{"id":257463,"date":"2021-05-21T10:35:27","date_gmt":"2021-05-21T13:35:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=257463"},"modified":"2021-05-21T10:58:13","modified_gmt":"2021-05-21T13:58:13","slug":"chileno-vai-as-ruas-e-urnas-e-nos-da-uma-licao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/chileno-vai-as-ruas-e-urnas-e-nos-da-uma-licao\/","title":{"rendered":"Chileno vai \u00e0s ruas e urnas e nos d\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O continente americano, que se via, at\u00e9 h\u00e1 pouco, imerso em tempos de pesar pol\u00edtico, flagelado por golpes de Estado e regress\u00f5es econ\u00f4micas, parece retomar as r\u00e9deas de seu pr\u00f3prio destino, quando o povo-massa volta a desempenhar o papel de sujeito hist\u00f3rico e agente de transforma\u00e7\u00f5es. De uma forma ou de outra, a centro-esquerda se consolida na Argentina; a esquerda acaba de recuperar o governo na Bol\u00edvia e conquistar a maioria parlamentar no Equador; avan\u00e7a a olhos vistos no Peru, e a como\u00e7\u00e3o social toma corpo na Col\u00f4mbia, desestabilizando o governo de Luis Arce, mero t\u00edtere dos interesses geopol\u00edticos dos EUA na Am\u00e9rica do Sul, qualquer que seja o inquilino da Casa Branca.<\/p>\n<p>H\u00e1 33 anos o povo chileno iniciava a lenta marcha no caminho da recupera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica que chega hoje, com as recentes elei\u00e7\u00f5es do dia 16, a um de seus momentos mais auspiciosos. Esta \u00e9 a primeira li\u00e7\u00e3o que podemos colher: os avan\u00e7os hist\u00f3ricos cobram matura\u00e7\u00e3o. Mas muito mais tempo gastamos de 1985 at\u00e9 hoje e quanto mais o tempo passa parece que andamos para tr\u00e1s, ou que caminhamos em busca de uma linha de horizonte que sempre se afasta de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Nossos dias de hoje marcam brutal retrocesso.<\/p>\n<p>Com o referendo de 1988 o Chile dava um estrondoso N\u00e3o \u00e0s pretens\u00f5es continu\u00edstas do ditador luciferino e corrupto que em 1973 comandara o assalto ao Pal\u00e1cio de la Moneda, interrompendo, com a for\u00e7a bruta dos tanques e dos bombardeios, a promissora experi\u00eancia de socialismo democr\u00e1tico, liderada por Salvador Allende.<\/p>\n<p>O golpe se dera sob a orienta\u00e7\u00e3o, o financiamento, o planejamento e a estrat\u00e9gia comandada diretamente pelo Departamento de Estado dos EUA, chefiado por Henry Kissinger. No Chile, o Imp\u00e9rio do Norte atuaria de forma ainda mais desabrida do que entre n\u00f3s na prepara\u00e7\u00e3o do golpe de 1964; mas, tanto no Chile quanto no Brasil, cuidou, desde l\u00e1 atr\u00e1s, da forma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica dos militares, isto \u00e9, afastando-os gradativamente dos respectivos interesses nacionais, em proveito dos projetos estrat\u00e9gicos dos EUA, ent\u00e3o condicionados pela Guerra Fria. Por isso mesmo sempre se deram bem.<\/p>\n<p>Implantava-se no pa\u00eds vizinho, com a felonia do comandante do ex\u00e9rcito, a ditadura dos horrores e dos crimes, talvez a mais brutal do continente no s\u00e9culo passado. Corrupta e brutal como toda ditadura. Com aquele N\u00e3o, os chilenos diziam &#8220;basta!&#8221; ao presidente perjuro e assassino, mas n\u00e3o se livrariam ainda de seu regime.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, lembrando uma outra muito nossa conhecida, se fez ainda sob a cust\u00f3dia dos militares, e a carta constitucional do Chile redemocratizado resultou de uma concerta\u00e7\u00e3o entre o projeto democr\u00e1tico e o regime de for\u00e7a, que assim sobrevivia. Livrara-se o povo do ditador in\u00edquo, mas o poder militar se projetava no regime constitucionalizado. Assim, desde ent\u00e3o e at\u00e9 aqui, com nuan\u00e7as, formalizava-se a troca civilizada entre um governante da democracia crist\u00e3 e um governante da direita, como o