{"id":256936,"date":"2021-05-13T23:23:57","date_gmt":"2021-05-14T02:23:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=256936"},"modified":"2021-05-14T10:50:43","modified_gmt":"2021-05-14T13:50:43","slug":"brasil-precisa-estar-pronto-para-volta-de-lula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-precisa-estar-pronto-para-volta-de-lula\/","title":{"rendered":"Brasil precisa estar pronto para volta de Lula"},"content":{"rendered":"<p>Para quem acompanha, ainda que superficialmente, a pol\u00edtica brasileira, n\u00e3o \u00e9 novidade que o pa\u00eds vive sua maior crise desde o final da ditadura civil-militar, nos anos de 1980. Alguns consideram, inclusive, que n\u00e3o h\u00e1, em toda a hist\u00f3ria secular da Rep\u00fablica brasileira, situa\u00e7\u00e3o mais grave do que a atual.<\/p>\n<p>O Brasil vivencia uma situa\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria liderada pelo presidente de extrema direita Jair Bolsonaro (sem partido), que conta com apoio social e o aval das classes dominantes e das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse as consequ\u00eancias sociais da ado\u00e7\u00e3o de um projeto ultraneoliberal, o surgimento da pandemia do coronav\u00edrus em 2020 e a (falta de) condu\u00e7\u00e3o do combate ao v\u00edrus, simbolizado no desprezo \u00e0 doen\u00e7a e \u00e0 ci\u00eancia, acabaram por levar o pa\u00eds ao pior cen\u00e1rio projetado, tanto no plano sanit\u00e1rio quanto no econ\u00f4mico e social.<\/p>\n<p>O resultado disso pode ser sintetizado nas mais de 400 mil mortes causadas pela Covid-19, \u00e0 marca de 3 mil \u00f3bitos di\u00e1rios[1], o surgimento de novas variantes do v\u00edrus e o colapso do sistema de sa\u00fade um ano ap\u00f3s a chegada do coronav\u00edrus no Brasil, em mar\u00e7o do ano passado, transformando o pa\u00eds numa amea\u00e7a ao mundo.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a esquerda brasileira \u2013 derrotada em todas as grandes batalhas pol\u00edticas da \u00faltima d\u00e9cada \u2013 busca se recompor e recriar base social na tentativa de retomar a condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Diante disso, cabem algumas perguntas: como foi poss\u00edvel chegarmos a esta situa\u00e7\u00e3o? Qual a capacidade de rea\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira?<\/p>\n<p>Neste sentido, o dossi\u00ea 40 \u2013 Os desafios da Esquerda no Brasil, do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social \u2013 analisa os desafios da esquerda brasileira diante de um cen\u00e1rio t\u00e3o adverso. Como n\u00e3o \u00e9 uma tarefa simples de ser executada, tanto pela pluralidade e diversidade das for\u00e7as progressistas quanto pela complexidade da conjuntura brasileira, optamos por conversar com diferentes representa\u00e7\u00f5es das classes trabalhadoras para nos ajudar nesse processo.<\/p>\n<p>Entrevistamos, portanto, \u00c9lida Elena, vice-presidenta da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE) e integrante do Levante Popular da Juventude; Jandyra Uehara, da Executiva Nacional da Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT); Juliano Medeiros, presidente nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL); Kelli Mafort, da dire\u00e7\u00e3o nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); Gleisi Hoffmann, deputada federal e presidenta do Partido dos Trabalhadores (PT); e Val\u00e9rio Arcary, professor do Instituto Federal de S\u00e3o Paulo (IFSP) e da dire\u00e7\u00e3o nacional do PSOL.<\/p>\n<p>O dossi\u00ea est\u00e1 dividido em cinco partes: a primeira faz uma avalia\u00e7\u00e3o sobre os caminhos percorridos pela esquerda brasileira no \u00faltimo per\u00edodo; o segundo momento analisa as fissuras e concilia\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de direita; enquanto o terceiro debate a constru\u00e7\u00e3o dos instrumentos de unidade; a quarta parte avalia os desafios em torno do trabalho de base; seguida pela reflex\u00e3o sobre o papel da maior lideran\u00e7a popular do pa\u00eds: o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vale destacar que as imagens que comp\u00f5em este dossi\u00ea fazem parte do projeto Design Ativista, um coletivo que surgiu durante as elei\u00e7\u00f5es brasileiras de 2018 com o objetivo de fomentar a cria\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o livre de arte e informa\u00e7\u00e3o, combatendo as not\u00edcias falsas e apoiando a democracia. Durante esse per\u00edodo, este coletivo promoveu diversas maratonas de design, convocat\u00f3rias para a produ\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as visuais e grandes encontros em que debateu o papel do design na contribui\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais humana e democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O n\u00famero de mortes por covid no Brasil em 2021 j\u00e1 superou o total do ano passado. Do 1\u00ba caso no pa\u00eds, no dia 12 de mar\u00e7o, at\u00e9 31 de dezembro de 2020, foram 194.949 mortes. Neste ano, j\u00e1 s\u00e3o mais de 200 mil.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-256013 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/COVID-19-300x167.jpeg\" alt=\"\" width=\"780\" height=\"434\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/COVID-19-300x167.jpeg 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/COVID-19-768x427.jpeg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/COVID-19.jpeg 810w\" sizes=\"auto, (max-width: 780px) 100vw, 780px\" \/><\/p>\n<p><strong>Caminhos a seguir<\/strong><br \/>\nUma an\u00e1lise feita por algumas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e especialistas avalia que grande parte das derrotas sofridas pela esquerda brasileira nas \u00faltimas d\u00e9cadas se deve \u00e0 concep\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica que hegemonizou parte desse setor, ao priorizar a luta institucional que levou o Partido dos Trabalhadores (PT) a governar o pa\u00eds por 13 anos (2003-2016), em detrimento de profundas reformas estruturais que colocassem em perspectiva a tomada de poder do Estado brasileiro pelas classes populares[2].<\/p>\n<p>A chegada do Partido dos Trabalhadores ao Poder Executivo esteve relacionada ao avan\u00e7o das for\u00e7as progressistas em toda a Am\u00e9rica Latina a partir do final dos anos 1990 e in\u00edcio dos anos 2000. Vit\u00f3rias dessa natureza em todo o continente expressaram uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas neoliberais.