{"id":2564,"date":"2014-02-23T10:01:52","date_gmt":"2014-02-23T13:01:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=2564"},"modified":"2014-02-23T18:58:19","modified_gmt":"2014-02-23T21:58:19","slug":"teoria-da-evolucao-em-xeque-gay-nao-reproduz-mas-dissemina-e-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/teoria-da-evolucao-em-xeque-gay-nao-reproduz-mas-dissemina-e-agora\/","title":{"rendered":"Darwin em xeque. Gay n\u00e3o reproduz, mas dissemina. E agora?"},"content":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, dezenas de artigos cient\u00edficos sobre as origens biol\u00f3gicas da homossexualidade foram publicados &#8211; um deles, divulgado na semana passada, reacendeu a pol\u00eamica sobre o assunto. Mas como esta constata\u00e7\u00e3o se encaixa na teoria de sele\u00e7\u00e3o natural de Charles Darwin?<\/p>\n<p>Na m\u00fasica Same Love, que se tornou um hino n\u00e3o-oficial de apoio ao casamento gay nos Estados Unidos, a dupla Macklemore e Ryan Lewis, vencedores do pr\u00eamio Grammy de Melhor Artista Revela\u00e7\u00e3o na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio musical, ironiza quem diz acreditar que a homossexualidade \u00e9 fruto de uma &#8220;escolha&#8221;.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o cient\u00edfica parece estar do lado deles. Desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 90, pesquisadores v\u00eam mostrando que a homossexualidade \u00e9 mais comum em irm\u00e3os e parentes da mesma linhagem materna.<\/p>\n<p>Segundo esses cientistas, isso se deve a um fator gen\u00e9tico. Tamb\u00e9m relevantes &#8211; apesar de ainda n\u00e3o amplamente comprovadas &#8211; s\u00e3o as pesquisas que identificam diferen\u00e7as fisiol\u00f3gicas nos c\u00e9rebros de heterossexuais e de gays, assim como os estudos que afirmam que o comportamento homossexual tamb\u00e9m est\u00e1 presente em animais.<\/p>\n<p>Mas, como gays e l\u00e9sbicas t\u00eam normalmente menos filhos biol\u00f3gicos do que os heterossexuais, uma quest\u00e3o continua intrigando pesquisadores de todo o mundo.<\/p>\n<p>&#8220;Se a homossexualidade masculina, por exemplo, \u00e9 um tra\u00e7o gen\u00e9tico, como teria perdurado ao longo do tempo se os ind\u00edviduos que carregam &#8216;esses genes&#8217; n\u00e3o se reproduzem?&#8221;, indaga o pesquisador Paul Vasey, da Universidade de Lethbridge, no Canad\u00e1.<\/p>\n<p>Muitas das teorias envolvem pesquisas realizadas sobre a homossexualidade masculina. A evolu\u00e7\u00e3o do lesbianismo permanece muito pouco estudada. Ela pode ser semelhante ou muito diferente.<\/p>\n<p>Os cientistas ainda n\u00e3o sabem a resposta para esse quebra-cabe\u00e7a darwinista, mas h\u00e1 muitas teorias em jogo e \u00e9 poss\u00edvel que diferentes mecanismos atuem em cada pessoa.<\/p>\n<p>Conhe\u00e7a algumas das principais teorias a respeito do assunto:<\/p>\n<p>Genes que definem a homossexualidade tamb\u00e9m ajudam na reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O alelo &#8211; um grupo de genes &#8211; que \u00e0s vezes influencia a orienta\u00e7\u00e3o homossexual tamb\u00e9m pode trazer vantagens reprodutivas. Isso compensaria a falta de reprodu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o gay e asseguraria a continua\u00e7\u00e3o dessa caracter\u00edstica, uma vez que n\u00e3o-homossexuais tamb\u00e9m poderiam herdar esses genes e transmiti-los a seus descendentes.