Drummond, quase 80 anos antes, certamente imaginou como estaria o Brasil e os brasileiros em 2021. Escrito para ilustrar o sentimento de solid\u00e3o e abandono de um indiv\u00edduo na cidade grande, o texto pode ser transportado para os dias atuais como sin\u00f4nimos de falta de esperan\u00e7a, de rumo e, sobretudo, de perspectivas. Tamb\u00e9m faz perguntas que fazemos diariamente para um personagem oculto e para as quais nunca tivemos respostas.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, nem tanto oculto. Em conversas com um senador, tentar derrubar a CPI da Covid-19, pede absurdamente o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal e amea\u00e7a ir para a &#8220;porrada&#8221; com outro senador. &#8220;E agora, Jos\u00e9? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu&#8230; E agora, voc\u00ea?&#8230; que zomba dos outros&#8230;E agora, Jos\u00e9?&#8230; sua incoer\u00eancia, seu \u00f3dio \u2013 e agora? Musicado pelo n\u00e3o menos brilhante compositor e m\u00fasico pernambucano Paulo Diniz, o poema pode ser entendido hoje como ato pol\u00edtico, retratando uma popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o social evidentemente vulner\u00e1vel e cobrando solu\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e, principalmente sanit\u00e1rias para conter a maior trag\u00e9dia humanit\u00e1ria da hist\u00f3ria do pa\u00eds. A exemplo do texto, vivemos um diagn\u00f3stico de impasses. De um lado, institui\u00e7\u00f5es e governadores preocupados com o avan\u00e7o do v\u00edrus; de outro, o governo federal e apoiadores pregando a desobedi\u00eancia, o caos, uma disputa pol\u00edtica irracional e certos de que tudo da CPI acabar\u00e1 em nada.<\/p>\n<p>No atual cen\u00e1rio, o brasileiro est\u00e1 como Jos\u00e9: &#8220;&#8230;sem cavalo preto que fuja a galope&#8230;e sem parede nua para se encostar&#8230;&#8221; Sem teogonia (narrativa da origem dos deuses), a mentira virou ferramenta oficial desde a campanha eleitoral de 2018. Elogiada, repetida e endeusada nos palanques, em redes sociais, emissoras de r\u00e1dio e televis\u00e3o e at\u00e9 nos encontros vespertinos nos jardins do Pal\u00e1cio da Alvorada, a patacoada tomou conta do governo como se fosse verdade absoluta. A sequ\u00eancia da mentirada ultrapassou todos os limites quando, em mar\u00e7o de 2020, tivemos not\u00edcia do primeiro \u00f3bito decorrente da Covid-19. O mundo j\u00e1 estava sofrendo, se assustou, chorou, mas preferiu se unir e optou pelo planejamento.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s enterrar centenas de milhares de mortos, a maioria dos governantes preferiu se preparar para encarar o problema de frente e n\u00e3o se escondeu em novas, absurdas e recorrentes mentiras. Na contram\u00e3o do planeta, o Brasil estava bem pr\u00f3ximo de algo que o brasileiro s\u00f3 tinha ouvido falar nas hist\u00f3rias de ninar de av\u00f3s e de alguns pais mais antigos. Ao contr\u00e1rio dos que prezam pelo igual, vimos a gripezinha se transformar em uma das piores e mais letais pandemias dos \u00faltimos 100 anos. Exatamente como Jos\u00e9, o povo se sentiu abandonado. O v\u00edrus era \u2013 e \u00e9 \u2013 mortal, mas o governo federal insistia com o diminutivo, enquanto cientistas e m\u00e9dicos j\u00e1 o tratavam eufemisticamente como crise sanit\u00e1ria. No instante mais cr\u00edtico de febre, o melhoral, a cibalena e as tuba\u00ednas recomendadas pelo inquilino do Planalto fizeram o mesmo efeito que faria uma linha de pipa para levantar um Boeing.<\/p>\n<p>Vivemos a doen\u00e7a sem planejamento e com negacionismos cada vez mais absurdos, entre eles as afirma\u00e7\u00f5es contra a quarentena e as m\u00e1scaras e a favor das aglomera\u00e7\u00f5es. O pior \u00e9 que a &#8220;noite esfriou, o dia n\u00e3o veio&#8221; e, a cada centena de milhar de \u00f3bitos, o presidente da Rep\u00fablica cunhava uma frase nova para &#8220;acalentar&#8221; os familiares dos mortos. &#8220;Parem de chorar o leite derramado&#8221; foi a \u00faltima p\u00e9rola. Apesar de todas as dificuldades, para a maioria da popula\u00e7\u00e3o foi um importante per\u00edodo de aprendizado, introspec\u00e7\u00e3o, reflex\u00e3o, descobertas religiosas, busca de novos posicionamentos e exacerba\u00e7\u00e3o de conceitos extremados, com destaque para o fundamentalismo de um lado e de outro.<\/p>\n<p>Como c\u00e9tico, hesitei quanto a evolu\u00e7\u00e3o pessoal desenhada por pregadores e terapeutas diversos logo ap\u00f3s o surgimento da Covid-19. N\u00e3o sou ateu, tampouco agn\u00f3stico, mas permane\u00e7o com d\u00favidas a respeito de qualquer mudan\u00e7a comportamental pelo simples fato do medo de alguma coisa. Est\u00e1vamos longe de denominar a doen\u00e7a de pandemia, mas o povo mais crente no homem j\u00e1 afirmava com absoluta seguran\u00e7a que o v\u00edrus era sin\u00f4nimo de melhorias no pensamento e na forma de ser. Lembro que, para especialistas em mente humana, fosse o que fosse, o mal chin\u00eas era algo enviado pelos deuses para depurar almas e cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Falavam, inclusive, da tend\u00eancia de os sobreviventes serem pessoas mais felizes, menos rabugentas, mais solid\u00e1rias e menos mesquinhas. Um ano e dois meses depois, restaram duas certezas: a gripezinha virou pesadelo e o ser humano pouco ou nada mudou. E Jos\u00e9? &#8220;Com a chave na m\u00e3o, quer abrir a porta, n\u00e3o existe porta&#8230;&#8221;. Quanto a mim, na d\u00favida Vou-me embora pra Pas\u00e1rgada, caminho sugerido no poema de Manuel Bandeira, tamb\u00e9m musicado por Paulo Diniz. Ser\u00e1 minha Can\u00e7\u00e3o do Ex\u00edlio. Au revoir.<\/p>\n<p><strong>*Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 jornalista<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente em 1942, o poema E agora, Jos\u00e9? parece ter brotado na noite de domingo, 11, da cabe\u00e7a brilhante de Carlos Drummond de Andrade (1902\/1987). Farmac\u00eautico por forma\u00e7\u00e3o, contista e cronista por devo\u00e7\u00e3o, Drummond, quase 80 anos antes, certamente imaginou como estaria o Brasil e os brasileiros em 2021. 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