{"id":256224,"date":"2021-05-02T09:15:40","date_gmt":"2021-05-02T12:15:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=256224"},"modified":"2021-05-02T09:44:30","modified_gmt":"2021-05-02T12:44:30","slug":"generais-avaliam-terceira-via-entre-bolsonaro-e-lula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/generais-avaliam-terceira-via-entre-bolsonaro-e-lula\/","title":{"rendered":"Generais avaliam terceira via entre Bolsonaro e Lula"},"content":{"rendered":"<p>Em 27 meses no cargo, o general Hamilton Mour\u00e3o construiu uma trajet\u00f3ria bem diferente da dos vices nos \u00faltimos 60 anos. Ele tem atribui\u00e7\u00f5es de governo e comanda efetivamente nichos importantes da pol\u00edtica ambiental e de rela\u00e7\u00f5es exteriores. \u00c9, por exemplo, mediador de conflitos com a China, processo iniciado com um encontro com o presidente do pa\u00eds, Xi Jinping, em 2019, restabelecendo a diplomacia depois de duros ataques feitos por Jair Bolsonaro ainda na campanha.<\/p>\n<p>Mour\u00e3o esfor\u00e7a-se para n\u00e3o parecer que conspira, mas \u00e9 visto por militares e especialistas ouvidos pela <em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em> como um oficial de prontid\u00e3o diante de uma CPI que pode levar \u00e0s cordas o presidente Jair Bolsonaro pelos erros na condu\u00e7\u00e3o da pandemia.<\/p>\n<p>\u201cComo Bolsonaro virou um estorvo, os generais agora querem colocar o Mour\u00e3o no governo\u201d, diz o coronel da reserva Marcelo Pimentel Jorge de Souza, um dos poucos oficiais das For\u00e7as Armadas a criticar abertamente o grupo de generais governistas que, na sua vis\u00e3o, \u201cd\u00e1 as ordens\u201d e sustenta o governo de Bolsonaro.<\/p>\n<p>Ex-assessor especial do general Carlos Alberto Santos Cruz na miss\u00e3o de pacifica\u00e7\u00e3o no Haiti, Jorge de Souza est\u00e1 entre os militares que enxergam o movimento dos generais como uma aposta num eventual impeachment e ascens\u00e3o de Mour\u00e3o \u2013 que, por sua vez, tem fechado os ouvidos para o canto das sereias.<\/p>\n<p>\u201cMour\u00e3o jamais vai ajudar a derrubar Bolsonaro para ocupar a vaga. O que ele pode \u00e9 n\u00e3o estender a m\u00e3o para levant\u00e1-lo se um fato grave surgir. Honra e fidelidade s\u00e3o coisas muito s\u00e9rias para Mour\u00e3o\u201d, diz um general da reserva que conviveu com o vice-presidente, mas pediu para n\u00e3o ter o nome citado.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o Mour\u00e3o \u00e9 tratada com discri\u00e7\u00e3o entre os generais que ocupam cargos no governo. Tr\u00eas deles, Braga Netto (Defesa), Augusto Heleno (Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional, o GSI) e Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil), formam o n\u00facleo duro fechado com o presidente. Os demais, caso a crise pol\u00edtica se agrave, s\u00e3o uma inc\u00f3gnita. Mas s\u00e3o vistos como mais acess\u00edveis \u00e0 influ\u00eancia dos generais da reserva que romperam com Bolsonaro e articulam a forma\u00e7\u00e3o de uma terceira via pela centro-direita.<\/p>\n<p>\u201cO que fazer se a op\u00e7\u00e3o em 2022 for Lula ou Bolsonaro? \u00c9 sentar na cal\u00e7ada e chorar\u201d, afirma \u00e0 <em>P\u00fablica<\/em> o general S\u00e9rgio Etchegoyen, ex-ministro do GSI no governo Michel Temer (MDB).