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas ou mais maneiras pelas quais esta transmiss\u00e3o dos genes pode acontecer. Uma possibilidade \u00e9 que este grupo de genes crie um tra\u00e7o psicol\u00f3gico que torne os homens heterossexuais mais atraentes para mulheres, ou as mulheres heterossexuais mais atraentes para os homens.<\/p>\n<p>&#8220;Sabemos que as mulheres tendem a gostar de tra\u00e7os e comportamentos mais femininos nos homens e isso pode estar associado com coisas como o talento para ser pai e a empatia&#8221;, diz Qazi Rahman, coautor do livro Born Gay; The Psychobiology of Sex Orientation (&#8220;Nascido Gay, A Psicobiologia da Orienta\u00e7\u00e3o Sexual&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<p>De acordo com essa teoria, uma quantidade pequena desses alelos aumentaria as chances de sucesso reprodutivo do portador desses genes, porque o torna atraente para o sexo oposto.<\/p>\n<p>De vez em quando, um membro da fam\u00edlia recebe uma &#8220;por\u00e7\u00e3o&#8221; maior destes genes, que se reflete na sua orienta\u00e7\u00e3o sexual. Mas porque este alelo traz vantagens reprodutivas, ele permanece no DNA humano atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Alguns pesquisadores acreditam que, para entender a evolu\u00e7\u00e3o dos homossexuais, \u00e9 preciso observar qual \u00e9 o papel que os gays t\u00eam nas sociedades humanas.<\/p>\n<p>A pesquisa de Paul Vasey em Samoa, na Polin\u00e9sia, baseou-se na teoria da sele\u00e7\u00e3o de parentesco ou hip\u00f3tese do &#8220;ajudante no ninho&#8221;.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 que os homossexuais compensariam a falta de filhos ao promover a aptid\u00e3o reprodutiva de irm\u00e3os e irm\u00e3s, contribuindo financeiramente ou cuidando dos sobrinhos. Partes do c\u00f3digo gen\u00e9tico de um gay s\u00e3o compartilhadas com sobrinhas e sobrinhos e, segundo a teoria, os genes que determinam a orienta\u00e7\u00e3o sexual tamb\u00e9m podem ser transmitidos.<\/p>\n<p>Vasey ainda n\u00e3o mediu o quanto que ser homossexual aumenta a taxa de reprodu\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os, mas comprovou que em Samoa, homens gays passam mais tempo fazendo &#8220;atividades de tio&#8221; do que homens heterossexuais.<\/p>\n<p>&#8220;Ningu\u00e9m ficou mais surpreso que eu&#8221;, disse Vasey sobre suas descobertas. Seu laborat\u00f3rio j\u00e1 havia comprovado que homens gays no Jap\u00e3o n\u00e3o eram mais atenciosos ou generosos com seus sobrinhos e sobrinhas do que homens e mulheres heterossexuais sem filhos. O mesmo resultado foi encontrado na Gr\u00e3-Bretanha, nos Estados Unidos e no Canad\u00e1.<\/p>\n<p>Vasey acredita que o resultado em Samoa foi diferente porque os homens que ele estudou l\u00e1 eram diferentes. Ele pesquisou os fa&#8217;afafine, que se identificam como um terceiro g\u00eanero, vestindo-se como mulheres e tendo rela\u00e7\u00f5es sexuais com homens que se consideram heterossexuais. Os fa&#8217;afafine s\u00e3o parte de um grupo transg\u00eanero e n\u00e3o gostam de ser chamados de gays nem de homossexuais.<\/p>\n<p>O pesquisador especulam que parte da raz\u00e3o pela qual os fa&#8217;afafine s\u00e3o mais atenciosos com seus sobrinhos e sobrinhas \u00e9 sua aceita\u00e7\u00e3o na cultura de Samoa, em compara\u00e7\u00e3o com os gays no Ocidente e no Jap\u00e3o. A l\u00f3gica \u00e9 a de que gays que s\u00e3o rejeitados tendem a ajudar menos os familiares a criarem seus filhos.