{"id":257175,"date":"2021-05-17T08:36:42","date_gmt":"2021-05-17T11:36:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=257175"},"modified":"2021-05-17T08:36:42","modified_gmt":"2021-05-17T11:36:42","slug":"tem-mais-tem-nao-filho-o-feijao-acabou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tem-mais-tem-nao-filho-o-feijao-acabou\/","title":{"rendered":"&#8216;Tem mais? Tem n\u00e3o, filho. O feij\u00e3o acabou&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Uma parte do passado tr\u00e1gico vivido pelos brasileiros est\u00e1 de volta. E nem bate na porta para entrar. Est\u00e1 dentro de casa e nas ruas. \u00c9 um repeteco da fome, infla\u00e7\u00e3o, desemprego e pobreza vividas pela escritora negra Carolina Maria de Jesus na d\u00e9cada de 1950, e que se assemelham \u00e0 realidade dos mais pobres na pandemia<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais grave do que foi ilustrado por Portinari, no quadro Retirantes. Filhos passando fome. Dificuldade para comprar itens b\u00e1sicos devido \u00e0 alta de pre\u00e7os. A coleta de sucata como \u00fanica fonte de renda em meio ao desemprego.<\/p>\n<p>A dura rotina de viol\u00eancias sociais vivida pela escritora negra Carolina Maria de Jesus na d\u00e9cada de 1950 se assemelha \u00e0 realidade que muitos brasileiros t\u00eam enfrentado em meio \u00e0 pandemia do coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>&#8220;Como \u00e9 horr\u00edvel ver um filho comer e perguntar: &#8216;Tem mais?&#8217; Esta pergunta &#8216;tem mais&#8217; fica oscilando dentro do c\u00e9rebro de uma m\u00e3e que olha as panela e n\u00e3o tem mais&#8221;, escreveu Carolina em seu livro de estreia.<\/p>\n<p>Quarto de despejo: di\u00e1rio de uma favelada foi lan\u00e7ado em 1960 e retrata a vida da autora e de seus tr\u00eas filhos na favela do Canind\u00e9, em S\u00e3o Paulo, entre julho de 1955 e janeiro de 1960. A obra manteve a grafia original da autora, que estudou s\u00f3 at\u00e9 o segundo ano prim\u00e1rio.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de ver os filhos com fome descrita por Carolina \u00e9 vivida no Brasil de 2021 por Breda Souza Pimentel, de 26 anos e moradora de Petrol\u00e2ndia, \u00e0s margens do rio S\u00e3o Francisco, em Pernambuco.<\/p>\n<p>&#8220;Tenho quatro meninos e uma menina, o mais velho tem 8 anos e a mais nova, 5 meses. Eu vivo s\u00f3 com meus filhos&#8221;, conta a pernambucana.<\/p>\n<p>&#8220;Eu trabalhava de ajudante de cabeleireira, mas a mo\u00e7a que tinha o sal\u00e3o fechou, porque n\u00e3o estava mais tendo clientela. De l\u00e1 para c\u00e1, eu vinha me sustentando com esse aux\u00edlio que tinha, mas agora eu n\u00e3o fui contemplada, fiquei s\u00f3 com meu valor do Bolsa Fam\u00edlia, que \u00e9 R$ 189.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Eu estou vivendo s\u00f3 com isso, mas \u00e0s vezes as pessoas me ajudam com alimentos para os meus filhos. De vez em quando, eu acho algum bico para fazer, mas \u00e9 muito raro. Tem dias que n\u00e3o tenho nem o leite da minha beb\u00ea.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Minha situa\u00e7\u00e3o, a cada dia que passa, piora mais, porque sem trabalho \u00e9 complicado demais. E, com crian\u00e7a pequena, eu n\u00e3o tenho com quem deixar. Os meus maiorzinhos, quando n\u00e3o tem comida, eu converso com eles e eles entendem. Mas os pequenos n\u00e3o entendem.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A gente tenta ter um \u00e2nimo, mas n\u00e3o consegue, porque o desemprego est\u00e1 muito grande em todo lugar. \u00c9 s\u00f3 ang\u00fastia e tristeza, quem \u00e9 m\u00e3e entende&#8221;, conclui Breda.