{"id":256744,"date":"2021-05-11T08:11:48","date_gmt":"2021-05-11T11:11:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=256744"},"modified":"2021-05-11T08:52:33","modified_gmt":"2021-05-11T11:52:33","slug":"agronegocio-faz-lavagem-cerebral-em-estudantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/agronegocio-faz-lavagem-cerebral-em-estudantes\/","title":{"rendered":"Agroneg\u00f3cio faz lavagem cerebral em estudantes"},"content":{"rendered":"<p>Um grupo de mulheres ligadas ao agroneg\u00f3cio, que se autointitulam \u201cm\u00e3es do agro\u201d, encabe\u00e7a uma campanha para interferir no curr\u00edculo e fiscalizar o conte\u00fado dos materiais did\u00e1ticos de escolas p\u00fablicas e particulares do Brasil, suprimindo as cr\u00edticas ao setor. O movimento foi batizado de \u201cDe Olho No Material Escolar\u201d e, apesar do nome, vai na contram\u00e3o de tudo o que defende este observat\u00f3rio.<\/p>\n<p>As fundadoras, Andr\u00e9ia Bernab\u00e9 e Leticia Zamperlini Jacintho, argumentam que, ao acompanharem as atividades dos filhos, se depararam com \u201cmentiras\u201d sobre a realidade do campo brasileiro, marcada pela monocultura e pela concentra\u00e7\u00e3o de terras e riquezas, em contraponto \u00e0 agroecologia e ao modo de vida campon\u00eas.<\/p>\n<p>Para rebater o que \u00e9 ensinado, elas contam com o apoio de ministros do governo Bolsonaro e de pol\u00edticos da Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria (FPA). A forma de a\u00e7\u00e3o se parece ao que ocorre com o \u201cEscola sem Partido\u201d, movimento que diz combater a \u201cdoutrina\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica\u201d, mas que, na pr\u00e1tica, busca cercear as discuss\u00f5es sobre g\u00eanero, sexualidade e respeito \u00e0 diversidade em sala de aula. Assim, as integrantes sugerem que os educandos fa\u00e7am v\u00eddeos, fotos ou registros dos materiais utilizados, de forma a comprovar os \u201cproblemas\u201d.<\/p>\n<p>Em 2018, a produtora rural Let\u00edcia Jacintho buscou o apoio de outras m\u00e3es para entregar uma carta ao Anglo de Barretos (SP), criticando a abordagem do col\u00e9gio sobre quest\u00f5es como desmatamento, viola\u00e7\u00f5es contra ind\u00edgenas, trabalho escravo e uso de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>\u201cAs crian\u00e7as s\u00e3o incentivadas a manifestar piedade aos \u00edndios e repudiar a cultura da cana de a\u00e7\u00facar\u201d, afirma um dos trechos. \u201cS\u00e3o estimuladas a se colocar na posi\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia ind\u00edgena que teve suas terras retiradas para planta\u00e7\u00e3o de cana, no entanto, nenhum contraponto \u00e9 oferecido pelo material ou escola\u201d.<\/p>\n<p>Segundo ela, h\u00e1 uma \u201cpesada carga ideol\u00f3gica\u201d nos conte\u00fados. Outro exemplo citado foi o dos agrot\u00f3xicos, definidos pelo grupo de forma eufem\u00edstica como \u201cdefensivos agr\u00edcolas\u201d, que causam a degrada\u00e7\u00e3o das terras e do ambiente. A apostila apontava os latif\u00fandios e a monocultura como respons\u00e1veis pelos problemas no campo.