{"id":255627,"date":"2021-04-23T10:24:42","date_gmt":"2021-04-23T13:24:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=255627"},"modified":"2021-04-23T10:24:42","modified_gmt":"2021-04-23T13:24:42","slug":"lula-pode-ate-voltar-mas-na-politica-ha-artimanhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lula-pode-ate-voltar-mas-na-politica-ha-artimanhas\/","title":{"rendered":"Lula pode at\u00e9 voltar, mas na pol\u00edtica h\u00e1 artimanhas"},"content":{"rendered":"<p>Fernando de Barros e Silva (<em>piau<\/em>\u00ed, n\u00ba 175), abre seu artigo sobre &#8220;o que muda com a entrada de Lula na disputa pela sucess\u00e3o de Bolsonaro&#8221; afirmando que &#8220;S\u00f3 h\u00e1 uma certeza pol\u00edtica no Brasil de hoje: Lula ser\u00e1 candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica no ano que vem&#8221;, o que me lembra as antecipa\u00e7\u00f5es &#8220;cient\u00edficas&#8221; de conhecidos analistas pol\u00edticos sobre as elei\u00e7\u00f5es de 2018: nenhuma acertou no alvo. Pois a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia e o processo social n\u00e3o pode ser reduzido a meia d\u00fazia de tabelas ou gr\u00e1ficos.<\/p>\n<p>Armado e bem equipado em n\u00fameros e em suas proje\u00e7\u00f5es, Alberto Carlos Almeida anunciava (O voto do brasileiro) que &#8220;o funcionamento de nosso sistema pol\u00edtico \u00e9 regular. \u00c9 previs\u00edvel&#8221;. Da\u00ed prever, &#8220;\u00e0 luz de nossa experi\u00eancia passada&#8221; que as elei\u00e7\u00f5es de 2018 repetiriam o padr\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es presidenciais anteriores, mantendo a s\u00e9rie de disputas entre o PSDB e o PT. J\u00e1 Samuel Pessoa, no pref\u00e1cio ao livro acima referido, fiando-se nas ferramentas ali fornecidas, garantia que ter\u00edamos em 2018 um segundo turno entre Jacques Wagner e Geraldo Alckmin.<\/p>\n<p>Mais s\u00e1bio (ou menos imprudente) que nossos cientistas, o velho Magalh\u00e3es Pinto dizia que a pol\u00edtica era como a nuvem no c\u00e9u: voc\u00ea olha, ela tem um desenho, volta a olhar, ele tem outro. Os jornais j\u00e1 anunciam an\u00e1lises que indicam um segundo turno em 2022, que ele ser\u00e1 disputado por Lula e o capit\u00e3o, e que o ex-presidente ser\u00e1 o vitorioso. A ferramenta cient\u00edfica \u00e9 substitu\u00edda pela bola de cristal de novos Nostradamus.<\/p>\n<p>De minha parte n\u00e3o aposto, sequer, como fatos consumados, nas candidaturas de Lula e do capit\u00e3o. At\u00e9 2022, o ex-presidente ter\u00e1 de enfrentar e vencer os mil e um obst\u00e1culos com os quais a casa-grande (que est\u00e1 atr\u00e1s da Lava Jato, da pris\u00e3o de Lula e de sua inelegibilidade) juncar\u00e1 seu eventual caminho de volta a Bras\u00edlia. Relativamente ao capit\u00e3o, \u00e9 bom lembrar que na pr\u00f3xima semana a CPI da pandemia come\u00e7ar\u00e1 a trabalhar. H\u00e1, ainda, a crise econ\u00f4mica, a forme e o desemprego que assolam os lares brasileiros. N\u00e3o pode ser certo que Bolsonaro superar\u00e1 tudo isso.<\/p>\n<p>Essas quest\u00f5es querem simplesmente dizer que \u00e9 puro achismo, desprovido de qualquer fundamenta\u00e7\u00e3o fatual, decretar o que ser\u00e1 um pleito eleitoral visto a mais de um ano e meio de dist\u00e2ncia. Ou seja: as apura\u00e7\u00f5es de inten\u00e7\u00e3o de voto futuro, e as an\u00e1lises que despertam, valem tanto quanto a interpreta\u00e7\u00e3o do desenho das nuvens. Cabe lembrar que em 2018, antes do in\u00edcio oficial da campanha, a ci\u00eancia cravava que Alckmin seria imbat\u00edvel, com seu latif\u00fandio de tempo de r\u00e1dio e TV. Terminou em 4\u00ba, com 4,76% dos votos. Aos navegantes de primeira viagem recomendo ligar o desconfi\u00f4metro; aos capit\u00e3es de longo prazo sugiro voltar suas luzes para o processo social em pleno curso.<\/p>\n<p>Alguns setores do campo popular, ati\u00e7ados pelos bons press\u00e1gios, j\u00e1 est\u00e3o a comemorar a elei\u00e7\u00e3o de Lula \u00e0 presid\u00eancia como consequ\u00eancia inelut\u00e1vel das \u00faltimas decis\u00f5es do Supremo. Evidentemente, n\u00e3o levam em considera\u00e7\u00e3o os artigos (e as advert\u00eancias neles contidas) de Pedro Serrano na edi\u00e7\u00e3o impressa de Carta Capital. Ou, pior ainda, parece nada haverem aprendido com a hist\u00f3ria pol\u00edtica de nosso pa\u00eds. Quando compreender\u00e3o que a ordem togada (de ju\u00edzes de piso ao STF) constitui um aparelho do Estado a servi\u00e7o dos interesses da classe dominante e da manuten\u00e7\u00e3o do statu quo? Que os tribunais, por isso mesmo, julgam e decidem em fun\u00e7\u00e3o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que fala atr\u00e1s de cada senten\u00e7a ou ac\u00f3rd\u00e3o? O vai-e-vem de nossos ministros e seus votos de 2014 at\u00e9 ontem n\u00e3o nos sugerem nada?