<\/p>\n<p>Embora se recuse a fazer cr\u00edticas ao presidente, Etchegoyen acha que os sucessivos conflitos entre Executivo e Judici\u00e1rio criaram no pa\u00eds um quadro grave de \u201cinstabilidade e incertezas\u201d, que exigir\u00e1 o surgimento de lideran\u00e7as mais adequadas \u00e0 democracia.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil n\u00e3o precisa de um le\u00e3o de ch\u00e1cara. Precisa de algu\u00e9m que conhe\u00e7a a pol\u00edtica e saiba pacificar o pa\u00eds\u201d, diz o general.<\/p>\n<p>O ex-ministro sustenta que 36 anos depois do fim do regime militar, com a democracia madura, a reafirma\u00e7\u00e3o do compromisso das For\u00e7as Armadas contra qualquer aventura autorit\u00e1ria a cada surto da pol\u00edtica tornou-se desnecess\u00e1ria e repetitiva.<\/p>\n<p>E cutuca a imprensa: \u201cAlgu\u00e9m ensinou um modelo de an\u00e1lise \u00e0 imprensa em que a possibilidade de golpe est\u00e1 sempre colocada\u201d, diz, referindo-se \u00e0 crise provocada por Bolsonaro na demiss\u00e3o de Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa, e dos comandantes militares. Para ele, a substitui\u00e7\u00e3o \u00e9 parte da rotina de governo e das crises decorrentes da pol\u00edtica. \u201cMinistros s\u00e3o como fus\u00edveis que podem queimar na alta tens\u00e3o da pol\u00edtica. Quem n\u00e3o tiver voca\u00e7\u00e3o para fus\u00edvel que n\u00e3o v\u00e1 para o governo\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Um dos principais aliados de Bolsonaro na ala militar, o general Chagas afirma que o momento n\u00e3o \u00e9 de presidente \u201cestufar o peito e sair dando porrada\u201d<\/p>\n<p>As articula\u00e7\u00f5es por uma terceira via s\u00e3o comandadas por generais da reserva, que j\u00e1 ocuparam cargos em governos e, at\u00e9 o agravamento da pandemia do coronav\u00edrus, se encontravam com frequ\u00eancia em cavalgadas no 1\u00ba Regimento de Cavalaria de Guardas (RCG), sede dos Drag\u00f5es da Independ\u00eancia, grupamento do Ex\u00e9rcito sediado no Setor Militar Norte de Bras\u00edlia, encarregado de guarnecer o Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<p>Os ex-ministros Etchegoyen e Santos Cruz e o general Paulo Chagas, ex-candidato ao governo do Distrito Federal, embora em diferentes linhas, fazem parte do grupo. T\u00eam em comum o gosto pela equita\u00e7\u00e3o e bom tr\u00e2nsito com o vice, que tamb\u00e9m gosta do esporte e frequentava o 1\u00ba RCG ao lado de outros generais, o ex-comandante do Ex\u00e9rcito Edson Pujol e civis como Aldo Rebelo, ex-ministro da Defesa, ex-PCdoB, hoje pr\u00e9-candidato \u00e0 presid\u00eancia em 2022 pelo Solidariedade.<\/p>\n<p><strong>Na cara do gol<\/strong><br \/>\nNas ocasi\u00f5es em que foi sondado para substituir Bolsonaro diante da probabilidade de impeachment ou para se colocar como terceira via, Mour\u00e3o rejeitou as duas hip\u00f3teses. Segundo fontes ouvidas pela <em>P\u00fablica<\/em>, ele \u201cn\u00e3o se furtaria\u201d a assumir, mas s\u00f3 o faria dentro de limites constitucionais, ou seja, em caso de vac\u00e2ncia no cargo.<\/p>\n<p>\u201cO Mour\u00e3o se imp\u00f4s um limite \u00e9tico para lidar com a pol\u00edtica. N\u00e3o disputar\u00e1 contra Bolsonaro e nem impor\u00e1 desgaste a ele. \u00c9 um homem de vis\u00e3o de mundo diferenciada, entende muito do que fala, compreende o pa\u00eds e tem tr\u00e2nsito confort\u00e1vel na pol\u00edtica externa. Seu perfil n\u00e3o \u00e9 do interesse do presidente e nem oposi\u00e7\u00e3o\u201d, avalia a fonte pr\u00f3xima ao vice.