<\/p>\n<p>\u201cTrata-se, mais uma vez, de vis\u00e3o pesada, atrasada, carregada de ideologia, e que expressa a opini\u00e3o pessoal do autor do texto\u201d, rebateram as \u201cm\u00e3es do agro\u201d. \u201cOpini\u00f5es enviesadas como esta n\u00e3o constituem conte\u00fado educacional e n\u00e3o podem estar presentes nas apostilas de nossas crian\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o envio da carta, Let\u00edcia foi angariando apoios. O primeiro deles foi o do engenheiro agr\u00f4nomo Xico Graziano, chefe de gabinete de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 1995, seu primeiro ano de governo. Graziano foi deputado federal pelo PSDB paulista e assessor especial do Instituto FHC, fundado pelo ex-presidente, de quem se considera amigo, al\u00e9m de secret\u00e1rio estadual de Meio Ambiente de S\u00e3o Paulo na gest\u00e3o Jos\u00e9 Serra. Depois, se tornou bolsonarista. E hoje critica o presidente.<\/p>\n<p>Ele defende, por exemplo, a facilita\u00e7\u00e3o da entrada e do uso de agrot\u00f3xicos, como no projeto de lei que ficou conhecido como PL do Veneno \u2014 proposto e relatado por parlamentares ligados ao agroneg\u00f3cio. Graziano tem divulgado uma s\u00e9rie de v\u00eddeos afirmando que livros did\u00e1ticos e apostilas propagam uma \u201cimagem negativa e preconceituosa do agroneg\u00f3cio, sem embasamento cient\u00edfico\u201d.<\/p>\n<p>Em um deles, postado em suas redes sociais no dia 10 de outubro de 2020, o ex-deputado afirma que analisou apostilas de v\u00e1rias escolas particulares, come\u00e7ando pela rede Anglo, e constatou \u201cerros, desatualiza\u00e7\u00f5es e ideologia\u201d.<\/p>\n<p>Outro aliado da campanha \u00e9 o tamb\u00e9m engenheiro agr\u00f4nomo Marcos Fava Neves, que chegou a ter o nome especulado para assumir o Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento concorrendo com Nabhan Garcia, Luis Carlos Heinze (PP-RS) e a atual ministra, Tereza Cristina.<\/p>\n<p>Em v\u00eddeo publicado no canal Terraviva, Naves divulgou um roteiro para que as \u201cm\u00e3es do agro\u201d avaliem os materiais did\u00e1ticos dos seus filhos. Entre as orienta\u00e7\u00f5es est\u00e3o a busca por termos que consideram \u201cultrapassados\u201d, como latif\u00fandio e prolet\u00e1rio, e a grava\u00e7\u00e3o de aulas. Na avalia\u00e7\u00e3o do agr\u00f4nomo, os professores de Geografia e Hist\u00f3ria s\u00e3o \u201cos mais doutrinadores e difusores de ideologias esquerdistas\u201d.<\/p>\n<p>No perfil do movimento no Instagram, h\u00e1 v\u00eddeos e outros registros de encontros das integrantes com membros da Sociedade Rural Brasileira (SRB), do Conselho Superior do Agroneg\u00f3cio (Cosag), \u00f3rg\u00e3o t\u00e9cnico da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo (Fiesp), com parlamentares e com os ministros Tereza Cristina (Mapa), Milton Ribeiro (Educa\u00e7\u00e3o) e Ricardo Salles (Ambiente). Todos aparecem dando for\u00e7a \u00e0 iniciativa.<\/p>\n<p>Nomes como Coronel Tadeu (PSL-SP), acusado de falta de decoro por destruir uma charge que denunciava viol\u00eancia policial contra jovens negros, Jer\u00f4nimo Goergen (PP-RS), autor do projeto de lei que tipifica como terroristas as ocupa\u00e7\u00f5es feitas por movimentos sociais, e Aline Sleutjes (PSL-PR), ligada ao setor leiteiro paranaense, s\u00e3o figurinhas carimbadas nas lives. De Olho Nos Ruralistas publicou reportagem sobre ela em mar\u00e7o: \u201cInimiga do MST, ruralista \u00e9 eleita para assumir Comiss\u00e3o de Agricultura\u201c.<\/p>\n<p>\u201cEles j\u00e1 conseguiram fazer articula\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios grupos\u201d, conta o ge\u00f3grafo Paulo Alentejano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). \u201c\u00c9 bastante preocupante a velocidade como os caras conseguiram se articular. \u00c9 muito grave e pouca gente estava sabendo\u201d.