{"id":256427,"date":"2021-05-05T22:17:18","date_gmt":"2021-05-06T01:17:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=256427"},"modified":"2021-05-05T22:19:05","modified_gmt":"2021-05-06T01:19:05","slug":"bolsonaro-matou-o-seu-pai-maria-ele-e-um-genocida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bolsonaro-matou-o-seu-pai-maria-ele-e-um-genocida\/","title":{"rendered":"&#8216;Bolsonaro matou o seu pai, Maria&#8230; Ele \u00e9 um genocida&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Maria, voc\u00ea tem apenas 2 anos. Um, dois. E apenas esses dois anos separam seu nascimento da morte do seu pai. Lilo Clareto morreu em 21 de abril. A causa oficial da certid\u00e3o de \u00f3bito \u00e9: \u201csepse grave, pneumonia associada \u00e0 ventila\u00e7\u00e3o e covid (tardia)\u201d. Mas essa \u00e9 apenas a verdade parcial sobre a morte do seu pai. Eu olho para voc\u00ea, Maria, e me preparo para a conversa que um dia teremos, aquela em que precisarei contar a voc\u00ea a verdade inteira.<\/p>\n<p>Maria, seu pai foi v\u00edtima de exterm\u00ednio. Seu pai \u00e9 um dos mais de 410.000 brasileiros que tombaram por um crime contra a humanidade entre os anos de 2020 e 2021. Enquanto eu escrevo essa carta para voc\u00ea, os assassinatos seguem acontecendo a uma m\u00e9dia de quase 2.400 cad\u00e1veres por dia. Eu olho para voc\u00ea, Maria, e voc\u00ea ainda diz, os olhos escancarados de expectativa, quando algu\u00e9m faz barulho na porta da frente: \u201cpa!\u201d. E, ent\u00e3o, decepcionada: \u201cpa?\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o, Maria, seu pai n\u00e3o entrar\u00e1 mais pela porta da casa cantando e com as m\u00e3os estendidas para pegar voc\u00ea no colo. Enquanto escrevo essa carta para voc\u00ea, Maria, seu pai virou cinzas. Essas cinzas ser\u00e3o um dia jogadas na boca do Riozinho, l\u00e1 onde esse rio, s\u00f3 pequeno no nome, encontra o Iriri, na Terra do Meio, na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Sei que mesmo que eu espere at\u00e9 voc\u00ea ficar muito mais velha, Maria, voc\u00ea n\u00e3o ser\u00e1 capaz de entender por completo. Voc\u00ea j\u00e1 poder\u00e1 compreender o pensamento de Davi Kopenawa, Sueli Carneiro e Paul Preciado, mas n\u00e3o ter\u00e1 como compreender o pensamento de um homem que, na maior crise sanit\u00e1ria da hist\u00f3ria do Brasil, trabalhou para disseminar um v\u00edrus que pode matar. E mata.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa a idade que voc\u00ea tenha e os diplomas que acumular, Maria. Ainda assim n\u00e3o haver\u00e1 como compreender um homem que estimulou as aglomera\u00e7\u00f5es quando os m\u00e9dicos pediam que a popula\u00e7\u00e3o ficasse em casa. Um homem que vetou a obrigatoriedade de uso de m\u00e1scaras quando as popula\u00e7\u00f5es da maioria dos pa\u00edses do mundo usava m\u00e1scaras para se proteger da contamina\u00e7\u00e3o. Um homem que esbanjou dinheiro p\u00fablico com medicamentos comprovadamente sem efic\u00e1cia contra uma doen\u00e7a fatal e mentiu para a popula\u00e7\u00e3o que eram eficazes. Um homem que chamou o que matou seu pai e quase meio milh\u00e3o de brasileiras e brasileiros (at\u00e9 agora) de \u201cgripezinha\u201d. Um homem que recusou as vacinas contra essa doen\u00e7a que converteu voc\u00ea em \u00f3rf\u00e3. N\u00e3o, Maria, voc\u00ea n\u00e3o poder\u00e1 entender esse homem em nenhuma circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Voc\u00ea olhar\u00e1 para mim com seus olhos escuros, suas pupilas negras, em busca de esclarecimento. Eu vou olhar para voc\u00ea e prometo fazer o poss\u00edvel para n\u00e3o baixar os olhos. Porque, Maria, eu n\u00e3o tenho resposta. Muitas teorias j\u00e1 foram feitas sobre genocidas como Adolf Hitler, Pol Pot e Slobodan Milosevic. Eu j\u00e1 li algumas delas. E muitas, tenho certeza, ser\u00e3o feitas sobre Jair Bolsonaro. E tamb\u00e9m se escrever\u00e1 muito sobre as brasileiras e brasileiros que o sustentaram no poder. Primeiro com seu voto, depois com sua cren\u00e7a. Assim como tantos filmes e livros foram feitos e escritos sobre os alem\u00e3es medianos que sustentaram, com sua a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o, o exterm\u00ednio de 6 milh\u00f5es de judeus, homossexuais, ciganos e pessoas com defici\u00eancia na Alemanha dos anos 1940. Pessoas que andavam entre n\u00f3s, que conversavam amenidades na fila do p\u00e3o e, de repente, olhamos para elas e as descobrimos salivando com a morte. Pediam n\u00e3o mais p\u00e3o, mas mais armas.