<\/p>\n<p>Em entrevista na quinta-feira, 22 de abril, Mour\u00e3o disse que, por lealdade, n\u00e3o disputar\u00e1 com Bolsonaro em 2022 e apontou como seu horizonte a candidatura ao Senado ou simplesmente a aposentadoria. Em janeiro, quando veio \u00e0 tona not\u00edcia sobre um assessor parlamentar da vice-presid\u00eancia que falava com chefes de gabinete de v\u00e1rios deputados sobre a necessidade de se preparar para um eventual impeachment, Mour\u00e3o o demitiu, marcando sua postura p\u00fablica sobre a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Cr\u00edtico corrosivo de Bolsonaro e um dos mais empenhados na constru\u00e7\u00e3o da terceira via, o general Paulo Chagas v\u00ea Mour\u00e3o como um reserva preparado tanto para um eventual impeachment quanto como nome vi\u00e1vel pela terceira via. \u201cBenza Deus que ele aceite! Mour\u00e3o tem toda capacidade para colocar ordem na casa democraticamente, mas isso agora n\u00e3o interessa ao presidente nem \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o, que quer ver Bolsonaro sangrar at\u00e9 o fim do governo\u201d, diz.<\/p>\n<p>O coronel Jorge de Souza pensa diferente. \u201cMour\u00e3o n\u00e3o vai em bola dividida. Ficar\u00e1 na cara do gol\u201d, afirma, referindo-se ao prov\u00e1vel desgaste que Bolsonaro enfrentar\u00e1 com o avan\u00e7o da CPI da Covid, o que, na sua opini\u00e3o, poder\u00e1 desengavetar um dos mais de cem pedidos de impeachment parados na C\u00e2mara.<\/p>\n<p>Em entrevista ao jornal <em>Valor Econ\u00f4mico<\/em>, o vice defendeu a caserna e antagonizou mais uma vez com Bolsonaro. Afirmou que o Ex\u00e9rcito n\u00e3o pode ser responsabilizado pela atua\u00e7\u00e3o do ex-ministro da Sa\u00fade, Eduardo Pazuello. E disse que chegou a aconselhar o ex-ministro a deixar o servi\u00e7o da ativa quando ele assumiu o combate \u00e0 pandemia. \u00c0 tarde, logo depois de ter recebido a segunda dose da vacina Coronavac, se recusou a falar sobre a CPI. \u201cIsso a\u00ed n\u00e3o tem nada a ver comigo. Sem coment\u00e1rios\u201d, desvia-se.<\/p>\n<p>A CPI deve pegar Bolsonaro em pontos fr\u00e1geis: o insistente apelo \u00e0 popula\u00e7\u00e3o pelo uso de medica\u00e7\u00e3o sem efic\u00e1cia, o boicote ao distanciamento social, a falta de rem\u00e9dios para intuba\u00e7\u00e3o e de oxig\u00eanio para UTIs, a recusa em comprar vacina a tempo de evitar o espantoso aumento de mortes e a demora em prover a sa\u00fade de insumos necess\u00e1rios ao combate \u00e0 pandemia.<\/p>\n<p>Refor\u00e7a as acusa\u00e7\u00f5es \u2013 23 delas listadas pelo pr\u00f3prio governo em um documento encaminhado a todos os minist\u00e9rios \u2013 um pedido de impeachment da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no qual um parecer do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ayres Britto sustenta existirem ind\u00edcios fortes de crime de responsabilidade cometido pelo presidente. O parecer afirma que Bolsonaro sabotou as medidas que poderiam aliviar a trag\u00e9dia, o que acabou transformando o v\u00edrus numa esp\u00e9cie de arma biol\u00f3gica contra a popula\u00e7\u00e3o. A OAB entretanto ainda n\u00e3o protocolou o pedido, e pode faz\u00ea-lo em pleno vigor da CPI.