<\/p>\n<p><strong>O Brasil da d\u00e9cada de 1950<\/strong><br \/>\nA volta do Brasil ao mapa da fome, o aumento da infla\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o da pobreza s\u00e3o marcas tristes de um ano em que Carolina Maria de Jesus recebeu o t\u00edtulo de doutora honoris causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e que seu best seller Quarto de despejo ganhou edi\u00e7\u00e3o especial comemorativa pela Editora \u00c1tica, ap\u00f3s ser traduzida para 13 idiomas.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 claro que o Brasil de hoje \u00e9 muito diferente daquele da d\u00e9cada de 1950.<\/p>\n<p>Por exemplo, naquela \u00e9poca, \u00e9ramos cerca de 52 milh\u00f5es de brasileiros e hoje somos mais de 211 milh\u00f5es. Pouco mais de 36% da popula\u00e7\u00e3o de ent\u00e3o era urbana, comparado a 85% hoje. Metade da popula\u00e7\u00e3o de 15 anos ou mais era analfabeta, ante menos de 7% de analfabetos atualmente.<\/p>\n<p>Um levantamento de 1957 contava 141 favelas em S\u00e3o Paulo, com pouco mais de 8 mil domic\u00edlios e cerca de 50 mil favelados. Em 2017, os domic\u00edlios em favelas na cidade eram mais de 390 mil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p>Entre 1955 e 1960, a infla\u00e7\u00e3o no pa\u00eds subiu a uma m\u00e9dia de 23% ao ano, segundo o IGP-DI da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas. A segunda metade da d\u00e9cada de 1950 foi marcada pela moderniza\u00e7\u00e3o industrial do pa\u00eds, que resultou num processo inflacion\u00e1rio e no aumento da desigualdade, com uma maior produ\u00e7\u00e3o de riqueza que n\u00e3o chegava para todos.<\/p>\n<p>O processo de industrializa\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1950, que levou ao in\u00edcio da faveliza\u00e7\u00e3o nos grandes centros urbanos, trouxe consigo um fen\u00f4meno novo: a fome urbana. O jornal Folha da Manh\u00e3, que viria depois a se tornar a Folha de S. Paulo, em uma reportagem de 1952, descrevia as rec\u00e9m surgidas favelas como &#8220;um ambiente de mis\u00e9ria, desconforto e fome&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A fome age n\u00e3o apenas sobre os corpos das v\u00edtimas&#8221;, escreveu Josu\u00e9 de Castro, autor do primeiro mapa da fome do Brasil, que deu origem ao livro Geografia da Fome, de 1946.<\/p>\n<p>&#8220;Consumindo sua carne, corroendo seus \u00f3rg\u00e3os e abrindo feridas em sua pele, mas tamb\u00e9m age sobre seu esp\u00edrito, sobre sua estrutura mental, sobre sua conduta moral. Nenhuma calamidade pode desagregar a personalidade humana t\u00e3o profundamente e num sentido t\u00e3o nocivo quanto a fome.&#8221;<\/p>\n<p><strong>O Brasil de 2021<\/strong><br \/>\nApesar das diferen\u00e7as, h\u00e1 pontos em comuns entre os dois momentos da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Estudo publicado em abril pela Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, revelou que 59% dos domic\u00edlios brasileiros passaram por situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar durante a pandemia.<\/p>\n<p>A inseguran\u00e7a alimentar abrange desde a alimenta\u00e7\u00e3o de m\u00e1 qualidade, passando pela instabilidade no acesso a alimentos, at\u00e9 a fome.