<\/p>\n<p>O que \u00e9 o mal, Maria? Nos debatemos com esse dilema desde sempre. At\u00e9 viver horrores como esse apenas pelos livros, eu tinha muitas d\u00favidas sobre nomear o mal. Me parecia simples demais, f\u00e1cil demais. Mas, hoje, Maria, depois do que tenho testemunhado com meu pr\u00f3prio corpo, preciso dizer que o mal existe. Bolsonaro \u00e9 o mal, Maria. E Bolsonaro foi engendrado nesse mundo, nessa \u00e9poca hist\u00f3rica, por essa sociedade, por essa conjun\u00e7\u00e3o de genes e de acasos, por essas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Bolsonaro tenta fazer o mal desde que o Brasil sabe de Bolsonaro. Ele era militar do Ex\u00e9rcito e j\u00e1 planejava colocar bombas nos quart\u00e9is. Por interesses de um grupo e de outro, quem deveria barr\u00e1-lo n\u00e3o o barrou. E, de impunidade em impunidade, o mal assumiu o poder. E, por isso, seu pai perdeu a vida e voc\u00ea ficou sem pai. Voc\u00ea, Maria, e dezenas de milhares de outras crian\u00e7as. Quando eu finalmente for capaz de ter essa conversa com voc\u00ea, talvez sejam centenas de milhares de outras filhas e filhos sem pai ou sem m\u00e3e. Porque hoje, quando escrevo essa carta para voc\u00ea, Maria, o mal ainda governa o Brasil.<\/p>\n<p>Vou interromper o mal para falar do seu pai. Do contr\u00e1rio, tamb\u00e9m eu n\u00e3o suporto, Maria. Algumas pessoas, com a melhor das inten\u00e7\u00f5es, eu sei, me dizem que era a hora do seu pai, que ele j\u00e1 tinha cumprido sua miss\u00e3o nesse plano. Eu afirmo, com toda convic\u00e7\u00e3o: n\u00e3o era a hora de o Lilo morrer. Ao contr\u00e1rio, continuava sendo a hora de o Lilo viver. Seu pai me contava, apenas algumas semanas antes, que apesar de toda a dureza de enfrentar uma pandemia, ele vivia um dos melhores momentos da sua vida. Porque ele vivia apaixonado por sua m\u00e3e e porque ele tinha voc\u00ea, Maria. E ele sonhava em ensinar a voc\u00ea tudo o que ele sabia.<\/p>\n<p>Seu pai nem ficou sabendo, Maria, mas enquanto estava em coma induzido no hospital, ele foi aprovado para o curso de Letras na Universidade Federal do Par\u00e1. Ele queria mesmo fazer Arqueologia, porque tinha se apaixonado pelo trabalho dos arque\u00f3logos numa expedi\u00e7\u00e3o que fizemos juntos \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica, na Terra do Meio. Mas n\u00e3o existia essa op\u00e7\u00e3o em Altamira. Como seu pai era poeta, das luzes e tamb\u00e9m das palavras, ele escolheu o curso de Letras. Seu pai sabia dizer por inteiro A M\u00e1quina do Mundo, poema de seu conterr\u00e2neo Carlos Drummond de Andrade. E, sempre que dizia, seus olhos boiavam em \u00e1gua salgada. Para o seu pai, a m\u00e1quina do mundo estava sempre se abrindo como o diafragma da c\u00e2mera com que ele capturava a realidade como ele a via. Desde que voc\u00ea nasceu, Maria, era a realidade de voc\u00ea que ele convertia em imagem. Voc\u00ea e sua m\u00e3e eram, para ele, um mundo s\u00f3 bom.<\/p>\n<p>N\u00e3o, Maria, n\u00e3o acredite nem por um segundo que era hora de o seu pai morrer. N\u00e3o era. Seu pai, como centenas de milhares de brasileiros, morreu porque Jair Bolsonaro e seu Governo executaram um plano de dissemina\u00e7\u00e3o do novo coronav\u00edrus para, supostamente, alcan\u00e7ar o que chamam de \u201cimunidade de rebanho\u201d. Sim, Maria, como gado. \u201cAlguns v\u00e3o morrer, lamento, essa \u00e9 a vida\u201d, era assim que o presidente do Brasil falava.<\/p>\n<p>O mundo inteiro e todos os epidemiologistas respeit\u00e1veis diziam o contr\u00e1rio. Afirmavam que era uma insanidade, al\u00e9m de imoral. Dois ministros da Sa\u00fade, m\u00e9dicos, abandonaram o governo por n\u00e3o suportar a ideia de ser c\u00famplices desse crime. Mas Bolsonaro preferiu acreditar nele mesmo, com sua experi\u00eancia de quase 30 anos se reelegendo no parlamento sem propor nada de \u00fatil, porque supostamente n\u00e3o queria que a \u201ceconomia\u201d fosse prejudicada e, assim, seu projeto de reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que a an\u00e1lise de mais de 3.000 normas federais, feitas por um grupo de juristas renomados da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de S\u00e3o Paulo, provou. Na sequ\u00eancia, outros estudos concluindo que uma parcela significativa das mortes por covid-19 teriam sido evitadas se Bolsonaro tivesse combatido a covid-19 foram divulgados em algumas das mais importantes publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas do mundo. Pesquisas internacionais mostraram que o Brasil teve a pior atua\u00e7\u00e3o na pandemia entre todos os pa\u00edses do planeta.<\/p>\n<p>No momento em que escrevo essa carta para voc\u00ea, Maria, as a\u00e7\u00f5es deliberadas e as omiss\u00f5es deliberadas de Bolsonaro e seu Governo provocaram e seguem provocando dezenas de milhares de mortes evit\u00e1veis. Como a do seu pai, Maria. No momento em que escrevo essa carta para voc\u00ea, as a\u00e7\u00f5es deliberadas e as omiss\u00f5es deliberadas de Bolsonaro e seu Governo gestaram dezenas de milhares de meninas e meninos \u00f3rf\u00e3os, pequenas e pequenos brasileiros que ter\u00e3o que crescer e viver sem pai ou sem m\u00e3e. Como voc\u00ea, Maria.