atual Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era, que sucedera Michelle Bachelet, que sucedera Ricardo Lagos, que sucedera Eduardo Frei-Tagle&#8230;<\/p>\n<p>O povo n\u00e3o lograra a ruptura necess\u00e1ria com o passado sombrio, e este sobrevivia contaminando o presente, limitando os passos da democracia, congelando as transforma\u00e7\u00f5es sociais tornadas ainda mais urgentes e inadi\u00e1veis depois da devasta\u00e7\u00e3o da economia chilena, da pauperiza\u00e7\u00e3o das grandes massas e da mais brutal concentra\u00e7\u00e3o de renda jamais conhecida em sua hist\u00f3ria<\/p>\n<p>No Brasil tamb\u00e9m n\u00e3o seria diverso: o primeiro presidente da &#8220;Nova Rep\u00fablica&#8221; era Jos\u00e9 Sarney, ex-l\u00edder do partido da ditadura; seu lament\u00e1vel sucessor era um reles servi\u00e7al do neoliberalismo afinal entronizado por FHC, que nos anunciou &#8220;o fim da era Vargas&#8221;, a saber, o fim do Estado indutor do desenvolvimento e o desmantelamento das conquistas dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Nossas experi\u00eancias guardam, por\u00e9m, outras similitudes. Aqui, a redemocratiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m resultou de uma concerta\u00e7\u00e3o entre os pr\u00edncipes da ocasi\u00e3o e os fardados engalanados, uma concilia\u00e7\u00e3o de cima para baixo, traficada nos gabinetes, enquanto o povo nas ruas clamava por anistia ampla e irrestrita, pelo direito de escolher seu presidente, por democracia plena, enfim, pela convoca\u00e7\u00e3o da assembleia nacional constituinte aut\u00f4noma, apetrechada de poder constituinte origin\u00e1rio que n\u00e3o pode ser outorgado por decreto, sen\u00e3o pela manifesta\u00e7\u00e3o da soberania popular.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, como \u00e9 sabido, a &#8220;constitui\u00e7\u00e3o cidad\u00e3&#8221; do Dr. Ulisses que o bolsonarismo est\u00e1 desfolhando, rasgando p\u00e1gina por p\u00e1gina, foi escrita por um Congresso sem poder constituinte origin\u00e1rio (composto, at\u00e9, por &#8220;senadores bi\u00f4nicos&#8221;), que, sem for\u00e7as, teve de considerar as limita\u00e7\u00f5es que lhe ditava a caserna. Tamb\u00e9m aqui o poder militar se projetaria no poder civil, e a curatela de um arbitr\u00e1rio &#8220;poder moderador&#8221; chega aos nossos dias, sustentando o poder in\u00edquo do capit\u00e3o genocida. Mas h\u00e1 distin\u00e7\u00f5es, e essas n\u00e3o nos beneficiam. N\u00e3o tivemos, ao contr\u00e1rio dos chilenos em 1988, um referendo para demarcar a nova ordem. Nosso povo &#8211; como de h\u00e1bito, ali\u00e1s &#8211; n\u00e3o falou em 1985; cumpriu-se o script dos estrategistas militares, que escolheram o momento da debandada e as condi\u00e7\u00f5es da aparente volta aos quart\u00e9is. Aqui, mais uma vez, uma composi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica substitu\u00edra a ruptura.<\/p>\n<p>A ruptura, sem a qual nossos pa\u00edses n\u00e3o ter\u00e3o consolidado o regime democr\u00e1tico e muito menos conhecer\u00e3o a reden\u00e7\u00e3o social, os chilenos est\u00e3o construindo nas ruas, nas pegadas dos movimentos dos jovens de outubro de 2019, transformando uma revolta originalmente motivada contra um aumento abusivo das passagens do metr\u00f4 numa insurg\u00eancia pol\u00edtica de den\u00fancia do regime, de que resultou o plebiscito que convocou a constituinte eleita no \u00faltimo domingo (16\/05). Trata-se de col\u00e9gio filho da soberania popular, assim apto para, refazendo as institui\u00e7\u00f5es, promover a ruptura com o passado. A composi\u00e7\u00e3o da assembleia, consagrando a esquerda e os candidatos independentes, e pela primeira vez abrindo espa\u00e7o cativo \u00e0 representa\u00e7\u00e3o dos povos origin\u00e1rios, n\u00e3o apenas d\u00e1 aos constituintes condi\u00e7\u00f5es objetivas para a ruptura; mas, mais do que isso, a exige, a imp\u00f5e e a cobrar\u00e1. Dificilmente o pa\u00eds