{"id":257166,"date":"2021-05-16T20:18:40","date_gmt":"2021-05-16T23:18:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=257166"},"modified":"2021-05-17T09:31:11","modified_gmt":"2021-05-17T12:31:11","slug":"biden-e-xi-jinping-deixam-bolsonaro-na-corda-bamba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/biden-e-xi-jinping-deixam-bolsonaro-na-corda-bamba\/","title":{"rendered":"Biden e Xi Jinping deixam Bolsonaro emparedado"},"content":{"rendered":"<p>Durante o governo Lula, o Brasil promoveu uma pol\u00edtica externa ativa e altiva, atrav\u00e9s da qual buscou-se uma universaliza\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do pa\u00eds no mundo e uma diversifica\u00e7\u00e3o de parcerias voltadas \u00e0 garantia da autonomia e do desenvolvimento nacional.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que se manteve boas rela\u00e7\u00f5es com os pa\u00edses desenvolvidos, com destaque aos EUA, fomentou-se uma intera\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica com pa\u00edses do Sul Global com o objetivo de fortalecer a posi\u00e7\u00e3o brasileira perante as grandes negocia\u00e7\u00f5es e expandir novos mercados. As rela\u00e7\u00f5es com a Am\u00e9rica do Sul, os BRICS e a China eram, ent\u00e3o, vistas de forma estrat\u00e9gica para a inser\u00e7\u00e3o internacional brasileira.<\/p>\n<p>Com o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016, esse projeto de pol\u00edtica externa e inser\u00e7\u00e3o ativa come\u00e7aram a ser desmantelados, ao mesmo tempo em que o ambiente externo se tornou mais polarizado pelo aumento das rivalidades interestatais e monopol\u00edsticas, em especial entre China e EUA.<\/p>\n<p>De fato, no governo de Donald Trump, as disputas entre China e EUA pelo controle das estruturas de poder internacional desdobraram-se n\u00e3o apenas em uma guerra comercial como tamb\u00e9m na tentativa, por parte dos EUA, de bloquear o desenvolvimento tecnol\u00f3gico da China.<\/p>\n<p>Para tal, promoveram, de um lado, um relativo desacoplamento entre China e EUA em \u00e1reas sens\u00edveis, como a da tecnologia da informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, e, de outro, passaram a pressionar seus aliados no mundo todo a ajudarem na conten\u00e7\u00e3o da China e de suas iniciativas, como a Belt and Road.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o esteve imune a essas press\u00f5es. Durante os dois primeiros anos do governo de Jair Bolsonaro, a op\u00e7\u00e3o do Itamaraty pelo alinhamento diplom\u00e1tico com os EUA de Donald Trump foi contrabalanceada pela necessidade de se manterem boas rela\u00e7\u00f5es com a China, impulsionada por importantes grupos internos, tanto for\u00e7as pol\u00edticas e sociais que entendiam a import\u00e2ncia da diversifica\u00e7\u00e3o das parcerias para o desenvolvimento quanto grupos econ\u00f4micos, em grande parte base de apoio do pr\u00f3prio governo, como o agroneg\u00f3cio, que t\u00eam se beneficiado da ascens\u00e3o chinesa.<\/p>\n<p>Como resultado, na pr\u00e1tica, e em contrariedade ao que desejaria Bolsonaro \u2013 que era ficar incondicionalmente ao lado de Trump \u2013 o Brasil n\u00e3o consolidou posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 China na disputa com os EUA.<\/p>\n<p>Contrapor-se diretamente a um dos lados teria sido um tiro no p\u00e9 da inser\u00e7\u00e3o internacional brasileira. Vivemos um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o de poder em que h\u00e1 muita incerteza sobre a dire\u00e7\u00e3o que tomar\u00e1 a distribui\u00e7\u00e3o do poder mundial e a pr\u00f3pria disputa sino-americana. Diferentemente do per\u00edodo da Guerra Fria entre EUA e URSS, a interdepend\u00eancia econ\u00f4mica que liga China e EUA torna invi\u00e1vel pensar \u00e1reas de influ\u00eancia em que os pa\u00edses sejam colocados como op\u00e7\u00f5es excludentes.<\/p>\n<p>Apesar da tentativa de desacoplamento econ\u00f4mico promovida pelos EUA em alguns setores, a interconex\u00e3o das cadeias produtivas globais e a atual divis\u00e3o internacional do trabalho n\u00e3o permitem que outros Estados possam abdicar de um ou outro pa\u00eds.<\/p>\n<p>No caso do Brasil, h\u00e1 liga\u00e7\u00f5es profundas tanto com os EUA quanto com a China. Os EUA, como maior pot\u00eancia econ\u00f4mica e militar do globo, com grande influ\u00eancia sobre o continente americano, t\u00eam sido tradicionalmente o pa\u00eds a que a pol\u00edtica externa brasileira mais dedica sua aten\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds tem largo hist\u00f3rico de interfer\u00eancia na pol\u00edtica brasileira, \u00e9 o segundo maior parceiro comercial do Brasil e fonte de investimentos diretos externos para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por outro lado, a China tornou-se nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas uma importante parceira pol\u00edtica e econ\u00f4mica. O Brasil \u00e9 parceiro estrat\u00e9gico do pa\u00eds desde 1993, possui com ele uma comiss\u00e3o de alto n\u00edvel de concerta\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o desde 2004, uma parceria estrat\u00e9gica global desde 2012 e ambos fundaram conjuntamente o grupo BRICS, o Novo Banco de Desenvolvimento e o Arranjo Contingente de Reservas.