<\/p>\n<p>Mas as &#8220;pesquisas&#8221; est\u00e3o na pra\u00e7a, e contribuem para a constru\u00e7\u00e3o de narrativas, antecipando sentimentos e emo\u00e7\u00f5es, como se o quadro de hoje, n\u00e3o sendo fato sociol\u00f3gico, pudesse ser congelado para ser revivido l\u00e1 adiante. E, nestes termos, tudo t\u00eam para criar duvidas e sonhos junto a militantes, os mais vulner\u00e1veis, pois o grande eleitorado quer saber quando ser\u00e1 vacinado, quando voltar\u00e1 a ter trabalho e comida na mesa.<\/p>\n<p>Essas an\u00e1lises, que enchem as p\u00e1ginas pol\u00edticas dos jornais, valem pouco ou nada, a n\u00e3o ser quando seu objetivo \u00e9 embaralhar cartas. Pois \u00e9 disso que se trata, desviar as aten\u00e7\u00f5es da quest\u00e3o ag\u00f4nica: o enfrentamento ao governo Bolsonaro, vale dizer, a defesa da vida, do emprego, da comida. Ao fim e ao cabo, as especula\u00e7\u00f5es querem dizer que os dados j\u00e1 foram postos no tabuleiro. Para a esquerda querem dizer: aquietem-se todos, pois Lula j\u00e1 est\u00e1 eleito. Mas ocorre que, a quase dois anos do pleito, todos sabemos, muita \u00e1gua ainda ir\u00e1 correr por debaixo da ponte. A come\u00e7ar pelo fato de que sequer o quadro de disputa, o rol das candidaturas, est\u00e1 definido. Se a extrema-direita se unifica na campanha pela reelei\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o, o &#8220;centro&#8221; (codinome de um ajuntamento que caminha da direita aos liberais) anda de Seca a Meca, lanterna de Di\u00f3genes na m\u00e3o, \u00e0 procura de um candidato de apelo popular.<\/p>\n<p>De sua parte, esquerda, a centro-esquerda, as for\u00e7as democr\u00e1ticas de um modo geral, n\u00e3o se podem ao luxo da seguran\u00e7a jur\u00eddica. \u00c9 preciso ter em conta que tudo ser\u00e1 feito, em todos os campos, para impedir a candidatura de Lula, sua elei\u00e7\u00e3o, sua posse. Ou algu\u00e9m nessa seara ainda sup\u00f5e que o advers\u00e1rio a enfrentar \u00e9 o Sr. Jair Messias, quando ele simplesmente \u00e9 o ar\u00edete de que se serviu e ainda se servir\u00e1 em 2022 o complexo econ\u00f4mico-militar-pol\u00edtico-midi\u00e1tico que engendrou a deposi\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff, o governo t\u00edtere de Michel Temer, e manipulou o processo eleitoral em 2018?<\/p>\n<p>Considere-se que esse complexo continua \u00edntegro (ressalvadas fissuras secund\u00e1rias), e ainda mais forte, porque agora tem em m\u00e3o os poderes ensejados pela presid\u00eancia da rep\u00fablica. Mas se Lula n\u00e3o deve dormir sobre os louros da \u00faltima vit\u00f3ria judicial, o capit\u00e3o sabe que seu mandato pode, a qualquer momento, encontrar-se com um processo de impeachment apoiado na opini\u00e3o p\u00fablica<\/p>\n<p>O &#8220;centro&#8221; e a centro-direita n\u00e3o param de arengar contra o &#8220;conflito dos extremos&#8221;, a senha para anatematizar a emerg\u00eancia de uma candidatura de esquerda, posto que a candidatura da extrema-direita \u00e9 dada como fato inarred\u00e1vel. Em s\u00edntese, para evitar os extremismos, que se impe\u00e7a a candidatura de Lula ou de quem vier a representar as for\u00e7as populares.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio que se desenha para a candidatura de nosso campo \u00e9 similar ao que a direita, civil-militar-midi\u00e1tica-financeira, construiu \u00e0s v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es de 1950, na condena\u00e7\u00e3o a Get\u00falio Vargas, e em 1955 no veto a Juscelino Kubitschek. A classe dominante e os militares durante 15 anos se haviam entendido, e muito bem, com Get\u00falio Vargas, presidente e ditador. O problema, portanto, n\u00e3o era o caudilho, mas o que ele passara a representar: a emerg\u00eancia das massas sob a toada do trabalhismo, associada \u00e0 retomada do projeto de desenvolvimento nacional aut\u00f4nomo e a recupera\u00e7\u00e3o do projeto industrialista (que vinham do &#8220;Estado Novo&#8221;), interrompido pelo desastrado governo do marechal Eurico Dutra.