que acaba de falar elegendo uma constituinte progressista, democr\u00e1tica, essencialmente anti-neoliberal, assimilar\u00e1 uma nova frustra\u00e7\u00e3o se seus representantes, desgra\u00e7adamente, n\u00e3o se revelarem \u00e0 altura do mandato hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Num col\u00e9gio de 155 cadeiras, a direita, governante e bafejada pelo apoio dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o (l\u00e1 como aqui porta-vozes dos mesmos interesses de classe), foi limitada a 37 constituintes; a mesma reprova\u00e7\u00e3o se abateu contra a antiga &#8220;Concertaci\u00f3n&#8221;. Os socialistas elegeram 15 constituintes, e a &#8220;democracia crist\u00e3&#8221; apenas dois, contra 28 comunistas, que, al\u00e9m de outras municipalidades, elegeram a prefeita de Santiago. Ao fim e ao cabo, o que se configura como esquerda no panorama chileno controla 2\/3 da futura constituinte. Por\u00e9m, o futuro plen\u00e1rio, formado majoritariamente de &#8220;independentes&#8221;, desenha a dura crise dos tradicionais partidos pol\u00edticos chilenos, acusados de, ap\u00f3s a sa\u00edda dos militares, haverem governado sem mudar, nem na forma e muito menos na ess\u00eancia, o modelo neoliberal da constitui\u00e7\u00e3o de 1988, fonte de iniquidade e pobreza e heran\u00e7a do regime de que o pa\u00eds pretendia apartar-se.<br \/>\nEis outra li\u00e7\u00e3o a colher da saga chilena.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o desafio que se coloca para as novas for\u00e7as, para os &#8220;independentes&#8221; e para as corpora\u00e7\u00f5es tradicionais, renovadas, pois n\u00e3o h\u00e1 revolu\u00e7\u00e3o social sem organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a ela (isto \u00e9, a seus fins) adequada. As massas, espica\u00e7adas pelas injusti\u00e7as sociais e pela fome, frequentemente se insurgem contra seus algozes, e a hist\u00f3ria brasileira, desde a col\u00f4nia, est\u00e1 repleta de exemplos; mas quase sempre perdem a batalha final quando n\u00e3o est\u00e3o assistidas de organiza\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o, plataformas concretas, objetivos claros e estrat\u00e9gia de luta.<br \/>\nA pasmaceira de nossa vida pol\u00edtica de hoje, a anomia de nossos partidos e a fragilidade de nossas organiza\u00e7\u00f5es, sejam pol\u00edticas, sejam sindicais, devem ser vistas como uma conting\u00eancia que pode e precisa ser corrigida para que a esquerda brasileira possa retomar seu papel de sujeito no processo social. Papel que requer organiza\u00e7\u00e3o, clareza de objetivos e meios, e disposi\u00e7\u00e3o de trabalhar fora dos gabinetes. \u00c9 muito bom, anima nossa milit\u00e2ncia t\u00e3o carente de est\u00edmulo, festejarmos os avan\u00e7os pol\u00edticos de nossos vizinhos. Mas precisamos de muito mais do que isso: colher com humildade a li\u00e7\u00e3o dos que avan\u00e7am na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e nos dedicarmos \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<p>Sem a mobiliza\u00e7\u00e3o popular, a oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o amea\u00e7ar\u00e1 o capit\u00e3o, que continuar\u00e1 \u00e0 solta e impune, conspirando contra os interesses de nosso pa\u00eds e de nosso povo; sem a voz das ruas n\u00e3o garantiremos as elei\u00e7\u00f5es de 2022, e muito menos a vit\u00f3ria de um quadro de esquerda ou centro esquerda.<\/p>\n<p><strong>*Ex-ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia de Lula<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O continente americano, que se via, at\u00e9 h\u00e1 pouco, imerso em tempos de pesar pol\u00edtico, flagelado por golpes de Estado e regress\u00f5es econ\u00f4micas, parece retomar as r\u00e9deas de seu pr\u00f3prio destino, quando o povo-massa volta a desempenhar o papel de sujeito hist\u00f3rico e agente de transforma\u00e7\u00f5es. 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