<\/p>\n<p>Economicamente, a China \u00e9 desde 2009 a maior parceira comercial brasileira, constituindo-se na maior fonte de super\u00e1vit da balan\u00e7a comercial. \u00c9 importante para alguns setores exportadores espec\u00edficos como o agroneg\u00f3cio, o extrativo mineral e de petr\u00f3leo e, na \u00faltima d\u00e9cada, tornou-se ainda uma importante investidora na economia brasileira.<\/p>\n<p>Assim, pela import\u00e2ncia que tanto China como EUA t\u00eam para o Brasil, torna-se imperativo que os pa\u00edses n\u00e3o sejam vistos como op\u00e7\u00f5es excludentes para a pol\u00edtica externa e a inser\u00e7\u00e3o internacional brasileira.<\/p>\n<p>Cabe \u00e0 diplomacia encontrar espa\u00e7os de manobra entre as duas pot\u00eancias visando atender aos interesses do pa\u00eds e, quando for necess\u00e1rio que uma posi\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel a um ou outro seja tomada, que na medida do poss\u00edvel sejam extra\u00eddas vantagens e que essas decis\u00f5es sejam colocadas n\u00e3o como parte de uma a\u00e7\u00e3o que atenda a objetivos oportunistas de curto prazo, mas que fa\u00e7am sentido dentro de um plano que garanta autonomia e desenvolvimento nacional.<\/p>\n<p>Citam-se dois exemplos:<\/p>\n<p>No caso do 5G, que foi durante o governo Trump a \u00e1rea em que os EUA mais exerceram press\u00e3o sobre o Brasil, visando causar a elimina\u00e7\u00e3o da empresa chinesa Huawei do leil\u00e3o nacional da tecnologia, n\u00e3o houve nada de concreto, al\u00e9m de discursos vagos, que os EUA tenham oferecido ao Brasil.<\/p>\n<p>Em contrapartida, a Huawei tem sido desde a d\u00e9cada de 1990 importante ator dentro do setor de telecomunica\u00e7\u00e3o brasileiro, fornecendo equipamentos a v\u00e1rias empresas. Ela possui a tecnologia 5G com o melhor custo\/benef\u00edcio do mundo, e \u00e9 do interesse de grupos que atuam no setor do Brasil que a empresa participe do pleito. Os EUA n\u00e3o ofereceram nada para produzir mudan\u00e7as nessa estrutura de vantagens que o pa\u00eds pode obter mantendo a participa\u00e7\u00e3o da Huawei no 5G nacional.<\/p>\n<p>No caso da Belt and Road Initiative (BRI) \u2013 grande projeto de pol\u00edtica externa de Xi Jinping, ao qual a China tem buscado ades\u00f5es como forma de apresent\u00e1-las como uma legitima\u00e7\u00e3o de sua atua\u00e7\u00e3o no mundo \u2013, o Brasil foi convidado a participar junto com outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina em 2015. Para a China, a ades\u00e3o do Brasil, o pa\u00eds mais importante da regi\u00e3o, poderia contribuir para que outros tamb\u00e9m aderissem, motivo pelo qual tentou-se enquadr\u00e1-lo dentro da BRI.<\/p>\n<p>Contudo, a entrada do pa\u00eds na iniciativa pouco alteraria o modelo de expans\u00e3o da China no Brasil, que j\u00e1 era semelhante ao proposto na BRI: interconex\u00e3o entre com\u00e9rcio, investimentos e financiamentos, focados no desenvolvimento de infraestrutura. Assim, n\u00e3o participar da BRI n\u00e3o alteraria a estrutura de vantagens que o Brasil j\u00e1 possu\u00eda nas rela\u00e7\u00f5es com a China.<\/p>\n<p>De fato, nesse cen\u00e1rio de incertezas, o Brasil precisa de um plano no qual possa se basear para tomar as dif\u00edceis decis\u00f5es que advir\u00e3o desse cen\u00e1rio externo de crescentes fric\u00e7\u00f5es. Esse plano n\u00e3o pode contemplar alinhamentos cegos, deve recusar op\u00e7\u00f5es excludentes e a limita\u00e7\u00e3o da autonomia nacional e, ainda, precisa refazer o importante nexo entre pol\u00edtica externa e desenvolvimento que foi perdido com o golpe de 2016. Diante da \u201cguerra fria\u201d entre China e EUA, o lugar do Brasil \u00e9 ficar do lado do Brasil.<\/p>\n<p><strong>*Doutora em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante o governo Lula, o Brasil promoveu uma pol\u00edtica externa ativa e altiva, atrav\u00e9s da qual buscou-se uma universaliza\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do pa\u00eds no mundo e uma diversifica\u00e7\u00e3o de parcerias voltadas \u00e0 garantia da autonomia e do desenvolvimento nacional. 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