<\/p>\n<p>Mas ele tamb\u00e9m acredita que h\u00e1 alguma coisa no estilo de vida dos fa&#8217;afafine que os torna mais propensos a serem carinhosos com seus sobrinhos e sobrinhas. E especula que encontrar\u00e1 resultados semelhantes em outros grupos de &#8220;terceiro g\u00eanero&#8221; ao redor do mundo.<\/p>\n<p>Se isso for comprovado, a teoria do &#8220;ajudante no ninho&#8221; pode explicar em parte como um tra\u00e7o gen\u00e9tico da atra\u00e7\u00e3o pelo mesmo sexo n\u00e3o foi exclu\u00eddo dos humanos ao longo da evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo com uma menor capacidade de se reproduzir, homossexuais que se identificam como um &#8220;terceiro g\u00eanero&#8221; ajudariam a aumentar a capacidade reprodutiva de seus parentes heterossexuais, ao assumirem cuidados com as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, cerca de 37% da popula\u00e7\u00e3o l\u00e9sbica, gay, bissexual e transsexual t\u00eam filhos, 60% dos quais s\u00e3o biol\u00f3gicos. De acordo com o Instituto Williams, casais gays com filhos t\u00eam, em m\u00e9dia, dois.<\/p>\n<p>Estes n\u00fameros podem n\u00e3o ser altos o suficiente para sustentar que tra\u00e7os gen\u00e9ticos espec\u00edficos ao grupo sejam passados adiante, mas o bi\u00f3logo evolucionista Jeremy Yoder lembra que durante boa parte da hist\u00f3ria moderna, pessoas gays n\u00e3o viveram vidas abertamente homossexuais.<\/p>\n<p>Obrigadas pela sociedade a casarem e terem filhos, suas taxas reprodutivas devem ter sido mais altas do que s\u00e3o hoje.<\/p>\n<p>Medir a quantidade de gays que t\u00eam filhos tamb\u00e9m depende de como voc\u00ea define &#8220;ser gay&#8221;. Muitos dos homens heterossexuais que t\u00eam rela\u00e7\u00f5es sexuais com os fa&#8217;afafine em Samoa casam-se com mulheres e t\u00eam filhos.<\/p>\n<p>&#8220;A categoria da atra\u00e7\u00e3o pelo mesmo sexo se torna muito difusa quando temos uma perspectiva multicultural&#8221;, diz Joan Roughgarden, um bi\u00f3logo evolucionista na Universidade do Hava\u00ed.<\/p>\n<p>No Ocidente h\u00e1 ind\u00edcios de que muitas pessoas passam por uma fase de atividade homossexual, mesmo que sejam principalmente heterossexuais.<\/p>\n<p>Isso tornaria mais complicado afirmar que somente pais que levam uma vida homossexual poderiam passar &#8220;genes gays&#8221; adiante.<\/p>\n<p>Nos anos 1940, o pesquisador de sexo americano Alfred Kinsey descobriu que apenas 4% dos homens brancos eram exclusivamente gays ap\u00f3s a adolesc\u00eancia, mas 10% dos homens tiveram um per\u00edodo de atividade gay de 3 anos e 37% tiveram rela\u00e7\u00f5es com algu\u00e9m do mesmo sexo em algum momento de suas vidas.<\/p>\n<p>Uma pesquisa nacional de atitudes em rela\u00e7\u00e3o ao sexo feita na Gr\u00e3-Bretanha em 2013 apresentou n\u00famero mais baixos. Cerca de 16% das mulheres disseram ter tido alguma experi\u00eancia sexual com outra mulher (8% tiveram contato genital) e 7% dos homens disseram ter tido alguma experi\u00eancia sexual com um homem (5% tiveram contato genital).<\/p>\n<p>Mas a maior parte dos cientistas pesquisando a evolu\u00e7\u00e3o gay est\u00e3o mais interessados na exist\u00eancia de um padr\u00e3o de desejo interno cont\u00ednuo. Identificar-se como gay ou heterossexual n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante, nem ter rela\u00e7\u00f5es homossexuais com maior ou menor frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;A identidade sexual e os comportamentos sexuais n\u00e3o s\u00e3o boas medidas da orienta\u00e7\u00e3o sexual. Os sentimentos sexuais, sim&#8221;, diz Paul Vasey.