<\/p>\n<p>Eu olho para o seu rosto bochechudo de beb\u00ea e penso: como vou explicar a voc\u00ea o porqu\u00ea de crescer sem pai? Eu olho para voc\u00ea, Maria, com apenas 2 anos, e penso: como vou explicar que sua vida, tamb\u00e9m materialmente, ser\u00e1 enormemente prejudicada porque agora sua m\u00e3e ter\u00e1 de te sustentar sozinha? Eu olho para voc\u00ea, Maria, com apenas 2 anos, e penso: quem vai pagar a voc\u00ea, Maria, por aquilo que n\u00e3o tem pre\u00e7o, a perda de um pai? Quem vai pagar a todas as Marias e Clarices e Sthephanhys? Quem vai pagar a todos os Jos\u00e9s e Pedros e Neymares? Quem, Maria?<\/p>\n<p>Antes que voc\u00ea levante seus olhos perfurantes para mim mais uma vez, eu preciso voltar a falar do seu pai. Quando eu o conheci, Maria, ele j\u00e1 era um rep\u00f3rter fotogr\u00e1fico experiente. Tinha trabalhado muitos anos no Estad\u00e3o e rec\u00e9m desembarcara na \u00c9poca, a revista onde eu trabalhava. Entre suas tantas fotos not\u00e1veis est\u00e1 a de um menino vivendo nas ruas de S\u00e3o Paulo, um menino condenado pela nossa incapacidade de enxergar. A imagem capturada pelo seu pai mostra uma crian\u00e7a pequena, apenas um pouco maior do que voc\u00ea, que desloca a chupeta da boca para dar uma tragada no cigarro. \u00c9 brutal. A chupeta e o cigarro, lado a lado naquela boca com dentes de leite. A inf\u00e2ncia que resiste pedindo cuidado, a inf\u00e2ncia destru\u00edda que, sem cuidado, \u00e9 incinerada com um cigarro.<\/p>\n<p>Penso que s\u00f3 Lilo poderia ter capturado aquele instante. E, tamb\u00e9m daquela vez, Lilo sofreu com o que para sempre sofreria. O que seu pai denunciava provocava como\u00e7\u00e3o social, discursos, mas a sociedade e o Estado logo se esqueciam. E as crian\u00e7as do Brasil seguiriam morrendo antes de crescer.<\/p>\n<p>E agora, Maria, agora \u00e9 voc\u00ea a crian\u00e7a que perdeu o pai. Voc\u00ea e dezenas de milhares de brasileirinhas e brasileirinhos. Eu preciso respirar fundo, eu, que ainda tenho ar. Ser\u00e1 que ainda restar\u00e1 oxig\u00eanio para mim, Maria, quando chegar a hora dessa nossa conversa, ou tamb\u00e9m eu serei mais uma v\u00edtima de exterm\u00ednio? Enquanto escrevo essa carta para voc\u00ea nenhuma brasileira, nenhum brasileiro est\u00e1 seguro do dia seguinte. E n\u00e3o estar\u00e1, at\u00e9 que Bolsonaro seja impedido de seguir executando seu plano de morte.<\/p>\n<p>Mas, sim, eu preciso respirar o ar que ainda resta no pa\u00eds e seguir contando a voc\u00ea sobre o homem que matou seu pai. A an\u00e1lise dos documentos assinados pelo presidente do Brasil, que eu prefiro chamar de antipresidente, assim como suas declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e assim como os documentos e as declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de membros do seu Governo, pelo menos um deles general da ativa, mostram a execu\u00e7\u00e3o de um plano de dissemina\u00e7\u00e3o para promover imunidade por cont\u00e1gio. \u00c9 verdade, isso aconteceu, os fatos est\u00e3o documentados. Mas, ainda assim, Maria, eu preciso dizer a voc\u00ea que me parece faltar pelo menos uma pe\u00e7a.<\/p>\n<p>Nunca conheci ningu\u00e9m como Bolsonaro. Algu\u00e9m que parece todo ele o que a psican\u00e1lise chama de \u201cpuls\u00e3o de morte\u201d. Minha experi\u00eancia de mais de 30 anos entrevistando gentes de todas as formas, inclusive assassinos, estupradores e abusadores, e cobrindo todo o tipo de eventos, me mostra que grandes acontecimentos s\u00e3o produzidos por subjetividades tanto ou mais do que por objetividades. As objetividades s\u00e3o o que permitem a subjetividade de se realizar como ato. Mas a for\u00e7a, a puls\u00e3o, ela vem de um lugar menos aparente, menos assumido e menos pronunciado.<\/p>\n<p>Minha hip\u00f3tese, Maria, \u00e9 que Bolsonaro gosta de matar. Ele tamb\u00e9m gosta de assistir ao sofrimento de todos os outros, exceto o de seus filhos, que moldou a sua imagem e semelhan\u00e7a para seguirem seu legado de destrui\u00e7\u00e3o. Um dia, se voc\u00ea tiver est\u00f4mago, Maria, posso te mostrar uma s\u00e9rie de cenas e declara\u00e7\u00f5es do homem que hoje governa o Brasil nas quais ele deixa expl\u00edcito seu gozo com a dor alheia. Algumas vezes, ele at\u00e9 mesmo ri quando se refere aos mortos da pandemia.