<\/p>\n<p>Bolsonaro n\u00e3o conseguiu barrar a CPI e ainda ter\u00e1 de enfrent\u00e1-la em desvantagem, j\u00e1 que o controle da investiga\u00e7\u00e3o, pelo acordo fechado, ser\u00e1 exercido pela oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA CPI vai render manchetes di\u00e1rias, mostrar\u00e1 nomes, extratos, vai revolver a pol\u00edtica\u201d, alerta o general Etchegoyen, com a experi\u00eancia de quem teve sob seu controle a Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia (Abin) e enfrentou as muitas crises do governo Temer.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de Paulo Chagas, Bolsonaro fracassou na condu\u00e7\u00e3o do governo e agora est\u00e1 com a \u201ccabe\u00e7a na guilhotina\u201d da CPI.\u00a0Segundo o coronel Jorge de Souza, os generais t\u00eam at\u00e9 um plano para a hip\u00f3tese de uma reviravolta que ponha Mour\u00e3o no Pal\u00e1cio do Planalto: um pacto para enfrentamento da pandemia e dos efeitos desta na economia, seguido da demiss\u00e3o de ministros tidos como ex\u00f3ticos ou alinhados ao extremismo alimentado pelo presidente.<\/p>\n<p>Ele acha, no entanto, que o perfil real do vice \u00e9 diferente do que \u00e9 vendido pelo marketing. \u201cNum hipot\u00e9tico cen\u00e1rio de delegacia, em que o preso \u00e9 torturado para falar, Mour\u00e3o faz o papel do bom policial. As pessoas gostam dele porque \u00e9 informal, brinca no \u2018gauchal\u2019 e tenta passar para a imprensa a imagem de male\u00e1vel. Mas que ningu\u00e9m se engane. Se for\u00e7ar uma pergunta que n\u00e3o goste, ele explode. Mour\u00e3o \u00e9 autorit\u00e1rio\u201d, diz.<\/p>\n<p>O coronel conta que assistiu, no QG do Ex\u00e9rcito, em 2016, o hoje vice-presidente, num inflamado discurso \u00e0 tropa, chamar o coronel Carlos Brilhante Ustra, um dos nomes ligados \u00e0 tortura nos anos de chumbo, de her\u00f3i e combatente anticomunista. \u201cMour\u00e3o \u00e9 mais preparado e mais perigoso que Bolsonaro. Ele comanda o Bolsonaro, e n\u00e3o o contr\u00e1rio\u201d, afirma o oficial.<\/p>\n<p>Para Souza, os generais ter\u00e3o a paci\u00eancia necess\u00e1ria para aguardar que o agravamento da crise \u201cconsolide a ideia de Mour\u00e3o \u00e9 o cara\u201d.<\/p>\n<p><strong>Aquele abra\u00e7o e Gilberto Gil<\/strong><br \/>\nPresidente do Conselho Nacional da Amaz\u00f4nia, Mour\u00e3o tem se ocupado dos temas que considera relevantes para o pa\u00eds. \u00c9 de sua lavra o levantamento que levou Bolsonaro a prometer neutralidade na emiss\u00e3o de gases de efeito estufa at\u00e9 2050 e o fim do desmatamento ilegal na Amaz\u00f4nia at\u00e9 2030, no discurso de quinta-feira (22\/4) \u00e0 C\u00fapula do Clima, visto como bom sinal pelos l\u00edderes mundiais, mas irreal diante do desmonte dos \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o e da falta de previs\u00e3o de recursos.<\/p>\n<p>Dias antes, quando o n\u00famero de v\u00edtimas do coronav\u00edrus batia a tr\u00e1gica marca dos 4 mil mortos di\u00e1rios, ele reagiu com aparente perda de paci\u00eancia com a gest\u00e3o da sa\u00fade: \u201cP\u00f4, j\u00e1 ultrapassou o limite do bom senso\u201d, disse, ressaltando que era necess\u00e1rio um plano para salvar vidas.