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que as pol\u00edticas dos governos do PT melhoraram em muito a vida de grande parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira, a exemplo da pol\u00edtica de renda do programa Bolsa Fam\u00edlia, respons\u00e1vel por tirar 36 milh\u00f5es de pessoas da extrema pobreza (MDS, 2015), do programa habitacional Minha Casa Minha Vida, que construiu mais de 4 milh\u00f5es de casas populares (ANTUNES, 2019), a valoriza\u00e7\u00e3o real do sal\u00e1rio m\u00ednimo e o aumento do emprego formal, a diminui\u00e7\u00e3o dos \u00edndices de desigualdade social, a inser\u00e7\u00e3o da juventude das periferias em universidades p\u00fablicas e privadas, entre tantas outras medidas.<\/p>\n<p>Todavia, boa parte da cr\u00edtica realizada a esse processo se deve ao fato de que a pol\u00edtica de composi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e classes distintas e as medidas socioecon\u00f4micas n\u00e3o foram acompanhadas de um processo de politiza\u00e7\u00e3o da grande maioria de trabalhadores e trabalhadoras que elevasse o n\u00edvel de consci\u00eancia de classe dos setores m\u00e9dios e populares. O resultado disso ficou mais evidente com o golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), em 2016, que n\u00e3o contou com um processo de resist\u00eancia massiva capaz de reverter o resultado do impeachment, al\u00e9m da pr\u00f3pria vit\u00f3ria de Bolsonaro, eleito com 57,8 milh\u00f5es de votos (55%) dois anos depois.<\/p>\n<p>\u201cApesar de termos vivenciado um per\u00edodo de investimentos para redu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais no Brasil, n\u00e3o se priorizou a organiza\u00e7\u00e3o popular e a disputa ideol\u00f3gica na sociedade durante os governos progressistas. A consolida\u00e7\u00e3o do golpe no Brasil n\u00e3o contou com a mobiliza\u00e7\u00e3o das camadas populares [para barr\u00e1-lo], benefici\u00e1rias das pol\u00edticas dos governos petistas\u201d, avalia \u00c9lida Elena (UNE), que tamb\u00e9m destaca os ataques sofridos pela classe trabalhadora logo ap\u00f3s a sa\u00edda de Dilma da presid\u00eancia, como a retirada de direitos trabalhistas e medidas que contribu\u00edram com o enfraquecimento das entidades sindicais de forma a minar a rea\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. \u201cPortanto, afirmamos que a esquerda brasileira sofreu uma derrota de car\u00e1ter estrat\u00e9gico e que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na sociedade nos \u00e9 desfavor\u00e1vel\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Kelli Mafort (MST) acredita que as sucessivas derrotas da esquerda brasileira n\u00e3o chegaram a representar uma derrota estrat\u00e9gica, que ocorre quando uma classe \u00e9 anulada pela outra como sujeito pol\u00edtico. \u201cCertamente acumulamos muitas derrotas pol\u00edticas, mas a classe trabalhadora se mant\u00e9m viva e em resist\u00eancia diante dos impactos da crise do capital\u201d.<\/p>\n<p>Na sua avalia\u00e7\u00e3o, a \u00faltima grande formula\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da classe trabalhadora no Brasil foi a Democr\u00e1tico-Popular[3] no bojo do reascenso das lutas de massa no final dos anos de 1970 e 1980, gestada na luta pela abertura pol\u00edtica e pelo fim da ditadura civil-militar. Sob este ponto de vista, a estrat\u00e9gia Democr\u00e1tico-Popular combinaria duas t\u00e1ticas fundamentais: a disputa da institucionalidade, buscando acumular for\u00e7as por dentro do Estado, a partir das disputas eleitorais em todas as esferas, e a t\u00e1tica de mobiliza\u00e7\u00e3o popular, por meio de greves, ocupa\u00e7\u00f5es de terra, mobiliza\u00e7\u00f5es e lutas massivas.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia Democr\u00e1tico-Popular se fundamenta em tr\u00eas convic\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>o desenvolvimento do capitalismo brasileiro deixou de realizar tarefas da revolu\u00e7\u00e3o burguesa (reforma agr\u00e1ria, desigualdades regionais e sociais, consolida\u00e7\u00e3o de uma ordem democr\u00e1tica etc.);<\/p>\n<p>estas tarefas n\u00e3o podem ser enfrentadas em alian\u00e7a com a burguesia interna e t\u00eam por protagonistas as classes populares (trabalhadores do campo e da cidade e demais setores explorados pelo capitalismo);<\/p>\n<p>o caminho de realiza\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia seria o ac\u00famulo de for\u00e7as que combinaria um forte movimento de massas com vit\u00f3rias institucionais at\u00e9 alcan\u00e7ar a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e realizar um conjunto de reformas apresentadas no Programa Democr\u00e1tico Popular (antimonopolista, antilatifundi\u00e1rio e anti-imperialista).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, Mafort avalia que \u201cna efetiva\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da estrat\u00e9gia Democr\u00e1tico-Popular, houve um distanciamento entre as t\u00e1ticas e, pouco a pouco, a t\u00e1tica da institucionalidade foi se sobrepondo \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o popular. Com isso, o que era t\u00e1tico foi se tornando estrat\u00e9gico, promovendo uma acomoda\u00e7\u00e3o coletiva das organiza\u00e7\u00f5es. Soma-se a isso um conjunto de equ\u00edvocos pol\u00edticos em n\u00e3o distinguir o que \u00e9 governo do que \u00e9 instrumento organizativo da classe trabalhadora, durante os governos neodesenvolvimentistas de Lula e Dilma\u201d.<\/p>\n<p>Nessa mesma linha, Juliano Medeiros (PSOL) pontua que \u00e9 inevit\u00e1vel reconhecer a derrota de \u201cuma estrat\u00e9gia que limitou sua perspectiva \u00e0 gest\u00e3o do Estado, \u00e0s regras do jogo da democracia liberal, \u00e0 melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida, mas sem reformas estruturais. A op\u00e7\u00e3o de parte da esquerda por promover mudan\u00e7as a partir do Estado fez com que o contato com os setores populares fosse enfraquecido. Formas de sociabilidade que surgiram no processo de democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira nos anos de 1980 foram substitu\u00eddas por outras, impregnadas de ideologia neoliberal, de individualismo. E isso aconteceu porque essa esquerda deixou os territ\u00f3rios para travar a justa e necess\u00e1ria luta institucional, mas deixando que o inimigo ocupasse o terreno\u201d, acredita.