<\/p>\n<p>O mais f\u00e1cil, Maria, \u00e9 achar que isso \u00e9 loucura, como se a loucura pudesse explicar esse gosto por morte. N\u00e3o \u00e9 loucura, Maria. Bolsonaro gosta de matar, gosta de infligir sofrimento e de assistir ao sofrimento, gosta de ver o sangue dos outros correr. Ele gosta. E, infelizmente, Maria, n\u00e3o est\u00e1 sozinho nesse gosto. Seus apoiadores na Amaz\u00f4nia, Maria, onde ambas vivemos, tem essa mesma \u00e2nsia. Assim como Bolsonaro planejou explodir bombas nos quart\u00e9is, eles planejaram o \u201cdia do fogo\u201d, em 2019, e incendiaram vastas por\u00e7\u00f5es da maior floresta tropical do mundo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m preciso dizer a voc\u00ea, Maria, que Bolsonaro nunca escondeu seus gostos e puls\u00f5es. Ele j\u00e1 declarou que \u201ca ditadura deveria ter matado pelo menos uns 30.000\u201d, que preferia \u201cum filho morto num acidente de tr\u00e2nsito a um filho gay\u201d, que quem discorda dele \u201cvai para a Ponta da Praia\u201d. O que \u00e9 \u201cPonta da Praia\u201d, voc\u00ea certamente perguntar\u00e1. E eu vou ter que explicar a voc\u00ea, Maria, que era um lugar de desova dos corpos dos opositores, torturados at\u00e9 a morte durante o regime militar que oprimiu o Brasil de 1964 a 1985, quando seu pai e eu \u00e9ramos crian\u00e7as e depois adolescentes.<\/p>\n<p>Voc\u00ea saber\u00e1 ent\u00e3o, Maria, de mais um triste momento da hist\u00f3ria do seu pa\u00eds. Bolsonaro, Maria, \u00e9 produto desse cap\u00edtulo tenebroso do Brasil. \u00c9 filho leg\u00edtimo, principalmente, da impunidade daqueles que torturaram e mataram a mando e a soldo do Estado. Foi ali que Bolsonaro aprendeu que, a servi\u00e7o do Estado, \u00e9 poss\u00edvel liberar todas as puls\u00f5es de morte, todo o desejo de destrui\u00e7\u00e3o dos corpos alheios, sem jamais ser responsabilizado e punido por isso. Ao contr\u00e1rio. Como aconteceu com Bolsonaro, o funcion\u00e1rio p\u00fablico planeja explodir quart\u00e9is e \u00e9 promovido a capit\u00e3o, depois vira deputado e um dia se torna presidente do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m tem como her\u00f3i declarado um dos mais s\u00e1dicos torturadores do Brasil por acaso. Sim, Maria, eu sofro para dizer isso a voc\u00ea, mas \u00e9 preciso. O her\u00f3i do presidente do Brasil \u00e9 Carlos Alberto Brilhante Ustra, um homem que torturava at\u00e9 mesmo mulheres gr\u00e1vidas e crian\u00e7as do seu tamanho, Maria. E, preciso repetir a voc\u00ea, porque voc\u00ea tem direito \u00e0 verdade: Bolsonaro nunca escondeu isso. Pelo contr\u00e1rio. Ostentava seu her\u00f3i publicamente como um trof\u00e9u e, na campanha eleitoral que faria dele presidente, a figura do torturador foi estampada numa camiseta. E mesmo assim esse homem \u2014esse homem\u2014 foi eleito.<\/p>\n<p>Bolsonaro \u00e9 o mal, Maria. E, antes que voc\u00ea levante seus olhos inquisidores na minha dire\u00e7\u00e3o, eu preciso voltar a falar do seu pai, do contr\u00e1rio n\u00e3o terei for\u00e7as para chegar ao final dessa carta. E preciso chegar.<\/p>\n<p>Penso que seu pai aprendeu a ver com dona Geraldinha, a m\u00e3e que se alfabetizou aos 92 anos porque n\u00e3o queria morrer cega das letras, a mulher de palavra cantada que pariu 16 crian\u00e7as na ro\u00e7a de Passos, em Minas Gerais. Nenhum sofrimento, e eles foram muitos, deixou marca nos olhos de sua av\u00f3, Maria. Eu queria tanto que voc\u00ea a tivesse conhecido, porque dona Geraldinha, assim como seu pai, tinha a pureza de quem a todo momento \u201crenasce para a eterna novidade do mundo\u201d. Dona Geraldinha deu ao seu pai, Maria, olhos de primeira vez.<\/p>\n<p>E foi com esses olhos, Maria, que seu pai se tornou um fot\u00f3grafo capaz de documentar a brutalidade, a extensa folha corrida de viola\u00e7\u00f5es de direitos dos tantos Brasis, sem jamais deixar de capturar a beleza mesmo nas horas brutas. Era nisso que seu pai era imbat\u00edvel. Lilo apreendia num vislumbre onde estava a resist\u00eancia pela alegria, pelo riso, pelas delicadezas do cotidiano. \u00c9 desse olhar suas melhores fotos. E \u00e9 com esse olhar que suas imagens atravessaram o mundo estampando p\u00e1ginas impressas ou digitais de publica\u00e7\u00f5es como EL PA\u00cdS, The Guardian, Folha de S. Paulo, Amaz\u00f4nia Real, Rep\u00f3rter Brasil e tantas outras.<\/p>\n<p>Meu caminho se cruzou com o do seu pai, Maria, em 2001, quando n\u00f3s dois trabalh\u00e1vamos na revista \u00c9poca. Viajamos juntos pela primeira vez para o territ\u00f3rio Yanomami. Nunca t\u00ednhamos trocado palavra antes dessa pauta e olh\u00e1vamos desconfiados um para o outro. Depois de avi\u00e3o, helic\u00f3ptero e voadeira, finalmente alcan\u00e7amos a aldeia ind\u00edgena \u00e0 noite, ensopados de chuva amaz\u00f4nica. Nos ofereceram vermes assados na brasa das fogueiras e um espa\u00e7o no lado de fora da bela casa coletiva. S\u00f3 cabia uma rede, e seu pai e eu dormimos com o p\u00e9 de um na cara do outro.<\/p>\n<p>Choveu sobre n\u00f3s a noite inteira e atravessamos a madrugada tremendo de frio. Ao amanhecer, despertamos com os gritos da equipe de sa\u00fade que acompanh\u00e1vamos: \u201cNo ch\u00e3o, n\u00e3o! Segura por favor! Cospe aqui!