<\/p>\n<p>Do total de 72 milh\u00f5es de lares brasileiros, 15% enfrentavam inseguran\u00e7a alimentar grave, que acontece quando h\u00e1 redu\u00e7\u00e3o da quantidade de alimentos dispon\u00edveis para as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Considerando a m\u00e9dia de 2,9 moradores por domic\u00edlio no pa\u00eds, s\u00e3o pelo menos 31,3 milh\u00f5es de brasileiros vivendo em lares onde h\u00e1 crian\u00e7as passando fome. E esse n\u00famero \u00e9 apenas uma aproxima\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que os domic\u00edlios de baixa renda costumam ter mais moradores que a m\u00e9dia.<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o acumulou alta de 6,1% em 12 meses at\u00e9 mar\u00e7o. Mas os alimentos, que representam a maior parcela do consumo dos mais pobres, subiram mais que o dobro disso: 13,87%, conforme o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA), \u00edndice oficial de infla\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Alguns itens b\u00e1sicos registram aumentos de pre\u00e7o exorbitantes no per\u00edodo recente, caso do \u00f3leo de soja (com 82% de alta em 12 meses at\u00e9 mar\u00e7o), arroz (64%), feij\u00e3o preto (51%), carnes (31%), batata (25%), leite (16%) e g\u00e1s de botij\u00e3o (20%).<\/p>\n<p>A taxa de desemprego chegou a 14,4% em fevereiro, somando 14,4 milh\u00f5es de desocupados, segundo o IBGE.<\/p>\n<p>Esse percentual vai a 29,2% da popula\u00e7\u00e3o em idade de trabalhar ou 32,6 milh\u00f5es de pessoas, considerando tamb\u00e9m aqueles que est\u00e3o trabalhando menos do que gostariam, que desistiram de procurar emprego ou que gostariam de trabalhar, mas por algum motivo (como ter que cuidar dos filhos que est\u00e3o fora da escola ou de idosos, por exemplo) n\u00e3o estavam dispon\u00edveis. S\u00e3o os chamados subutilizados.<\/p>\n<p>Como na d\u00e9cada de 1950 em que escrevia Carolina Maria de Jesus, todos esses problemas s\u00e3o mais graves paras as mulheres negras.<\/p>\n<p><strong>Direitos b\u00e1sicos negados<\/strong><br \/>\n&#8220;\u00c9 como se o Quarto de Despejo estivesse sendo reescrito novamente agora, nessas experi\u00eancias que a gente tinha a esperan\u00e7a que mudassem ao longo desses 60 anos&#8221;, diz Eliane da Concei\u00e7\u00e3o Silva, soci\u00f3loga que estudou a viol\u00eancia social brasileira na obra de Carolina Maria de Jesus em seu doutorado na Universidade Estadual Paulista (Unesp).<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, a chamada viol\u00eancia social \u00e9 resultado de um conjunto de desigualdades existentes na nossa sociedade.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 essa estrutura desigual que resulta em que uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o sofra com situa\u00e7\u00f5es de priva\u00e7\u00e3o, de viol\u00eancia f\u00edsica e inclusive de morte, exatamente por terem seus direitos mais b\u00e1sicos negados&#8221;, afirma Silva.<\/p>\n<p>Na obra de Carolina, a fome, por exemplo, \u00e9 t\u00e3o presente que \u00e9 como uma personagem, chamada pela autora de &#8220;a amarela&#8221;, uma refer\u00eancia \u00e0 cor da bile dos est\u00f4magos vazios.<\/p>\n<p>&#8220;No caso da infla\u00e7\u00e3o, o que ela sente \u00e9 o pouco dinheiro que ela consegue cada vez comprando menos coisas&#8221;, observa.<\/p>\n<p>Segundo a soci\u00f3loga, Carolina faz uma reflex\u00e3o sobre como a democracia se enfraquece \u00e0 medida em que as pessoas n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de se alimentar e tem uma consci\u00eancia de que isso tem rela\u00e7\u00e3o direta com quem est\u00e1 no poder.<\/p>\n<p>&#8220;Ela chega a criticar em alguns momentos que os pol\u00edticos, quando querem se eleger, falam do custo de vida, que v\u00e3o diminuir os pre\u00e7os, sabendo que, com isso, v\u00e3o conseguir tocar o cora\u00e7\u00e3o dos mais pobres&#8221;, destaca a pesquisadora.