<\/p>\n<p>O v\u00e1cuo que permitiu a ascens\u00e3o da extrema direita e a incapacidade de rea\u00e7\u00e3o \u00e0 altura das esquerdas n\u00e3o foi \u201cum raio em c\u00e9u azul\u201d, como aponta Jandyra Uehara (CUT), mas um \u201cresultado de quase tr\u00eas d\u00e9cadas de uma pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes, de um rebaixamento program\u00e1tico, da preval\u00eancia da luta institucional e eleitoral descolada do trabalho de base, da educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e da disputa ideol\u00f3gica da classe trabalhadora\u201d.<\/p>\n<p>Como apontou a pr\u00f3pria sindicalista, tal derrota n\u00e3o diz respeito apenas aos erros da esquerda, mas a uma ofensiva da direita protagonizada, sobretudo, pelos principais meios de comunica\u00e7\u00e3o, que desde o in\u00edcio dos governos do PT constru\u00edram uma narrativa de criminaliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica para afastar a sociedade do debate pol\u00edtico e, principalmente, de criminaliza\u00e7\u00e3o do PT \u2013 consequentemente da esquerda como um todo \u2013, ao construir a imagem de uma esquerda corrupta e entregue ao \u201csistema\u201d.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Val\u00e9rio Arcary (PSOL) comenta sobre uma miopia t\u00e1tica da esquerda ao subestimar \u201co perigo que nos amea\u00e7ava. Subestimou-se a Lava Jato; depois, o significado do impeachment; depois, a possibilidade da criminaliza\u00e7\u00e3o da esquerda e de Lula; depois, a imin\u00eancia da pris\u00e3o de Lula e, finalmente, a amea\u00e7a representada por Bolsonaro. Subestimar a for\u00e7a dos inimigos de classe foi fatal\u201d.<\/p>\n<p>Arcary se refere a sucessivos erros de an\u00e1lise por parte da esquerda brasileira nos \u00faltimos anos, quando a direita passou a intensificar sua ofensiva. Demorou para que parcela das for\u00e7as progressistas entendessem a real dimens\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, por exemplo. Quando iniciado o processo de afastamento de Dilma da presid\u00eancia, alguns setores acreditavam que tal iniciativa do Parlamento n\u00e3o teria \u00eaxito, uma vez que a pol\u00edtica econ\u00f4mica da petista j\u00e1 estava beneficiando a classe dominante e n\u00e3o interessava \u00e0 burguesia uma instabilidade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Num segundo momento, n\u00e3o se acreditava que a pris\u00e3o do ex-presidente Lula poderia se concretizar, pelo suposto medo por parte da direita de insuflar revoltas populares contra a pris\u00e3o do ex-presidente, algo que n\u00e3o ocorreu. Posteriormente, quando Bolsonaro se lan\u00e7a como candidato \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica em 2018, muitos avaliavam que o apoio ao ex-capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito Brasileiro n\u00e3o passaria de 8%. Entretanto, Bolsonaro foi o primeiro colocado no primeiro turno e eleito com 55% dos votos no segundo turno contra Fernando Haddad (PT).<\/p>\n<p>Diante de tantos impasses, a fort\u00edssima influ\u00eancia da ideologia neoliberal, do individualismo e do empreendedorismo n\u00e3o encontrou obst\u00e1culos frente ao enfraquecimento do ide\u00e1rio socialista, cujas organiza\u00e7\u00f5es, de um modo geral, abandonaram o car\u00e1ter anticapitalista e anti-imperialista, colocaram em segundo plano o trabalho de base organizado e passaram a privilegiar a luta institucional e eleitoral.<\/p>\n<p>Formou-se, portanto, um terreno f\u00e9rtil para a direita conquistar \u201cuma classe trabalhadora cuja maioria n\u00e3o est\u00e1 organizada e nem sob a influ\u00eancia permanente de sindicatos, movimentos populares e partidos de esquerda, que pouco a pouco abandonaram seus territ\u00f3rios, priorizando as lutas corporativas e economicistas e as disputas eleitorais. Enquanto isso, os instrumentos de disputa pol\u00edtica ideol\u00f3gica da direita se enra\u00edzam nos territ\u00f3rios onde vive a classe trabalhadora\u201d, comenta Jandyra Uehara (CUT).<\/p>\n<p>O Brasil iniciou 2021 atingindo n\u00famero recorde de desempregados, com 14,272 milh\u00f5es (14,2%) de pessoas nesta situa\u00e7\u00e3o, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad).<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-155370 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/pobreza-no-mundo-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"782\" height=\"520\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/pobreza-no-mundo-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/pobreza-no-mundo-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/pobreza-no-mundo-696x463.jpg 696w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/pobreza-no-mundo-631x420.jpg 631w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/pobreza-no-mundo.jpg 932w\" sizes=\"auto, (max-width: 782px) 100vw, 782px\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>A tr\u00e1gica repeti\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<\/strong><br \/>\nLogo ap\u00f3s a crise econ\u00f4mica de 2008, observa-se uma nova ofensiva neoliberal dirigida pelos EUA para retomar o controle e hegemonia global para si, enquanto no Brasil, sob a influ\u00eancia das estrat\u00e9gias impulsionadas pelo imperialismo, a complexa composi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de classes dos governos do PT foi se esgotando. N\u00e3o era mais poss\u00edvel manter ganhos para a burguesia sem reduzir os direitos dos trabalhadores. O rompimento da classe dominante com o governo foi sendo desenhado passo a passo, sob a dire\u00e7\u00e3o da m\u00e3o invis\u00edvel do imperialismo estadunidense.<\/p>\n<p>Ao n\u00e3o conseguirem implantar o projeto neoliberal em sua forma mais completa por meio de elei\u00e7\u00f5es \u2013 com a derrota de A\u00e9cio Neves (PSDB) para Dilma Rousseff na disputa presidencial em 2014 \u2013, os setores hegem\u00f4nicos da burguesia brasileira valeram-se, ent\u00e3o, de outras t\u00e1ticas: primeiro, a abertura do processo de impeachment contra Dilma; depois, a interdi\u00e7\u00e3o de Lula e o embarque na candidatura de Jair Bolsonaro \u2013 uma figura autorit\u00e1ria e com tra\u00e7os neofascistas \u2013, o \u00fanico nome que se mostrou capaz de vencer o PT nas elei\u00e7\u00f5es de 2018.