\u201d. Os profissionais da ONG Urihi precisavam coletar o primeiro catarro da manh\u00e3 para teste de tuberculose, a doen\u00e7a levada pelos garimpeiros que dizimava \u2014e ainda dizima\u2014 os ind\u00edgenas. Nunca vimos tanto catarro na nossa vida. Com uma estreia dessa magnitude, ou nos am\u00e1vamos para sempre ou nos odi\u00e1vamos para sempre. Seu pai e eu nunca mais nos separamos. Tornamo-nos irm\u00e3os de alma na vida e uma dupla de reportagem no jornalismo \u2014e nunca separamos uma dimens\u00e3o da outra. \u00c9 por isso que, quando voc\u00ea nasceu, Maria, tive a honra de ser sua madrinha.<\/p>\n<p>Duas d\u00e9cadas j\u00e1 haviam se passado desde a primeira reportagem e dezenas de outras aconteceram. Em 2017, seu pai e eu decidimos documentar o Brasil e o mundo desde a Amaz\u00f4nia e nos mudamos para Altamira. Desembarcamos na cidade na noite de 16 de agosto e, numa t\u00edpica lilagem, na mesma noite seu pai beijava sua m\u00e3e (ou sua m\u00e3e beijava seu pai) no trapiche do cais, na beira do rio Xingu. Sua m\u00e3e, Maria, j\u00e1 era uma das mulheres mais bonitas da regi\u00e3o, mas principalmente, Maria, uma ativista pela Amaz\u00f4nia e pelos direitos das mulheres negras. Voc\u00ea nasceu desse amor maior do mundo, Maria, e foi alimentada a leite materno e manifesta\u00e7\u00f5es contra Belo Monte e tudo o que n\u00e3o presta, onde voc\u00ea passava de colo em colo, amparada por m\u00e3os assinaladas por trabalho duro.<\/p>\n<p>E por tudo o que n\u00e3o presta seu pai foi morto, Maria. Ele possivelmente se contaminou com covid-19 ao documentar em v\u00eddeo o ecoc\u00eddio produzido pela Usina Hidrel\u00e9trica de Belo Monte na Volta Grande do Xingu. Esse crime j\u00e1 foi denunciado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, mas ainda assim segue sendo perpetrado por coniv\u00eancia do Governo Bolsonaro. Quando voc\u00ea puder ler essa carta, Maria, voc\u00ea j\u00e1 ter\u00e1 descoberto. Ainda assim, preciso te dizer. Voc\u00ea, Maria, nasceu e crescer\u00e1 numa cidade transfigurada por uma obra corrupta e corruptora. Altamira, Maria, se tornou a cidade mais violenta da Amaz\u00f4nia. Nesse cen\u00e1rio de cataclisma clim\u00e1tico provocado por a\u00e7\u00e3o humana, adolescentes come\u00e7aram a se matar em s\u00e9rie no in\u00edcio de 2020. Vamos acordar desde j\u00e1, Maria, que voc\u00ea aprender\u00e1 com sua m\u00e3e a resistir a todas as formas de morte.<\/p>\n<p>Doente desde os primeiros dias de mar\u00e7o, seu pai enfrentou todo o colapso do sistema p\u00fablico de sa\u00fade numa cidade amaz\u00f4nica. Sobre esse cap\u00edtulo, Maria, vou precisar pedir licen\u00e7a a voc\u00ea para me aprofundar em uma segunda carta, porque h\u00e1 muito que ainda precisa ser esclarecido. Por enquanto, vou apenas mencionar que seu pai morreu na fila por uma vaga numa UTI p\u00fablica de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Seu pai s\u00f3 n\u00e3o morreu na rua, Maria, como aconteceu \u2014e ainda acontece\u2014 com milhares de brasileiras e brasileiros porque uma rede de amigas e amigos dedicou seus dias a conseguir doa\u00e7\u00f5es que permitiram intern\u00e1-lo na UTI de um hospital privado. Ainda assim, seu pai morreu com uma d\u00edvida impag\u00e1vel que nem todas as vaquinhas e vendas de fotos e de camisetas conseguiram alcan\u00e7ar. Seu pai sonhou tanto com a casa pr\u00f3pria que nunca conseguiu construir com seu sal\u00e1rio de jornalista enquanto viveu e sua morte custou um valor capaz de construir v\u00e1rias casas. Assim \u00e9 o Brasil, Maria.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o perder o fio, \u00e9 necess\u00e1rio que eu siga te contando sobre tudo o que n\u00e3o presta. Voc\u00ea deve ter percebido, Maria, que eu cada vez prolongo mais os par\u00e1grafos sobre seu pai porque meu cora\u00e7\u00e3o se rebela diante da pergunta inescap\u00e1vel. Desta vez, prometo, vou enfrentar seus olhos e deixar que eles me furem.<\/p>\n<p>Voc\u00ea vai me perguntar, Maria, com o olhar sangrando, por que Bolsonaro n\u00e3o foi barrado. Voc\u00ea vai me perguntar, Maria, por que as institui\u00e7\u00f5es, em todas as \u00e1reas, n\u00e3o impediram Bolsonaro de seguir disseminando o v\u00edrus e matando brasileiras e brasileiros. E eu vou ter que dizer a voc\u00ea que aqueles que comandam as institui\u00e7\u00f5es se dividem entre os covardes e os corrompidos. Ambos c\u00famplices, j\u00e1 que a omiss\u00e3o \u00e9 um tipo de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para voc\u00ea n\u00e3o sentir-se t\u00e3o ferida pela sociedade brasileira, \u00e9 justo que eu diga a voc\u00ea que j\u00e1 s\u00e3o muito mais de 100 os pedidos de impeachment de Bolsonaro hibernando na gaveta do presidente do Congresso. Primeiro foi Rodrigo Maia, que os manteve l\u00e1, hoje \u00e9 Arthur Lira, representante de uma fac\u00e7\u00e3o do parlamento formada por deputados de aluguel cujo apelido \u00e9 Centr\u00e3o. Quem paga mais, leva. E Bolsonaro desembolsou 3 bilh\u00f5es de dinheiro p\u00fablico em verbas extras para alugar a lealdade de excelent\u00edssimas excresc\u00eancias. Para que come\u00e7assem a investigar a atua\u00e7\u00e3o do Governo Bolsonaro na pandemia por uma comiss\u00e3o parlamentar de inqu\u00e9rito foi preciso uma ordem do Supremo Tribunal Federal.