<\/p>\n<p>De novo no poder, agora apoiado na soberania popular, Vargas criaria ag\u00eancias como o BNDE (depois BNDES), e o BNB, promoveria o desenvolvimento da ind\u00fastria sider\u00fargica, patrocinaria a Petrobras e o monop\u00f3lio estatal do petr\u00f3leo e, entre outras iniciativas, estabeleceria as bases da futura Eletrobr\u00e1s. Iniciativas sem as quais n\u00e3o teriam sido poss\u00edveis os &#8220;50 anos em 5&#8221; de Juscelino Kubitscheck, cuja candidatura as mesmas for\u00e7as da rea\u00e7\u00e3o tentaram evitar, e cuja posse tentaram impedir com um golpe de Estado frustrado.<\/p>\n<p>N\u00e3o sem raz\u00e3o, s\u00e3o esses projetos que, combatidos contra Vargas (e justificadores de sua deposi\u00e7\u00e3o) e contra Juscelino (cassado em 1964) v\u00eam sendo demonizados pelo neoliberalismo, desde Collor e FHC, que anunciou, como projeto, o &#8220;fim da era Vagas&#8221;. Essas for\u00e7as n\u00e3o foram derrotadas e n\u00e3o devemos nos iludir com a rea\u00e7\u00e3o da direita bem comportada \u2013 presente na grande m\u00eddia \u2013 contra os maus modos do capit\u00e3o: a quest\u00e3o democr\u00e1tica \u00e9 uma pura apar\u00eancia, pois o cerne da quest\u00e3o \u00e9 a politica econ\u00f4mica, e em torno de sua defesa todos se unem: &#8220;centro&#8221;, direita, extrema-direita e o dito &#8220;mercado&#8221;.<\/p>\n<p>Presentemente somos governados pelo atraso, pela regress\u00e3o, anulando as possibilidades de afirma\u00e7\u00e3o daquela que poderia ser a mais feliz civiliza\u00e7\u00e3o dos tr\u00f3picos. A quest\u00e3o que nos aflige, portanto, n\u00e3o se encerra na indispens\u00e1vel derrota do capit\u00e3o; n\u00e3o se reduz mesmo \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Lula, embora este seja um ponto de partida: trata-se de construir uma nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as capaz de romper com o imp\u00e9rio secular dos interesses da minoria governante, procuradora do 1% de brancos milion\u00e1rios que controlam a economia nacional e por isso ditam o andamento da pol\u00edtica. Uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que libere o nosso candidato, seja ele quem for, de firmar uma nova &#8220;Carta aos brasileiros&#8221;, ou nomear para o Banco Central um funcion\u00e1rio do Banco de Boston.<\/p>\n<p>Conhecido o jogo da direita, cabe \u00e0 esquerda e \u00e0 centro-esquerda, mas de forma muito especial \u00e0 esquerda socialista, estabelecer sua estrat\u00e9gia que \u00e9, parece-me, preparando-se para 2022, aprofundar a oposi\u00e7\u00e3o ao governo, mas diferenciando-se do discurso liberal. Vale dizer, assumindo o embate ideol\u00f3gico, denunciando o car\u00e1ter classista e antinacional da ordem governante, para, pari passu, anunciar as reformas estruturais, de fundo, pol\u00edticas e econ\u00f4micas, que podem ser levadas a cabo pelos socialistas mesmo no atual regime.<\/p>\n<p><strong>*Ex-ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia de Lula<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando de Barros e Silva (piau\u00ed, n\u00ba 175), abre seu artigo sobre &#8220;o que muda com a entrada de Lula na disputa pela sucess\u00e3o de Bolsonaro&#8221; afirmando que &#8220;S\u00f3 h\u00e1 uma certeza pol\u00edtica no Brasil de hoje: Lula ser\u00e1 candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica no ano que vem&#8221;, o que me lembra as antecipa\u00e7\u00f5es &#8220;cient\u00edficas&#8221; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":154888,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-255627","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255627","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=255627"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255627\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":255628,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255627\/revisions\/255628"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/154888"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=255627"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=255627"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=255627"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}