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s o golpe que destituiu Dilma Rousseff, teve in\u00edcio uma forte e exitosa agenda neoliberal e de austeridade para desmontar as conquistas obtidas ao longo de 13 anos dos governos petistas, um desmonte do Estado para que a burguesia brasileira e internacional pudessem abocanhar boa parte dos recursos p\u00fablicos e um realinhamento incondicional do pa\u00eds aos EUA em todos os temas, f\u00f3runs e inst\u00e2ncias do sistema internacional, al\u00e9m do envolvimento ostensivo na campanha internacional contra a Venezuela e o processo da Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana.<\/p>\n<p>Cinco anos depois do golpe e dois anos ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, o Brasil mergulhou na maior trag\u00e9dia econ\u00f4mica, social, pol\u00edtica, ambiental e sanit\u00e1ria de todo o per\u00edodo republicano (ANTUNES, 2021), convertendo o atual cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro em uma combina\u00e7\u00e3o explosiva entre essas crises. A condu\u00e7\u00e3o da crise sanit\u00e1ria pelo governo federal levou o pa\u00eds a se tornar o epicentro da pandemia \u2013 junto com a \u00cdndia \u2013 entre os meses de mar\u00e7o e abril de 2021, em um momento em que o mundo assistia a um retrocesso da dissemina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. A converg\u00eancia dessas crises tem tido um impacto profundo na piora das condi\u00e7\u00f5es de vida do povo, com o aumento da fome e da pobreza, novas variantes do coronav\u00edrus e o colapso do sistema de sa\u00fade (FIOCRUZ, 2021).<\/p>\n<p>O agravamento da pandemia frente \u00e0 pol\u00edtica deliberadamente genocida do governo Bolsonaro, que permanece sem a\u00e7\u00f5es de controle e combate ao v\u00edrus e que aumenta de forma exponencial as mortes sem socorro, fez com que a direita liberal iniciasse um lento e gradual desembarque do governo. Por\u00e9m, se existe certo inc\u00f4modo com discursos mais autorit\u00e1rios e os rumos do combate \u00e0 pandemia, h\u00e1 uma forte converg\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o do projeto ultraneoliberal de ataques aos direitos trabalhistas e sociais.<\/p>\n<p>\u201cA preval\u00eancia da disputa pol\u00edtica entre a extrema direita e a direita tradicional [liberal] tem como base concreta diverg\u00eancias e contradi\u00e7\u00f5es em torno do controle dos aparatos institucionais que estruturam a democracia limitada que temos no Brasil, particularmente o STF e outros aparelhos do sistema de justi\u00e7a e o Congresso Nacional. Esta unidade program\u00e1tica em torno do neoliberalismo \u00e9 um dos pilares da resili\u00eancia do governo genocida de Bolsonaro, sendo que os outros dois sustent\u00e1culos s\u00e3o os militares e a base popular bolsonarista, que se constr\u00f3i em grande parte nas igrejas evang\u00e9licas\u201d, observa Jandyra (CUT), que considera que para a maior parte da direita, Bolsonaro n\u00e3o representa um fim em si mesmo, mas apenas \u201cum dos meios para implementar a pol\u00edtica ultraliberal\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do apoio de boa parcela da burguesia interna, Val\u00e9rio Arcary (PSOL) ainda chama a aten\u00e7\u00e3o para outros quatro elementos que sustentam Bolsonaro: o incr\u00edvel apoio de cerca de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o brasileira (DATAFOLHA, 2021) mesmo em meio ao caos sanit\u00e1rio; os efeitos desmoralizadores das derrotas acumuladas da classe trabalhadora; a fragilidade das alternativas a Bolsonaro; e a pr\u00f3pria pandemia, que imp\u00f5e limites \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o social popular.<\/p>\n<p>Grosso modo, o atual espectro pol\u00edtico brasileiro pode ser caracterizado em quatro grandes campos: extrema direita, direita liberal, centro-esquerda e esquerda. \u201cQuem desses campos est\u00e1 em busca de um projeto? Exatamente a centro-esquerda e a direita liberal. A crise da democracia fortaleceu os polos\u201d, avalia Juliano Medeiros (PSOL).<\/p>\n<p>J\u00e1 Kelli Mafort (MST) acredita que a disputa se d\u00e1 principalmente entre a esquerda e a extrema direita, uma vez que a direita liberal tem perdido espa\u00e7o e seu principal problema \u00e9 encontrar uma lideran\u00e7a pol\u00edtica capaz de dialogar com o povo. Por\u00e9m, observa que \u00e9 \u201csempre importante lembrar que extrema direita e direita [liberal] s\u00e3o duas faces da mesma moeda: a classe burguesa. \u00c9 contra essa classe que devemos nos mover, na condi\u00e7\u00e3o leg\u00edtima de classe trabalhadora, antag\u00f4nica ao capital\u201d.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da pandemia, o Brasil era o pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina com melhores condi\u00e7\u00f5es para enfrentar o coronav\u00edrus, muito gra\u00e7as \u00e0 estrutura do Sistema Nacional de Sa\u00fade (SUS), mas o governo conseguiu boicotar deliberadamente o sistema de sa\u00fade, como demonstrou um estudo feito pela Universidade de Michigan e pela Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV).<br \/>\nMatheus Miguel (@poesianasestrelas) \/ Design Ativista \/ 2020<\/p>\n<p><strong>Frente Ampla versus Frente de Esquerda<\/strong><br \/>\nPara Val\u00e9rio Arcary (PSOL), as condi\u00e7\u00f5es objetivas para a derrubada de Bolsonaro, que estariam apodrecendo de t\u00e3o maduras diante do colapso sanit\u00e1rio, evoluem mais r\u00e1pido que as subjetivas. No entanto, h\u00e1 uma disputa pela hegemonia no campo da oposi\u00e7\u00e3o ao governo de extrema direita entre a esquerda e a direita liberal. Para ele, \u201ca experi\u00eancia de 100 anos de luta contra a extrema direita, em especial quando ela \u00e9 liderada por uma corrente com caracter\u00edsticas fascistas, confirma que uma Frente \u00danica de Esquerda \u00e9 a melhor t\u00e1tica\u201d. N\u00e3o porque a esquerda n\u00e3o aceite a unidade na a\u00e7\u00e3o com a direita liberal, mas porque ela \u201cteme, com raz\u00e3o, que a crise social favore\u00e7a o caminho para um governo de esquerda\u201d.