<\/p>\n<p>Eu sei, Maria, eu tamb\u00e9m sinto nojo. E o v\u00f4mito me atravessa a garganta quando me obrigo a te dizer que existe ainda uma entidade metaf\u00edsica a que d\u00e3o o nome de \u201cmercado\u201d. Essa entidade apoiou e respaldou Bolsonaro, assim como o miniministro da Economia, Paulo Guedes, por acreditar que poderia lucrar com Bolsonaro no poder. \u00c9 preciso dizer que, embora seja pronunciada como se fosse uma entidade acima do bem e do mal, movendo-se por for\u00e7as superiores, o tal \u201cmercado\u201d \u00e9 apenas um clube muito seleto de humanos feitos com o mesmo n\u00famero de cromossomos que eu e voc\u00ea, mas que se apropriam da maior parte da riqueza do planeta. Parte desse clube selet\u00edssimo j\u00e1 fez as contas e desistiu, mas h\u00e1 os que ainda acreditam que Bolsonaro pode seguir tendo alguma utilidade. Esse clube resume-se a um punhado de bilion\u00e1rios e supermilion\u00e1rios e um n\u00famero menos insignificante de executivos a soldo deles.<\/p>\n<p>Tenho de te contar, Maria, que uma parte da imprensa do pa\u00eds faz bochecho com antiss\u00e9ptico bucal antes de pronunciar ou escrever a palavra \u201cmercado\u201d, como se estivesse se referindo a uma esp\u00e9cie de Or\u00e1culo de Delfos. E, para se referir aos generais e \u00e0s For\u00e7as Armadas que apoiaram (e apoiam) Bolsonaro, duplica a dose de enxaguante assim como os amantes fazem para se preparar para o primeiro beijo. Um dia, talvez numa terceira carta, vou precisar te contar, Maria, sobre o fetiche de farda que acomete o Brasil. Qualquer general de pantufa faz essa turma tremer. Ainda n\u00e3o sei dizer se por medo ou por puls\u00e3o er\u00f3tica.<\/p>\n<p>Eu sei, Maria, sei que ainda estou fugindo do tema mais dif\u00edcil. Desculpa, mas ainda n\u00e3o ser\u00e1 nesse par\u00e1grafo. Vou precisar contar um pouco mais sobre seu pai para voltar a preencher meus pulm\u00f5es com ar depois dessa r\u00e1pida incurs\u00e3o pelo esgoto.<\/p>\n<p>Quero te contar que seu pai tinha se tornado verbo. A defini\u00e7\u00e3o do verbo \u201clilar\u201d virou at\u00e9 camiseta \u00e0 venda na lojinha online criada para arrecadar doa\u00e7\u00f5es para o tratamento e tamb\u00e9m para o seu sustento e o da sua m\u00e3e. Como est\u00e1 o Lilo, as pessoas me perguntavam? Lilando. E todos j\u00e1 entendiam que ele estava se movendo pelas ruas como se o mundo fosse bom e n\u00e3o tivesse pressa, parando para coletar uma muda de flor por onde andasse sem perceber que a 4X4 tirou fino, poetando nas esquinas, cantando seu assombroso repert\u00f3rio de MPB ou a cole\u00e7\u00e3o completa de Pink Floyd com a certeza inabal\u00e1vel do amor da plateia.<\/p>\n<p>Seu pai era assim, Maria. Mesmo pisando sobre campo minado, ele cantava ou poetava, como se intu\u00edsse que era preciso manter a leveza ao pisar nas bombas para n\u00e3o explodir com elas. Desarmava qualquer um, \u00e0s vezes literalmente, com sua certeza de que ningu\u00e9m teria motivo para fazer mal a ele. Seu pai acreditava que, no final, sempre haveria algu\u00e9m disposto a lan\u00e7ar uma corda para ele emergir do fosso j\u00e1 puxando um samba. E assim seguia lilando Brasis afora.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o mais uma vez uma prece silenciosa para que seu pai n\u00e3o tenha descoberto que dessa vez o buraco era fundo demais e nem todas as cordas que os m\u00e9dicos e enfermeiros, assim como sua fam\u00edlia e seus amigos jogaram foram suficientes para enfrentar um exterm\u00ednio promovido com a m\u00e1quina do Estado.<\/p>\n<p>N\u00e3o, Maria, ainda n\u00e3o vou retomar esse caminho de escurid\u00e3o. Ainda preciso te contar que fui descobrindo devagar que existe algo em que seu pai era ainda mais talentoso do que na fotografia. Lilo era um g\u00eanio do amor. A rede que se teceu em apenas um dia para cuidar dele e, agora, tamb\u00e9m de voc\u00ea e sua m\u00e3e, \u00e9 a prova da capacidade do seu pai em ser amado. E ele retribu\u00eda. Enquanto n\u00e3o foi intubado, mesmo na UTI, seu pai dava um jeito de responder \u00e0s mensagens que recebia de todas as geografias. Como j\u00e1 n\u00e3o tinha ar nem for\u00e7a suficientes para escrever ou falar, promovia uma farta distribui\u00e7\u00e3o de emojis. A \u00faltima mensagem que tenho dele no meu whatsapp tem um cora\u00e7\u00e3o, nove \u00e1rvores copadas, tr\u00eas coqueiros e tr\u00eas plantinhas fofas. E ent\u00e3o seu pai mergulhou no coma induzido.