<\/p>\n<p>Qazi Rahmandiz afirma que grupos de genes que determinam a atra\u00e7\u00e3o pelo mesmo sexo s\u00f3 explicam parte da variedade da sexualidade humana.<\/p>\n<p>Outros fatores biol\u00f3gicos que variam naturalmente tamb\u00e9m interferem. Um em cada sete homens, por exemplo, devem sua sexualidade ao &#8220;Efeito Big Brother&#8221;: observou-se que garotos com irm\u00e3os mais velhos t\u00eam maiores chances de serem gays &#8211; cada irm\u00e3o mais velho aumentaria as chances de homossexualidade em cerca de um ter\u00e7o.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se sabe o porqu\u00ea, mas uma teoria \u00e9 a de que a cada gravidez de um beb\u00ea do sexo masculino, o corpo da mulher desenvolve uma rea\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica a prote\u00ednas que tem um papel no desenvolvimento do c\u00e9rebro masculino.<\/p>\n<p>Como isto s\u00f3 interfere de alguma forma no beb\u00ea depois que muitos irm\u00e3os j\u00e1 nasceram &#8211; a maioria dos quais ser\u00e3o heterossexuais e ter\u00e3o filhos &#8211; esta peculiaridade pr\u00e9-natal n\u00e3o foi descartada pela evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o a n\u00edveis incomuns de horm\u00f4nios antes do nascimento tamb\u00e9m pode afetar a sexualidade. Por exemplo, fetos de f\u00eameas expostos a altos n\u00edveis de testosterona antes do nascimento demonstram altos \u00edndices de lesbianismo depois.<\/p>\n<p>Estudos mostram que mulheres l\u00e9sbicas e homens &#8220;mach\u00f5es&#8221; tem uma diferen\u00e7a no comprimento dos dedos indicador e anular &#8211; que demonstra a exposi\u00e7\u00e3o pr\u00e9-natal \u00e0 testosterona. Em l\u00e9sbicas &#8220;femininas&#8221; esta diferen\u00e7a \u00e9 muito menor.<\/p>\n<p>Os g\u00eameos id\u00eanticos tamb\u00e9m provocam questionamentos. Pesquisas descobriram que se um g\u00eameo \u00e9 gay, h\u00e1 cerca de 20% de chance de que seu g\u00eameo id\u00eantico tenha a mesma orienta\u00e7\u00e3o sexual. Apesar de a probabilidade ser maior do que o normal, ainda \u00e9 pequena considerando que os dois tem o mesmo c\u00f3digo gen\u00e9tico.<\/p>\n<p>William Rice, da Universidade da Calif\u00f3rnia Santa Barbara, diz que pode ser poss\u00edvel explicar isso olhando n\u00e3o para nosso c\u00f3digo gen\u00e9tico, mas para o modo como ele \u00e9 processado. Rice e seus colegas se referem ao campo emergente da epigen\u00e9tica, que estuda como partes do nosso DNA s\u00e3o &#8220;ligadas&#8221; ou &#8220;desligadas&#8221;.<\/p>\n<p>Para Qazi Rahman, \u00e9 a m\u00eddia que simplifica excessivamente as teorias gen\u00e9ticas da sexualidade, com suas reportagens sobre a descoberta do &#8220;gene gay&#8221;. Ele acredita que a sexualidade envolve dezenas ou centenas de grupos de genes que provavelmente levaremos d\u00e9cadas at\u00e9 descobrir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, dezenas de artigos cient\u00edficos sobre as origens biol\u00f3gicas da homossexualidade foram publicados &#8211; um deles, divulgado na semana passada, reacendeu a pol\u00eamica sobre o assunto. Mas como esta constata\u00e7\u00e3o se encaixa na teoria de sele\u00e7\u00e3o natural de Charles Darwin? 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