<\/p>\n<p>Para Jandyra Uehara (CUT), a consigna \u201cFora Bolsonaro\u201d at\u00e9 poderia agregar setores da centro-direita [setores da direita liberal] com o aprofundamento da crise. Por\u00e9m, uma pol\u00edtica de Frente Ampla \u2013 defendida por alguns setores da esquerda e centro-esquerda \u2013 teria, a seu ver, uma vis\u00e3o etapista do processo hist\u00f3rico social, j\u00e1 que essa an\u00e1lise separa a luta pelas liberdades democr\u00e1ticas da luta em defesa dos direitos e da soberania nacional. Caso prevale\u00e7a essa linha, acredita que a esquerda se tornaria ref\u00e9m da direita liberal, sendo ainda mais dif\u00edcil reverter o projeto neoliberal implementado nos \u00faltimos anos. \u201cAo nosso ver, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de revers\u00e3o sem ruptura e n\u00e3o h\u00e1 unidade nacional quando o pre\u00e7o a pagar \u00e9 manter o povo alijado, sob o tac\u00e3o da ultraexplora\u00e7\u00e3o, do aprofundamento das desigualdades e o Brasil subalterno na periferia do capitalismo\u201d.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o se contrap\u00f5e \u00e0 t\u00e1tica visualizada por Gleisi Hoffmann (PT), que acredita que para enfrentar a crise vivenciada no Brasil \u00e9 preciso uma alian\u00e7a pol\u00edtica mais ampla, \u201cn\u00e3o necessariamente eleitoral, [mas] juntar todos os setores pol\u00edticos, sociais, culturais que lutam pela vacina, por renda emergencial, por emprego e pelo \u201cFora Bolsonaro\u201d.<\/p>\n<p>Tal interpreta\u00e7\u00e3o dialoga mais com a an\u00e1lise feita por \u00c9lida Elena (UNE), que defende a combina\u00e7\u00e3o de duas Frentes: uma Frente Popular de Esquerda e uma Frente Democr\u00e1tica. \u201cA li\u00e7\u00e3o fundamental dessa constata\u00e7\u00e3o \u00e9 que a quest\u00e3o democr\u00e1tica se entrela\u00e7a com a quest\u00e3o social que se agrava como consequ\u00eancia da grave crise do capitalismo. Trata-se de defender a democracia, ainda que deteriorada, enquanto o terreno mais adequado para travar a luta pol\u00edtica. \u00c9 necess\u00e1rio evitar a conforma\u00e7\u00e3o de um Estado policial ou mesmo de um regime pol\u00edtico fascista onde as condi\u00e7\u00f5es de luta e organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora seriam bastante desfavor\u00e1veis\u201d, o que implicaria a constru\u00e7\u00e3o de uma Frente Democr\u00e1tica, agregando diversos setores da sociedade em defesa da democracia, buscando desgastar, isolar e derrotar o neofascismo.<\/p>\n<p>Em contrapartida, acredita que \u00e9 preciso continuar construindo e fortalecendo uma Frente de Esquerda e Popular, \u201cde car\u00e1ter estrat\u00e9gico, que acumule for\u00e7as para uma sa\u00edda democr\u00e1tica e popular para a crise brasileira. Isto implica de imediato a defesa dos direitos sociais do povo, a defesa das lutas da popula\u00e7\u00e3o negra contra o racismo e contra todas as opress\u00f5es hist\u00f3ricas que pesam sobre os trabalhadores brasileiros e o combate implac\u00e1vel \u00e0 pol\u00edtica neoliberal de Paulo Guedes [ministro da Economia]\u201d.<\/p>\n<p>Duas experi\u00eancias interessantes constru\u00eddas desde 2015 s\u00e3o a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo; ambas agregam dezenas de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de esquerda. A primeira tem um car\u00e1ter um pouco mais amplo, agregando partidos eleitorais, enquanto a segundo \u00e9 constitu\u00edda exclusivamente por setores do movimento social e sindical. As duas frentes s\u00e3o necess\u00e1rias para o ac\u00famulo program\u00e1tico, para um projeto de na\u00e7\u00e3o, e v\u00eam cumprindo um importante papel de mobiliza\u00e7\u00e3o popular e constru\u00e7\u00e3o de unidade com a centro-esquerda na luta contra as reformas neoliberais.<\/p>\n<p>Independente de qual t\u00e1tica seguir, h\u00e1 um consenso da necessidade de se construir caminhos de supera\u00e7\u00e3o e media\u00e7\u00e3o com a realidade, como aponta Kelli Mafort, ao relatar que o MST tem optado, por enquanto, em n\u00e3o pautar a constru\u00e7\u00e3o da unidade em torno de elementos program\u00e1ticos e de concep\u00e7\u00e3o, \u201cpois nossa avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 que fazer isso em momentos de descenso das lutas de massas pode levar a equ\u00edvocos academicistas ou de disputa por \u2018hegemonismos\u2019 que em nada contribuem para o avan\u00e7o das lutas de classes. Assim, temos procurado nos envolver com a constru\u00e7\u00e3o da unidade em torno de bandeiras pol\u00edticas, sempre tendo a realidade como principal base de formula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A unidade em torno de bandeiras pol\u00edticas mais imediatas \u00e9 o que mais tem gerado unidade na a\u00e7\u00e3o da esquerda brasileira, a exemplo das tr\u00eas bandeiras centrais: a luta pela vacina; pelo Aux\u00edlio Emergencial de R$ 600,00; e o impeachment de Bolsonaro.<\/p>\n<p>\u201cVivemos um momento de balan\u00e7o pol\u00edtico para melhor acertar na proje\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, e isso passa por enfrentar as fragmenta\u00e7\u00f5es no campo popular e de esquerda, a disputa por hegemonia e o taticismo exacerbado, buscando construir unidade no que \u00e9 central, mas, ao mesmo tempo, fomentando experi\u00eancias de ac\u00famulo pol\u00edtico no trabalho de base, na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e na prepara\u00e7\u00e3o de lutas mais ofensivas\u201d avalia Kelli Mafort (MST).<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, a quest\u00e3o da unidade \u00e9 um desafio e uma necessidade hist\u00f3rica para a esquerda como um todo. Nesse sentido, \u00c9lida Elena (UNE) acredita que o pre\u00e7o da fragmenta\u00e7\u00e3o da esquerda ser\u00e1 alto e poder\u00e1 levar a dois cen\u00e1rios: vit\u00f3ria eleitoral do bolsonarismo e avan\u00e7o no processo de fascistiza\u00e7\u00e3o da sociedade; ou a constitui\u00e7\u00e3o de uma alternativa da direita liberal, que dar\u00e1 seguimento ao projeto econ\u00f4mico neoliberal.<\/p>\n<p>\u201cSe nos fragmentamos, nenhuma for\u00e7a de esquerda ser\u00e1 vitoriosa. \u00c9 preciso ter um ambiente favor\u00e1vel, sem hegemonismos, de respeito \u00e0s diferen\u00e7as, numa t\u00e1tica que nos una, em torno do que deve ser mais relevante do que as demandas espec\u00edficas das organiza\u00e7\u00f5es, que \u00e9 a de derrotar a escalada neofascista no Brasil\u201d, pontua.