<\/p>\n<p>Eu jamais imaginaria, Maria, que nossas \u00faltimas palavras trocadas seriam emojis. H\u00e1 20 anos eu e seu pai and\u00e1vamos juntos contando os Brasis, eu como rep\u00f3rter de texto, ele como rep\u00f3rter de fotos. Sempre acreditei que, quando escrevia, somava os olhos do Lilo aos meus. E, quando ele fotografava, somava os meus olhos aos dele. Nos mov\u00edamos pelo mundo de modo quase simbi\u00f3tico, nos entendendo apenas pelo olhar. Preciso contar a voc\u00ea, Maria, que quando os olhos de seu pai foram fechados, passei a andar pelos mundos, os de fora e os de dentro, meio cega, cambaleando, desacostumada a ter apenas um par de olhos para contar as hist\u00f3rias desse tempo. E, quando soube que Lilo nunca mais voltaria abri-los, senti que seus olhos tinham sido amputados de mim.<\/p>\n<p>Sim, eu sei Maria, \u00e9 hora de enfrentar os teus olhos bem abertos. E me encarando. O que eu adiei at\u00e9 agora \u00e9 a pergunta inescap\u00e1vel. Por que n\u00f3s n\u00e3o impedimos Bolsonaro?<\/p>\n<p>Eu poderia come\u00e7ar essa resposta te contando que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds fundado sobre corpos humanos, os dos ind\u00edgenas e depois os dos negros que aqui chegaram escravizados. Voc\u00ea tem, Maria, essa hist\u00f3ria gravada no corpo, \u00e9 a tua hist\u00f3ria. Esse pa\u00eds sempre conviveu com a morte violenta, acreditando que era \u201cnormal\u201d existir os mat\u00e1veis, gente da sua cor, Maria, e os n\u00e3o mat\u00e1veis. Teu povo, Maria, s\u00f3 parou de ser formalmente escravizado h\u00e1 pouco mais de um s\u00e9culo e segue fornecendo a carne para as piores estat\u00edsticas de vida e de morte. \u00c9 um pa\u00eds brutal, Maria, e mesmo a alma dos melhores entre n\u00f3s \u00e9 deformada pelo racismo estrutural.<\/p>\n<p>Ainda assim n\u00e3o seria a hist\u00f3ria inteira. Minha gera\u00e7\u00e3o \u00e9 fraca, Maria, preciso dizer a voc\u00ea. Grita muito, mas se arrisca pouco a enfrentar os opressores. Prefere sempre arriscar o corpo dos outros, e a essa altura voc\u00ea j\u00e1 sabe a cor do corpo dos que s\u00e3o chamados a se sacrificar. Quando tua gera\u00e7\u00e3o olhar para a minha, como voc\u00ea est\u00e1 fazendo agora, tenho certeza que teremos uma vergonha maior do que a vida, porque esse \u00e9 o tipo de vergonha que mancha uma vida. A depender do tamanho da omiss\u00e3o, mancha at\u00e9 mesmo um nome, para muito al\u00e9m das primeiras gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sim, voc\u00eas, v\u00edtimas do fazedor de \u00f3rf\u00e3os chamado Bolsonaro, v\u00e3o cravar seus olhos em n\u00f3s e perguntar: \u201cPor que voc\u00eas n\u00e3o o impediram de matar nossos pais e m\u00e3es? Onde voc\u00eas estavam? O que estavam fazendo?\u201d. E, por fim, a pergunta mais dura: \u201cQuem s\u00e3o voc\u00eas?\u201d.<\/p>\n<p>Te digo, Maria, que hoje j\u00e1 somos marcados de guerra. Nenhum povo perde quase meio milh\u00e3o de pessoas sem ficar marcado. E seremos assinalados por essa vergonha, por essa afronta, por esse ultraje de testemunhar o exterm\u00ednio e nos descobrir acostumados a morrer ou a ver matar. Eu j\u00e1 repeti essa pergunta algumas vezes e volto a repetir: como pode barrar seu pr\u00f3prio genoc\u00eddio um povo que se acostumou a morrer?<\/p>\n<p>J\u00e1 est\u00e1 dado, Maria, j\u00e1 aconteceu. Mais de 410.000 mortes assinalam uma sociedade para sempre. O que n\u00e3o est\u00e1 dado \u00e9 se permitiremos que outros mais de 410.000 morram. Neste momento, o Congresso faz uma CPI para apurar os crimes do Governo Bolsonaro relacionados \u00e0 covid-19. Acredite, Maria, s\u00f3 agora, pela primeira vez, a responsabilidade de Bolsonaro sobre as mortes por covid-19 tornou-se o principal tema do Brasil.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea ler essa carta, Maria, j\u00e1 estar\u00e1 decidido e contado nos livros de hist\u00f3ria se Bolsonaro seguiu matando seu povo ou se finalmente, com um atraso para sempre criminoso, ele foi responsabilizado e barrado. Espero, Maria, mas espero tanto, que voc\u00ea e todos os \u00f3rf\u00e3os tenham algum motivo n\u00e3o para nos perdoar, porque \u00e9 imperdo\u00e1vel, mas ao menos para ter menos vergonha da minha gera\u00e7\u00e3o. Que possamos dizer, ainda que tardiamente, que obrigamos as institui\u00e7\u00f5es a cumprir seu dever constitucional.<\/p>\n<p>Pelo menos uma coisa eu te prometo, Maria, e prometo tamb\u00e9m a todas as crian\u00e7as sem m\u00e3e e sem pai. O que aconteceu ser\u00e1 contado, ser\u00e1 documentado, ser\u00e1 gravado em pedra se for preciso. Os filhos e netos de cada autoridade que se omitir conhecer\u00e3o a hist\u00f3ria que manchar\u00e1 seu sobrenome. E enquanto eu encontrar ar para respirar estarei lutando para ver Bolsonaro responder por seus crimes na justi\u00e7a, a do Brasil e a do mundo. N\u00e3o fa\u00e7o isso por voc\u00ea, Maria, n\u00e3o sou mentirosa. Fa\u00e7o isso por mim. O olhar que mais temo \u00e9 o meu no espelho do banheiro.