<\/p>\n<p>Se Bolsonaro tem as j\u00e1 famosas lives das quintas-feiras para falar contra as medidas de combate \u00e0 pandemia, Mour\u00e3o tem o Por dentro da Amaz\u00f4nia, um programa semanal gravado \u00e0s segundas-feiras destinado aos 23 milh\u00f5es de habitantes da Amaz\u00f4nia Legal. O programa \u00e9 transmitido pela Rede Nacional de R\u00e1dio pelo mesmo sinal da Voz do Brasil, gerido pela Empresa Brasileira de Comunica\u00e7\u00e3o (EBC) e chega a regi\u00f5es sem acesso \u00e0 internet ou \u00e0 energia el\u00e9trica. Pode ser acessado tamb\u00e9m pelo YouTube.<\/p>\n<p>Ali ele lista focos de desmatamento, pede ajuda dos moradores e se diz preocupado com a pandemia, fazendo recomenda\u00e7\u00f5es que deveriam partir do Pal\u00e1cio do Planalto. \u201cA Covid-19 est\u00e1 na esquina, \u00e0 espreita. N\u00e3o deixe de se vacinar, mantenha dist\u00e2ncia e n\u00e3o se aglomere\u201d, repete sempre. Num desses programas, descontra\u00eddo, se despediu com uma cita\u00e7\u00e3o que irrita os ouvidos do presidente: \u201cComo diria o grande Gilberto Gil, al\u00f4 povo da Amaz\u00f4nia, aquele abra\u00e7o!\u201d. Gil, como se sabe, foi ministro da Cultura de Lula.<\/p>\n<p>Na mesma transmiss\u00e3o, em 29 de mar\u00e7o, ele anunciou o fim do programa Brasil Verde II, destinado a combater as atividades ilegais na Amaz\u00f4nia e uma esp\u00e9cie de menina dos olhos do vice, que havia montado uma superestrutura militar para auxili\u00e1-lo.<\/p>\n<p>No dia em que apresentava um balan\u00e7o que considera positivo \u2013 a queda de 23% no desmatamento entre 1\u00ba de junho de 2020 e 31 de mar\u00e7o deste ano, a apreens\u00e3o de 500 mil metros c\u00fabicos de madeira, 335 tratores e mais de mil m\u00e1quinas de serrarias e minera\u00e7\u00e3o ilegal e R$ 3,3 bilh\u00f5es em multas \u2013, Mour\u00e3o foi surpreendido com boatos segundo os quais Bolsonaro pretendia criar um minist\u00e9rio para a Amaz\u00f4nia como pr\u00eamio de consola\u00e7\u00e3o ao ex-ministro da Sa\u00fade Eduardo Pazuello, que havia perdido o combate contra o v\u00edrus.<\/p>\n<p>O vice desconfiou, no entanto, que o movimento n\u00e3o era s\u00f3 para socorrer Pazuello. Um assessor do Conselho da Amaz\u00f4nia disse \u00e0 <em>P\u00fablica<\/em> que Mour\u00e3o reagiu com perplexidade por n\u00e3o ter sido sequer consultado sobre uma op\u00e7\u00e3o que, de cara, esvaziaria o \u00f3rg\u00e3o que estruturou a duras penas, enfrentando inclusive desconfian\u00e7as do entorno do pr\u00f3prio presidente. Mas reagiu em p\u00fablico com bom humor, declarando que, se um novo minist\u00e9rio n\u00e3o tivesse como meta dar corpo ao que chama de \u201cbioeconomia\u201d, termo que usa para se referir ao desenvolvimento sustent\u00e1vel, o presidente estaria procurando \u201cdeserto para mais um camelo\u201d.<\/p>\n<p>O programa Brasil Verde, uma vitrine ainda emba\u00e7ada que Mour\u00e3o tentou vender ao mundo, chegaouao fim melanc\u00f3lico neste final de abril, como mais um paliativo governamental de resultado p\u00edfio no combate ao desmatamento e \u00e0s queimadas.<\/p>\n<p>Na contram\u00e3o do Ministro Ricardo Salles \u2013 que chegou a se reunir em seu gabinete com madeireiros de Santa Catarina fornecedores da\u00a0 empresa que foi o principal alvo da apreens\u00e3o recorde de madeira ilegal na Amaz\u00f4nia, realizada durante a Opera\u00e7\u00e3o Handroanthus GLO, como revelou a<em> P\u00fablica<\/em> \u00a0\u2013 o general Mour\u00e3o tem apoiado as a\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o e, ao ser obrigado a encerrar o <em>Brasil Verde<\/em> por falta de recursos, criou o <em>Plano Amaz\u00f4nia 21\/22<\/em>, para tentar estancar a alta incid\u00eancia de crimes ambientais.