<\/p>\n<p>Pouco mais de 68 milh\u00f5es de pessoas receberam o Aux\u00edlio Emergencial de R$ 600,00 em 2020. Em 2021 ele est\u00e1 mais restrito e ser\u00e1 pago em quatro parcelas que variam de R$ 150 a R$ 375, dependendo da fam\u00edlia<\/p>\n<p><strong>Trabalho de base<\/strong><br \/>\nEmbora esteja presente na maioria dos discursos das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, h\u00e1 anos que as for\u00e7as progressistas do pa\u00eds de Paulo Freire \u2013 que em 2021 completaria 100 anos \u2013 se veem com dificuldade de consolidar e materializar um fortalecimento do trabalho de base capaz de restabelecer a confian\u00e7a das massas e mudar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na sociedade.<\/p>\n<p>Todavia, h\u00e1 uma conson\u00e2ncia entre praticamente toda a esquerda da necessidade de readquirir a concep\u00e7\u00e3o do trabalho de base enquanto uma tarefa estrat\u00e9gica, com disputa ideol\u00f3gica e inser\u00e7\u00e3o nas periferias de forma mais permanente. Esta \u00e9 vista como um elemento central para reconstruir for\u00e7a social, derrotar o bolsonarismo e colocar na ordem do dia reformas estruturais e construir o horizonte da tomada do poder.<\/p>\n<p>Para Val\u00e9rio Arcary (PSOL), os setores mais ativos na base social da esquerda est\u00e3o se sentindo mais fortalecidos hoje, um fato extremamente relevante. \u201cAs altera\u00e7\u00f5es na consci\u00eancia das massas s\u00e3o chaves na disposi\u00e7\u00e3o de luta, no \u00e2nimo, na for\u00e7a moral, na autoconfian\u00e7a. Antes que as posi\u00e7\u00f5es de classe mudem, \u00e9 necess\u00e1rio que a consci\u00eancia se transforme. Quando o que parecia imposs\u00edvel acontece, surpreendendo, o alcance das expectativas se eleva\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Nesse sentido, \u00c9lida Elena (UNE) constata que \u201cpara enfrentar esse momento, apostamos na constru\u00e7\u00e3o da t\u00e1tica de defesa ativa, que tem como objetivo resistir aos retrocessos construindo condi\u00e7\u00f5es para passar a uma situa\u00e7\u00e3o de ofensiva. Hoje nossa tarefa \u00e9: isolar, desgastar e derrotar o bolsonarismo. A amplia\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos com a classe trabalhadora \u00e9 essencial. Para isso, apostamos na pol\u00edtica de solidariedade como um dos caminhos de amplia\u00e7\u00e3o da nossa resist\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Como nem tudo s\u00e3o flores, \u00c9lida Elena (UNE) aponta um conjunto de elementos que dificultam a execu\u00e7\u00e3o do trabalho de base nas periferias, algo fundamental de se reconhecer para que seja poss\u00edvel avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o de for\u00e7a social nos territ\u00f3rios: o crime organizado, que dificulta a constru\u00e7\u00e3o de metodologias de trabalho; a predomin\u00e2ncia das igrejas neopentecostais, que trabalham sob uma perspectiva mais conservadora e ainda s\u00e3o capazes de dar respostas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es materiais de vida do povo; e a pr\u00f3pria precariedade da condi\u00e7\u00e3o de vida nas periferias, colocando a luta pela sobreviv\u00eancia di\u00e1ria na frente da organiza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Somam-se a esses desafios a perda de autonomia dos trabalhadores, a generaliza\u00e7\u00e3o da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, o desmantelamento dos instrumentos organizativos da classe trabalhadora, combinados ainda \u00e0 retirada de direitos, amplia\u00e7\u00e3o da segrega\u00e7\u00e3o social, racial e de g\u00eanero.<\/p>\n<p>No entanto, especialmente no ano passado, diante da piora de condi\u00e7\u00f5es de vida da classe trabalhadora \u2013 fruto das pol\u00edticas neoliberais implementadas a partir de 2016, agravadas pela pandemia \u2013, parte da esquerda tirou como linha de atua\u00e7\u00e3o as a\u00e7\u00f5es de solidariedade e combate \u00e0 pandemia do v\u00edrus e da fome, possibilitando uma retomada do trabalho de base. Dessa forma, a milit\u00e2ncia se envolveu em in\u00fameras iniciativas de solidariedade com organiza\u00e7\u00e3o de cozinhas coletivas, doa\u00e7\u00e3o de alimentos, materiais de higiene pessoal, m\u00e1scaras e doa\u00e7\u00e3o de sangue.<\/p>\n<p>Uma dessas a\u00e7\u00f5es ficou conhecida como Periferia Viva, uma articula\u00e7\u00e3o entre diversos movimentos populares em torno de uma solidariedade classista, combinando as dimens\u00f5es da solidariedade com uma pedagogia de trabalho de base, criando v\u00ednculo org\u00e2nico com as fam\u00edlias das comunidades por meio dos Agentes Populares. A metodologia dos Agentes Populares consiste, basicamente, em formar e capacitar pessoas das comunidades que participam das a\u00e7\u00f5es de solidariedade, com a finalidade delas se tornarem atuantes em seus locais de moradia e se responsabilizarem por um determinado n\u00famero de fam\u00edlias. Esses agentes passam a atuar nas \u00e1reas de sa\u00fade, direitos e alimenta\u00e7\u00e3o, fomentando processos de coopera\u00e7\u00e3o e ajuda m\u00fatua.<\/p>\n<p>\u201cCompreendemos a pol\u00edtica de solidariedade como uma das estrat\u00e9gias priorit\u00e1rias para a constru\u00e7\u00e3o do trabalho de base cotidiano nas periferias, pois essa \u00e9 uma resposta pol\u00edtica relevante para a atual conjuntura que estamos vivendo, permitindo respostas concretas ao avan\u00e7o do neoliberalismo e se inserindo na linha t\u00e1tica da defesa ativa\u201d, avalia \u00c9lida Elena (UNE).<\/p>\n<p>O Brasil iniciou 2021 com mais pessoas na mis\u00e9ria do que em rela\u00e7\u00e3o ao come\u00e7o da d\u00e9cada passada, em 2011. Ao todo, 27 milh\u00f5es de pessoas (12,8%) dos brasileiros passaram a viver com menos de R$ 246 ao m\u00eas (R$ 8,20 ao dia), segundo a FGV Social<\/p>\n<p><strong>A volta de Lula ao jogo pol\u00edtico<\/strong><br \/>\nEntre os meses de mar\u00e7o e abril, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu dois pedidos feitos pela defesa do ex-presidente Lula que lhe possibilitou readquirir seus direitos pol\u00edticos cassados desde 2018. Em um deles, o STF apontou que o ex-juiz federal Sergio Moro n\u00e3o tinha compet\u00eancia para julgar casos em que Lula era r\u00e9u, anulando todas as condena\u00e7\u00f5es do ex-presidente. No outro, a Suprema Corte reconheceu que Moro agiu com parcialidade ao conden\u00e1-lo em um dos processos, que o levou \u00e0 pris\u00e3o por 580 dias.