<\/p>\n<p>Nota publicada na coluna da jornalista M\u00f4nica Bergamo, da Folha, em outubro de 2020, informa sobre uma a\u00e7\u00e3o de Goergen junto ao MEC, pedindo a revis\u00e3o dos livros did\u00e1ticos. E, em mat\u00e9ria do Valor Econ\u00f4mico, Tereza Cristina diz que crian\u00e7as s\u00e3o \u201cmal ensinadas\u201d sobre o tema.<\/p>\n<p>Em dezembro, as l\u00edderes da campanha se reuniram com Ribeiro, ao lado de v\u00e1rios parlamentares da FPA, para apresentar a iniciativa e debater a\u00e7\u00f5es do MEC. Em v\u00eddeo publicado no dia seguinte a essa reuni\u00e3o, o movimento comemora que o agroneg\u00f3cio vai indicar representantes para a comiss\u00e3o de avalia\u00e7\u00e3o dos livros did\u00e1ticos do Programa Nacional do Livro Did\u00e1tico (PNLD), do minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Integrantes do Grupo de Estudos, Pesquisas e Extens\u00e3o em Geografia Agr\u00e1ria (GeoAgr\u00e1ria) da Uerj e do Grupo de Trabalho sobre Assuntos Agr\u00e1rios da Associa\u00e7\u00e3o dos Ge\u00f3grafos Brasileiros (GTAgr\u00e1ria) \u2013 Se\u00e7\u00f5es Rio de Janeiro e Niter\u00f3i escreveram um artigo denunciando a nova ofensiva do agroneg\u00f3cio na educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o deles, trata-se de uma disputa ideol\u00f3gica profunda, cujo objetivo \u00e9 aprofundar a hegemonia do setor, afirmando-o como um dos pilares da economia e da sociedade brasileira e silenciando qualquer perspectiva cr\u00edtica sobre as implica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e ambientais:<\/p>\n<p>\u2014 Buscam a todo custo impedir que nas escolas p\u00fablicas e particulares se debata sobre desmatamento e queimadas, sobre trabalho escravo e superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho, sobre concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, da riqueza e da renda, sobre a viol\u00eancia no campo, como se tudo isso fosse coisa do passado e n\u00e3o existisse mais no campo brasileiro, no qual reinaria o agro pop, tech, tudo.<\/p>\n<p>De acordo com os professores, o fato de ser uma campanha direcionada exclusivamente \u00e0s m\u00e3es diz muito sobre o car\u00e1ter patriarcal do agroneg\u00f3cio. \u201cA educa\u00e7\u00e3o dos filhos \u00e9 vista como tarefa apenas das mulheres e n\u00e3o como uma responsabilidade conjunta de pais e m\u00e3es\u201d. Al\u00e9m do machismo, eles destacam o racismo, \u201cuma vez que, dentre outras quest\u00f5es, em mais de cinquenta v\u00eddeos analisados n\u00e3o h\u00e1 nenhum em que apare\u00e7a uma mulher ou um homem negro\u201d.<\/p>\n<p>Os grupos de estudos pedem que educadores, movimentos sociais e sindicais, associa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e educacionais reajam. \u201cO que est\u00e1 em jogo, para al\u00e9m da preserva\u00e7\u00e3o da liberdade de professores e professoras, \u00e9 o pr\u00f3prio debate sobre o papel social da educa\u00e7\u00e3o: se uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e democr\u00e1tica ou se uma educa\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o de interesses particulares de um dos segmentos mais retr\u00f3grados da sociedade brasileira, disfar\u00e7ado sob o verniz das tecnologias mais modernas\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um grupo de mulheres ligadas ao agroneg\u00f3cio, que se autointitulam \u201cm\u00e3es do agro\u201d, encabe\u00e7a uma campanha para interferir no curr\u00edculo e fiscalizar o conte\u00fado dos materiais did\u00e1ticos de escolas p\u00fablicas e particulares do Brasil, suprimindo as cr\u00edticas ao setor. 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