<\/p>\n<p>&#8220;Mas, depois de eleitos, &#8216;nos olham com olhos semicerrados e esquecem as promessas que foram feitas.'&#8221;<\/p>\n<p><strong>A infla\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1950 e em 2021<\/strong><br \/>\n&#8220;Antigamente era a macarronada o prato mais caro. Agora \u00e9 o arroz e feij\u00e3o que suplanta a macarronada. S\u00e3o os novos ricos. Passou para o lado dos fidalgos. At\u00e9 voc\u00eas, feij\u00e3o e arroz, nos abandona! Voc\u00eas que eram os amigos dos marginais, dos favelados, dos indigentes. Vejam s\u00f3. At\u00e9 o feij\u00e3o nos esqueceu. N\u00e3o est\u00e1 ao alcance dos infelizes que est\u00e3o no quarto de despejo&#8221;, escreve Carolina, em 23 de maio de 1958.<\/p>\n<p>Irislania Emiliana Viana, de 31 anos, vive com seus nove filhos e o marido em Valpara\u00edso de Goi\u00e1s, numa casa com apenas dois c\u00f4modos. Seu beb\u00ea tem 10 meses e a filha mais velha, 16 anos. Ela e o companheiro est\u00e3o desempregados.<\/p>\n<p>&#8220;Meu marido \u00e9 pedreiro, mas j\u00e1 tem mais ou menos uns sete, oito meses que ele n\u00e3o consegue trabalho&#8221; conta Irislania. &#8220;Eu sempre fiquei em casa, mas fazia uma coisinha aqui, uma coisinha ali para vender, para fazer um dinheiro a mais. Com a pandemia, eu n\u00e3o pude mais trabalhar por causa das crian\u00e7as, est\u00e1 perigoso para mim e para elas&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo ela, a fam\u00edlia atualmente tem que escolher entre comer ou comprar o g\u00e1s de botij\u00e3o, que em muitas cidades do Brasil j\u00e1 ultrapassa os R$ 100 neste m\u00eas de maio.<\/p>\n<p>&#8220;Estou cozinhando \u00e0 lenha. A gente est\u00e1 sem condi\u00e7\u00f5es de comprar g\u00e1s. Quando a gente faz um dinheirinho \u2014 \u00e0s vezes meu marido faz um biquinho aqui, um biquinho ali \u2014 no pre\u00e7o que que est\u00e1 o g\u00e1s, ou a gente compra o g\u00e1s, ou compra alimento&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Irislania sente no dia a dia a redu\u00e7\u00e3o do aux\u00edlio emergencial distribu\u00eddo pelo governo federal, mas ainda assim se diz grata pela ajuda.<\/p>\n<p>&#8220;Recebi o aux\u00edlio ano passado. Neste ano, veio R$ 150. \u00c9 pouco, mas eu n\u00e3o vou reclamar n\u00e3o, porque pelo menos a gente consegue comer, fazer umas comprinhas.&#8221;<\/p>\n<p><strong>&#8216;O Quarto de Despejo ainda \u00e9 uma realidade&#8217;<\/strong><br \/>\n&#8220;O Quarto de Despejo, apesar de ter sido publicado h\u00e1 60 anos, ainda \u00e9 uma realidade&#8221;, avalia Vera Eunice de Jesus, professora da rede p\u00fablica de S\u00e3o Paulo e filha de Carolina.<\/p>\n<p>&#8220;Sou professora de educa\u00e7\u00e3o infantil e tenho percebido como as crian\u00e7as chegam \u00e0 escola&#8221;, conta a educadora, que d\u00e1 aulas na Vila S\u00e3o Jos\u00e9, no extremo Sul da capital paulista.<\/p>\n<p>Ela relata, por exemplo, que tem um aluno de 5 anos que bate na professora e nos colegas e, quando \u00e9 questionado por que, grita que est\u00e1 com fome.<\/p>\n<p>&#8220;Depois que ele come, \u00e9 outra crian\u00e7a. A gente sabe que ele almo\u00e7a na escola e vai tomar caf\u00e9 s\u00f3 no outro dia na escola. As \u00fanicas refei\u00e7\u00f5es que ele faz s\u00e3o ali.&#8221;<\/p>\n<p>Na pandemia, Vera Eunice e as outras professoras t\u00eam ajudado a organizar a distribui\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas para as fam\u00edlias mais carentes da comunidade.