<\/p>\n<p>O plano prev\u00ea a sinergia de pelo menos dez \u00f3rg\u00e3os de controle, mas at\u00e9 agora \u00e9 s\u00f3 uma inten\u00e7\u00e3o. Mour\u00e3o diz que a ideia \u00e9 organizar concursos p\u00fablicos para fiscais que se disponham a formar equipes permanentes por seis anos ininterruptos na Amaz\u00f4nia e que atuariam auxiliados por centrais de intelig\u00eancia baseadas em Porto Velho, Bel\u00e9m e Manaus, em opera\u00e7\u00f5es deflagradas de acordo com o surgimento de focos de inc\u00eandio monitorados por sat\u00e9lite. O vice estima que, com um gasto anual de 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares, \u00e9 poss\u00edvel chegar em 2030 com desmatamento zero.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o deslancha, o programa<em> Por dentro da Amaz\u00f4nia<\/em> continua, dando voz semanalmente ao vice-presidente, todas as 2\u00aa feiras \u00e0s 9h e \u00e0s 20h30. O \u00faltimo epis\u00f3dio teve pouco mais de 200 visualiza\u00e7\u00f5es no Youtube.<\/p>\n<p>A deputada Tabata Amaral (PDT-SP) enxerga o vice como uma inc\u00f3gnita. \u201cAinda \u00e9 cedo para saber de que lado est\u00e1 o general Mour\u00e3o. Ele tem uma caracter\u00edstica que o difere dos demais [militares do governo], que \u00e9 ser indemiss\u00edvel. Pode questionar, pode se posicionar, que continuar\u00e1 sendo o vice-presidente da Rep\u00fablica. De certa forma, ele representa uma parcela dos militares. Mas por mais que tenha um discurso mais moderado, ainda \u00e9 uma pessoa que defende que n\u00e3o houve golpe militar. Espero que a gente n\u00e3o dependa dele para a sobreviv\u00eancia da democracia\u201d, diz a deputada \u00e0 <em>P\u00fablica.<\/em><\/p>\n<p>Tabata fez um\u00a0 levantamento em parceria com o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) mostrando que, al\u00e9m de nove dos 21 ministros serem militares \u2013 todos eles levaram coron\u00e9is da reserva e da ativa como assessores \u2013, em outros escal\u00f5es os cargos de confian\u00e7a ligados ao Pal\u00e1cio do Planalto mais que triplicaram desde o governo Dilma (eram 102 e agora s\u00e3o 343), com amplo destaque para o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, no qual a presen\u00e7a militar saltou de um para 30 na gest\u00e3o do ex-ministro Eduardo Pazuello.<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo Piero Leiner, da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (Ufscar), avalia que as diferen\u00e7as p\u00fablicas entre presidente e vice fazem parte de uma estrat\u00e9gia. \u201cDesde a elei\u00e7\u00e3o, Mour\u00e3o faz o papel de um \u2018contradit\u00f3rio\u2019: Bolsonaro diz, ele desdiz. Mas \u00e9 preciso ter em mente que essa \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o emulada. Este \u00e9 um governo pensado e executado por militares, e Mour\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 tamb\u00e9m para fazer esse papel de subordina\u00e7\u00e3o militar, que \u00e9 a ideia do \u2018ele manda, n\u00f3s obedecemos\u2019. A ideia \u00e9 que nas v\u00e1rias inst\u00e2ncias fique clara a apar\u00eancia