<\/p>\n<p>Embora ainda haja algumas possibilidades de reviravoltas (por mais m\u00ednimas que sejam), o fato \u00e9 que a volta da elegibilidade de Lula mexeu no tabuleiro pol\u00edtico brasileiro. O principal elemento a se perguntar \u00e9 o que levou o STF a tomar tais decis\u00f5es, uma vez que a Suprema Corte fora c\u00famplice e conivente com as pr\u00e1ticas realizadas pela opera\u00e7\u00e3o Lava Jato.<\/p>\n<p>Todavia, independente de tais motivos, o fato mais evidente \u00e9 que parte da direita liberal busca novamente uma sa\u00edda por cima do atual cen\u00e1rio de crise, uma vez que tais decis\u00f5es n\u00e3o foram frutos de mobiliza\u00e7\u00f5es populares, embora tenha que se reconhecer todo o empenho realizado pela esquerda brasileira para que Lula reconquistasse seus direitos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Gleisi Hoffmann (PT) pontua que a retomada dos direitos pol\u00edticos de Lula faz crescer a vontade de unidade do campo progressista para enfrentar a extrema direita e setores da direita liberal, j\u00e1 que \u201cele \u00e9 o l\u00edder pol\u00edtico mais apto a construir isso, e agora est\u00e1 desinterditado legalmente, o que amplia sua capacidade mobilizadora e organizativa\u201d.<\/p>\n<p>A volta de Lula ao jogo pol\u00edtico \u201ctem consequ\u00eancias imediatas, seja pautando o comportamento de Bolsonaro, constrangendo-o, seja tamb\u00e9m nas articula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas com chefes de Estado de outros pa\u00edses que podem ajudar o Brasil diante da atual calamidade p\u00fablica. O fator Lula exerce muita influ\u00eancia sobre a esquerda brasileira, e a urg\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o atual exige que ele continue exercendo lideran\u00e7a para a resolu\u00e7\u00e3o dos problemas brasileiros, mas tamb\u00e9m ajude a convocar a milit\u00e2ncia a fazer trabalho de base, ampliar a\u00e7\u00f5es de solidariedade e enfrentar o bolsonarismo fascista no meio das massas populares\u201d, acredita Kelli Mafort (MST).<\/p>\n<p>Para Val\u00e9rio Arcary (PSOL), apesar de ainda estarmos em uma situa\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria e defensiva, a possibilidade de Lula ser candidato \u00e0 presid\u00eancia em 2022 mudou a rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de for\u00e7as no Brasil e representou a maior vit\u00f3ria pol\u00edtica democr\u00e1tica dos \u00faltimos cinco anos.<\/p>\n<p>\u201cLula se credencia como o nome mais forte da esquerda para a disputa do segundo turno, evidentemente. Em uma conjuntura de cataclismo sanit\u00e1rio e recess\u00e3o econ\u00f4mica, abre a possibilidade de elevar o patamar da resist\u00eancia. Portanto, tudo mudou. N\u00e3o podemos manter o quietismo, \u00e0 espera de 2022, para responder \u00e0 necessidade de vacinas para todos e aux\u00edlio emergencial, sob a bandeira Fora Bolsonaro. Um ano e meio nos separam das elei\u00e7\u00f5es de 2022. A luta por um governo de esquerda deve ser o centro da estrat\u00e9gia. Precisamos de uma esquerda com instinto de poder. Mas o desafio neste momento n\u00e3o \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o, com um ano e meio de anteced\u00eancia, de quem ser\u00e3o os candidatos na escala nacional e nos estados\u201d, acrescenta Arcary (PSOL), que conta com o consenso de todos os entrevistados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 disputa eleitoral em 2022.<\/p>\n<p>\u00c9lida Elena (UNE) reconhece que a esquerda vinha enfrentando dificuldade em dialogar com a classe trabalhadora e os setores m\u00e9dios e de incidir na sociedade e transformar as bandeiras \u2013 como a vacina\u00e7\u00e3o, o \u201cFora Bolsonaro\u201d e o Aux\u00edlio Emergencial \u2013 em lutas de massa. A volta de Lula, no entanto, pode alterar esse cen\u00e1rio, embora ainda seja necess\u00e1rio medir a propor\u00e7\u00e3o deste impacto na luta de classes. \u201cTemos, por \u00f3bvio, limites por conta da pandemia, recorremos a atividades de car\u00e1ter mais simb\u00f3lico. Com Lula, temos mudan\u00e7a na capacidade de fazer com que nossas bandeiras pol\u00edticas dialoguem com as massas. A disputa eleitoral de 2022 \u00e9 uma batalha central para o conjunto da esquerda brasileira, mas, desde j\u00e1, \u00e9 necess\u00e1rio acumular for\u00e7as e disputar a sociedade contra o bolsonarismo. E s\u00f3 teremos essa capacidade se construirmos unidade na a\u00e7\u00e3o, e em torno de um programa com capacidade de apresentar sa\u00edda \u00e0 esquerda para essa crise<\/p>\n<p>\u201d..<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-231731 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/21mai2020-partido-de-oposicao-e-movimentos-sociais-estendem-faixa-pedindo-impeachment-do-presidente-jair-bolsonaro-em-frente-ao-congresso-nacional-1590073243750_v2_900x506-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"801\" height=\"451\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/21mai2020-partido-de-oposicao-e-movimentos-sociais-estendem-faixa-pedindo-impeachment-do-presidente-jair-bolsonaro-em-frente-ao-congresso-nacional-1590073243750_v2_900x506-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/21mai2020-partido-de-oposicao-e-movimentos-sociais-estendem-faixa-pedindo-impeachment-do-presidente-jair-bolsonaro-em-frente-ao-congresso-nacional-1590073243750_v2_900x506-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/21mai2020-partido-de-oposicao-e-movimentos-sociais-estendem-faixa-pedindo-impeachment-do-presidente-jair-bolsonaro-em-frente-ao-congresso-nacional-1590073243750_v2_900x506-560x315.jpg 560w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/21mai2020-partido-de-oposicao-e-movimentos-sociais-estendem-faixa-pedindo-impeachment-do-presidente-jair-bolsonaro-em-frente-ao-congresso-nacional-1590073243750_v2_900x506.jpg 900w\" sizes=\"auto, (max-width: 801px) 100vw, 801px\" \/><\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><br \/>\nDiante das an\u00e1lises apresentadas acima, podemos tirar algumas conclus\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o aos desafios a curto e m\u00e9dio prazo da esquerda brasileira. A primeira delas \u00e9 que dificilmente a deposi\u00e7\u00e3o do governo Bolsonaro resultar\u00e1 simplesmente de uma iniciativa parlamentar. Uma possibilidade irris\u00f3ria seria uma sa\u00edda sob o comando das classes burguesas, caso ela efetive o processo de descolamento em rela\u00e7\u00e3o ao governo que ajudou a eleger se a crise econ\u00f4mica se intensificar. Por\u00e9m, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que ela empurre a solu\u00e7\u00e3o da crise para 2022 para ter mais controle sobre esse processo.