<\/p>\n<p>Lembrar ser\u00e1 nossa resist\u00eancia. Lembrar \u00e9 sempre nossa resist\u00eancia. E lembraremos, Maria. E transmitiremos essa mem\u00f3ria gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu tinha planejado terminar essa carta falando sobre borboletas. Mas n\u00e3o ser\u00e1 como planejei. Para n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei de borboletas, vou ent\u00e3o te contar o seguinte, Maria. A viagem mais importante que eu e seu pai fizemos aconteceu em 2004. Fomos os primeiros jornalistas a alcan\u00e7ar a Terra do Meio, no Par\u00e1, na Amaz\u00f4nia profunda. As fotos do seu pai e o meu texto foram decisivos para impulsionar a cria\u00e7\u00e3o da Reserva Extrativista Riozinho do Anfr\u00edsio. \u00c9 por isso que seu pai colocou na capa do perfil dele no Facebook uma foto a\u00e9rea do Riozinho e escreveu: \u201cEnterrem meu cora\u00e7\u00e3o numa curva do Riozinho do Anfr\u00edsio\u201d.<\/p>\n<p>Quando alcan\u00e7amos o Riozinho pela primeira vez, Maria, fomos engolfados por uma revoada de borboletas. N\u00e3o dezenas nem centenas, mas milhares. Eram amarelas, de v\u00e1rios tons de amarelo, e para sempre eu e seu pai sentir\u00edamos que hav\u00edamos atravessado um portal. Um portal da floresta, sim, mas tamb\u00e9m um portal dentro de n\u00f3s. Daquele momento em diante, n\u00f3s dois come\u00e7amos a nos amazonizar. Maria, o Riozinho se tornou para n\u00f3s a terra das borboletas amarelas.<\/p>\n<p>Aprendemos, seu pai e eu, a nos tornar natureza ou nos retornar natureza. \u00c9 tamb\u00e9m por isso que afirmo a voc\u00ea, Maria, com toda convic\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o era hora de seu pai morrer. Bolsonaro destr\u00f3i a floresta numa velocidade s\u00f3 vista no per\u00edodo da ditadura civil-militar. Milhares e milhares de quil\u00f4metros quadrados de mundos complexos povoados por gentes de todas as esp\u00e9cies, humanas e n\u00e3o humanas, foram deletados do mapa. Bolsonaro destruiu tamb\u00e9m a vida de mais de 410.000 fam\u00edlias, entre elas a sua.<\/p>\n<p>Com esse massacre, Bolsonaro e seu Governo provocaram um profundo desequil\u00edbrio no planeta. N\u00e3o se apaga quase meio milh\u00e3o de vidas sem causar um cataclisma. Eu sei que na sociedade que v\u00ea pessoas apenas como indiv\u00edduos e n\u00e3o como seres em constante interc\u00e2mbio com outros seres, essa ideia \u00e9 de dif\u00edcil apreens\u00e3o. Mas voc\u00ea, Maria, \u00e9 capaz de compreender. J\u00e1 podemos sentir esse desequil\u00edbrio no ar que nos falta. Cada morto que deveria estar vivo esgar\u00e7a o tecido da Terra. O que acontece nesse momento \u00e9 uma cat\u00e1strofe de grandes propor\u00e7\u00f5es, para muito, mas muito al\u00e9m de uma lista de v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Na hora em que seu pai morreu, eu tive um sonho acordada. Vi uma on\u00e7a que se movia delineada em branco. N\u00e3o uma on\u00e7a como a vemos na floresta que vemos, mas semelhante a um fantasma de on\u00e7a. E ela estava furiosa. A dor que senti com a morte do seu pai era a dor de ter minhas tripas arrancadas a dentadas. Compreendi ent\u00e3o que seu pai era a on\u00e7a. E compreendi que eu precisava deix\u00e1-lo partir. A on\u00e7a ent\u00e3o embrenhou-se na floresta. Dou a voc\u00ea esse sonho, para que seu pai reconvertido em on\u00e7a caminhe ao seu lado por todas as florestas.<\/p>\n<p>Seu pai n\u00e3o ter\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o enterrado numa curva do Riozinho. Mas ter\u00e1, sim, suas cinzas lan\u00e7adas l\u00e1 onde esse rio pequeno apenas no nome encontra o Iriri. E eu espero que o portal de borboletas amarelas se abra para receb\u00ea-lo. Parece simples, porque as borboletas sempre estiveram l\u00e1, mas dias atr\u00e1s soube que Bolsonaro e todos os destruidores da Amaz\u00f4nia antes dele e com ele est\u00e3o roubando tamb\u00e9m as cores das borboletas. Cientistas do Brasil e do Reino Unido descobriram que as borboletas est\u00e3o se tornando cinzas e pardas para se mimetizar a uma natureza morta que assumiu a cor das queimadas e derrubadas. Sim, Maria, homens como Bolsonaro e sua estirpe de assassinos est\u00e3o tamb\u00e9m roubando literalmente a cor do mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou iludir voc\u00ea, Maria, com hist\u00f3rias de esperan\u00e7a. N\u00e3o sou esse tipo de madrinha. Voc\u00ea e todas as \u00f3rf\u00e3s e \u00f3rf\u00e3os nasceram no tempo que luto \u00e9 luta. E ter\u00e3o que lutar \u2014e muito\u2014 para que o mundo em que viver\u00e3o siga tendo cor. Eu estarei ao seu lado, com minhas palavras e meus dentes.<\/p>\n<p><strong>*Escritora, rep\u00f3rter e documentarista<\/strong><br \/>\n*Texto publicado originalmente na vers\u00e3o em portugu\u00eas do site espanhol <em>El Pa\u00eds<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria, voc\u00ea tem apenas 2 anos. Um, dois. E apenas esses dois anos separam seu nascimento da morte do seu pai. Lilo Clareto morreu em 21 de abril. 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