de que Bolsonaro seria uma coisa, os militares outra. Assim, eles podem aparecer como uma inst\u00e2ncia de modera\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 uma premissa falsa, uma vez que Bolsonaro \u00e9 obra deles\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Um dos maiores estudiosos das For\u00e7as Armadas no Brasil, o cientista pol\u00edtico Jo\u00e3o Roberto Martins Filho diz que a conta pelo apoio a Bolsonaro j\u00e1 est\u00e1 chegando aos militares. \u201cAs For\u00e7as Armadas, em especial o Ex\u00e9rcito, est\u00e3o muito comprometidas com esse governo e pagam o pre\u00e7o com grande desgaste. Tem pesquisa mostrando que j\u00e1 est\u00e3o em terceiro lugar (18%) entre as institui\u00e7\u00f5es que apresentam perda de confian\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o e em \u00faltimo (1%) entre as que apresentaram aumento da confian\u00e7a\u201d, diz \u00e0 <em>P\u00fablica<\/em>.<\/p>\n<p>Martins Filho se refere \u00e0 pesquisa Exame\/Ideias sobre o efeito da gest\u00e3o da pandemia nas institui\u00e7\u00f5es, com 1.259 entrevistados, feita entre 5 e 7 de mar\u00e7o e publicada no \u00faltimo dia 10, portanto antes das mudan\u00e7as feitas por Bolsonaro no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e nos comandos da Defesa e das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p>O pesquisador acha que j\u00e1 h\u00e1 sintomas de insatisfa\u00e7\u00e3o entre os militares da ativa pelo fato de Bolsonaro ter tentado interferir nos comandos em busca de uma lealdade no conflito com o STF e certa fissura no generalato que ocupa cargos no governo. Ele, no entanto, n\u00e3o acredita em rompimento. \u201cV\u00e3o procurar remendar o que foi feito e est\u00e3o pensando nas elei\u00e7\u00f5es do ano que vem. Se perceberem que Bolsonaro pode cair, v\u00e3o de Mour\u00e3o, que faz aquecimento no canto do campo e \u00e9 palat\u00e1vel\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O coronel Jorge de Souza acha que esse desgaste ser\u00e1 ainda maior quando a popula\u00e7\u00e3o perceber com mais clareza que os militares \u201cs\u00e3o o governo\u201d, j\u00e1 que o prest\u00edgio da tropa junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o era motivado justamente pelo distanciamento da pol\u00edtica, rompido, segundo ele, pelo envolvimento do Alto-Comando do Ex\u00e9rcito nos movimentos que antecederam o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>Dos 17 oficiais que integravam a c\u00fapula da for\u00e7a \u00e0 \u00e9poca, 16 est\u00e3o ou estiveram em fun\u00e7\u00f5es pol\u00edticas nos governos de Michel Temer e de Bolsonaro, que simplesmente militarizou a Esplanada.<\/p>\n<p>\u201cA gera\u00e7\u00e3o dos anos 70 \u00e9 o problema. Eles est\u00e3o gostando do poder\u201d, diz Jorge de Souza, para quem \u201c\u00e9 necess\u00e1rio fazer regredir a marcha da politiza\u00e7\u00e3o nos quart\u00e9is\u201d e desgrudar a imagem das For\u00e7as Armadas de Bolsonaro. \u201cOs generais n\u00e3o t\u00eam jogo de cintura para exercer fun\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que s\u00e3o civis.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 27 meses no cargo, o general Hamilton Mour\u00e3o construiu uma trajet\u00f3ria bem diferente da dos vices nos \u00faltimos 60 anos. 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