<\/p>\n<p>&#8220;A gente marca 9h da manh\u00e3 para a retirada das cestas. Quando d\u00e1 6h, j\u00e1 tem fila. Eu falo para eles: &#8216;Ainda \u00e9 cedo.&#8217; E eles dizem: &#8216;N\u00e3o se incomode n\u00e3o, a gente est\u00e1 bem aqui.'&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A minha m\u00e3e era assim. Quando ela sabia que iam dar uma cesta, um arroz, um brinquedo, ela ia atr\u00e1s. Nessas mesmas condi\u00e7\u00f5es que eu vejo o povo hoje, no s\u00e9culo 21.&#8221;<\/p>\n<p>Distante da Zona Sul, no Jardim Keralux, bairro do extremo Leste de S\u00e3o Paulo, \u00e0s margens do rio Tiet\u00ea, assim como a antiga favela do Canind\u00e9, onde viveu Carolina, a realidade \u00e9 semelhante.<\/p>\n<p>&#8220;Com a pandemia, piorou muito a situa\u00e7\u00e3o por aqui. Do in\u00edcio desse ano para c\u00e1, vemos que os poucos que tinham renda acabaram ficando sem&#8221;, afirma Edinilson Bastos, diretor do Instituto Uni\u00e3o Keralux, uma organiza\u00e7\u00e3o de assist\u00eancia local.<\/p>\n<p>Ele conta que, no ano passado, a entidade contou com a ajuda de uma empresa para distribuir 950 cestas b\u00e1sicas por m\u00eas. Neste ano, mesmo com o aumento da procura dos moradores por alimentos, a parceria n\u00e3o se repetiu.<\/p>\n<p>&#8220;Infelizmente, a situa\u00e7\u00e3o se agravou para todos e as empresas que no ano passado ajudaram, neste ano tamb\u00e9m sofreram as consequ\u00eancias da crise. Ent\u00e3o, estamos vivendo de algumas doa\u00e7\u00f5es espor\u00e1dicas, que n\u00e3o est\u00e3o suprindo a demanda&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p><strong>Sucata como fonte de renda<\/strong><br \/>\nAssim como Carolina fez na d\u00e9cada de 1950, quem est\u00e1 sem renda atualmente tamb\u00e9m se vira como pode para garantir o sustento pr\u00f3prio e dar de comer aos filhos.<\/p>\n<p>&#8220;Minha m\u00e3e sempre trabalhou muito e era muito focada em que n\u00f3s estud\u00e1ssemos&#8221;, conta Vera Eunice, atualmente com 67 anos. &#8220;Eu sa\u00eda com ela para catar papel, sempre sa\u00ed, minha m\u00e3e nunca me deixava.&#8221;<\/p>\n<p>Em 27 de maio de 1958, Carolina Maria de Jesus escreveu em seu di\u00e1rio: &#8220;Comecei a sentir a boca amarga. Pensei: j\u00e1 n\u00e3o basta as amarguras da vida? Parece que quando eu nasci o destino marcou-me para passar fome. Catei um saco de papel.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ia catando tudo que encontrava. Ferro, lata, carv\u00e3o, tudo serve para o favelado. O Leon pegou o papel, recebi seis cruzeiros. Pensei guardar o dinheiro para comprar feij\u00e3o. Mas, vi que n\u00e3o podia porque o meu est\u00f4mago reclamava e torturava-me&#8221;, registrou naquela data a escritora.<\/p>\n<p>Em 23 de abril de 2021, Jessica Fernanda Santana, de 30 anos e moradora de Itapira, no interior de S\u00e3o Paulo, conta: &#8220;Meu marido trabalhava como lenheiro, cortando eucalipto, mas a serraria fechou com a pandemia. Agora estamos coletando sucata.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Tenho um menino de 8 anos e faz uns quatro meses que eu estou fazendo esse servi\u00e7o. Nesses quatro meses, juntamos um dinheirinho e compramos uma caminhonete parcelada. Agora, eu tenho a caminhonete para catar e boto no Facebook pedindo para as pessoas me ajudarem, porque na rua n\u00e3o se acha, que aqui tem muito catador.