<\/p>\n<p>Em contrapartida, h\u00e1 uma forte aposta dos setores progressistas de que veremos, com a melhora das condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias ap\u00f3s conclu\u00edda uma expressiva etapa da vacina\u00e7\u00e3o, grandes mobiliza\u00e7\u00f5es populares em todo o pa\u00eds com uma crescente insatisfa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o \u00e0s medidas tomadas pelo governo federal e uma consequente e lenta diminui\u00e7\u00e3o popular de apoio a Bolsonaro, embora sua resson\u00e2ncia na sociedade ainda seja bem relevante.<\/p>\n<p>Diante disso, h\u00e1 algumas diverg\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 melhor t\u00e1tica a ser empregada na constru\u00e7\u00e3o da unidade. Uns defendem a constru\u00e7\u00e3o de uma Frente Ampla para enfrentar o bolsonarismo, que consiste basicamente em aglutinar todos os setores da sociedade que defendem a limitada democracia brasileira.<\/p>\n<p>Outros acreditam na possibilidade da combina\u00e7\u00e3o de duas frentes: uma com car\u00e1ter amplo e outra Frente de Esquerda capaz de debater elementos mais program\u00e1ticos.<\/p>\n<p>E h\u00e1 uma terceira corrente que acredita apenas na cria\u00e7\u00e3o desta \u00faltima proposta, seja por n\u00e3o ver viabilidade de ades\u00e3o de setores da burguesia em uma frente ampla \u2013 ao acreditar que a direita liberal n\u00e3o concordaria em se somar \u00e0 essa iniciativa \u2013, seja por achar incompat\u00edvel o surgimento de duas frentes, ao avaliar que n\u00e3o h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o entre a luta pelas liberdades democr\u00e1ticas e a luta em defesa dos direitos e da soberania nacional.<\/p>\n<p>Independentemente de qual t\u00e1tica seguir, h\u00e1 um entendimento de que somente uma forte confronta\u00e7\u00e3o social, pol\u00edtica e popular ser\u00e1 capaz de pressionar o Congresso Nacional a efetivar a luta pelo impeachment de Bolsonaro. Mesmo que esse movimento de deposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se concretize, ao menos a disputa eleitoral em 2022 mudaria de patamar e abriria novas possibilidades de avan\u00e7os na disputa pol\u00edtica.<\/p>\n<p>De todo modo, \u00e9 certo que a sa\u00edda dessa crise n\u00e3o ser\u00e1 em curto prazo, o que exigir\u00e1 um longo per\u00edodo de resist\u00eancia, como aponta \u00c9lida Elena (UNE). \u201cAs reformas neoliberais deixaram marcas profundas na sociedade brasileira, e \u00e9 diante desse contexto que devemos nos debru\u00e7ar para pensar quais s\u00e3o os nossos desafios\u201d. Nesse sentido, buscamos sintetizar os principais desafios apontados ao longo deste dossi\u00ea no curto e m\u00e9dio prazo para a esquerda brasileira.<\/p>\n<p><strong>Desafios imediatos<\/strong><br \/>\n\u2013 impeachment de Bolsonaro;<\/p>\n<p>\u2013 unidade nas a\u00e7\u00f5es;<\/p>\n<p>\u2013 defesa dos territ\u00f3rios conquistados na luta: comunidades ind\u00edgenas, \u00e1reas de reforma agr\u00e1ria, comunidades quilombolas e espa\u00e7os de resist\u00eancia no meio urbano;<\/p>\n<p>\u2013 vacina\u00e7\u00e3o massiva e imediata;<\/p>\n<p>\u2013 volta do Aux\u00edlio Emergencial de R$ 600,00.<\/p>\n<p><strong>Desafios no m\u00e9dio prazo<\/strong><br \/>\n\u2013 Construir trabalho de base: organiza\u00e7\u00e3o das necessidades imediatas do povo, tendo a pol\u00edtica de solidariedade como horizonte organizador, convertendo-as em bandeiras de luta e construindo processos de legitima\u00e7\u00e3o do poder popular;<\/p>\n<p>\u2013 realizar forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica;<\/p>\n<p>\u2013 retomar as lutas de massas: mesmo que temporariamente n\u00e3o se possa ocupar as ruas, \u00e9 preciso ir criando as condi\u00e7\u00f5es para a retomada das lutas, combinado necessidades imediatas com lutas pol\u00edticas de car\u00e1ter mais amplo.<\/p>\n<p>\u2013 promover uma profunda revis\u00e3o program\u00e1tica na esquerda brasileira.<\/p>\n<p>Dentro dessa perspectiva, Jandyra Uehara (CUT) avalia que para que uma sa\u00edda popular e democr\u00e1tica tenha \u00eaxito, criando bases concretas para a coes\u00e3o e unidade das esquerdas, \u201cprecisaremos encontrar ainda em 2021 formas de retomar a luta e a mobiliza\u00e7\u00e3o pelos partidos, pelos sindicatos, pelos movimentos populares, pelas Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, e nesse processo se firmarem os compromissos estrat\u00e9gicos, t\u00e1ticos e program\u00e1ticos para o enfrentamento de 2022 adiante\u201d.<\/p>\n<p>Juliano Medeiros (PSOL) acredita que \u201cestamos diante de uma mudan\u00e7a hist\u00f3rica de grandes propor\u00e7\u00f5es. E, por isso, temos a oportunidade de assimilar uma nova estrat\u00e9gia, de combate sem tr\u00e9guas \u00e0s elites, de mudan\u00e7as profundas, de retomada da presen\u00e7a da esquerda nos territ\u00f3rios, de democratiza\u00e7\u00e3o radical do poder. Ou mudamos com as mudan\u00e7as do nosso tempo ou seremos varridos do mapa\u201d.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que, apesar de vivermos em uma etapa que permanece defensiva, a boa e velha janela hist\u00f3rica parece estar aberta para todos os lados, acendendo-se um novo momento na conjuntura.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental, portanto, que a esquerda derrote Bolsonaro e construa unidade t\u00e1tica e program\u00e1tica capaz de dar respostas e esperan\u00e7a ao povo brasileiro. Para que ela tenha capacidade de retornar \u00e0s lutas de massa, a reconex\u00e3o com a classe trabalhadora tamb\u00e9m se faz imprescind\u00edvel para que seja poss\u00edvel disputar e construir hegemonia nos setores populares. Mais do que nunca, \u00e9 preciso beber do ac\u00famulo hist\u00f3rico e reinventar-se para que o poder popular finalmente seja al\u00e7ado, \u00fanica for\u00e7a capaz de derrotar os inimigos de classe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para quem acompanha, ainda que superficialmente, a pol\u00edtica brasileira, n\u00e3o \u00e9 novidade que o pa\u00eds vive sua maior crise desde o final da ditadura civil-militar, nos anos de 1980. Alguns consideram, inclusive, que n\u00e3o h\u00e1, em toda a hist\u00f3ria secular da Rep\u00fablica brasileira, situa\u00e7\u00e3o mais grave do que a atual. 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