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Cato papel\u00e3o, alum\u00ednio, ferro, latinha, janela, de tudo um pouco. Conseguimos tirar uns R$ 1 mil por m\u00eas, mas \u00e9 bem menos do que meu marido fazia como lenheiro. Ent\u00e3o, o pessoal ajuda com mantimento. \u00c0s vezes, at\u00e9 posto no Facebook pedindo alimento tamb\u00e9m, porque eu moro de aluguel, a\u00ed tem \u00e1gua, luz, tem a caminhonete para pagar. Se for depender s\u00f3 da sucata, n\u00e3o d\u00e1 conta. Ent\u00e3o, eu pe\u00e7o ajuda pro povo.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ano passado, eu recebi o aux\u00edlio, neste ano, n\u00e3o recebi ainda. Nem sei se vou receber, porque diz que n\u00e3o \u00e9 todo mundo que est\u00e1 inclu\u00eddo. Se vier, vai ajudar um pouco, que \u00e9 um dinheirinho a mais, que a gente n\u00e3o esperava. Mas, de R$ 600 para R$ 250, \u00e9 muita diferen\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>Poucos dias depois de contar sua hist\u00f3ria por telefone \u00e0 BBC News Brasil, Jessica descobriu uma doen\u00e7a grave e precisou deixar a coleta de sucata, \u00fanica fonte de renda da fam\u00edlia, enquanto o aux\u00edlio emergencial n\u00e3o vem.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Hoje s\u00e3o milhares de Carolinas&#8217;<\/strong><br \/>\nPara a soci\u00f3loga Eliane da Concei\u00e7\u00e3o Silva, a repeti\u00e7\u00e3o em 2021 de experi\u00eancias vividas por Carolina Maria de Jesus da d\u00e9cada de 1950 revela o quanto o Brasil progrediu pouco enquanto sociedade e o quanto pouco mudaram as estruturas sociais que fazem com que mulheres e negros sejam os que mais sofram em situa\u00e7\u00f5es de crise.<\/p>\n<p>&#8220;O que efetivamente mudou \u00e9 que essas pessoas que est\u00e3o sofrendo com essa situa\u00e7\u00e3o est\u00e3o cada vez mais tendo formas de dizer o que est\u00e3o passando&#8221;, avalia a pesquisadora.<\/p>\n<p>&#8220;Aquele sil\u00eancio, que a Carolina foi a primeira a romper, hoje j\u00e1 est\u00e1 sendo mais questionado. Vemos den\u00fancias n\u00e3o s\u00f3 de quem est\u00e1 de fora, mas de dentro, atrav\u00e9s das redes sociais e de outras formas de divulga\u00e7\u00e3o e de produ\u00e7\u00e3o cultural.&#8221;<\/p>\n<p>Vera Eunice, a filha de Carolina, tem avalia\u00e7\u00e3o similar. &#8220;Vejo que hoje as comunidades t\u00eam mais Carolinas. Muitas mulheres que s\u00e3o m\u00e3es solteiras, que trabalham, que cuidam dos seus filhos. Muitas que escrevem, muitas que estudam. Acho que esse hoje \u00e9 o diferencial.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma parte do passado tr\u00e1gico vivido pelos brasileiros est\u00e1 de volta. E nem bate na porta para entrar. Est\u00e1 dentro de casa e nas ruas. \u00c9 um repeteco da fome, infla\u00e7\u00e3o, desemprego e pobreza vividas pela escritora negra Carolina Maria de Jesus na d\u00e9cada de 1950, e que se assemelham \u00e0 realidade dos mais pobres [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":257176,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-257175","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257175","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=257175"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257175\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":257177,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257175\/revisions\/257177"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/257176"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=257175"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=257175"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=257175"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}